segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

TREBADO


TREBADO



Na cidade tombada, por exigência da lei, as casas foram pintadas na mesma cor. No antigo Beco das Velhas, hoje denominado Travessa Melhor Idade, ficou difícil no escuro diferenciar uma habitação da outra. Entre cervejas e muita pinga a cantoria foi até tarde. A saideira foi à música imortal de “Eu só quero ser feliz na favela onde nasci”. Naquela noite, Alcides tomou umas e outras e mais outras, estava completamente trebado quando saiu do boteco do Mané Peixe. Madrugada fria e chuvosa, Alcides tenta saltar as poças d’água que teimam em alagar as velhas ruas de calçamento irregular. Caiu muitas vezes... Não encontra a chave da casa, melhor entrar pelos fundos, assim não acordará Francislaine sua esposa.

Gostaria de presentear sua mulher, mas o dinheiro anda curto e hoje acertara o fiado com o Mané. Sobraram umas merécas para o pão e o leite das crianças, a mistura do mês não estava totalmente garantida. O Vale Gás, a Bolsa Família, mais a Cesta Básica do patrão dariam segurança até o próximo pagamento. Francislaine era boa companheira, cuidava da casa, dos filhos, dele e do cachorro, merecia um pouco mais de atenção, largara os estudos básicos ao engravidar, seu sonho era cursar psicologia e por isso vivia a dar conselhos a torto e a direita.

Sabia que exagerava na bebida, falhara com seus pais e consigo mesmo, sua cabeça não era boa para o estudo, não era má pessoa, gostava de cantar e curtir a vida com os amigos. Quem sabe no futuro um de seus meninos se formasse doutor, agora com as tais Cotas Raciais era mais fácil chegar lá. Ficaria feliz de ver um filho com a vida aprumada, gosto que não dera a seus pais. Por seus filhos faria qualquer sacrifício, até largar a “marvada” pinga. No próximo domingo conversaria com o Bonje, seu amado protetor e pediria auxílio.

Estava tão bêbado que tropeçou, não queria acordar as crianças, não podia dar mau exemplo, mas o corpo não obedecia. Foi arrastando-se até a porta do quarto, aparentemente ninguém acordou... Forçou de leve a velha porta e recebeu em cheio três tiros certeiros do dono da casa que apavorado gritava:- “Mulher sai debaixo da cama, o ladrão está morto!”

Ah! Essas casas antigas pintadas na mesma cor. Essa iluminação precária. Esse medo que aprisiona e que faz de cada cidadão um refém em seu próprio lar. Essa insegurança que ronda pela cidade destruindo famílias. Esses horrores mostrados na tevê. Esses gritos inúteis de socorro dentro da noite. Pesadelos que matam os sonhos e nos transformam em caçadores furtivos. Na madrugada uma mulher chora abraçada aos filhos que perderam o pai. Um vizinho transtornado tenta explicar ao delegado que confundiu o amigo com um ladrão. Na casa em frente à música alta abafa os soluços:- “Eu só quero ser feliz na favela onde nasci...”


Gastão Ferreira/2011

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