sábado, 29 de janeiro de 2011

MONÓLOGO DE UM CÃO


MONÓLOGO DE UM CÃO

- Olá pessoal! Sou um cão, meu nome é Hidy e sou o melhor amigo do Senhor Otha. Estamos visitando Iguape, enquanto meu dono desfruta das compras nos modernos supermercados, eu vejo as novidades. Que maravilha os novos ônibus! Todos do século passado e condizentes com uma cidade histórica de patrimônio tombado, no futuro eu ainda vou correr atrás de charretes, nada como o progresso para incentivar os cidadãos a melhorarem de vida.

- Na orla do lagamar, muita gente exercitando-se no calçamento. Algumas pessoas estão deitadas na grama, acho que são turistas todos alcoolizados e fazendo gracinhas para as senhoras que praticam a caminhada matinal. Gostei de ver! Nada como uma paquera para levantar o astral dos humanos. Só não entendo porque as mulheres ficam tão apavoradas com criaturas tão gentis e bem educadas.

- A cidade está uma belezoca. Estão cobrando pedágio dos ônibus de turismo. Também com tantos visitantes é bom que paguem para usufruir o privilegio de conhecer as belezas naturais que possuímos. Dizem que em algumas cidades mais pobres os excursionistas são incentivados com descontos em hotéis e restaurantes, mas por aqui, quem precisa de turistas?

- Tenho muito orgulho de morar num município tão bem administrado, segurança plena, ruas limpas, calçadas sem buracos, gente feliz e sorridente. Algo que chama a minha atenção é a quantidade de pedintes pela cidade. Antes era só no centro antigo, mas agora as vilas contam com essa modalidade de cobrança de pedágio pelo direito de ir e vir. Até os pequenos curumins de uma aldeia indígena aderiram à moda, enquanto seus pais vendem o palmito retirado das matas, as crianças fazem a festa e pedem dinheiro a todos que encontram... Uma gracinha!

- É verdade que sou um cão e posso não entender o comportamento dos humanos. Acho uma boa idéia essa de por os Urubus para trabalhar de graça na limpeza pública, parece que eles também gostam, pois são centenas a furarem os sacos de lixo, a catarem restos de alimentos do chão... Uma comilança bonita de ver!

- Moro num sitio e raramente venho à cidade. Acompanho meu dono em suas visitas a amigos e familiares. Todos me conhecem e sabem o meu nome completo Hidy Otha. Estranhei a quantidade de pessoas motorizadas que se perdem na cidade cheia de placas. É um tal de perguntarem como se faz para sair na BR... Humanos burros! É só seguirem as placas indicativas, até um Hidy Otha sabe!

- Quando venho na cidade presto atenção em tudo, menos na conversa dos humanos. Eles são muito confusos, falam de alguém chamada Politicagem e culpam-na por todos os males que afligem os moradores do município... Só por Deus!

- Futuramente vamos bater um novo papo e desvendar juntos os mistérios que rondam pelas encruzilhadas da vida, eu adoro novidades, gosto de ver as pessoas felizes. Com licença! Meu dono, o senhor Otha está me chamando:- “Hidy Otha! Vamos embora.”

Gastão Ferreira

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

CRÔNICA AO AMANHECER


CRÔNICA AO AMANHECER

Muitos iguapense têm por hábito ou esporte predileto falar mal de nossa cidade. É um direito só deles esse comportamento. Quando um estranho ou turista ousa fazer um simples comentário desairoso viram uma fera e defendem a Princesa do Litoral com unhas e dentes. Encontram defeitos em tudo e em todos. Um forasteiro fica abismado com essa estranha maneira de amar a cidade.

Numa comunidade fechada onde todos se conhecem, onde todos os pecados são filmados e nenhum segredo fica impune, tudo gira em torno da política, do efêmero poder que muda de mão a cada quatro anos e que de uma hora para outra puxa o tapete de quem pensa ser a última Manjuba do Ribeira. O humilde de hoje será o arrogante de amanhã, aquele que exigirá um beija mão ultrajante do necessitado, seja na demora injustificada para uma audiência ou no descaso com o semelhante. Ao findar o período de Tainhas gordas, a poderosa personagem se transformará na própria humildade esquecendo-se do que aprontou. Filme já assistido inúmeras vezes por muitos de nós.

Assim é o reino dos homens! Esses mortais que nunca aprendem a grande lição; - Nascemos de mãos vazias e partimos de mãos vazias. Tudo o que é do mundo permanece no mundo, só levamos conosco para a eternidade o efeito de nossas ações boas ou más, elas serão nossas companheiras no pós morte, constituirão nosso inferno, nosso purgatório, nosso paraíso. A vida ensina a vida cobra, a vida julga. Esse ciclo chama-se aprendizado.

Podemos encontrar distorções em tudo e em todos, pois nossos defeitos reconhecem no outro o que mora dentro de nós. Numa ocorrência em que jamais encontro falha é no amanhecer em nossa cidade, nas inúmeras vezes em que madrugo para assistir ao nascer do sol fico extasiado perante tanta beleza. São nesses momentos que sinto a grandeza que nos cerca.

Um pouco antes do alvorecer, quando o espaço se tinge de leve dourado, começa a migração diária das aves que pernoitam nos mangues, nos confins da Ilha, nos baixios do lagamar. Primeiro são os Urubus aparecendo por trás das montanhas, se dividem em grupos e cada um tem seu percurso pré-estabelecido, Icapára, Ilha Comprida, Mathias, Rocio, Iguape. São centenas e aparentemente surgem do mesmo local por trás do Morro do Espia. Em segundo lugar são os Biguás que em pequenos bandos de oito a doze aves enfeitam o céu, são dezenas e dezenas de pássaros que saem dos manguezais e voam para alem da cidade em direção ao Rio Ribeira. As pequenas Garças brancas seguem na rota enquanto bandos de Pombas, Andorinhas e Bem-te-vis saúdam o novo dia.

Quem observa o amanhecer em Iguape fica abismado com a quantidade de aves que cruzam o céu em busca de alimento em lagos, rios e canais da região. Fica encantado com as diferentes espécies que adejam sobre a cidade, desde o pequeno Beija-flor ao nobre Gavião, passando pelas Saíras, Sanhaços, Cambacicas, Rolinhas, João de Barros, Lavadeiras, Sabiás, Tico-ticos e muitas e muitas outras das quais me foge o nome. É nesse momento que agradeço a Deus morar em Iguape, compartilhar desse pedacinho do paraíso onde se pode sentir a grandeza da criação. Quem assiste ao alvorecer em Iguape jamais deixará de acreditar num futuro melhor para nossa cidade.

Gastão Ferreira/2011

sábado, 8 de janeiro de 2011

MARIAZINHA


HISTÓRIAS DO FIM DE MUNDO

Existe uma terra para alem da última fronteira conhecida. Um lugar esquecido que não consta de nenhum mapa. Um lugar onde tudo pode acontecer. Um lugar chamado Fim de Mundo...

MARIAZINHA

A guria foi encontrada ainda bebê sendo amamentada por uma macaca na orla da grande floresta por dona Benta, a gorda. A mulher era uma pessoa muito bondosa e honesta, matou a macaca e vendeu o bebezinho para sua melhor amiga, dona Geny, a santa.

Dona Geny era mesquinha e intolerante, proprietária da única casa de tolerância em Fim de Mundo, comprou a menininha com o intuito de garantir seu plantel... A escolha do nome foi um problemão... Shauana, Thalulla, Thiusdei, Cristal, etc... Todos nomes de guerra que não colaram e a infante foi chamada de Mariazinha.

Mariazinha era amada, no bom sentido, por todos os fregueses de madame Geny que já estavam de olho no futuro da moleca. Na hora do banho faziam fila para espionarem a nudez da criança, pagavam uma nota preta à babá, que colocava o dinheiro em um cofrinho apelidado pé-de-meia. Mariazinha conferia o valor de cada cédula, pois não confiava em nenhum dos cafajestes pedófilos que adoravam ver uma inocente menininha tomando banho pelada.

Um belo dia o Conselho Tutelar bateu na porta da zona, uma denúncia não tão anônima, o levou até lá. Um dos muitos manda-chuvas da localidade não quis pagar pelo programa usufruído e depois de um bate boca delatou madame Geny às autoridades competentes que também não saiam da casa de tolerância, mas que nunca notaram a presença de uma criança servindo drinques nas mesas, a desculpa esfarrapada foi que pensavam que era uma anãzinha.

Mariazinha foi despachada para a Casa da Criança Feliz, um abrigo para menores que sofriam maus tratos familiares, queimaduras, torturas, estupros, surras diárias e “otras cositas mas”. Um mês depois foi retirada, na calada da noite, da instituição. Ensinou tanta sacanagem para a criançada que a casa estava virando um prostíbulo. Assim os humanitários e competentes conselheiros devolveram Mariazinha para a floresta.

Passou um tempo e um helicóptero pousou em Fim de Mundo. Dele desceu uma imponente figura. Estava tentando confirmar uma história da qual ouvira rumores... Um bebê achado na floresta há oito anos. Um caçador matara um filhote de macaco durante um safári de um milionário e sua família. A mãe do macaquinho fuzilado raptou o bebê, filha do ricaço, e, fugiu para a mata. O nababo estava oferecendo uma nota fabulosa a quem encontrasse sua única herdeira.

Toda a população de Fim de Mundo participou da busca, não era pelo dinheiro diziam, era por amor a criança que desaparecera da Casa da Criança Feliz... Mariazinha. Um cachorro abandonado encontrou a menina na margem de um pequeno rio, brincando com pedrinhas brilhantes, a garotinha guardou algumas no bolso e seguiu o cão. A imponente figura colocou o cachorro sarnento e a menininha no helicóptero, deu adeus à cidade dizendo:-“ Vou levar o cão para receber a recompensa.”

Fim de Mundo nunca mais foi à mesma. Passado algum tempo a floresta foi comprada por gente estranha. Colocaram arame farpado a sua volta, muitos aviões aterrizaram dentro da mata, homens armados impediam a passagem pela selva. As pedrinhas com as quais Mariazinha brincava eram diamantes e seu rico papai comprara as terras. Fim de Mundo, hoje é uma cidade tombada. Parou no tempo, as velhas casas desabando na espera que Mariazinha retorne ao local onde foi tão feliz... Mariazinha nunca mais voltou, aliás, seu verdadeiro nome era Catherine e a única coisa boa que fez por Fim de Mundo foi comprar pelo menor preço a zona de madame Geny e tocar fogo. O cachorro sarnento, agora muito pimpão a acompanha em suas viagens pelo planeta.

Gastão Ferreira/2011

Observação:- Este texto é para exercitar a imaginação. O único animal que possui a capacidade de criar é o bicho homem.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

AMOR TOMBADO


AMOR TOMBADO...

A existência não é nada fácil para quem teima em viver de aparências. O nobre Senhor Conde Fat, apesar do título, nasceu num prédio em ruínas, um sobrado secular cujas eiras e beiras foram vendidas para assegurar o leite do infante recém vindo ao mundo. Com a queda do império seu nobre pai perdeu a boquinha na corte e pela primeira vez na vida procurou um emprego. Acostumado que estava à só usufruir de verbas públicas, comeu o brioche (Nobre que é nobre não come pão!) que o tinhoso amassou. Foi nesse período de vacas e cavalos magros que Fat nasceu.

A mãe da criança abandonou o marido assim que notou que título de nobreza não põe comida na mesa. Na verdade fugiu com o trapezista de um circo mambembe e foi curtir a paisagem. Com o tempo foi trocada por uma bailarina espanhola, mas estes detalhes sórdidos não interessam a nossa história.

O menino Fat cresceu sem o carinho de uma mãe, o pai vivendo de pequenos biscates e enchendo a cara pelos botecos da vida, apegado ao título de nobreza, entupia a cabeça do guri com seus sonhos do passado. O miúdo assim criado se achava a última gota de perfume Frances da favela. Apaixonou-se por prédios históricos e desde então tenta salvar da ruína total tais edificações. Pelo que consta até o presente momento não conseguiu salvar nenhuma habitação da destruição.

Após a morte do pai, o título de Conde passou a lhe pertencer e como todo o mundo gosta de ter um nobre como amigo, os puxa sacos apareceram e realizaram seus sonhos... O Conde Fat se tornou importante. O único problema é que não possuía um centavo e dependia de camaradas extremamente corruptos para executar o que se propunha a fazer. Foi nessa época que apareceu em sua vida a bela e inocente Ifam.

Ifam era jovem, insinuante, sabia usar as palavras certas para certos trambiques. De inocente nunca teve nada. Todo o ouro que chegava a suas delicadas mãos era repartido com o restante da quadrilha. Os benefícios eram sempre menores do que a fatura, uma obra sobre sua supervisão custava milhões, mas executada por particulares o custo da mesma obra era ínfimo. O que ela possuía de pilantra também possuía de esperta. Era riquíssima, mas não tinha como usufruir do seu ouro rapinado. Precisava casar com alguém acima de qualquer suspeita Tanto paparicou o velho Senhor Conde Fat que o babaca do ancião se apaixonou e acabou lhe propondo casório.

Tudo o que a safada da Ifam necessitava era de costas quentes para que os amigos continuassem a agir nas sombras sem serem molestados. O casamento do Conde Fat com a jovem Ifam causou espanto entre as pessoas de bem, entre os que jamais trabalharam e se nutrem das verbas de impostos mal empregadas o fato foi tido como o início de um tempo de impunidades e dinheiro farto.

O simpático casal vive em constantes viagens, nas cidades onde se hospedam os prédios desabam, bens públicos desaparecem, querem mandar na vida e nos imóveis das pessoas, mas dinheiro para as reformas que teimam em exigir jamais aparece. O casamento entre o Senhor Conde Fat e a jovem Ifam é fruto de um Amor Tombado, uma estranha forma de amar onde um grupo privilegiado de indivíduos só pensa em si mesmo e jamais permitem que um reles cidadão votante e pagador de impostos, questione sobre suas “beneméritas” ações.

Gastão Ferreira/2011

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

TREBADO


TREBADO



Na cidade tombada, por exigência da lei, as casas foram pintadas na mesma cor. No antigo Beco das Velhas, hoje denominado Travessa Melhor Idade, ficou difícil no escuro diferenciar uma habitação da outra. Entre cervejas e muita pinga a cantoria foi até tarde. A saideira foi à música imortal de “Eu só quero ser feliz na favela onde nasci”. Naquela noite, Alcides tomou umas e outras e mais outras, estava completamente trebado quando saiu do boteco do Mané Peixe. Madrugada fria e chuvosa, Alcides tenta saltar as poças d’água que teimam em alagar as velhas ruas de calçamento irregular. Caiu muitas vezes... Não encontra a chave da casa, melhor entrar pelos fundos, assim não acordará Francislaine sua esposa.

Gostaria de presentear sua mulher, mas o dinheiro anda curto e hoje acertara o fiado com o Mané. Sobraram umas merécas para o pão e o leite das crianças, a mistura do mês não estava totalmente garantida. O Vale Gás, a Bolsa Família, mais a Cesta Básica do patrão dariam segurança até o próximo pagamento. Francislaine era boa companheira, cuidava da casa, dos filhos, dele e do cachorro, merecia um pouco mais de atenção, largara os estudos básicos ao engravidar, seu sonho era cursar psicologia e por isso vivia a dar conselhos a torto e a direita.

Sabia que exagerava na bebida, falhara com seus pais e consigo mesmo, sua cabeça não era boa para o estudo, não era má pessoa, gostava de cantar e curtir a vida com os amigos. Quem sabe no futuro um de seus meninos se formasse doutor, agora com as tais Cotas Raciais era mais fácil chegar lá. Ficaria feliz de ver um filho com a vida aprumada, gosto que não dera a seus pais. Por seus filhos faria qualquer sacrifício, até largar a “marvada” pinga. No próximo domingo conversaria com o Bonje, seu amado protetor e pediria auxílio.

Estava tão bêbado que tropeçou, não queria acordar as crianças, não podia dar mau exemplo, mas o corpo não obedecia. Foi arrastando-se até a porta do quarto, aparentemente ninguém acordou... Forçou de leve a velha porta e recebeu em cheio três tiros certeiros do dono da casa que apavorado gritava:- “Mulher sai debaixo da cama, o ladrão está morto!”

Ah! Essas casas antigas pintadas na mesma cor. Essa iluminação precária. Esse medo que aprisiona e que faz de cada cidadão um refém em seu próprio lar. Essa insegurança que ronda pela cidade destruindo famílias. Esses horrores mostrados na tevê. Esses gritos inúteis de socorro dentro da noite. Pesadelos que matam os sonhos e nos transformam em caçadores furtivos. Na madrugada uma mulher chora abraçada aos filhos que perderam o pai. Um vizinho transtornado tenta explicar ao delegado que confundiu o amigo com um ladrão. Na casa em frente à música alta abafa os soluços:- “Eu só quero ser feliz na favela onde nasci...”


Gastão Ferreira/2011