quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

CARTA DE NATAL



NUNCA MAIS

Querida mamãe Noel. Espero que nosso amado Pombo Correio tenha vencido a distancia que nos separa e entregue essa cartinha. Minha boa velhinha! Neste momento estou numa cidade muito antiga, apelidada pelos pacatos cidadãos de Pindaíba e foi ao me aproximar do lugarejo que tudo começou a dar errado.

Primeiramente tive de substituir as renas. Acostumadas ao frio do pólo norte não suportaram o calor dos trópicos. Arranjei quatro veadinhos catingueiros para puxarem o trenó ao qual adaptei duas rodas, pois por aqui não cai neve. Esses veados são muito, muito sensíveis; Irritam-se facilmente, fazem poses, empacam, dão vexame, se acham o último oásis do deserto e não suportam criticas, adoram viver de elogios.

Na entrada da cidade, devido a um buraco no asfalto, uma das rodas quebrou. Alem de suportar o chilique dos veadinhos, meu trenó foi saqueado e os melhores presentes desapareceram. Perdi os endereços de entrega. As placas de transito são por demais confusas, fiz perguntas aos moradores locais e não obtive resposta, aparentemente ninguém fala inglês por essas bandas.

Fui multado diversas vezes, tanto por excesso de velocidade quanto por trafegar na contramão. Não! Não estava a 120 km por hora e sim a 40 km. Estou um trapo minha velhinha! Cortaram as árvores e não acho uma sombra para fugir do calorão. Encontrei uma fonte, aliás, um lindo recanto onde os veados mataram a sede. Alguma coisa estava errada com a água, o capim, o ar... Sei lá! Os animais mostraram um comportamento muito estranho e começaram a devorar toda e qualquer graminha, parece que é uma doença chamada larica.

Um dos veadinhos, o Junior, deu o maior vexame. Não sei se foi devido ao cheiro de mato queimado, típico do local ou de algo que comeu e não gostou, Junior é muito manhoso! Deitou-se na grama e se fingiu de mortinho. Alguns urubus se aproximaram para fazer a festa, o catinguento despertou e foi à maior baixaria. Ainda bem que os fumetas e pedintes que acampam no jardim não entenderam a linguagem do animal. Cada palavrão!

Por falar em pedintes! Como têm por aqui. Exigem dinheiro para comprarem pão, café, lanches,... Só não pedem para pinga! Ainda bem... O interessante é que aparentemente só bebem água e vivem bêbados o tempo inteiro. Os nativos endeusaram os bons jogadores de futebol, pois a todo o momento eu ouço dizer que tem muito craque na cidade.

Acho que o homem mais rico do município é um nobre, seu nome é Conde Qualquer Coisa. Notei frente a diversos imóveis em ruínas placas com os seguintes dizeres:-” Aguardando verba do Conde “... A urbe está literalmente tombada, são muitos e muitos prédios caindo aos pedaços, destelhados e cheios de mato ao redor.

Estou deveras decepcionado, tanto as crianças como suas mães se excedem nos palavrões em locais públicos, os adolescentes assaltam os desavisados e xingam os mais velhos... Os mendigos vivem no centro da cidade, cobram pedágio dos transeuntes e coitado de quem não tiver algum trocado, é ofendido e não tem a quem reclamar.

A concorrência por aqui é muito traiçoeira, ouvi dizer que tem nove indivíduos se passando pelo Papai Noel e que deram um presentão para algumas pessoas, o presente é retroativo ao ano de 2005 e quem vai pagar é o povo... Rsrsrs... Não falei! Concorrência desleal.

Espero retornar ao lar antes do fim do ano, estou acertando os impostos ou meu trenó será penhorado... Os presentes foram confiscados na cara dura e estão de olho nos veadinhos para futuro churrasco ou coisas piores. Mamãe Noel! A situação é calamitosa. Todos estão cientes do aperto que passo e ninguém me ajuda. A população tem medo de exercer a cidadania, qualquer crítica é tida como ofensa. Quem não beija a mão que estapeia é considerado um inimigo... Coisas da Idade Média! Parece que o povão gosta, pois não ouvi reclamações. Vou riscar essa cidade do meu roteiro anual... Pindaíba! Nunca mais.

Um abraço de seu marido... Noel.

Gastão Ferreira/2010

Obs. – Esta crônica não serve de carapuça a ninguém... É óbvio que o texto é ficção e nada tem a ver com nossa realidade, qualquer semelhança é mera coincidência. Feliz Ano Novo aos nossos leitores.

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