sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

PLANETA PRISÃO


PLANETA PRISÃO

Na doutrina espírita a Terra é considerada um dos muitos planetas prisões que orbitam no universo. Aqui ninguém é inocente, estamos em diferentes estágios no ressarcimento de crimes cometidos num passado remoto. O que nos trouxe para esse mundo foi o orgulho e o egoísmo. O egoísmo é essa cela sombria onde trancamos nosso ego sem compartilhar com os semelhantes à possibilidade do auxílio. O orgulho é o pai de todos os males. O orgulhoso se crê superior e único dono da verdade, incapaz de compaixão, é o câncer a corroer a sociedade nos afastando da fonte da irmandade que nos iguala a todos dentro da criação.

Comparando a Terra com uma cadeia normal podemos afirmar que os encarcerados deixam do lado de fora da prisão familiares e amigos, assim também nós deixamos em mundos distantes pessoas amadas. Quando Lúcifer caiu das alturas trouxe consigo milhares de espíritos endividados pelo orgulho e o egoísmo... Muitos e muitos Anjos decaídos com seus seguidores foram através dos tempos degredados para o planeta azul e aqui permanecem no longo aprendizado da dor até a paga total dos erros praticados.

Igual a uma prisão normal, alguns estão prestes a serem liberados, outros já o foram e para muitos prisioneiros é apenas o começo do longo

acerto de conta com sua própria consciência.Um dia todos aprenderão a grande lição libertadora, a única que nos despertará para os valores espirituais:- “Ama ao teu próximo, como a ti mesmo.”

Fora dos muros dessa prisão cósmica a vida continua. Será que nossos parentes e amigos ainda lembram-se de nós?Torcem por nossa completa recuperação?Visitam-nos quando permitido?Igual na Terra estarão a nossa espera no momento da liberdade?Um dia saberemos!

Nossa família espiritual é algo alem de nossa compreensão, dela constam desde o Anjo mais puro e compassivo ao Demônio mais recalcitrante. Todos nossos amigos, todos saudosos de nossa presença, todos nos querendo a seu lado. A escolha também chamada livre arbítrio é nossa e sempre podemos optar entre a luz e a treva. Somos livres na preferência, mas o preço por nossos atos é uma paga pessoal.

Que possamos fazer a lição do aprendizado e voltar felizes e livres para casa. Quando não aceitamos as aulas do Amor, a Dor torna-se mestra e nos ensina.

Criada para a liberdade, a Alma imortal, principio inteligente do universo busca a realização plena. Feita cativa pelos próprios desacertos, através do conhecimento e da dor aprenderá no sofrimento passageiro a lição que a transformará em Amor. Herdeira das estrelas, suas muitas casas no espaço, na hora em que conseguir amar a toda a criação como a si mesma, estará livre para vivenciar a eternidade.

Gastão Ferreira

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

PROGNÓSTICOS/2011


PROGNÓSTICOS/2011

Consultando o famoso livro “Anotações da Sibila da Juréia”, descoberto em 1502 por Mestre Cosme Fernandes, conhecido como o Bacharel de Cananéia, em um sambaqui da região e que contém revelações, profecias e muitas fofocas sobre fatos que ocorrerão num futuro longínquo numa cidade cognominada a Princesa do Mar, encontrei as seguintes visões sobre o ano de 2011.

“- Na cidade tombada as carruagens estrangeiras coletivas voltarão a pagar pedágio e muitos retornarão inconsoláveis do portal onde ocorrerá a cobrança.” Não farei comentários sobre tal presságio, apenas relato o que foi escrito pela Sibila, que cada um tire suas próprias conclusões.

“- Cinderela ganhará um único sapatinho de cristal cor de rosa e buscará um novo príncipe encantado. Na festa pagã ela realizará seus sonhos e um jovem amor aparecerá.” As Sibilas eram conhecidas desde a antiguidade como videntes e feiticeiras, é bem provável que devido à idade avançada nossa Sibila da Juréia confundiu a Princesa do Mar com alguma cidade européia.

“- Um nobre Conde não salvará os leões venezianos, eles despencarão do alto do telhado devido às chuvas prolongadas e se perderão para sempre” Não falei que a Sibila devia estar na melhor idade! Leões venezianos? Coisas da Europa.

“- Na urbe que detesta árvores, muitas perecerão pelas mãos dos que deviam protegê-las.” Nada a ver conosco, nossa cidade ama o verde.

“- O vil metal falará mais alto, seu grito será ouvido por todos e as pessoas de bem ficarão mudas e envergonhadas.” Não consegui entender a mensagem.

“- O joio e o trigo farão as pazes, entre fogos nos céus a festa estará garantida.” Esta Sibila era caduca! Que será que ela cheirou?

“- Com mãos limpas e amor no coração, os príncipes aumentarão seus ganhos e o reinado da impunidade será completo.” Muito complicado! Esta Sibila é maluca.

“- Aves negras disputarão com pedintes a sobra dos banquetes dos nobres de sangue pobre. Quem contestar será tido como inimigo, todos beijarão a mão que estapeia.” Sei não! Parece uma praga.

O restante das anotações sobre 2011 estão fragmentadas, lembrem que o livro foi encontrado em um sambaqui de três mil anos. Existem desenhos de uma barragem, prédios velhos desmoronando, moedas caindo do céu, pessoas felizes aplaudindo e poucas jogando pedras, igualzinho ao ano passado.

2010 foi embora e levou consigo conquistas e derrotas. Esperanças não realizadas, sonhos desfeitos, perdas e ganhos. Cada ano que chega é um livro de 365 páginas em branco aonde vamos anotando o nosso viver. Que 2011 este livro novinho que cada um de nós acabou de receber possa ganhar muitas e belas anotações.

Gastão Ferreira

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

NESTE NATAL


NESTE NATAL

Neste Natal quero esquecer o Papai Noel das promoções, das ceias fartas e gordurosas, dos presentes embrulhados em afetos interessados. Não quero o Noel das lojas enfeitadas para atrair consumidores, do celofane brilhante das cestas de artigos desnecessários, das bebidas que afogam tristezas rotuladas de alegrias.

Neste Natal dispenso abraços ensaiados e sorrisos sob medida, sentimentos falsos e emoções que encobrem a aridez do coração. Não quero presentes dos ausentes, não quero essa troca de produtos entre mãos que não se abrem para a solidariedade e a compaixão. Não quero bocas pronunciando palavras decoradas, despidas de verdade e afeto.

Neste Natal não me interessa as promessas falsas dos políticos, os cartões impressos a granel, cheios de coloridos e vazios de originalidade. Não quero a companhia de pessoas amargas, das invejas que me afastam de mim mesmo, das ambições que me entristecem. Não deixarei o pouco que me resta de sensatez resvalar para o constrangimento, não aceitarei brindes de mãos que não se tocam, nem irei às ceias dos que se devoram entre ciúmes ridículos e ostentação.

Neste Natal quero estar junto ao aniversariante. Não viajarei para longe de mim mesmo nem rezarei pela bíblia dos que professam o medo, dos que humilham os semelhantes, dos que semeiam ódios e discórdias. Deixarei que as águas do mar lavem a minha alma e pedirei que o menino cresça em meu coração despregado da cruz. Que seus ensinamentos floresçam sobre a pedra bruta do meu ser e me transformem numa pessoa melhor.

Pedirei ao menino que abra a mente de nossos governantes para o bem coletivo, que as pessoas possam ter o suficiente para uma vida digna, que as crianças tenham amor ao estudo, que os adolescentes tenham um futuro promissor, que o lar volte a ser um ninho de afeto e aprendizado, formando cidadãos responsáveis e honestos. Que a vinda do menino seja uma benção e que todos possam beber dos seus ensinamentos.

Quero que neste Natal não falte comida na mesa do mais pobre, que o nobre não dissipe em uma noite o que mataria a fome de muitos, que o desonesto ao mimosear os filhos pense nos filhos de suas vítimas sem a possibilidade de presentes. Que a humanidade faça a lição de casa ensinada pelo menino:- “Ama ao teu próximo como a ti mesmo.”

Quem ama ao seu semelhante, ama a si mesmo e não mata, não corrompe, não destrói a Natureza sua fonte de alimentação, não polui a água que lhe dá o peixe, não joga lixo na rua que é um bem comum, não maltrata os animais nossos irmãos no existir. Quem ama vê em cada semelhante um irmão em diferentes estágios de evolução. Quem ama tem compaixão pela dor alheia e busca auxiliar a todos os seres nessa jornada planetária. Um dia despertarão no outro lado da vida, as máscaras ficarão aqui. Lá o menino é o rei e dará a cada um de nós a paga pelo que plantamos. Desejo a todos uma boa semeadura e uma ótima colheita.

Gastão Ferreira

sábado, 25 de dezembro de 2010

ESPÍRITO NATALINO


ESPÍRITO NATALINO

Que maravilha! O Espírito Natalino desce uma vez por ano sobre a cidade com força total. Os comerciantes aproveitam o ensejo e aumentam os preços e as vendas. Os pedintes usam esse momento mágico para ganhar uma graninha extra e cobrar um Feliz Natal com direito a apertos de mãos e os mais carentes dentre eles um abraço, sem nunca se esquecer de solicitar um dinheiro para o famoso cafezinho.

Pessoas que passam o ano todo se achando o rei da cocada preta, cumprimentam a tudo e a todos. Gente orgulhosa e metida a besta de uma hora para outra se transforma na própria humildade. Nas ruas os transeuntes recebem gratuitamente sorrisos e abraços como se fossem amigos do peito.

Esse comportamento diferenciado muda alguns dias após o inicio do Novo Ano e tudo volta a ser como dantes no quartel de Abrantes. O que gosta de humilhar os semelhantes retorna a rotina de Ser Superior, o orgulhoso tranca seus sorrisos, o avarento suas esmolas, o arrogante desanda a dar chiliques e a vexar os subalternos. Todos dão adeus alegremente e sem culpas ao Espírito Natalino que só retornará no próximo ano.

Há dois mil anos um menino nasceu em Belém e presenteou o mundo com uma mensagem divina. Revelou que na casa de seu pai havia muitas moradas e que para merecer esse domicílio o homem deveria amar aos seus semelhantes como a si mesmo, que todos os bens materiais ficam na Terra e que só podemos levar conosco o que de bom cultivamos em nossos corações. Que o orgulho, o egoísmo, a vaidade, a prepotência e a arrogância dificultam nossa mudança para esse lugar bem aventurado.

Quando essa criança sublime tornou-se adulto deu a todos um exemplo de vida que era um roteiro a ser seguido; - “Ama ao teu próximo, perdoa aos que te ofendem, viva com moderação, não julgue ninguém, auxilia sempre, não dificulte a vida do teu semelhante, não cultive ressentimentos, não torne pesado o teu próprio fardo.”

É o natalício do menino Jesus que festejamos em Dezembro, um bebê que não teve um berço decente para adormecer, um filho de pais carentes... Uma criança que trouxe uma renovação de esperança e modificou o mundo através do seu exemplo de dignidade, caráter e humildade. Compramos presentes, comemos o máximo aceitável, brindamos com todas as bebidas possíveis e esquecemos o essencial. Olvidamos as revelações do menino Jesus e imêmores nem sequer agradecemos sua mensagem.

É Natal! Que presente ganharei? Quais presentes comprarei?O que vou vestir? O que vou comer?Coitadinho do aniversariante! O homem que legou o maior de todos os presentes a humanidade, permanece o grande esquecido. Parabéns ao espírito natalino que nos visita distribuindo brindes a amigos e colaboradores, e, esquece-se de desejar um Feliz Aniversário a Jesus.

Gastão Ferreira

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

CARTA DE NATAL



NUNCA MAIS

Querida mamãe Noel. Espero que nosso amado Pombo Correio tenha vencido a distancia que nos separa e entregue essa cartinha. Minha boa velhinha! Neste momento estou numa cidade muito antiga, apelidada pelos pacatos cidadãos de Pindaíba e foi ao me aproximar do lugarejo que tudo começou a dar errado.

Primeiramente tive de substituir as renas. Acostumadas ao frio do pólo norte não suportaram o calor dos trópicos. Arranjei quatro veadinhos catingueiros para puxarem o trenó ao qual adaptei duas rodas, pois por aqui não cai neve. Esses veados são muito, muito sensíveis; Irritam-se facilmente, fazem poses, empacam, dão vexame, se acham o último oásis do deserto e não suportam criticas, adoram viver de elogios.

Na entrada da cidade, devido a um buraco no asfalto, uma das rodas quebrou. Alem de suportar o chilique dos veadinhos, meu trenó foi saqueado e os melhores presentes desapareceram. Perdi os endereços de entrega. As placas de transito são por demais confusas, fiz perguntas aos moradores locais e não obtive resposta, aparentemente ninguém fala inglês por essas bandas.

Fui multado diversas vezes, tanto por excesso de velocidade quanto por trafegar na contramão. Não! Não estava a 120 km por hora e sim a 40 km. Estou um trapo minha velhinha! Cortaram as árvores e não acho uma sombra para fugir do calorão. Encontrei uma fonte, aliás, um lindo recanto onde os veados mataram a sede. Alguma coisa estava errada com a água, o capim, o ar... Sei lá! Os animais mostraram um comportamento muito estranho e começaram a devorar toda e qualquer graminha, parece que é uma doença chamada larica.

Um dos veadinhos, o Junior, deu o maior vexame. Não sei se foi devido ao cheiro de mato queimado, típico do local ou de algo que comeu e não gostou, Junior é muito manhoso! Deitou-se na grama e se fingiu de mortinho. Alguns urubus se aproximaram para fazer a festa, o catinguento despertou e foi à maior baixaria. Ainda bem que os fumetas e pedintes que acampam no jardim não entenderam a linguagem do animal. Cada palavrão!

Por falar em pedintes! Como têm por aqui. Exigem dinheiro para comprarem pão, café, lanches,... Só não pedem para pinga! Ainda bem... O interessante é que aparentemente só bebem água e vivem bêbados o tempo inteiro. Os nativos endeusaram os bons jogadores de futebol, pois a todo o momento eu ouço dizer que tem muito craque na cidade.

Acho que o homem mais rico do município é um nobre, seu nome é Conde Qualquer Coisa. Notei frente a diversos imóveis em ruínas placas com os seguintes dizeres:-” Aguardando verba do Conde “... A urbe está literalmente tombada, são muitos e muitos prédios caindo aos pedaços, destelhados e cheios de mato ao redor.

Estou deveras decepcionado, tanto as crianças como suas mães se excedem nos palavrões em locais públicos, os adolescentes assaltam os desavisados e xingam os mais velhos... Os mendigos vivem no centro da cidade, cobram pedágio dos transeuntes e coitado de quem não tiver algum trocado, é ofendido e não tem a quem reclamar.

A concorrência por aqui é muito traiçoeira, ouvi dizer que tem nove indivíduos se passando pelo Papai Noel e que deram um presentão para algumas pessoas, o presente é retroativo ao ano de 2005 e quem vai pagar é o povo... Rsrsrs... Não falei! Concorrência desleal.

Espero retornar ao lar antes do fim do ano, estou acertando os impostos ou meu trenó será penhorado... Os presentes foram confiscados na cara dura e estão de olho nos veadinhos para futuro churrasco ou coisas piores. Mamãe Noel! A situação é calamitosa. Todos estão cientes do aperto que passo e ninguém me ajuda. A população tem medo de exercer a cidadania, qualquer crítica é tida como ofensa. Quem não beija a mão que estapeia é considerado um inimigo... Coisas da Idade Média! Parece que o povão gosta, pois não ouvi reclamações. Vou riscar essa cidade do meu roteiro anual... Pindaíba! Nunca mais.

Um abraço de seu marido... Noel.

Gastão Ferreira/2010

Obs. – Esta crônica não serve de carapuça a ninguém... É óbvio que o texto é ficção e nada tem a ver com nossa realidade, qualquer semelhança é mera coincidência. Feliz Ano Novo aos nossos leitores.