terça-feira, 7 de dezembro de 2010

INFELIZ ANO VELHO/2010


INFELIZ ANO VELHO/2010

Vocês leram o relato de minha chegada no texto acima. Agora eu devo voltar a Pariquéra para buscar o Novo Ano que vai nascer, ou seja, continuamos sem uma maternidade. Não sou mais aquela criança tolinha e cheia de sonhos, sou um ancião alquebrado de 365 dias, um velhinho da melhor idade, reumático, ranzinza, um pé na cova... Rsrsrs... Que presenciou coisas de arrepiar cabelo de careca.

Quero deixar bem claro que não sou culpado pelos nefandos fatos ocorridos durante meu reinado. Sei que não passei de um Ano medíocre para a maioria dos habitantes da cidade... Não consegui preservar o barco presenteado pela Marinha do Brasil da depredação, não evitei a derruba sistemática das árvores, nem a plena destruição do quase centenário Pau-Brasil da Rua da Saudade.

Os urubus continuam fazendo a festa, as ruas a receber o lixo descartado por cidadãos que jamais verão uma lixeira na vida, os velhos casarões se deteriorando cada vez mais na espera de verbas que nunca chegarão. As crianças desacompanhadas ainda persistem altas horas da noite em infernizar a vida alheia e pessoas idosas são assaltadas e chutadas por garotos que permanecem impunes...

Hoje é igual à ontem... Filhos que vão embora a busca de trabalho e que deixam um vazio no coração de seus pais. Pais que perdem filhos para as drogas, para acidentes de transito, para o roubo, para o crime... Filhos que perdem os pais para a doença, para o atendimento social precário, para a consulta que chega tarde e que foi marcada para três meses no futuro, ciente de que a enfermidade não espera tanto tempo.

Cheguei pleno de sonhos e realizações, volto de mãos vazias. Passei rápido por suas vidas... Sei que deixarei marcas de aspirações não concretizadas, lacunas a preencher, ódios renovados, fantasias desfeitas pela realidade avassaladora, mas quem sou eu?Sou parte do tempo e recipiente de experiências... Interajo com os homens.

Aprendi que o bem comum depende das pessoas envolvidas na defesa da coletividade, que são elas que modificam os fatos para melhor ou pior. Que são elas que fazem o acontecer, que sem mobilização, cobrança, luta, ninguém sai do lugar. Que os indivíduos vitoriosos são os que pagam o preço do ousar... Que o medo paralisa, que a submissão animaliza o homem... Que o herói só vence porque não desiste de sonhar.

Aprendi que todo o ser humano nasce para a felicidade, que o segredo de ser feliz é ser digno, ser honesto, ser humilde perante a vida. Que Ser é mais importante do que Ter... Que tudo que é do mundo permanece no mundo e que todos os bens materiais são peso para uma alma que se quer imortal. Que a simplicidade e a alegria de existir são a plenitude da vida. Que cada momento é único e jamais voltará. Que cada dia é um degrau dessa escada existir, que a escolha de subir ou descer por essa escada é coisa pessoal e que o preço é o bem ou o mal.

Que o Novo Ano chegue pleno de realizações, que abra a mente dos cidadãos que defendem essa cidade da escuridão moral, dos rompantes autoritários, dos pobres de espírito que se julgam donos do que nunca foram, da maldade gratuita e sem sentido dos sem caráter, dos vendilhões, dos assassinos de sonhos alheios.

Cada pessoa tem o poder de mudar seu mundo interior, algumas pessoas unidas podem mudar uma cidade e todas as pessoas juntas podem mudar o mundo... Feliz Ano Novo!

Gastão Ferreira/2010

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