quinta-feira, 7 de outubro de 2010

A VIDA E O TEMPO


A VIDA E O TEMPO

A velha espiava pela janela e a Vida era uma criança. Uma menina de longas tranças, num vestido cor de rosa com uma flor nos cabelos... Sorria. Nesse tempo a dor não existia, o mundo era um lugar mágico com muitas fadas no jardim. No quintal de árvores antigas os passarinhos faziam seus ninhos, contavam histórias entre si e voavam longe trazendo novidades. Falavam do Bugio que gritava na montanha e carregava nas costas seus filhotes, do bicho Preguiça que tinha esse nome porque era vagaroso, da Anta que assustada corria derrubando o que encontrava pela frente, do grande gavião chamado Harpia que era o rei das aves.

A velha cochilou e ao abrir novamente os olhos, a menina Vida era uma mocinha. Seu coração sonhava... Um príncipe encantado estava a chegar. O que a menina moça não sabia era que todos os príncipes foram para a guerra matar o Dragão da maldade e nenhum conseguiu voltar, os que se diziam príncipes mentiam, eram ladrões de corações, enganavam as donzelas, davam o golpe do baú.

Num piscar de olhos o tempo passou, a mocinha sonhadora era uma senhora de preto, faces macilentas de quem muito chorou, carregava três filhos pela mão. Não era viúva, o marido foi embora com uma ricaça, nem se despediu simplesmente a abandonou, agora para alimentar os pequenos lavava roupas para fora, fazia arrumação, qualquer serviço era bem vindo e a molecada tinha fome igual a bicho carpinteiro.

A mulher na janela sorriu... Agora quem estava velha era a outra, a abandonada, a que encontrou o príncipe errado e pagou o preço em fome e solidão. Um filho se perdeu, a droga o venceu. O outro filho morreu num assalto e a filha toda perfumada ganhava a vida com a beleza que Deus lhe deu, nem sequer olhava quando passava pela mãe.

Hora de fechar a janela. Na praça a Vida agonizava, sua amiga a Beleza há muito a abandonara, outra amiga chamada Juventude marcou breve presença num passado esquecido. A Tristeza, a Solidão, a Angustia, a Fome e o Desamparo deram lugar às irmãs Saudade e Lembrança que a confortaram quando a Morte chegou.

A Morte tomou a Vida pela mão. A velha fechou a janela, arrastando os rotos chinelos, abriu a porta e a Morte falou:-“ Tempo! Estou trazendo essa Alma que é sua filha, não posso entrar em sua casa, cuide bem dela... Dê-lhe o seu amor!”

Quando a velha trancou a porta, transformou-se em criança, ela era o Tempo sem idade. Foram para o jardim nos fundos da casa:- “Voltei ao meu lar! Disse a Vida. Sou uma menininha novamente, estou na casa de meu Pai.”

Gastão Ferreira

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