sábado, 26 de fevereiro de 2011

NHANHÁS


NHANHÁS

Ah! Como a vida nos prega peças. Por vezes nos assusta por vezes nos afaga ou então nos move como num jogo em que os participantes desconhecem as regras. Nhanhá Barbina não sabia, mas a vida estava mexendo com ela quando por uma palhinha brigou com sua comadre e vizinha nhá Cotinha.

Nhá Cotinha morava em um sitio nos arredores de Iguape, criava galinhas e porcos, possuía uma horta para consumo próprio. Sua amizade com nhanhá Barbina vinha da infância. Quando casou e teve seu primeiro filho nhanhá foi à madrinha. Ao casar nhanhá fez questão de morar ao lado da amiga, pois nessas lonjuras da cidade é sempre bom ter por perto alguém de confiança na hora do aperto.

A vida num sitio é feita de silêncios entre os humanos, mas muito rica em sons. Ora é uma galinha a cacarejar, uma vaca a mugir, um cavalo a relinchar, um Bem-te-vi a espiar de uma árvore marcando sua presença, um Gavião causando algazarra ao tentar roubar um pintainho ou então o canto do Sabiá, do Tié Fogo, do Canário. As Corruíras, as Cambacicas, as Rolinhas desfazem o sossego alegrando o dia.

Quando Marcelo, o afilhado de nhanhá Barbina trouxe da cidade dois cortes de tecidos, um claro para a mãe e outro mais escuro para a madrinha, nhanhá gostou mais do claro e o levou para sua casa. Nhá Cotinha não gostou, foi lá destrocar o tal corte e foi por essa bobagem que a amizade entre as duas estremeceu.

Nhanhá era de temperamento forte, difícil no perdoar, quando “pegava uma corda” se trancava em casa, fechava a janela que dava para o lado da vizinha, colocava música nas alturas só para perturbar a amiga, mas depois com o correr do tempo sempre voltava às boas, era assim desde criança. Nhá Cotinha sabia disso, só que dessa vez a coisa estava indo longe de mais, quinze dias e não via nem a sombra da amiga, mas nhá Cotinha conhecia todos os pontos fracos de nhanhá e sabia onde atacar.

O porquinho Jeréco foi sacrificado ao amanhecer, nhanhá ouviu os gritos do bichinho, adorava carne de porco e muito mais o torresmo pururuca que nhá Cotinha fazia no capricho, mas não daria o braço a torcer, estava de mal e de mal ficaria.

Nhá Cotinha cortou o couro de Jeréco na medida exata e na hora certa em que o óleo estava no ponto às tirinhas foram para o tacho. O cheiro foi longe, passou do quintal, bateu na casa da vizinha que entreabriu a janela e nhá Cotinha de costas para a casa da amiga caprichava no torresmo. Ao contornar o tacho avistou nhanhá Barbina com uma cumbuca de farofa ao lado do muro... Cheirava o ar puxando o cheiro do torresmo e jogava uma porção de farofa na boca e novamente inspirava o cheiro delicioso e jogava a farofa na boca... Nhá Cotinha sorriu, havia vencido. Colocou uma porção num prato e os levou para a amiga que imediatamente começou a comê-los. Foi assim que novamente fizeram as pazes, pois a vida é feita de altos e baixos, de risos e tristezas, mas quando uma amizade é verdadeira supera todas as pequenas armadilhas com que a vida nos presenteia.

Gastão Ferreira

Obs.- A história é real. Ocorreu entre duas velhas amigas em um sitio próximo a cidade de Iguape. Os nomes verdadeiros foram trocados.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

TEMPOS MODERNOS


TEMPOS MODERNOS

Quando o primeiro telhado desabou ninguém se importou. Com o passar do tempo muitos outros ruíram. O mesmo aconteceu com os pedintes, foram chegando e tomando conta do centro histórico, ficaram como parte da paisagem. Eram tantos que se dividiram em grupos e cada grupo se apossou do local que mais lhe convinha. Praças, jardins, construções abandonadas serviam de valhacouto aos visitantes indesejados, o poder público fechou os olhos e quando os abriu a cidade estava tomada.

Prédios em ruínas, patrimônio dilapidado, os nativos recorriam aos serviços de outra cidade para que seus filhos viessem ao mundo, pois não havia maternidade no município, também não existia um velório público e assim se unia o destino de todos, do nascimento a morte a carência era generalizada.

A esperteza é a mãe de todas as sacanagens. Os mais astutos recorreram ao tombamento dos prédios históricos como formula mágica de preservação dos bens culturais herdados dos antepassados. Não gastariam um tostão do erário público municipal, pois a grana era federal. No centro antigo tudo deveria ser como no tempo de Dantes, nenhuma casa em estilo contemporâneo permitida, somente construção anterior ao século XIX e sem excêntricas modernidades.

A Nova Era começou com a destruição do Coreto da Praça da Matriz. Uma velha cruz foi sagrada como o objeto mais significativo da cidade agora tombada pelo patrimônio histórico federal. A antiga cruz tinha a sua triste história pessoal, feita em Portugal cruzou os mares e adornou a primeira capela dos colonizadores, passou por várias igrejas, morou um bom tempo nos subterrâneos da Matriz, quase se afogou no desbarrancamento do Valo Grande, deu um tempo, jogada ao relento no Museu, foi parar num pedestal sem importância na orla do lagamar. O interessante é que para tal objeto tão maravilhoso nunca ninguém ligou a mínima e de uma hora para outra passou a representar a própria alma caiçara.

Os modernos meios de transporte inicialmente foram trocados por ônibus do século passado e aí a coisa se perdeu... Gostaram tanto que voltaram as carruagens, as diligências, os coches. Qualquer cidadão que transitasse pelo centro histórico devia se vestir a moda do século XIX, os homens de fraque e cartola, as mulheres com longos vestidos e anáguas, sem esquecer que o tratamento era vosmecê, sinhozinho e sinhazinha. Quem não seguisse as novas regras estabelecidas para o progresso era açoitado em um dos cinco pelourinhos espalhados por pontos estratégicos na cidade.

Foram recriados antigos empregos, tais como; - Acendedor de lampião, coletor de latrinas, capitão do mato, almotacel, condutor de carruagens, guarda noturno e muitos mais. Turistas apreciadores do modo de viver do passado fizeram a festa, mas apenas no começo, quando se espalhou aos quatro cantos que para visitarem a localidade era obrigatório o pagamento de pedágio, todos se escafederam.

Na verdade quase nada mudou na vida dos habitantes locais, as meninas boas rezam pela salvação das meninas más que vão às festinhas e aproveitam a vida adoidadas. Os pais continuam a culpar as más amizades dos bons filhos pelo fracasso dos mesmos, os traficantes traficam, os alcoólatras bebem todas, os pecadores pecam e quem não se permite um deslize em público faz fofoca, os corruptos se corrompem cada vez mais, os ladrões assaltam e os escritores escrevem sobre o que vêem ou inventam como estou inventando esse texto que não tem nada a ver com a nossa realidade e nem serve de carapuça a ninguém.

Gastão Ferreira/2011