terça-feira, 24 de maio de 2011

PROCISSÃO DOS MORTOS


PROCISSÃO DOS MORTOS

Quatro horas da manhã... Sentado em um banco na Praça da Matriz, aprecio a paisagem noturna. Uma leve sonolência e a neblina se dispersa. Ocorre uma sutil mudança, vozes e vultos do passado se materializam. Meninos há muito mortos correm envolta do coreto se esquecidos da carne. Um Capitão do Mato chicoteia o escravo fujão. Beatas de negras vestes e negros pensamentos apontam à sinhazinha que abandonou pai e mãe por um amor desesperado... Não foi feliz! A fome falou tão alto que ela voltou com um filho bastardo... É a vergonha do Coronel sem quartel, que guarda seu ouro, seu tesouro, não para esse neto espúrio, essas moedas ficarão para Nosso Senhor e quem sabe terá garantido um lugar no Céu!

As autoridades, os mandões do passado, com as mãos vazias do que foi rapinado, solicitam votos aos assassinos da moral, aos antigos comparsas das empreitas sombrias... Continuam corrompendo as sombras e buscando o apoio necessário a novas vilanias... Um homem com um punhal cravado no peito pede justiça e mostra seu secreto matador... Adolescentes drogados agridem as flores e pisam a grama do jardim. A procissão anual dos mortos contorna a praça. Com suas vestes rotas e velas, não apagadas pelo vento, entoam cânticos pedindo a salvação... Param frente à igreja e exigem remissão. O assassino deposita a arma do crime, o ladrão o que roubou... O político jura que não prevaricou e que o dinheiro desviado foi bem aplicado, mas não confessa o pecado e ainda aponta como safado quem o delatou.

Os seresteiros, os que desviavam as donzelas com falsas promessas, agora carentes de amor solicitam compaixão. Na praça as almas que outrora se compraziam na vingança, na maledicência, na hipocrisia, pedem por luz, repouso e jamais por perdão. A noiva que enlouqueceu ao se saber traída e se enforcou, mostra as marcas da corda em volta de sua garganta e exige retratação. Os criminosos, os venais, os perjuros, os homicidas e todo aquele que se aproveita de cargos públicos em favor da corrupção, entoam ladainhas aos Santos de suas devoções.

Na praça um murmúrio de vozes invisíveis, algo estranho no ar, um leve arrepio pedindo atenção... Um clarão desce do alto e cerca os fantasmas do passado. São as crianças mortas pela fome, pelas doenças, pela desnutrição, pelo descaso, pelos psicopatas e que se acercaram da multidão. Frente à igreja pedem pelos assassinos, corruptos e ladrões, mas as portas não se abrem não! Um forte vento sopra apagando as velas, a neblina se dissipa, o coreto sumiu dando lugar a uma cruz de pedra, símbolo do muito que temos que sofrer por não reagir aos desmandos, à falta de honestidade, a falta de amor pela cidade que é nosso abrigo. Embora vivos, somos parte da procissão dos mortos. Dos mortos de sonhos, dos mortos de progresso e da esperança, não temos voz.

Sentado em um banco na Praça da Matriz aprecio a paisagem. Sou apenas um personagem nesse palco vida, sou um voto, uma sombra, um grito de socorro no silêncio da manhã, que nada me responde.

Gastão Ferreira/Iguape/2011

terça-feira, 17 de maio de 2011

VOVÓ PENÉLOPE...


VOVÓ PENÉLOPE...

Vovó Penélope foi a melhor pessoa que conheci. Carregou sua cruz sem rodinhas e nunca reclamou. Quando vovô Ulisses fugiu com uma trapezista do circo, que anualmente visitava a cidade, a única observação foi:- “Faça um bom proveito! Já vai tarde... Um dia ele volta.” Ela estava certa, vovô sofreu horrores nas mãos daquela sirigaita, foi trocado por um jovem paraguaio em Foz do Iguaçu, escravizado em uma fazenda, quase morto por uma onça pintada, escapou do abraço de uma Sucuri no Pantanal, viveu entre os índios Tipitis e aprendeu sua língua, foi peão de boiadeiro, sabe domar cavalos e fazer belas arapucas para prender passarinhos... Desde criança ouço suas histórias, não sei se são verdadeiras, só sei que vovó acertou, pois vovô voltou.

Quando vovô Ulisses retornou, papai já estava casado. Vovô correu mundo por dez anos; -“Praga de cigana” dizia... A trapezista era também cartomante, lia a mão das pessoas, fazia feitiços... Uma bruxa nas palavras de vovô. Só vovó Penélope não acreditava:- “Deixa prá lá! Esse velho não tem vergonha nas fuças, mente mais que candidato em palanque. Que fique morando no quartinho dos fundos até quando bem quiser, tem saída independente e um bom banheiro”

Ao fugir com a garota do circo, vovô levou metade da alegria de viver da vovó e deixou filhos adolescentes para criar, educar, alimentar... Vovô não faz idéia do que vovó sofreu. Vovó foi moça bonita, muito prendada, casou cedo e teve três filhos antes de completar vinte anos. Gostava de ler e passou o gosto para a filharada. Com muito sacrifício tocou seu barco vida, nunca sofreu um naufrágio, boa remadora seguia uma rota sem desvio; - Manter a família unida a todo o custo.

Tia Helena é advogada e mora em cidade grande. Tio Ícaro bateu asas e serve na Marinha Mercante, comanda um grande navio e é quem mais ajuda vovó. Ele é o filho mais velho e se acha o responsável pelos dois irmãos menores, papai Telêmaco e tia Helena. Logo após a fuga de vovô, vovó montou uma pensão com cama e mesa para estudantes que vinham de longe fazer cursos na Escola Agrícola da nossa cidade. Também servia comida caseira aos trabalhadores do Porto e a quem gostasse da simplicidade saudável de sua cozinha caiçara.

Pai Telêmaco nunca saiu de perto de vovó Penélope e foi o único a acreditar que vovô Ulisses um dia retornaria ao lar. Quando papai casou, tio Ícaro e tia Helena ajudaram na compra da casa nova, a qual ficava ao lado da casa velha da vovó. Alem de ajudar vovó, papai é Técnico em Agronomia, um homem bom, de muitos amigos e graças a Deus não puxou pelo pai, jamais quis se aventurar longe da cidade. Acho que de todos os filhos é quem mais conhece vovó, foi ele que convenceu os irmãos a aceitarem novamente a presença de vovô.

O sonho de papai era ver sua mãe feliz; - “Como na Odisséia!”, dizia... “Vó Penélope espera por seu Odisseu, o grande amor de sua vida, quando ele voltar ela estará realizada!” Papai acertou, mas no começo ela brigava por qualquer motivo e vovô não dava a mão à torcer. Cada dia um presentinho, um gesto de carinho, uma palavra sussurrada que a fazia corar... Vovó voltou a cantar, seu riso era ouvido no quintal de casa, seus olhos brilhavam quando vovô abria o portãozinho ao chegar do serviço e papai falava; - “Ela vai ceder! Eu sei que ele foi seu único amor.”

Um dia entrei no quartinho de vovô Ulisses e pedi que falasse da sua vida com a trapezista cigana; - “Mulherzinha a toa, não servia para lavar os pés da tua avó... Casei com dezoito anos e com sua tia Helena a caminho, dei um duro danado com a filharada chegando, sua avó não desgrudava das crianças que exigiam atenção redobrada... Comecei a sair com alguns amigos, eu era moço e bem apessoado, a trapezista bem mais velha queria carne nova, dois meses e eu fui trocado por um novo amor. Entendi que havia jogado fora a verdadeira felicidade, minha esposa e meus filhos, compreendi que perdera tudo o que amava. A simplicidade da casinha onde era feliz, o amor da primeira e única mulher que amei de verdade. Não vi meus filhos crescerem, não partilhei de seus sonhos e suas dores. Sofri e comi o pão que o Diabo amassou, mas eu amava e estava arrependido, por isso tomei coragem e voltei. Eu também quero ser feliz! Eu amo Penélope.”

Na festa de aniversário de cinqüenta anos de vovó Penélope, todos os filhos e netos estavam presentes. Vovó estava radiante e após as palmas dos Parabéns a Você, vovô fez um belo e sentido discurso frente à família e aos amigos. Com lágrimas nos olhos contou sua história, falou de sua juventude, de como conheceu vovó e pediu publicamente o seu perdão, jurando eterna lealdade. Pois não foi que vovó aceitou! Papai estava contente... Vovó era novamente feliz! Vovó abraçada a vovô, ainda guardo essa velha fotografia, seus olhos brilham... Foi a última foto de vovó, um enfarto fulminante a levou e vovô Ulisses também partiu para sempre, seguiu vovó para o mundo onde moram os sonhos e lá com certeza existe a tal Felicidade... Que saudade!

Gastão Ferreira/Iguape/2011

quinta-feira, 5 de maio de 2011

CARTA PARA A TIA BETH


Carta para a tia Beth

Querida tia Beth, espero que essa cartinha a encontre com excelente saúde, gozando de merecido descanso após tanta luta em prol dos menos favorecidos da Inglaterra. Fiquei sabendo que a senhora foi convidada ao casamento Real, meus parabéns à nossa Gloriosa Rainha e ao casal de pombinhos. Como sempre, estou viajando e não me esqueci do prometido; - Relatar à senhora fatos interessantes com os quais me deparo em minhas andanças.

No país por onde me desloco, estou em uma cidade conhecida pelo nome de Fim de Mundo... Uma cidade onde é proibido nascer, onde é proibido morrer. Contaram que Fim de Mundo, num passado muito remoto, possuiu uma maternidade por nome Feliz Lembrança. Hoje! Apenas uma feliz lembrança dos que viveram aqueles bons tempos. Tia Beth! Dá dó de ver o bando de cegonhas, tão tristonhas, passando sobre Fim de Mundo para entregar sua frágil carga em outra cidade próxima, mas, como lei é lei, os habitantes de Fim de Mundo vão humildemente buscar seus recém nascidos nesse outro local para que a lei seja cumprida e a proibição de não nascer na cidade mantida.

Apesar da proibição de não morrer, vários enterros são anunciados diariamente pelos sinos da Grande Capela. Parece um paradoxo! O problema é que, como é proibido morrer, não existe na cidade um local apropriado para o guardamento do mortinho e quando alguém teima em desobedecer ao mandato de não morrer, não tem onde ser velado o teimoso descumpridor da lei.

Fim de Mundo faz parte de um grande país chamado País Maravilha. No País Maravilha, por decreto, não há pobreza, os políticos são honestos, as drogas proibidas, todas as pessoas têm casa própria, ninguém passa fome, ninguém fica doente. Para resolver as dificuldades dos que teimam em ser pobre, o governo do País Maravilha, criou uma bolsa mágica de onde os carentes retiram tudo o que necessitam; - Vale Transporte, Vale Alimentação, Vale Gás, Vale Educação e muitos outros Vales que não valem quase nada, mas fazem a festa dos que não quiseram estudar para ter uma profissão.

Fim de Mundo é um espelho do País Maravilha; - As autoridades agradecem a presença de milhares de turistas na cidade e o cidadão olha a sua volta e não vê ninguém diferente. Vangloriam-se do patrimônio histórico único, da incrível preservação dos antigos prédios. O cidadão olha e vê prédios abandonados, sem telhados, em ruínas. Exaltam a limpeza das ruas e o que se nota são entulhos, lixo não recolhido e bandos de urubus em constante festa.

Em Fim de Mundo, a Saúde da população vem em primeiro lugar... Esqueceram de avisar dona Dengue, que chegou de mala e cuia, deitou e rolou. Gostou tanto da limpeza da cidade, que vai ficar por uma longa temporada. Tudo em Fim de Mundo é de faz de conta... Faz de conta que fiz um campo de futebol, faz de conta que arrumei uma estrada, faz de conta que tudo funciona as mil maravilhas.

Tia Beth, gostaria que a senhora estivesse aqui comigo, pois, a cidade é linda, um povo amistoso e festeiro, onde a vida corre pacata entre verdes montanhas e um deslumbrante lagamar. Um pedaço do paraíso que os governantes teimam em transformar em um purgatório. Tem tudo para ser feliz e não sabe, ou melhor, não quer nem saber e se alguém discordar dos mandantes é apontado como inimigo... Vou parar por aqui com minhas observações, pois, caso essa singela cartinha caia em mãos erradas estarei frito... Em Fim de Mundo quem não beija as mãos certas tem uma vida incerta.

Contando sempre com o seu amor querida tia Beth, quero que a senhora saiba que o seu exemplo de vida é uma luz a clarear meu caminho, pois foi com a senhora que aprendi o significado da palavra ética, da palavra honestidade, dignidade, caráter e benevolência. Um beijo do sobrinho saudoso que lhe escreve e lhe almeja toda a felicidade do mundo. From “End of the World” with love, your nephew

Will Maddog

Gastão Ferreira/2011