quarta-feira, 27 de abril de 2011

UM SACI...


UM SACI EM IGUAPE

No ano de 1890, Iguape era uma das cidades mais ricas do Brasil. Seu porto rivalizava com o Porto de Santos, os comerciantes locais vendiam produtos europeus em seus armarinhos e lojas para pessoas de fino trato. Pessoas de fino trato eram aquelas que tinham eiras e beiras em suas casas, freqüentavam clubes privativos para a elite, caminhavam sem olhar para o chão e com o nariz empinado. Ainda bem! Em tal época, não existiam ruas calçadas na cidade e a elite poderia se deparar com um cocô de cavalo ou algo pior.

Todos os grandes palacetes já estavam construídos e sua beleza era o orgulho dos proprietários. Missas solenes, procissões, festas e serenatas alegravam a vida do povo. A cidade era limpa, as casas bem cuidadas, as crianças estudavam, os bisbilhoteiros bisbilhotavam, as comadres fofocavam e as mocinhas pensavam que namoravam escondidas nas janelas, mas todos os passantes filmavam a cena e comentavam adoidados pelos becos e saraus a ousadia da menina moça.

Nos sítios a fartura amenizava a falta de luz elétrica, televisão, computador, fogão a gás, geladeira, forno de micro ondas, carro, moto e avião, coisinhas estas, que ainda não tinham sido inventadas. À noite, após o jantar, as famílias se reuniam para por em dia a conversa. As mães tentavam explicar para as filhas donzelas como a Cegonha, tão pequena, conseguia voar com um bebê no bico. Os pais contavam causos e inventavam histórias, onde eram sempre os heróis.

Foi assim que Dimilton ficou sabendo que seu bisavô tentara pegar um Saci e se dera mal. Seu Gemilton, o pai de Dimilton, comentou que vovô Amilton usou uma peneira, mas a peneira estava rasgada e o Saci escapou. Vovô Amilton muito sofreu com a vingança do Saci que escapuliu. No final da vida estava banguela, careca e trêmulo.

Dimilton era um garoto experto pra dedéu, um guri moderno, afinal, vivia no século XIX e cismou que prenderia um Saci, custasse o que custasse. Descobriu que o veículo de locomoção do Saci era o redemoinho. Óbvio! Com uma perna só, o sujeito era lerdo por demais, mas dentro de um redemunho era igual corisco. Preparou uma peneira, conferiu os defeitos e na primeira oportunidade capturou um Saci e o colocou dentro de uma garrafa escura com rolha lacrada.

A façanha de Dimilton correu mundo. As pessoas seguravam a garrafa, algumas notavam um tremeluzir, outros diziam ouvir os gritos do Saci pedindo que o soltassem, mas ninguém era louco o suficiente para libertar o Saci, pois, todos sabiam do ocorrido com vovô Amilton e o quanto ele padeceu quando o tinhozinho escapuliu.

Dimilton cresceu, envelheceu, entrou pela melhor idade e morreu. Seu filho mais velho, Remilton, herdou a garrafa considerada a relíquia da família. O tempo foi passando e com ele Remilton, seu filho Vemilton e hoje, ano de 2011, seu neto Milton é o atual proprietário da garrafa.

Quando Brédipiti, filho de Milton, ouviu a lenda familiar, caiu na risada e não acreditou. Seu Milton falou:-“ Brédi meu filho! Não zombe de coisa séria. Essa garrafa tá com nossa gente desde os tempos de dantes,e, nóis era rico e não é mais.””Pai! Vou soltar o bichinho. Quem sabe ele nos deixará novamente ricos!” Disse Brédipiti retirando o velho e secular lacre. O Saci gritou:- “To livre! To Livre!” e escafedeu-se no mundo.

Seu Milton ficou muito triste. A culpa era só dele! Quebrara a antiga regra, em vez de dar o nome de Zémilton ao filho mais velho, optara pelo nome moderno de Brédpiti e deu no que deu... O que poderia esperar de alguém chamado Brédipiti?... Bem que poderia ter vendido a garrafa para um museu, a um milionário excêntrico, a um colecionador de criaturas raras. Que bobagem acreditar que o Saci fosse realizar algum desejo, devia ter chamado um advogado e fazer o bicho assinar um alvará de soltura... Que mancada!

Estavam pai e filho nesse chororô quando o redemoinho entrou casa adentro e o Saci aos gritos:- “Me prende! Me prende de novo!”. "O que foi aconteceu Saci? Por que voltou?”Quis saber seu Milton.

- “Por Tupã!” falou o Saci. “Fui engarrafado em 1890, Iguape era uma cidade próspera e rica, com um futuro maravilhoso... O que encontro depois de tanto tempo? Os casarões destelhados, casas históricas em ruínas, ruas sujas, o Mar Pequeno assoreado, barulho... Dengue! Cadê o Porto Grande? Cadê o muro da minha Praça da Matriz? Cadê os chafarizes, os pelourinhos, os clubes? Eu quero morrer! Eu quero ficar preso para sempre!”

MORAL DA HISTÓRIA; - Até o Saci quer viver no passado.

Gastão Ferreira/2011

quinta-feira, 21 de abril de 2011

O BOM LADRÃO...Bom ladrão?


O BOM LADRÃO

A Semana Santa passou. A Via Sacra ao vivo e a cores reuniu milhares de pessoas no entorno da Praça da Basílica. Nenhum ator morreu de Dengue e a vida continua linda e faceira na Princesinha do Litoral Sul. O que chamou a minha atenção foi o Dimas, o personagem crucificado ao lado direito do ator principal. Dimas era um ladrão!

A imaginação voou no tempo e fiquei a matutar; - Que será que o tal do Dimas roubava? Roubava os turistas que visitavam a Cidade Santa de Jerusalém?Roubava a bolsa dos comerciantes? Aos que traziam mercadorias através das caravanas?Assaltava as garotas da melhor idade da época? Se bem que naqueles tempos os bois tinham nomes, velha era velha, jovem era jovem e criança era criança. Nada de rodeios para esconder a realidade que está na cara, até mesmo nas caras plastificadas.

Pelo jeito, essa coisa de roubar é tão antiga quanto o mundo. Duvido que aquele antropóide do qual descenda o homem ancestral, não passava a mão em bananas que não eram suas. E o Caim? O sujeito era um mau caráter, alem do ciúme doentio pelo irmão, talvez afanasse Abel nas horas em que não estava planejando assassiná-lo.

Desde o colo materno aprendemos que roubar é feio. Que quem comete esse delito pode ser preso se não tiver um padrinho poderoso ou contar com um advogado porta-de-cadeia, experto e pilantra. Que quem rouba não vai para o céu, em fim; - Roubar é pecado e pecado mortal. Aprendemos desde criança que quem se apodera do que não é seu, está agindo errado. Que quem rouba o que foi conquistado com o suor alheio, não serve de bom exemplo para ninguém, a não ser para outro ladrão.

Minha fértil imaginação, ao vivo e a cores, constatou que o ator principal, um Santo em todos os sentidos, foi pregado na cruz ao lado de dois ladrões. Poderia ser ao lado de dois assassinos, dois políticos corruptos, pois essa sub-raça também é bem antiga, ou, junto a dois terroristas palestinos. Que coisa feia! Três cruzes e dois ladrões. Quem diria! Mais da metade dos crucificados eram ladrões. O Dimas, era um safado de um ladrão pego com as mãos na botija. Tão ladrão que isso foi comprovado pela justiça da época, a qual o sentenciou a morte.

A minha dúvida é por que Dimas é chamado de Bom Ladrão? Será que roubava dos ricos para dar aos pobres? Se roubar é pecado mortal, então não existe bom ladrão. Dimas era um comprovado ladrão, e, seguindo a lógica, Dimas não poderia ser bom.

Imagino o que os leitores estão pensando; -“ Seu burro! Dimas é chamado de Bom Ladrão porque se arrependeu e foi perdoado.”Poxa! Que bacana. Então o negócio é roubar tanto quanto seja possível, arrepender-se a beira da morte e tudo bem? Ninguém necessita devolver o furto, ressarcir o prejuízo causado, pedir perdão aos lesados... Que beleza! É por isso que o mundo está infestado de larápios, gente tirando proveito de tudo. Todos bons ladrões... Todos sonhando com o Paraíso e eu me policiando para continuar honesto! Viva o Dimas!

Gastão Ferreira/2011

segunda-feira, 18 de abril de 2011

LENDAS URBANAS DE IGUAPE


O BRACELETE DE PRATA

Há muitos e muitos anos uma terrível epidemia devastou a cidade, algumas famílias foram totalmente dizimadas. As pessoas contaminadas eram levadas para a chácara Porcina, ali deixadas aguardando a morte. A chácara foi relegada ao abandono, pois seu proprietário também falecera. O tempo passou, a epidemia foi esquecida e a vida continuou serena na pacata cidade.

Marcelo era um sonhador. Pouco estudou, sem uma profissão definida, vivia da prestação de pequenos serviços. Nas horas livres gostava de um banho de cachoeira, a queda d’água mais próxima de sua residência ficava justamente na Porcina. Muitas moças e rapazes de sua idade faziam uso do local em ruínas, foi assim que Marcelo conheceu Martha.

O que chamou a atenção de Marcelo em relação à Martha foi a melancolia estampada no rosto jovem. Um halo de tristeza envolvia seu semblante. Sentava-se na grande pedra junto à cascata, não dando a mínima aos alegres freqüentadores do local.

Marcelo tomou coragem, venceu a timidez, aproximou-se da garota. Realmente era encantadora. Pele alva, olhos verdes e sedosos cabelos castanhos. Um bracelete de prata enfeitava seu pulso, um presente de dias melhores, uma lembrança do passado. Tornaram-se amigos.

Martha confessou que a tristeza que a dominava era devida ao fato de nunca ter sido amada de verdade, pois segundo acreditava somente um grande amor lhe daria a paz de espírito. O sonhador Marcelo ficou perdidamente enamorado.

Martha jamais permitiu que Marcelo a acompanhasse de volta a casa. Não queria que o pai soubesse de seus passeios, também não tinha certeza de que Marcelo realmente a amava. Marcelo não sabia o que fazer para provar a realidade de seus sentimentos e Martha pediu-lhe uma prova de amor. Era um antigo sonho, uma tolice, mas caso Marcelo o realizasse ela seria totalmente sua para sempre.

O desejo de Martha era compartilhar numa noite de lua cheia, a meia noite seu primeiro beijo com o homem de sua vida e que este ritual se realizasse sobre a pedra onde sempre ficava a admirar o grupo de jovens na Porcina. Marcelo consultou um calendário e imediatamente marcou a data para o encontro, daria à Martha a prova de seu amor.

Marcelo chegou adiantado, ficou esperando por Martha. A lua cheia clareava as ruínas, animais moviam-se na mata, seus gritos noturnos ecoavam na noite. Martha apareceu cinco minutos para a meia noite com seus cabelos esvoaçantes. Trajava um vestido branco a moda antiga, nas faces pálidas um sorriso, nos olhos um brilho de quem finalmente realizaria o tão esperado sonho.

Deitaram-se sobre a pedra, Marcelo aninhou-a nos braços. Afagou seus cabelos, sentiu o doce perfume do corpo jovem, ávido procurou os lábios da amada. Amaram-se tendo a lua como única testemunha daquele encontro. Quando Marcelo abriu os olhos estava abraçando o ar, no chão um vestido branco envolvia um esqueleto que no pulso direito portava um bracelete de prata.

No jornal da cidade uma noticia chamava a atenção:- “Encontrado no dia de hoje (15/03/19..) sobre a grande pedra próxima a cascata da Porcina um esqueleto. Os pesquisadores afirmam pertencer à jovem Martha de Albuquerque Lins falecida na epidemia que devastou a cidade no final do século XIX, um bracelete de prata com seu nome estava junto aos despojos.”

Marcelo abandonou a cidade, foi morar em Curitiba. Trabalhou e estudou, hoje possui diploma universitário. Confidenciou somente a seu amigo Zé Roque sua história, fazendo com que ele jurasse que jamais a contaria a alguém.

Gastão Ferreira/2011

terça-feira, 12 de abril de 2011

ISA, A FERA... OHHHHHH!


ISA, A FERA... OHHHHH!

Isa foi um bebê muito esperado. Seus avôs eram nobres, tão nobres que ao escreverem usavam o próprio sangue azul como tinta. Sua mãe, famosa socialite, era tida como uma das mulheres mais charmosa do pedaço, seu nome Paris-quéra Hilton da Silva & Silva, apelido Paty.

O tititi começou bem antes do nascimento da pimpolha. Dizem os fofoqueiros de plantão que foi devido a uma pequena desavença entre Paty e uma cartomante, taróloga, mãe-de-santo e feiticeira de nome Drinha. Parece que Paris-quéra, na calada da noite, procurou os bons serviços de Drinha e solicitou uma amarração para casar com um ricaço que só pensava em gastar a grana paterna. Drinha obteve sucesso com suas mandingas e Paty pagou com seu colar de esmeraldas... Sim! Um colar de esmeraldas falso... Ohhhh!

Drinha ao tentar vender o colar foi presa, torturada, humilhada e jamais perdoou a fria em que entrou com a dondoca Paty, a qual votou uma inimizade de fazer inveja a Caim e Abel. O primeiro golpe baixo que desferiu contra a ex consulente foi fazer com que Arycarlos, o noivo milionário, saísse do armário, e, fugisse as vésperas do casório com um ajudante de pedreiro de nome Andreilsom para Canisnéia, uma cidade muito, muito distante. O que não imaginava era que Isa estava a caminho, pois Paty engravidara... Ohhh!

Quando Isa nasceu, a situação já estava resolvida. Paty casou com Arycarlos, o que foi muito vantajoso, pois, alem da grana também podia desfrutar dos préstimos de Andreilsom, contratado como motorista e segurança do nababesco casal. Drinha estava inconformada, sua fama de ser uma má Drinha foi para o beleléu. A megera arquitetou um plano diabólico, como não pode destruir a mãe, infernizaria a vida da filha... Ohhh!

Paty estava deslumbrada com seu novo brinquedinho. Que fofura, que belezinha... Bilú, bilú... Que nome dar a essa jóia preciosa? Arycarla, Pariscarla... (Eta! Que gente ruim para dar nome as crianças!)... Resolveu chamá-la Isabela. Mal pronunciou o nome, um raio caiu nas proximidades, um cão uivou, relâmpagos cortaram os céus, urubus pousaram no telhado e Drinha apareceu:- “ Isabela? Rárárárá... Rárárárá... Isabela eu te batizo pelos poderes a mim conferidos pela Rainha do Litoral e seu servidor Aedes Aegyptis, com o nome de Isaféra... Rárárárá!”

Foi terrível a maldição da má Drinha, quando chamavam a guria de Isabela era um berreiro de acordar surdo dormindo. Só acalmava e fazia gugu, gagá, se a chamassem de Isaféra. Para não dar o braço a torcer à maligna feiticeira, chamavam a pivete apenas de Isa.

Isabela era muito prendada, quase uma Gata Borralheira, fazia tricô, costurava, regava as plantas, aprendeu oito idiomas, praticava natação, cavalgada, tênis de mesa e sem mesa. Para encurtar a história, seu currículo preenchia quinze páginas, mas tudo isso de nada valia, pois, ao se transformar em Isaféra falava palavrão, espancava cachorros, bebia todas, fazia stripper em sórdidas baiúcas na madrugada, xingava a velharada da melhor idade e ainda cometia pecados veniais e mortais.

Isa, com o tempo se tornou amarga e estressadinha. Por vezes seu lado Fera falava mais alto e voltava para casa de olho roxo. Outra vez era a Bela que recebia flores e elogios das pessoas a quem ajudava. O problema estava na hora da transformação... Um dia Bela estava auxiliando uma garota cadeirante da melhor idade, 97 anos, a atravessar a rua, quando a Fera se insinuou... Jogou a cadeira de rodas da velhinha embaixo de um caminhão e com a moça da terceira idade dentro... Ohhhhh!

Quando a Bela se apaixonava, a Fera detonava a paquera. Bela bebia água, a Fera cachaça. Bela acenava, Fera fazia top, top. Uma sorria, a outra mostrava a língua. A Bela fazia regime, a Fera se empanturrava. Uma tristeza a vida da Bela... Tão rica e tão dividida! Procurou os melhores especialistas, não solucionaram o problema e a tacharam de louca, esquizofrênica, etc. Buscou ajuda na religião, estava possuída pelo demônio e nenhum exorcismo deu jeito.

Não podia consultar a má Drinha, pois a mesma, agora era uma boa Drinha e não queria saber de conversa, apaixonara-se perdidamente por um Pastor e na atualidade só pensava em pregar e louvar, estava salva e não podia se envolver com pecadores que só pensam naquilo... Não insistam!... Ohhhh!

Isa, que na verdade era a soma da Bela e da Fera conseguiu solucionar seu probleminha. Fez um curso de teatro amador e conheceu o sucesso. Ganhou um Oscar, um Cauã, cinco Pedro e dois Roberval... Um prêmio especial pela personagem diabólica (Atuação de Fera) em “A Vampira do Casarão Destelhado”, outro pela ingênua figura da indiazinha (Atuação de Bela) em “ A Fonte da Saudade”, onde fez a chorosa selvagem que amava um guerreiro que partiu para uma batalha e nunca mais voltou.

Repararam como tudo tem solução! Não é porque você está sem grana, com dengue, se sentindo um traste, achando que o mundo vai acabar em 2012 que seu futuro está perdido. Faça como Isa, assuma o seu lado Fera e vá à luta ou faça como a Bela, vá às compras... A vida é breve!

Obs- Esse texto, aparentemente insano, contem segredinhos impublicáveis que ocorrem em muitos locais. Quem sabe, sabe! Quem não sabe veste a carapuça, caso sirva... Ohhhh!

Gastão Ferreira/Iguape/2011

domingo, 10 de abril de 2011

FORRÓ GLS


FORRÓ GLS

Quando Ditinho “Dente de Coelho” esparramou os cartazes convidando a todos para a inauguração de seu novo salão de forró, a cidade entrou em polvorosa. ”NÃO PERCAM:- INAUGURAÇÃO DO ÚNICO FORRÓ GLS DA REGIÃO, DAMAS DESACOMPANHADAS NÃO PAGAM”

- “Não falei! Ditinho nunca me enganou... É um desrespeito, um ultraje à nossa tradição, abrir esse antro de perdição na nossa cara”, afirmou o Pastor Teodósio, “Lábios de Mel”, frente a sua congregação.

- “Nooooooossa! Ditinho demorou a sair do armário. To nessa!”, gritou o famoso Paupau, único maquiador, costureiro e carnavalesco da pequena cidade.

No bar e lanchonete “Achados na Noite”, as opiniões se dividiram. As garotas de programa ficaram horrorizadas. Tia Nelméia, uma garota da melhor idade, setenta e cinco anos, mas aparentando setenta e quatro, foi taxativa; - “Sou contra! A freguesia está escassa. Como não bastasse a concorrência dessas gurias da pior idade, dezoito, vinte anos, agora vem o “Dente de Coelho” com essas estrangeirices.” Seu Anastácio, apelidado “O Santo”, defendeu o amigo; -“ Ditinho tem o direito de fazer o que bem quiser do dinheiro dele, se quer abrir esse novo puteiro, que abra!”

As beatas da cidade falaram com o padre, que lavou as mãos e sugeriu que procurassem o senhor prefeito. O alcaide, foi curto e grosso; - “O que um bando de velhas rezadeiras e desocupadas, têm a ver com os negócios de um cidadão de bem, que paga pontualmente seus impostos? Vão pentear macacos, suas mocréias!”

As carolas, inconformadas, criaram um movimento anti inauguração e foram em passeata pelas ruas da cidade. Portavam faixas com dizeres; - “Fora Satanás!”, “O Diabo adora Forró!”, “Jesus não Dança!”, “ Sou contra o aborto, drogas e música caipira!”, parece que essa participante não entendeu o espírito da coisa, digo, da passeata.

O disque diz estava generalizado. Cada qual tomava um partido. O negócio estava tão feio que até cachorro dos favoráveis, mordia quem era do contra e vice versa, mais vice do que versa, a bem da verdade verdadeira. Foi assim que o pedinte Teobule entrou nessa história, sugeriu que um grupo de cidadãos fosse em romaria a casa de Ditinho “Dente de Coelho”, e, exigisse explicações na fonte geradora da controvérsia.

Ditinho era um apedeuta. Não senhores! Não é um palavrão, mas sim uma pessoa sem estudos, um sem educação, um analfabeto. Ditinho, mesmo sendo um notório apedeuta, é esperto, ganha rios de dinheiro participando de licitações públicas, trambiques políticos, venda de votos e esquemas para lesar o contribuinte, coisas aceitas como normais pela sociedade local. A carola, dona Marcolinda, Marco por parte de pai e Linda pelo lado materno, foi quem encarou o valente; -“ Olha aqui Ditinho! Que palhaçada é essa de abrir um forró GLS na cidade? Você não tem vergonha nas fuças?”, perguntou a educada beata.”Qualé Lindinha? Já esqueceu que você adorava forró quando mocinha.”, afirmou Ditinho. O povão caiu na risada, Marcolinda não perdeu a pose e contra atacou; -“ Meu passado está morto e enterrado! Hoje sou apenas uma serva do Senhor.”

“Dente de Coelho” estava para revelar publicamente segredos guardados a nove chaves por Marcolinda, pois, os de sete chaves toda a cidade conhecia, quando Teobule, o mendigo, perguntou; - “Seu Ditinho, afinal o que é um forró GLS?”

O silêncio foi instantâneo, Ditinho pigarreou e mandou ver; - “Meu povo, quanta burrice! Parece que vocês não sabem, mas o tal GLS está fazendo o maior sucesso no país inteiro... O forró GLS é, trocando em miúdos para vocês, bando de ignorantes, GLS significa a abreviação de Garotos, Lobisomens e Sacis...

Todos aplaudiram a sagacidade de Ditinho “Dente de Coelho”... A cidade ficaria famosa por ter o primeiro forró para Lobisomens e Sacis... Ah, esse Ditinho! Não falei que ele é um apedeuta.

Gastão Ferreira/2011