quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Sem Carapuças...


“BRANCA DE SUSTO” E A RAINHA INGÊNUA

Num reino muito, muito distante. Num tempo em que os bichos falavam e até participavam dos assuntos do Estado, viveu uma garotinha chamada Ducibeth, que passou a história como “Branca de Susto”.

Branca de Susto era prima distante da famosa Branca de Neve, aquela princesa que tinha amizade com sete anões que viviam numa floresta e era odiada por sua madrasta, a Rainha malvada. Ducibeth, nossa heroína também adorava anões e tinha grande afeição por oito bem afamados anãozinhos, seus companheiros de folguedos e estripulias. Outro diferencial é que a Rainha do nosso texto não era Malvada, a nossa Rainha era a Rainha Ingênua, a que nunca sabia do que ocorria na sua corte.

Hoje, para nós, pessoas acostumadas com a ética, à honestidade e a transparência, a história de Branca de Susto não faz muito sentido, mas no contexto histórico onde ocorreu a folgança a vida era outra.

Notaram a quantidade de anões que faziam parte do circulo de amigos de Ducibeth! Naquele reino distante os anões eram considerados uma praga, todos coniventes com a Rainha, vigiavam os cofres do reino e cuidavam da distribuição do dindim para que não ocorresse prevaricação. Branca de Susto era uma guria esperta que pensava no próprio futuro com excessivo zelo. Seu sonho não tão secreto! Destronar a Rainha Ingênua e ocupar o troninho custasse o que custasse.

A Rainha considerava Ducibeth uma filha e dividia com ela parte do poder Real, mesmo assim Ducibeth tramava a queda da coroa. Tanto da Rainha coroa, como da coroa da cabeça da Rainha. Os anãozinhos participavam ativamente da luta nos bastidores e ora apoiavam a amiga Ducibeth, ora apoiavam a Rainha da qual recebiam mimos e agrados.

Estava assim a Rainha Ingênua em doce engano com relação à infanta Ducibeth, quando o Mordomo Real descobriu sem querer querendo um complô contra a soberana... Ducibeth estava comprando a plebe, patrocinando eventos, alimentando o populacho com brindes saídos dos fundos Reais... “Que horror!” disse o Mordomo Real, “essa garota precisa ser detida... Que coisa feia usar o dinheiro público para fins particulares!”

Quando Ducibeth e sua escudeira a menina Sem Money, pimponas e felizes desceram da carruagem oficial que diariamente as buscavam na porta de casa, foram surpreendidas pelos seguranças da corte e obrigadas a retirarem apenas seus objetos pessoais do local de trabalho, caíram do salto alto e ficaram brancas de susto perante os guardas da Rainha e a partir desse dia Ducibeth passou a ser conhecida como “Branca de Susto”, a prima pobre de “Branca de Neve”.

Pelo que pesquisei nos antigos arquivos daquele reino muito, muito distante, os personagens após essa ocorrência não deixaram marcas na história... Os anões que vigiavam o cofre foram substituídos. A Rainha Ingênua perdeu a coroa. O Mordomo Real foi ser vil, digo, servir ao novo Rei e Branca de Susto criou a ONG “Anões bem dotados, serão adotados.” em parceria com sua prima distante Branca de Neve, uma instituição que dota com bolsas de estudos, anões muito inteligentes... Enfim uma história edificante onde todos os personagens ficaram bem de vida!

Moral da História; - “Sede demais seca o pote.”

Gastão Ferreira/2011

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

A MALA...


A MALA...

Meu nome é Tânia, desde pequena tenho dores na cabeça, enxaqueca disse o doutor. Também ouço vozes, às vezes dentro, às vezes fora de mim. Quando criança elas cantavam para eu dormir. Contavam histórias de tempos em que não vivi. Igual filme colorido havia de tudo, romance, comédia, drama, tragédia... Já fui donzela recatada, pirata, feiticeira, bandida, mal amada, fui filha de rei. Hoje moro numa cidade a beira mar... Quando eu durmo, as vozes me levam para longe e desperto em lugares distantes, distantes do meu lar.

Ontem elas chegaram sorrateiras, me exaltei, meu marido me bateu, sangrou. Meu filho Junior, de três meses, chorou. Fui até seu berço, ele não se calou. Lembro de meu esposo com uma faca na mão, depois as vozes cantaram, cantaram cantigas de ninar e o sono chegou. Acordei ainda agora nessa praia deserta, com essa mala ao lado, a mala que ganhei do Pastor.

Teve uma época, tempo de mocinha em que freqüentei um culto, minha mãe me levou. Foi lá que o Pastor amarrou o Diabo, o Demônio que teimava em me atazanar. Quando mamãe morreu assassinada, eu tive medo, tinha certeza que foi meu Capeta que a matou. “Ele continua amarrado”, disse o Pastor, “quem a trucidou foi um bandido qualquer e que fugiu sem nada levar”. Ganhei uma Bíblia e uma mala. A Bíblia não li e a mala sempre me serve para guardar as coisas que aparecem depois dos longos sonos. Um revólver, algumas facas, um colar, coisas que não sei explicar.

Eu não sou louca, tenho dores na cabeça, vejo vultos, ouço vozes e conto histórias, não as minhas memórias, as das pessoas que finjo que conheci. Da moça que matou o noivo por ciúmes, da mulher traída que encontrou o marido e a outra na sua própria cama e os sufocou, depois jogou gasolina e incendiou a casa, todos pensaram que foi a traída e seu consorte que pereceram. Minhas lembranças vêm e vão! Tem muita coisa escondida nessa minha cabeça dolorida que temo recordar.

Hora de voltar para casa. Hoje conheci um pescador, parece ser boa pessoa, me deu seu endereço, me paquerou... Quer-me de mãos vazias, cheia de amor!Esta mala? Desconheço! Não é minha, nem sei como adivinho que dentro tem um revólver, algumas facas, um colar e a cabeça de um nenê de três meses chamado Junior que não parava de chorar. O pai do bebê foi morto e enterrado no quintal, a mãe enlouquecida cortou a cabeça da criança e ela parou de berrar.

Meu nome agora é Suzana, acabei de chegar. Estava escuro de onde vim... Ouço vozes, elas torcem por mim, dizem que serei feliz, que um pescador me ama e espera por mim... Esta mala não era de Tânia, nem ganhou de um pastor, ela mentiu. A mala foi dada a Beth, a garota que matou a mãe a pauladas. Como sei? As vozes me contaram, elas apagam da memória quem por um breve momento pensou que existiu...

Gastão Ferreira/2011

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

PÉS NO CHÃO...


PÉS NO CHÃO...

Naquela cidade medieval quem mandava era uma Princesa, tão velha quanto à própria cidade. A nobre era um tanto fora da realidade e o poder estava nas mãos de seus muitos filhos e filhas. Seus descendentes habitavam no Paço Real, também conhecido como “A Casa da Mamãe”.

Os filhos da Princesa, apesar de se acharem príncipes, não eram de Sangue Real puro. A dita cuja gostava de dar uns pulinhos e a cada quatro anos reproduzia dezenas de bastardos que infernizavam a vida dos pacatos cidadãos do reino. O bom era que também a cada quatro anos ela deserdava e jogava na sarjeta muitos dos filhos pilantras. O motivo de tal ocorrência era que nesse período ela trocava de marido e o último consorte nem sempre assumia os filhos do ex ocupante do trono e quem mandava era sempre o novo esposo eleito pelo povo.

A vida na “A Casa da Mamãe”, para os bastardinhos, era uma eterna festa, comida farta e grátis nas melhores cantinas, conduções a disposição da filharada, atendimento médico de primeira, viagens a custa do contribuinte também chamado pejorativamente de Zé-povinho, uma troca contínua de favores e muita sacanagem por baixo dos panos.

Mamãe Princesa sempre foi esperta e nunca confiou em ninguém. Dava com uma mão e tirava com a outra. Uma de suas filhas, utilizando-se de artifícios secretos, conquistou as boas graças da soberana e foi nomeada “despenseiro” do reino e imediatamente pensou que era a dona do pedaço. Usou e abusou do cargo, afrontando os demais membros da realeza e literalmente criou um novo feudo onde mandava e desmandava, no intuito de destronar a Mamãe num futuro próximo. A ousadia foi tanta que indicou como principal auxiliar uma ingênua criatura que prestava serviços na escada de acesso ao Paço Real, cuja única preocupação na vida era arrumar um marido rico e isso dava muito que falar! O Mordomo Real entrou em ação.

O abridor e fechador de portas do Palácio, também conhecido como O Mordomo Real da “A Casa da Mamãe” entrou em rota de colisão com a “despenseiro”, mexeu nos pauzinhos certos e detonou com o desafeto, com isso acrescentou novo título ao currículo; - “Meu Tesouro, Meu Herdeiro”. O populacho ficou sabendo da tramóia “meu herdeiro” e preparou uma vingança terrível, cujo desfecho está previsto para o final do próximo ano, aliás, um ano eleitoral. Parece que exigirão uma faxina geral no reino e o retorno de algumas personagens exiladas, entre elas, dona Ética e dona Transparência, com sua filha Humildade.

Naquela cidade medieval, parada no Tempo por decreto, a vantagem e o lucro põem máscaras virtuosas onde a integridade inexiste. A memória trás histórias de um passado multissecular e a vida continua mostrando que o ouro é um brilho passageiro e fica na Terra. Que todos os que caminham de pés no chão, semeando amizade e paz, são felizes.

Gastão Ferreira

sábado, 10 de setembro de 2011

O CICLONE...


O CICLONE...

Cresci na crença de que o Brasil era uma terra abençoada por não ter furacão, ciclone, tsunami, terremoto. Na metade do século passado se acreditava piamente nisso ou talvez o povo estivesse tão ocupado criando o país do futuro que não notava que tais fenômenos ocorriam com denominações diferentes. Pé de vento, vendaval, enchente, rodamoinho, etc.

Hoje, nos tempos modernos, a coisa é bem diferente, a notícia chega via internet e não mais a cavalo como no tempo de Dantes... Foi assim que o aviso nos atingiu; - “Grande ciclone anti tropical se aproxima da costa, evacuem a área.”

Um pessoal que achava que evacuar a área era fazer coco na beira da praia foi retirado às pressas da beira mar. As atentas autoridades já sabiam com antecedência da possibilidade de ocorrer o fenômeno, pois em suas viagens para degustar Ostras em locais longínquos e nas visitas constantes a outros Estados para aprenderem como fazer a reforma de prédios tombados, manterem calçadas limpas e combater corretamente a Dengue, foram informados da probabilidade de ocorrer tal evento.

Preocupados com a população e para não criar tumulto, as honestas autoridades iniciaram, na moita, um exaustivo trabalho muito criticado pelos imbecis que só enxergam pilantragem e super faturamento em obras públicas, o que é uma mentira deslavada, pois a honestidade tem nome e sobrenome. Nossos líderes mandaram tosar as árvores das praças e ruas, limparem a orla do mangue, pelar a Beira do Valo, ou seja, abriram corredores à passagem do vendaval, a fim de amenizar os possíveis estragos. Eis a razão do porque de quando o bicho se aproximou, a cidade estava pronta para recepcioná-lo sem vítimas.

Uma imensa nuvem negra cobriu os céus, as montanhas foram atingidas por milhares de raios e um relâmpago solitário marcou com sua inútil presença o cenário dantesco. As placas de bronze das estátuas foram trancadas em cofres seguros, menos a placa comemorativa da visita de Albert Camus a cidade, roubada descaradamente e devolvida na calada da noite pelo meliante que a furtou. O passeio da nova ciclovia foi coberta com plástico para que não ocorressem rachaduras na recente e ótima pavimentação.

Uma parte da população foi abrigada no Estádio Mangueirão, obra faraônica legada à posteridade. Sinônimo de competência e probidade das autoridades aos eleitores que a elas confiaram o destino e o cofre do município. Muitas pessoas se trancaram em igrejas e ofertaram suas santas almas a Deus, outras se reuniram nos clubes e entregaram suas almas pecadoras ao demônio, e alguns corpos permaneceram nos bares e botecos, pois queriam morrer literalmente torrados. No Mangueirão, a alimentação foi providenciada com esmero, afinal, talvez fosse à última refeição desta vida. A um grupo de amigos do peito, foram servidos os melhores vinhos, uísque importado, caviar e champanha, Tainha na folha de bananeira, Robalo na grelha e um peixinho muito raro e caro chamado de Manjuba. Os pobres se fartaram de comer churros e cachorro quente com k-suco. No final, o Zé-povinho pagou a conta de toda a comilança alheia sem reclamar, beijando e lambendo a mão das autoridades em agradecimento a acolhida segura no moderno estádio.

Um telão foi montado no interior do estádio para acompanhar o deslocamento do Ciclone, um famoso radialista, formador de opinião e no momento sem nenhuma opinião, agradeceu a presença das autoridades, citando o nome de um por um dos mandantes, pedindo uma salva de palmas dos presentes às ilustres figuras, assim também se referiu a cada comerciante junto com o slogan do estabelecimento e saudou o povão; - “Meus queridos ouvintes e ouvintas...”

Uma pessoa muito amada na cidade e conhecida por sua honestidade, fino trato e esperteza, educadamente arrancou o aparelho das mãos do formador de opinião e acabou com a festa; - “Aí galera! Vocês aí do sanduiche! Podem voltar para a sua vidinha miserável que o Ciclone desistiu de atacar a cidade. Conto com seus votos na próxima eleição... Não se esqueçam do que fizemos por todos vocês no dia de hoje... Uma mão lava a outra e na saída paguem os lanches sem reclamarem, caiam fora imediatamente, desocupem a área... Os demais amigos, favor se acomodarem nos ônibus que os levarão ao “Recanto dos Urubus” para comemorar a desistência do Ciclone.”

Observação:- O texto é ficção. Nossa próspera cidade continua confiante no futuro. Com ciclone ou sem clone.

Gastão Ferreira