quarta-feira, 13 de julho de 2011

O MILAGRE...


O MILAGRE...

Marta foi abandonada na porteira de um sitio. Um bebê de cabelos escuros que conquistou de imediato o coração de Izilda, a dona da casa. Adotada, dividiu o lar humilde com os dois filhos mais velhos de Izilda e Onofre. Seu pai adotivo possuía uma pequena propriedade rural, onde plantava legumes, criava porcos, galinhas e algumas vacas leiteiras. Dalí tirando o sustento da família.

A melhor amiga de Marta era Mara, uma garotinha da mesma idade, cujos pais eram meeiros na fazenda vizinha. Juntas freqüentaram a Escola Rural, aprenderam a ler, a escrever. Dividiam alegremente seus sonhos de meninas e depois de mocinhas do interior.

Quando Jetro apareceu, foi paixonite aguda e ambas as jovens caíram de amor pelo mesmo rapaz, um trabalhador rural contratado pelo fazendeiro, senhor das terras, onde os pais de Mara prestavam serviços. A paixão foi tão fulminante que a amizade entre elas naufragou, mas o que desconheciam é que Jetro paquerava as duas ao mesmo tempo. Oficialmente era o namorado de Mara, mas as escondidas procurava Marta, a qual jurava, era seu único amor. Não negava o romance com Mara, dizendo que sendo ela afilhada do fazendeiro que lhe dava emprego, não podia magoar seu empregador.

Quando Marta engravidou, não delatou Jetro como pai do futuro bebê, pois haviam planejado que ao término do contrato de trabalho, ela seguiria com ele e a criança para uma vida melhor na cidade grande e caso o patrão desconfiasse do ocorrido, adeus emprego, adeus futuro.

Zenon nasceu forte e saudável, sobre a mão direita uma marca semelhante à letra zê, por isso o nome Zenon, começando com a tal letra. Foi durante um grande temporal que ocorreu a tragédia. Dias e dias de chuvas torrenciais, o rio transbordou, as barreiras das montanhas cederam matando animais e gentes do lugarejo, muitas casas levadas pelas águas, inclusive a casa de Marta com seu pequeno tesouro, Zenon.

Marta quase enlouqueceu... Passada a tragédia, entre os escombros não foi encontrado o corpo de Zenon, apenas os de Onofre, os dos pais de Mara e de alguns vizinhos mais distantes devolvidos pelo rio. Os corpos de Izilda, Mara e Jetro também nunca foram encontrados.

Passaram vinte anos, Marta não voltou a casar, era uma professora dedicada aos seus alunos. Jamais esqueceu seu grande amor por Jetro e seu adorado filho Zenon. Há muitos e muitos anos participava da Festa do Bom Jesus... Vinha como romeira pedir para que o Filho de Deus amenizasse seus sofrimentos em relação ao filho que tão novo partira; -“ Que ambos estejam bem, juntos a Jesus... ”, orava.

Durante a grande procissão, quando a imagem milagrosa do Bom Jesus, saiu da igreja matriz sobre um majestoso andor, Marta fitou a face lacerada do Salvador, aproximou-se o mais que pode do andor e quase desmaiou... Um jovem moreno, de cabelos encaracolados, de uma beleza trigueira que lembrava seu amado Jetro, estava entre os que conduziam nos ombros a estátua divina e nas costas de sua mão direita, ela divisou o “zê” de Zenon... Marta seguiu atenta sem desgrudar os olhos, um instante sequer, do rapaz. Durante o trajeto da procissão, notou que o jovem alternava sempre com o mesmo homem, seu lugar no cortejo. Um homem aparentando uns quarenta anos de idade, um homem cuja fisionomia jamais esquecera um momento sequer... Jetro!

Frente a Basílica, no final da procissão, Marta tomou coragem e se aproximou; - “Jetro!” chamou entre lágrimas. ”Marta! Não é possível! Você morreu há vinte anos.” Exclamou Jetro, já abraçado a ela. “Pai! Quem é essa moça?” Perguntou Zenon. ”É sua mãe! Marta a única mulher por quem me apaixonei, meu filho.”

Jetro contou a Marta que durante a fatídica enchente fora até a casa procurar por ela e o pequeno Zenon. Que a casa fora levada pela enxurrada, que Izilda e Onofre estavam mortos e que ele mal teve tempo de socorrer ao filho. Que a julgava morta, levada pelas águas, por isso simplesmente deu as costas a tanta dor e foi embora da fazenda, nunca casara, completou os estudos, era veterinário e morava em Goiás.

Zenon, abraçado a mãe, explicou que pela primeira vez estavam participando da Festa do Bom Jesus de Iguape... Que desde pequeno tinha pesadelos horríveis ligados aos traumas devido à enchente e a morte dos familiares e que fizera uma promessa ao Bonje. Pediu a cura e em troca carregaria Seu andor durante a grande procissão em que Ele anualmente abençoa seus fiéis.

Marta, Jetro e Zenon finalmente juntos, adentraram o grande templo e humildemente agradeceram o milagre... Milagre que os milhares de romeiros ali presentes compartilharam sem saber... Milagre que vivenciei, pois, naquele ano os três almoçaram felizes no meu restaurante e relataram os fatos. Que o Mestre abençoe o seu rebanho, que a sua paz e o seu divino amor estejam conosco para sempre.

Gastão Ferreira/Iguape/2011

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