terça-feira, 29 de março de 2011

NO ESCURO ...

Gastão & Serafina

Serafina Pinto Nunes/102 anos


Lenira & Vovó Serafina



NO ESCURO ...




Ano de 1909, época de domínio dos coronéis em Iguape. O antológico bloco carnavalesco "Avança" chama o povo à folia. Uma infinidade de embarcações cruza diariamente o Mar Pequeno. A barragem não existe e a canoa é o meio de transporte mais comum. Na Prefeitura manda o Coronel Antonio Jeremias Muniz Júnior. Na Praça São Benedito, no sobrado dos Toledos, seus proprietários recebem a elite iguapense para alegres saraus. As famílias moradoras do centro histórico buscam a água diária no chafariz da Praça São Benedito. As pessoas vindas dos sítios procuram por cartas e telegramas no antigo correio, um belo sobrado que é o orgulho da cidade. Foi nesse ano e nesse contexto que nasceu Serafina Pinto Nunes.

Seu pai, Antonio do Amaral Pinto e sua mãe, Ana Catarina Pinto possuíam terras no Rio de Una. A família era grande, oito filhos. Serafina era a mais velha, depois vinham Antonio, João, Arlindo, Salvador, Rosália, Maria Júlia e Alta. O irmão Antonio participou da revolução de 1932, ficou longe da família por 18 meses enfrentando muitos perigos. Voltou incólume para morrer afogado no Rio de Una alguns dias após o retorno das sangrentas batalhas. Para a menina Serafina a vida no sitio era uma fartura. A infância foi breve e feliz, aos dez anos já trabalhava como gente grande, o normal para a época. Alem da lavoura de arroz, tinham roçado de mandioca, canavial, bananal, cafezal, uma grande horta para garantir a couve, o tomate, a cebola, a hortelã, a abóbora, a vagem e uma infinidade de diferentes produtos. No pomar colhiam as frutas da estação; mexerica, cajá-manga, laranja, maracujá, araçá, jaca, pitanga e muitas outras frutas.

Da cana faziam melados que vendiam em botijas de barro, o açúcar era comercializado e trazido para a cidade em canoas a remo num percurso rio acima de três horas. Bolo de roda, farinha d’água, a criação de suínos e as inúmeras galinhas que chocavam embaixo do assoalho da casa também garantiam parte da renda familiar. Do rio frente a casa vinha a Traíra, o Bagre, o Pitu, o Robalo, o Nhandiá, o Nhacundá, o Saguarú, o Mandi e o Jacaré. Na mata atlântica, graças aos bons serviços de Fidalgo e Fininho, cães de excelente faro e exímios caçadores buscavam a carne de Tatetos, Quatis, Tamanduás, Capivaras, Tatus, Paca e a Raposa para fazer a farofa da qual Serafina até hoje sente a falta. Nas arapucas de bambus prendiam Saracura, Perdiz, Sabiá, Macuco e Jacu. Serafina está com 102 anos, se lembra de todos esses nomes e também das diferentes maneiras de preparo dessas “iguarias” do passado.

Serafina recorda uma Iguape que pouquíssimos de nós conheceram. Desde criança passava alguns dias na cidade, um de seus avôs foi o caseiro da chácara do senhor João Hipólito Gato, hoje, chácara Yanaguizawa. A menina não perdia Festa de Agosto, mas nas suas lembranças a Festa não era tão agitada como as atuais, não havia estradas, as pessoas vinham a cavalo, em carretas, em pequenos e grandes barcos.

Serafina casou aos 27 anos com José Martins da Silva, com ele teve três filhos, Maria das Neves, Benedito e Antonio. O enlace durou seis anos e dois anos após a morte de Zé Martins, Serafina encontra o grande amor de sua vida no comerciante Vitôr Neves (É assim mesmo, com acento no o) que lhe deu dois filhos, Joselino e Iza. Com exceção de Maria das Neves, todos os filhos de Serafina morreram crianças.

Devido a seu comercio, Vitôr comprou em 1943 uma casa no Funil de Cima, Rua das Neves 110. Era ali que praticava escambo, o dinheiro era escasso por esta época, com os produtos trazidos do sitio. No ano de 1950 Vitôr faleceu, Serafina e a filha Maria das Neves se mudam em definitivo para o centro da cidade. Nesse tempo o lagamar chegava aos fundos das casas situadas no Funil, a Avenida Princesa Isabel não existia e Serafina recorda que o tráfego aquático era intenso no Mar Pequeno. Barcos pesqueiros de grande porte, barcos carregados de banana, barcos transportando caxeta. Navios de passageiros que ancoravam no Porto Grande eram uma festa para seus olhos. O movimento era contínuo faz questão de reafirmar.

Serafina aos 41 anos, viúva duas vezes, foi tocando a vida e a vida forçou a barra. Maria das Neves, a única que restou de sua grande família, casou com João Marcelino de Souza (Janguinho Amborê), funcionário da Sabesp e vieram os sete netos, Célio, Marcelino, Jairo, José, João, Eli e Lenira. Falece Maria das Neves e Serafina assume os netos, todos pequenos, Lenira estava com oito anos. Os netos criados com sacrifícios pela avó/mãe tornaram-se pessoas dignas, trabalhadoras, honestas. Deram muitos bisnetos a Serafina.

Essa é a história de Serafina Pinto Nunes, uma história aparentemente banal, mas para quem sabe ler nas entrelinhas é a história de quem lutou desde criança contra os nefandos fados e venceu. Superou a partida prematura de dois esposos, a perda de todos os filhos de seu generoso ventre e com seu pouco estudo educou os netos. Uma mulher que soube compartilhar seu amor, uma mulher que não renegou sua pesada cruz, uma mulher que sofreu, riu, chorou e viveu com dignidade sua sina.

Dona Serafina! Eu a conheço há mais de vinte e cinco anos e acompanhei parte de sua luta, hoje está completamente cega. No fim da entrevista lhe perguntei o que pensava sobre a sua vida. Sua resposta foi:-“ Meu pai foi um bom homem, tive uma infância feliz. Vivi o que era para ser vivido, não posso me queixar, a vida é boa.”

Sentada na cama, no confortável quarto que a neta Lenira fez questão de construir para a avó que a criou, perdida na escuridão de seus olhos sem luz ela conta seus “causos” aos visitantes. Lembra de Fidalgo e Fininho correndo pela mata, cães que morreram há 100 anos e descreve a correnteza do Rio Ribeira, a boneca de pano que teve em criança, o gosto da farofa de Raposa, os barcos singrando o lagamar. Uma memória excepcional para quem fará 103 anos em Novembro de 2011. Completamente lúcida, recorda dos muitos amigos que partiram, das histórias que seu pai contava para alegrá-la na infância, do dia a dia da menina que morava beira rio, da moça sonhadora, da mulher que teve dois maridos, da mãe inconformada que perdeu todos os seus filhos e os achou através dos netos e bisnetos e de dentro das sombras sorri e diz que é feliz.


Gastão Ferreira/Iguape/2011/Março

sexta-feira, 25 de março de 2011

BRINCADEIRA DE MENINO


BRINCADEIRA DE MENINO

Era apenas um menino ajoelhado a margem do regato do tempo espiando a eternidade. Ele concebeu que a pequena torrente juntar-se-ia a um rio e a outro e a outro até chegar ao oceano, o destino de todos os rios. O menino criou o mar universo. Inventou que a água era formada de moléculas e que trilhões de trilhões de moléculas formavam o existir.

Imaginou que cada molécula era um sol com pequenos átomos ao seu redor chamados planetas e muitos planetas possuíam vida inteligente, animais, pássaros e árvores. Nestes mundos existiriam pessoas para transformar os sonhos em realidade. O menino sorriu, viu o primeiro homem que ousou erguer a face para as estrelas, o homem que trocou a árvore pela caverna, o coletor, o semeador, o construtor de cidades.

Assistiu a tentativa de Ícaro e a impossibilidade de voar, a construção da torre de Babel e a multiplicação dos idiomas, a adoração do sol, da lua, das forças da natureza, o chamado divino gritando no coração dos homens. Os sacrifícios a Baal, a Zeus, a Jeová. O sangue inocente dos animais em oferenda ao Criador de todas as coisas.

Conheceu Amom-Rá, Mitra, Isis e Osíris, Crono, Júpiter, Obatalá, Átis,Odin, Orumilá, Tupã, Dionisio, Oxalá, milhares de altares de milhares de deuses. Assistiu a morte de Sócrates, o nascimento da filosofia, a formação dos grandes impérios. Galileu absolvido e Giordano Bruno condenado, a queima de Joana D’Arc e sua santificação pelos mesmos que a amaldiçoaram. Notou que as fogueiras da Inquisição assassinavam quem ousava pensar e questionar. Que as grandes Cruzadas e as guerras religiosas negavam a fraternidade universal.

O menino sonhou com o homem que compartilhava. Com o que tinha fome de justiça, com o que defendia o fraco do forte, com o que amava os pequenos seres da natureza. Chorou com Francisco de Assis, cantou com Orfeu, riu com Carlitos.

Assustado com tudo que idealizou tentou apagar seu sonho em água, fogo, terremotos e maremotos. Ainda não sabia que sua mente era uma mente criadora, que o simples ato de pensar dava forma as idéias, construindo uma realidade tão eterna quanto ele próprio. Era um garoto solitário, o primeiro, o único e o último ente a ser formado pela ordenação do caos primitivo, possuidor de todo o conhecimento. Estava apenas brincando, dando vida a matéria de que são feitos os sonhos. Seu nome era Deus!

Gastão Ferreira/2011

quarta-feira, 23 de março de 2011

QUERIDA VOVÓ JULIETA



QUERIDA VOVÓ

Querida vovó Julieta, como prometi, estou enviando notícias da cidade que a senhora visitou há mais de oitenta anos. Sei que a senhora está completamente lúcida em seus noventa e oito anos de vida, mas algumas de suas lembranças não batem. Não encontrei o famoso porto aonde seu barco vindo do sul aportou, também não avistei nenhum marinheiro da lendária Capitania dos Portos. Os prédios seculares no entorno da Praça São Benedito estão em ruínas, acredito que são os mesmos de suas memórias por causa dos Leões Venezianos sobre o que resta de um belíssimo sobrado, as feras ainda estão por lá.

Como à senhora sempre diz; - “Papel aceita qualquer coisa, meu neto!”, confirmei in loco sua afirmativa, a propaganda oficial mostra uma cidade maravilhosa, com ruas limpas, sem pedintes, prédios em excelente estado de conservação, placas informativas de trânsito de dar inveja à Nova York, segurança de primeiro mundo, hotéis e pousadas sete estrelas, gente educada e sempre sorrindo, sem lixo nas calçadas e sem ex-animais de estimação disputando restos de comida.

Segundo os informes oficiais cem mil turistas visitam a cidade na atual temporada, o município tem aproximadamente 29.000 habitantes... Coisa de louco! Os nativos estão contando os dias para o término da tal temporada para poderem voltar a interagir entre si, pois com tanta gente estranha nas ruas não conseguem encontrar os amigos e parentes.

Por aqui as pessoas são bastante amistosas com os visitantes, tirando os pedintes que ficam nos assediando vinte e quatro horas, não há do que reclamar. Dizem que a cidade é muito pacata, isso na afamada propaganda oficial. Fui informado que no decorrer dos festejos de Momo não é bem assim, pois até os animais brigam. Nada de anormal, gato com cachorro, gato com rato, aranha com mosca, onça com jaguatirica... Neste carnaval foi muito comentada uma surra que um filhote de galinha deu num veado catingueiro, como a cidade está situada no sopé de uma montanha acho que o veadinho se empolgou e acabou apanhando ou talvez tudo isso não passe de lendas urbanas.

Bati muitas fotos e assim a senhora poderá comparar com as do inicio do século passado que estão em seu álbum. A cidade foi tombada recentemente (Não vovó! Não foi terremoto.) e agora faz parte do Patrimônio Histórico Brasileiro, o casario da Praça da Basílica e a própria praça está igual ao que era no século XIX. Ao voltar para casa quero conferir as fotos de hoje com as suas, parece que nas suas fotos a Praça era cercada por um gradil e no centro da pracinha havia um laguinho, não tenho certeza, mas como tombamento federal é coisa séria e custa uma grana preta é bom ficar atento e denunciar o não cumprimento das leis.

Por falar em praça, no centro da Praça da Basílica colocaram uma cruz de pedra muito antiga datada do século XVI. A senhora talvez se lembre da cruz, pois segundo afirmam, hoje o centro histórico é o mesmo que era há duzentos anos. O grande hotel São Paulo em que a senhora ficou hospedada está completamente deteriorado, uma pena, pois é um prédio magnífico e guarda lembranças de visitantes ilustres.

Querida vovó Julieta, logo estarei em casa e a senhora poderá matar a saudade da cidade de sua juventude. Levarei o boletim da propaganda oficial, alguns jornais da cidade e muitas e muitas fotos. A senhora sabe que uma foto vale mil palavras, vamos juntos conferir as mudanças ocorridas. Um beijo do neto que muito lhe estima.

Neto

Gastão Ferreira/2011

terça-feira, 15 de março de 2011

PERGUNTAS QUE NÃO CALAM...


PERGUNTAS QUE NÃO CALAM...

O que é a vida além de um breve sopro dentro do infinito da criação? Como nos colocarmos nesse universo de eternidade perante a pequinesa do conhecimento humano?O que somos? De onde viemos?Para onde vamos?Como julgar o homem, essa individualidade solitária, dentro desse contexto? Basta unicamente um existir físico ou continuamos para o além da vida material? Para que servem as dimensões extra materiais? O que existe dentro do ultravioleta e no infravermelho, pois alguns animais possuem essa visão? Entre bilhões de galáxias, milhares de universos que formam o multiverso e seus incontáveis planetas só a Terra, esse mundo minúsculo iluminado por um sol de quinta grandeza, nos confins da Via Láctea, possui vida inteligente? Como entender o ser humano?

Por que o homem que se diz perspicaz difere tanto do animal irracional? Se o animal, que age unicamente por instinto, só mata para satisfazer a fome, por que o ser inteligente usa seu saber para o mal coletivo? Por que o homem acumula bens materiais se sua vida é breve? Todo o animal tem um instinto sexual altamente desenvolvido, mas só o homem mata por amor. Por que só o homem odeia? Quem é o homem?

O homem descobre a causa e a cura das doenças. Alguns homens protegem a natureza outros a destroem. Muitos homens passam a vida corrompendo a vida, outros curando as feridas alheias. O planeta é um bem comum, mas muitos se apossam de imensos territórios enquanto outros clamam por alguns metros de terreno para edificar uma casa enquanto as aves e as feras constroem ninhos e tocas sem brigas.

Os pássaros cantam ao amanhecer, um cão está sempre feliz, um gato tranqüilo. É improvável que alguém haja visto um animal infeliz, dizem que é porque não tem pensamento contínuo e desconhece o amanhã e a certeza da finitude. Dizem que o homem é o único, a saber, que um dia morrerá! Se essa for à verdadeira causa, a morte, qual o problema para um ser pensante, pois nada é eterno, nada fica para semente? Os que crêem numa vida pós morte partirão confiantes em tempos melhores. Aos que não acreditam resta o conforto do esquecimento.

Muitas são as perguntas que não calam desde que o primeiro lampejo de inteligência marcou a raça dos homens. Há milhares de anos evoluímos continuamente e buscamos uma razão para o existir. Hoje sabemos que estrelas são casas no espaço, que a natureza não distingue um animal racional de um irracional. Que o homem é apenas um usurpador querendo ser coroado rei da criação. Usando a lógica se pode afirmar sem medo de erro e perante tudo o que foi exposto, que se Deus tivesse de escolher amar alguém com certeza seria aos animais irracionais, pois são eles os únicos que não ofendem ao Criador.

Quando o homem conhecer a humildade, sua insignificância perante toda a grandeza do universo, talvez encontre o significado de seu próprio existir. No meu entendimento o homem foi criado para o saber, para o conhecimento de todas as coisas. O homem foi criado para ser o auxiliar mais próximo do Criador, para manter e aperfeiçoar o mundo em que vive. Hoje o homem é ainda uma criança birrenta, sem educação, sem propósitos, mas quando crescer e um dia crescerá, vai descobrir para sua plena realização que ele é apenas um jardineiro de Deus. Nesse dia o homem conhecerá a paz, o amor e o seu destino. A partir desse momento o homem será feliz.

Gastão Ferreira/2011

quarta-feira, 9 de março de 2011

ENQUANTO DORMIA...


ENQUANTO DORMIA...

Paloma era filha de Dito Zóinho, morava num puxadinho nos fundos da casa de sua avó Madame Esmeralda, a vidente. Dito trabalhava “por conta”, ou seja, catava papelão, latinha de alumínio, plásticos e afins. A garota morria de vergonha do ganha pão do pai, esquecida que era com esse humilde serviço que todos sobreviviam. A avó Esmeralda além de vidente colocava cartas de tarô e fazia algumas macumbinhas básicas, mas devido à propensão para o alcoolismo nunca fez o seu pé de meia.

Paloma era por demais sensível, não gostava de pobre, não gostava de arroz com feijão, não gostava de trabalhar nem de ajudar nas lides de casa, era uma chata por natureza e esnobe por opção, a tal que comia ovo e arrotava bacalhau. Era a menina dos olhos de Madame Esmeralda que desde o nascimento da neta lhe previra um futuro brilhante.

Naquela noite Paloma foi dormir magoada. Zé Mandi acabou o namoro de três meses. Na verdade a trocou por Zileide uma imbecil cujo pai era proprietário de uma birosca mal afamada. Bem feito para ele! Não sabia em que encrenca estava entrando. Paloma nasceu para ser rica e feliz e não seria o pé rapado do Zé Mandi que lhe daria o mundo que merecia... Adormeceu.

Ao acordar uma camareira extremamente servil perguntou:- “Princesa Paloma qual de seus cinco mil vestidos vossa real pessoa quer usar hoje?”... Princesa? Real pessoa? Cinco mil vestidos? O que estava acontecendo? Estava sonhando? Era melhor se informar sobre o que ocorria sem levantar suspeitas.

“Estou um tanto abalada devido a um terrível pesadelo! Que será que ocorre comigo?”, “Acho que nada de anormal Princesa! Ontem à noite seu pai o rei anunciou à corte seu futuro noivado e talvez esse fato a tenha levado a ter um mau sonho.”, “Como assim?” Perguntou Paloma. “Realmente vossa realeza está diferente, mas vou tentar ajudar:- Vossa majestade é a única filha de nosso rei, seu nome é Thalula Paloma Denise Maria do Socorro... de Alcacér... Na verdade são sete nomes, um para cada dia da semana e como hoje é segunda feira devo chamá-la de princesa Paloma.”

“Quer dizer que tudo isso aqui é meu?”, “Sim majestade! Seu pai é muito ocupado e a senhora é órfão, desde criança vive cercada desse conforto nababesco, seu serviço pessoal conta com duzentas servas para um atendimento rápido e eficiente.”, “Tenho muitas amigas?”, “Não majestade! Nas redondezas não existem pessoas a sua altura para uma amizade sincera.”,” Que vida triste a minha!”,” Que é isso princesa! Tem milhares de pares de sapatos, milhares de vestes, come do melhor... Nós os servos nos vestimos de farrapos, sempre famintos e sem direito de reclamar... Tire esses pensamentos da cabeça, pois caso cheguem aos ouvidos de seu pai, vossa majestade terá problemas!”,” Tudo bem! Vamos escolher o vestido do dia.”,” Que tal esse?”, ”Noooossa! Parece uma tenda de circo.”,” Princesa! A senhora pesa exatamente 145 quilos e duzentas gramas... O vestido ficará perfeito!”

Paloma conseguiu a duras penas entrar no vestido, ao se olhar no espelho o choque foi instantâneo, parecia uma baleia de tão gorda, seu rosto deformado, seus olhos minúsculos... Uma prisioneira, segundo a serva... Tão volumosa que não conseguia andar... Que vida medíocre! Sem amigas, sem fazer nada, cercada por salamaleques... A outra Paloma, a do pesadelo, apesar da penúria tinha uma vida melhor que a sua... Oh Deus!

A alimentação matinal foi servida... Dezenas de pratos diferenciados, milhares de calorias desperdiçadas enquanto os servos e servas não ousavam olhar para tanta comida... Nesse momento soaram as trombetas, as portas do aposento foram escancaradas e o rei adentrou o ambiente:- “Seu futuro marido! Minha filha.”... Paloma fitou o pai, um completo desconhecido e ao mirar o rosto do noivo soltou um grito e desmaiou... Ao acordar do chilique estava em seu mísero quartinho nos fundos da casa de vovó Esmeralda.

Desde esse estranho acontecimento Paloma mudou seu comportamento, tornou-se uma aluna exemplar, uma pessoa humilde, conquistou muitas amizades. Hoje dá aula na zona rural, alfabetizou Dito Zóinho. Internou Madame Esmeralda em uma clinica de recuperação na qual Madame conheceu o pastor Galvão e converteu-se em adepta e esposa. Paloma está realizada e feliz, comprou casa própria e casou com Paulo Jacaré um empresário que tem a mesma fisionomia do nobre noivo que conheceu enquanto dormia.

Gastão Ferreira/2011