quinta-feira, 23 de junho de 2011

FELIZES!... NEM SEMPRE


FELIZES!... NEM SEMPRE

O feliz para sempre durou exatamente dois meses, sessenta dias de muita cama e mesa. Sim! Mesa... Creio que devo recordar a vocês a minha triste história, não a fábula encantada dos livros infantis, mas a dura realidade de quem foi conhecida como; - A Gata Borralheira!

Quando o navio mercante foi saqueado e papai jogado ao mar por piratas, eu tinha três anos, uma inocente criaturinha vivendo a sombra de uma madrasta, uma má drasta literalmente. Com meu corpinho cheio de hematomas dos beliscões, pontapés e torturas sofridas nas brincadeiras com as enteadas de papai, vivia calada e apavorada.

Com a morte prematura de papai, eu, de herdeira passei a ser a serva, a escrava, a faz tudo. Levantava às seis horas da manhã para preparar o desjejum matinal, que era servido em bandejas de prata, na cama e com direito a repetéco... Lavava, passava, costurava, cuidava da horta, do jardim, do pomar, do cachorro e de três gatos. Também alimentava os cavalos, polia a carruagem, fazia compras na feirinha comunitária, atendia aos constantes saricoticos das duas mocréias, filhas da madrasta e a noite dormia, ou melhor, desmaiava junto às cinzas do borralho ao lado do imenso fogão a lenha, por mim pilotado diariamente... Essa era a minha vida, que daria uma tragédia e acabou virando um conto de fadas.

Conto de Fadas! Na época era tudo de bom que poderia acontecer, mas hoje, passado tantos anos, já não concordo... Minha madrinha, a tal da Boa Fada, foi totalmente ausente quando eu mais necessitava... Onde estava a sacana na hora das surras, dos puxões de cabelos, dos tapas na cara? Seu ombro amigo nunca se fez presente para acalmar meus soluços. Jamais apareceu para dar um conselho, um sorriso, um oi. Bastou saber da festinha no Palácio Real que apareceu do nada, quase me matando de susto, com seus sórdidos planos. Hoje eu sei! Queria fazer parte da realeza e me usou. Usou a única afilhada como isca para ficar famosa.

Sei que muitos não concordam com essa minha maneira de pensar, mas, se a Fada fosse uma boa drinha e não uma má drinha, ela teria conversado com a má drasta, convencido a pilantra a internar-me num ótimo colégio, garantir meu futuro com uma profissão... Não! Era mais fácil fazer alguns truques e jogar o verdadeiro problema para os outros.

Hoje, após anos de analise com um bom psicólogo, consigo entender! Não estava preparada para compartilhar do trono. O príncipe, como todos os príncipes, era apenas um encantado, se achava o máximo... Também! Quem teria coragem de falar cara a cara que ele não passava de um medíocre filinho de papai, um pedófilo apaixonado pelo sapatinho de cristal da Cinderela.

Fui feliz por míseros sessenta dias. Acostumada com os restos na casa da madrasta, me empanturrei do bom e do melhor. Doces, tortas, sorvetes, petiscos de primeira qualidade, comida das mais nobres, comidas da mesa Real... Engordei! Bati de frente com a rainha, uma politiqueira mal amada... Contava anedotas sobre a minha pessoa, chamava-me de gorda, orca, tenda de circo e mil outros apelidos com que me difamava, só porque eu estava um pouquinho acima do peso, os quarenta e cinco quilos, alguns meses depois do casamento, eram cento e vinte.

O sapatinho de cristal não mais cabia no pé. Por sessenta noites durou o fetiche... Não tiveram coragem para me expulsarem do castelo. Meu casório foi o casamento do século, comentado em todos os reinos e recantos onde uma donzela abobada sonha com um príncipe encantado.

Fui enviada ao exterior a passeio, a ordem era afundar o navio... Sei por que o capitão, que trabalhou com papai, se apiedou de minha sina e me contou. Colocou-me num bote salva-vida com água e uma fortuna em jóias, me fez jurar pela memória de minha santa mãe, que não conheci, que eu jamais revelaria a tramóia... Cachorro! Repintou o navio, vendeu no mercado pirata e mandou um pombo correio, o e-mail da época, para a rainha comunicando que o navio fora a pique e que a princesa não sobreviveu ao naufrágio.

Casei aos treze anos de idade e o matrimônio durou dois meses, fiquei zanzando pelo castelo por quase dois anos... Então! Cinderela morreu afogada aos quinze anos, se minha memória não falha, esta era a minha idade quando ganhei alforria e encarei a vida frente a frente. Não sei como consegui emagrecer, não me peçam a receita! Voltei aos quarenta e cinco quilos, jovem, rica e burra... Coloquei minha fortuna numa empresa de navegação, fui estudar e aprendi tudo o que sei... Rico e burro não dá para aproveitar a abastança, fiz o certo, hoje sou milionária... Óbvio que troquei de nome! Agora sou loira e nem a fada madrinha me reconheceria.

Escrevi esse rascunho como vingança e também para mostrar as donzelas que a vida é mais que um sapatinho de cristal... Que uma Fada por mais boazinha, não tem poder de mudar o íntimo de ninguém... Que o dinheiro é complemento, não trás a felicidade... Que na vida é necessário sonhar, mas que só de sonho não se vive... Que o estudo nos liberta nos dando conhecimento, pois através do estudo compartilhamos todas as experiências da humanidade e que a força de vontade é tudo do que necessitei para alcançar meus objetivos, eu consegui até emagrecer!

Obs.:- O Príncipe envelheceu, mas continua colecionando sapatinhos e beijando os pés de menininhas sonhadoras... A rainha engordou e colocou outro tipo de coroa na cabeça do rei... O reino está mais pobre, muitos navios da frota real afundaram. Quem me contou estas fofocas foi, o agora meu amigo, o capitão que me salvou, alias meu sócio no negócio de repintar e vender navios no mercado negro.

Gastão Ferreira/Iguape/SP/2011

domingo, 19 de junho de 2011

DITA DO PORTO


DITA DO PORTO

Se o Tempo fosse um mar e cada ser vivo um barquinho desafiando esse oceano de eternidade para marcar seu breve e efêmero instante no mundo existir, Benedita das Dores do Espírito Santo seria uma balsa. Uma grande balsa a transportar feridos, náufragos da batalha Vida, crianças abandonadas, jovens perdidos para as drogas, adultos desesperados, pessoas de todas as idades afogadas nos infortúnios e carentes de uma mão amiga, de uma bússola salvadora nesse oceano em fúria em que por vezes a vida se transforma.

Benedita nasceu em 30/05/1933 em Iguape, SP... Aparada por Nhá Bastiana, famosa parteira, requisitada até nos sítios mais longínquos. Dita é descendente de escravos, seus avôs Felícia Maria das Dores e João Batista Cancela ganharam, ao ser alforriados, um pedaço de terra no bairro Porto do Ribeira. Sua avó foi mucama da Condessa Damiana, cunhada de Rozo Lucas Lagoa e doadora do terreno onde foi construída a igreja de São João Batista do Porto do Ribeira. Os pais de Dita foram Andrelina Maria das Dores e Antonio Baicô. Viúva de Benigno do Espírito Santo. É mãe de Marcos do Espírito Santo (Marquinhos, motorista da ambulância) e Silvio do Espírito Santo (Micro-empresário iguapense).

O pai de Benedita, Antonio Baicô, morreu na fatídica explosão de uma caldeira de lancha em 1933, junto com seu colega de trabalho Abel Gatto. Dita lembra que o Caminho do Porto era ladeado por bambus, casas esparsas em meio ao matagal que se estendia da entrada do bairro até a chácara de Nenê Euclides, nas imediações onde, hoje, está o posto de gasolina e a loja Toyo na Avenida Adhemar de Barros.

Recorda que a igreja de São João Batista estava voltada em direção ao Valo Grande e que em 1942 foi demolida e reconstruída com a frente para a entrada da cidade. Jamais esqueceu sua primeira professora, Zely Fortes, responsável por sua alfabetização no Colégio Vaz Caminha. Quando criança comprava feixe de lenha para fogão e peixe na cambada (peixes nas fiadas) nos barcos que ancoravam na baixada do mercado e que traziam dos sítios sua produção para a venda nos armazéns de Iguape.

Aos doze anos de idade, Benedita foi com a família de seu padrinho Dácio de Carvalho morar em Santos. Fez Secretariado no Instituto Andrada, estudou Enfermagem, especializou-se em Nutrição e Higiene com curso de Puericultura pela Legião Brasileira de Assistência. Interessou-se por cooperativismo, pintura, decoração e artesanato. Casou, teve filhos, ganhou dinheiro e voltando às origens, em 1983, montou um sacolão no bairro em que nasceu.

Comerciante, Benedita costumava pessoalmente buscar nos sítios próximos os produtos para revender. Numa dessas viagens preferiu a carroceria a cabine do veículo, fazendo companhia a seu filho de criação. Nessa ocasião o caminhão sofreu um acidente e as caixas de mercadorias desabaram sobre Dita e a criança. Dita cobriu com seu corpo o corpo do menino e foi assim que perdeu a perna direita. A Vida começou a mostrar seu lado obscuro, sem uma perna, sem dinheiro, com filhos para sustentar, deu inicio a luta pela sobrevivência.

Foi nesse período que seu aprendizado em artesanato foi útil. Fez bolsas, chapéus e bonecas em palha de milho e folhas de bananeira, decoração para festas e pinturas em tecido. Trabalhou voluntariamente com o Machadinho e a Marli Seabra no antigo Mercado Municipal e também no sacolão do Carlão em troca das sobras de frutas e verduras descartadas, as quais repartia com as famílias necessitadas e fazia sopa para a criançada da vizinhança. Em 1972 representou Iguape no sesqui centenário da independência e em 1971 participou do programa de TV “Essa é a minha vida” com o apresentador Silvio Santos. Em 2004, devido à osseomelite, amputou totalmente a outra perna. Sem as duas pernas se locomove em cadeira de rodas.

Essa é a história de Benedita das Dores do Espírito Santo, a Dita do Porto do Ribeira, a mulher que não pode caminhar, mas que luta feito leoa por seu bairro, sua cidade, seu povo. A mulher que acolhe desabrigado em sua humilde casa e através dos muitos amigos encaminha drogados para recuperação, auxilia os carentes dos bairros rurais com roupas e comida, faz uma festa anual para a petizada com os gêneros alimentícios que arrecada com seu famoso Almoço de Confraternização... Comida a vontade, mas traga um quilo de alimento não perecível, sempre no mês de Dezembro. A grande preocupação de Benedita é com a criançada, já acolheu muitos, deu conselhos, comida, carinho. Seu lema é; “- Ajudar sem olhar a quem.” Em sua casa sempre há um brinquedo, uma roupa usada para uma criança necessitada.

Dita é uma mulher feliz. Nunca negou socorro a quem pediu. De várias cidades do país chegam telefonemas dos que não esqueceram a mão amiga que os livrou das drogas, da marginalidade, da falta de esperança... Uma mulher com tão pouco e repartindo com tantos, uma mulher briguenta no bom sentido, uma mulher que vê em cada semelhante um irmão. Uma mulher balsa... Uma grande e silenciosa balsa navegando nesse oceano existir, recolhendo náufragos e mostrando com seu amor que sempre é possível recomeçar. Um exemplo a ser seguido... Uma pessoa que faz a diferença.

Gastão Ferreira/Iguape/2011


sexta-feira, 10 de junho de 2011

A CRUZ DE PEDRA...

Até o ano de 2009 era assim



Eis a origem da Cruz de pedra



Local onde estava abandonada a famosa Cruz de pedra



Local onde está atualmente a esplêndida Cruz de pedra...



CONFISSÕES DA VELHA PRINCESA – A CRUZ DE PEDRA

Desfrutando de sua melhor idade, a Princesa do Litoral palestrava com sua irmã mais velha, Cananéia a plebéia, quando surgiu um assunto que era quase um segredo de família, o porquê da decadência do reino.

- Sabe Myriam Eleonora, nunca entendi esse fado cruel que a persegue! Falou Cananéia.

- Querida irmã mais velha, gosto que ao se referir a minha real pessoa, me tratem por Princesa, pois fora do ninho familiar, ninguém imagina que meu nome é Leonora...

- Maninha mais nova! Seu nome não é Leonora, seu nome é Eleonora...

- Quem melhor do que eu para saber do meu nome! Meu nome é Leonora...

- Tudo bem Eleonora! Somos garotas da terceira idade, não vamos brigar por insignificâncias. Você reparou como minha cidade está progredindo? Ruas limpas... Sem Dengue... Temos uma maternidade para acolher os novos cananeanos e um velório para um último e digno adeus aos que aqui viveram.

- Néia querida! Estou notando que você nunca superou o ciúme doentio em relação ao testamento de papai Portugal.

- Oh... Oh... Oh... Mais de quinhentos anos se passaram e você acha que devo esquecer-me da pilantragem? Da armação?

- Irmãzinha! Não existiu armação. Eu era a bela, a inteligente da família, por isso herdei tantas terras...

- Que foi perdendo... Perdendo... Perdendo.

- Mas ainda tenho muito... Tenho a fabulosa Juréia...

- Sim! Mas nosso irmão Peruíbe já está de olho nela...

- Estou pouco me lixando! Meu passado fala mais alto...

- Acorda Eleonora! Sacode a poeira... Dá a volta por cima...

- Não posso maninha! Simplesmente não posso...

- Irmã Princesa! Não consigo entender... Você sempre teve e tem tudo para vencer. Sei que você é inteligente, mãos limpas, boa administradora... Lembro de você jovem e feliz... Com um futuro esplêndido, mas depois do aparecimento da Cruz de pedra, tudo mudou... Livre-se da Cruz e quem sabe os bons tempos voltarão!

- Se tem uma coisa da qual nunca consegui me livrar foi da fatídica Cruz de pedra...

- Parece que foi ontem! Aquele português mau caráter a trouxe de navio e construiu uma pequena capela no Icapára... Chegaram os piratas, você mudou para o sitio atual e levou a Cruz de pedra para a nova igreja... Quando a riqueza surgiu e um imponente santuário foi erigido, a Cruz foi jogada nos subterrâneos do novo templo... Veio o progresso, o ouro, os engenhos, os navios e o reconhecimento do mundo através de diplomas e honrarias...

- É verdade! De repente, não mais que de repente, retiraram a Cruz de pedra dos subterrâneos e a colocaram numa capela na beira do Valo... O Valo Grande começou a desmoronar e a Cruz de pedra foi salva e escondida... Mas, o estrago estava feito e começou a decadência...

- Tem lógica! Houve uma pequena melhora depois disso... A família estava certa de que você voltaria a brilhar, mas a Cruz de pedra reapareceu encimando um pedestal na orla do mangue e foi aí que o apelido de “Cidade lá tinha” pegou de vez...

- Nem me lembre! Perdi o Posto da Marinha, a Santa Casa, a Maternidade, o Banco do Brasil e começou a derrocada fatal...

- Princesa! Tudo vai melhorar... Fui informada de que a Cruz de pedra desapareceu do pedestal. Quem sabe a levaram para longe! Agora é um tempo de recomeçar... Um tempo de Pré-sal... Um tempo de realizações.

- Ah! Cananéia, minha doce irmã mais velha. Você não sabe? Eu fui tombada! Sou um asilo e vou viver das glórias do passado... Agora não tem mais como evitar meu fim... A Cruz de pedra está na Praça central!

- Oh! Eleonora... Oh! Pobre Princesa do Litoral... Oh! Maninha.

Gastão Ferreira/2011