domingo, 28 de novembro de 2010

CONVITE PARA FESTA


CONVITE PARA FESTA

Recebi por e-mail um convite para uma festa a fantasia num sitio, seria uma noite das bruxas a moda caipira. Duas exigências foram feitas; - Não levar companhia e chegar ao local do evento exatamente as vinte e três horas.

No horário marcado estacionei a moto frente ao salão parcamente iluminado... As fantasias eram horrorosas, piratas com punhais cravados no peito, enforcados de olhos esbugalhados, zumbis com olhares vazios, bruxas de todas as idades, esqueletos saltitantes, lobisomens, pessoas assassinadas com requintes de sadismo e crueldade, enfim todas as criaturas que povoam os pesadelos.

Interessante essas alegorias! Pensei. Não esperava encontrar fantasias tão bem elaboradas. Confesso que estava um tanto envergonhado, pois eu era o único fantasma na festa e por sinal um fantasma dos mais pobres, o que me cobria era um velho lençol branco com dois furos para os olhos.

Achei estranho os participantes me chamarem pelo nome, pois eu não conseguia adivinhar quem estava por detrás das máscaras. Ao dançar com uma das bruxas ali presente fui informado que a festa da qual participava ocorria anualmente à véspera do dia de finados e que a cada ano era escolhido um morador da cidade para compartilhar do evento, essa era a razão pela qual sabiam o meu nome. Perguntei por que motivo jamais ouvira falar da famosa festa, a resposta foi apenas um enigmático e cativante sorriso.

Um murmúrio vindo de fora do salão chamou a minha atenção, era como uma reza misturada a um cantar plangente... Os mascarados agruparam-se no centro do salão e nesse momento dezenas de pessoas encapuzadas, vestindo longos mantos brancos e portando velas acesas foram adentrando o ambiente. Gemidos, gritos, lamentos... Um vento frio e cortante misturado ao fedor de carne em decomposição empesteava o ar. Confesso que estava fascinado pelos efeitos especiais num local tão pobre, então soaram as doze badaladas anunciando a meia-noite, o vento rugiu, todas as velas e luzes se apagaram, um silêncio sepulcral se fez presente. Em pânico fui até a parede a procura de um interruptor de luz e ao acioná-lo o salão estava totalmente vazio, faltavam algumas telhas, as janelas estavam quebradas, o local estava em completo abandono. Então compreendi! Eu era o estranho, o único vivo a participar da festa dos mortos. Aterrorizado saí em disparada.

Retornei para casa apavorado e fui verificar no computador quem enviara o convite. Ao acessar o remetente, surgiu na tela uma caveira entre duas tíbias e a mensagem apagou-se sozinha. Desde então nunca mais aceitei convite para festas de quem não conheço.

Gastão Ferreira

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

A NOITE DO SACI

Essa é a ave conhecida como Saci






A NOITE DO SACI

Seu Fausto gostava de passarinhar. Desde guri andava pelas matas ouvindo a cantoria dos pássaros. Em sua residência mantinha inúmeras gaiolas e cuidava com muito amor dos pequenos cantores que alegravam sua vida de humilde pedreiro. Numa primavera, véspera do Dia de Finados, quase aos setenta anos de idade e já aposentado, saudoso das andanças pelos matagais, resolveu após avisar a família ir até o rio Sorocabinha visitar seus amigos passarinhos.

A foz do rio Sorocabinha que deságua no Mar Pequeno é famosa por suas Mutucas, Mosquitos Pólvora, Cobras venenosas, Manguezal intransitável, Robalos, Mandis, Carás, Traíras, Pirambóias, Caranguejos e Siris. Seu Fausto não queria pescar, ele queria era ouvir o canto dos pássaros, lembrar dos dias infantis, reencontrar o garoto do passado que amava a Natureza. Dentre o trinar dos Sabiás e de inúmeras avoantes que enfeitam o local, um grito chamou sua atenção:- “Tô Aqui!... Tô Aqui!”

Seu Fausto seguiu o chamado e embrenhou-se cada vez mais na mata densa... Perdeu o rumo, não conseguia voltar, anoiteceu rapidamente e aquele “Tô Aqui!... Tô Aqui!” o levou para o desconhecido. Os familiares aflitos e pensando no pior, entraram em contacto com a polícia, a notícia se espalhou e dezenas de amigos moradores do Rocio se uniram na sua procura. Adentraram a mata com lanternas, gritaram por seu nome, procuraram a noite inteira. Lá pelas cinco horas da manhã ele foi encontrado adormecido sobre as raízes de uma árvore no manguezal, os mosquitos Pólvora fizeram a festa, seu Fausto estava com a roupa em farrapos, bastante machucado e muito assustado.

Na volta para casa perguntaram o que tinha acontecido e ele respondeu: ”- Fui enfeitiçado por um Saci!”. Muitas pessoas o procuraram para saber da história do tal Saci, mas ele guardou o segredo consigo e jamais contou o que realmente ocorreu. Muitas vezes seu filho, o Jóca, o pegava distraído, com ar sonhador e notava nos olhos de seu velho pai, um brilho de quem viu visagem ou coisas das quais não podia falar.

Essa é uma história verídica que aconteceu em Iguape em 1998 e seu Fausto do Curió foi o seu protagonista, portanto quando no meio da mata alguém ouvir um chamado:- “Tô Aqui!... Tô Aqui!”, volte imediatamente para o sossego do lar ou será enfeitiçado, perderá o rumo de casa e passará uma noite sozinho com o Saci.

Gastão Ferreira

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

472 ANOS - "CONVITE DE ANIVERSÁRIO"


CONVITE DE ANIVERSÁRIO

Oh! Meu Bonje. Hoje é o meu aniversário, estou completando 472 anos. Minha amada filha, a que cuida dos meus interesses frente ao reino, com certeza dará uma festinha. Adoro festinhas de aniversários, pena que jamais participo, ou melhor, nunca sou convidada.

Nesse ano farei questão de marcar presença, ouvir os discursos, saber das novidades, das melhorias. Quero comprovar os benefícios que o senhor Conde Phaat e o jovem Ipham trouxeram para a cidade. Quero rever os antigos casarões agora totalmente reformados, os marcos históricos preservados, o lagamar desassoreado, a barragem concluída, as belas árvores podadas com esmero e carinho.

Quero cumprimentar um a um os representantes do meu povo pelo magnífico trabalho realizado em prol do município. Pelo amor com que lutam a favor do progresso, pela honestidade e retidão demonstrada com a coisa pública.

Quero abraçar a minha filha querida, aquela a quem confiei o meu futuro, aquela que conserva a cidade limpa, segura. Que contribui com o seu árduo trabalho para manter a todos felizes e cheios de esperanças num amanhã promissor.

Sei que sou uma senhora para lá da terceira idade, digo, da melhor idade... Desculpem! Não estou acostumada com esses neologismos politicamente corretos. Algumas pessoas mal intencionadas fazem fuxicos, mentem, denigrem pensando que sou uma velha tola. Que já não sei diferenciar o joio do trigo, um tamanduá de uma formiga, um cocho de um berne... Santa maldade! Quanta ignorância!

Imaginem vocês! Contaram-me que bandos de urubus infestam a cidade e se alimentam do lixo não recolhido. Que meninos recém saídos dos cueiros agridem vetustas e piedosas senhoras. Que essas crianças, nos embalos de sábado à noite (Seja lá o que signifique isso!) assaltam os que ousam sair da segurança das grades de suas casas. Que destruíram um presente ganho da Marinha do Brasil por puro desleixo! Que retiraram a Cruz de um monumento e ficou no pedestal uma placa de bronze como prova do desrespeito a quem ali o colocou. Tantas e tantas aleivosias tentando denegrir o meu belo feudo!

Que vergonha! Que desrespeito a minha pessoa ao contarem essas e outras mentiras. Sou a Princesa do Litoral Sul e não acredito nesses boatos. Meu reino é lindo! Nele a honestidade fez sua morada. Todos são felizes... Todos são iguais perante os probos governantes. Ninguém é perseguido, ninguém vira a cara para ninguém. Jamais permitam que a calúnia destrua seus sonhos... Faça igual a mim; - Não creiam na maldade!

Conto com a presença de todos vocês, meus amados filhos, na minha festa de aniversário. No mega-evento a atenção dispensada será sem distinção de classe social e todos poderão comprovar in loco a generosidade e simplicidade dos que me representam.

A Princesa

(Gastão Ferreira)

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

LÍTYA


LÍDIA TIEKO YANAGUIZAWA PACCA

(LÍTYA -22/05/1952 A 01/11/2010)

Quando o tempo a quebrou juntou os pedaços e em cada caco tinha um nome; - Filha, irmã, esposa, mãe, professora, advogada, fotógrafa, poeta, assistente social, socióloga, socorrista, escritora, amiga.

De seu pai Joaquim Yositsugo Yanaguizawa herdou a garra política e o humanismo, o espírito inquieto perante as vicissitudes dos mais fracos e carentes. Da mãe Lídia Tsuyano além do nome e do bom humor trouxe o gosto pelos pratos típicos da culinária japonesa. Em toda a festa lá estava ela com suas saladas exóticas.

Gostava de cantar e contar piadas das quais era ela quem mais ria. Uma cômica que nas reuniões familiares fazia a alegria dos presentes. A esposa cuidadosa sempre paparicando o marido Paulo Roberto Pacca, a mãe de Vanessa Emy (Advogada), de Lityane Akemy (Fisioterapeuta) e de Liliane Tiemy (Jornalista) exigindo das filhas o estudo constante, a honestidade, o respeito. A avó carinhosa de Arthur Akira Yanaguizawa Pacca Bartholomeu. A conselheira e irmã mais velha de Wilson Hideo, Bernadete Reiko Naoe e Mary Rigamonti.

Uma mulher interessada por tudo e por todos. Uma professora que levava seus alunos a pensarem sobre todos os aspectos possíveis do existir, uma advogada das causas perdidas e ganhas com seu amor pelo ofício, poetisa ajudou a fundar a API (Associação dos Poetas Iguapenses). Colaborava com a Casa da Sopa, o Asilo São Vicente de Paula, secretária da Casa da Criança. Rotariana preocupada com o auxílio aos mais necessitados, coordenava os mutirões que levavam assistência e amparo aos carentes de nossa cidade.

Lítya, como gostava de ser chamada, amava a fotografia. Carnaval, Festa de Agosto, Desfiles cívicos. Bastava ver um grupo de pessoas reunidas e lá estava Lítya com sua inseparável máquina fotográfica. Acredito que devia ter fotos da maioria dos habitantes da cidade, pois fotografava a tudo e a todos há mais de quarenta anos.

Uma grande amiga dos amigos, aos quais fazia questão de reunir em sua casa para um bate papo, uma comidinha da hora, uma cerveja gelada. Gostava de conversar sobre os mais variados assuntos, uma leitora voraz, ciumenta de seus muitos livros que emprestava aos mais chegados.

Nem tudo foi mencionado, o espelho vida se partiu em 01/11/2010 e seus múltiplos fragmentos refletiram o que significou essa mulher diferenciada para a sociedade iguapense. Nessa data Lídia Tieko Yanaguizawa Pacca saiu da vida para fazer parte da memória. Uma mulher que muito amou, que lutou para tornar Iguape um pouco melhor, a primeira mulher a se formar em advocacia em nosso município, uma mulher que defendeu seus ideais com persistência, uma mulher que soube compartilhar do existir... Uma mulher que sorria.

Litya aos 58 anos viajou para o lugar onde moram os sonhos, voltou para sua casa na eternidade, foi ao encontro da tal Felicidade. Para nós que aqui ficamos ela é mais uma lembrança a se juntar a saudade.

Gastão Ferreira

terça-feira, 2 de novembro de 2010

ASSIM É... ASSIM SERÁ!


ASSIM É...

Como uma sombra ela ronda a cidade. Espia nos becos, nos casebres, nas mansões. Sua face é desconhecida, mas sua presença está em todos os lugares e o seu abraço é letal. Os desesperados a procuram no veneno, na forca, no tiro fatal como o derradeiro remédio para o não ser.

As religiões fazem dela um mistério desde o começo dos tempos, ensinam a temê-la como a deusa da escuridão, um portal a ser transposto com tranqüilidade por aqueles que levam uma vida digna e que compartilharam do amor, da humildade, da compreensão. Uma danação eterna aos que semeiam desavenças, ódios, aos que corrompem a vida aproveitando-se do poder em proveito pessoal, aos que plantam a desunião, os rancores, a ingratidão.

Não tem preferências, carrega com ela o pobre, o rico, o moço, o velho, a criança, o doente e o são. Percorre as estradas, voa pelo espaço, mergulha no mar. Conhece todos os caminhos, cada pedaço de chão. Vigia as horas, monitora o dia e a noite. Executa seu trabalho com perfeição.

Ao cansado ela dá o repouso, ao enfermo a saúde impossível, ao aflito a derradeira paz. Muitos a chamam nas horas amargas de Liberdade definitiva, outros a deusa da regeneração. Muitos acreditam que ela seja a porta para uma nova forma de existir, outros, a entrada para a escuridão.

Desde o berço o encontro foi marcado, apenas desconhecemos o momento da colisão, por isso é bom viver cada segundo como o derradeiro, sem ferir, sem magoar aos semelhantes. Respeitando a tudo e a todos nessa casa planeta que é nosso lar compartilhado. Temos o dever de deixar um mundo melhor aos que virão a essa fonte beber da água da vida num futuro aprendizado.

Nossa Alma, essa eterna criança herdeira das estrelas necessita crescer e de tempos em tempos volta à escola Terra para uma nova lição. O exercício do Amor é fundamental e a Dor só aparece quando nos negamos a enxergar o essencial e o essencial é aprender a viver desapegado dos bens materiais que por aqui ficarão no fim da viagem.

Assim é... Assim será! Quando mais uma etapa for vencida regressamos ao eterno lar com tudo aquilo que aprendemos a compartilhar, essa sombra que nos vigia sabe a hora exata em que devemos voltar. Não tenham medo, a Morte é nossa velha amiga e muitas e muitas vezes já veio aqui nessa vida nos buscar.

Gastão Ferreira