terça-feira, 5 de outubro de 2010

URUBUS


URUBUS

Voaram em círculos sobre a montanha, dividiram-se em quatro grupos e partiram velozes na busca de alimento. Uma parte do bando sobrevoou a cidade recém desperta, sacolas plásticas contendo o lixo do dia anterior atraíram seus olhares. Os restos de um cão morto a pauladas por atentado violento ao pudor foram rapidamente consumidos.

Sua Excelência contratou Bituca para carpir o seu terreno. Bituca era um deficiente mental, não conhecia o valor do dinheiro, mal balbuciava o próprio nome, tinha fome muita fome e precisava comer. Sua Excelência prometeu pagar-lhe três reais pelo serviço diário desde que após carpir, retirasse os entulhos e os jogasse no lagamar. A refeição mais em conta nos restaurantes da cidade estava em torno de dez reais. Bituca era a carniça de Sua Excelência.

Martinha estava agoniada, a última pedra fora consumida, o que restava de seus neurônios gritava pela droga. Encontrou o traficante e usuário Lindico na entrada da Fonte, não houve necessidade de negociação, entraram na mata, despiram-se e o preço foi pago... Martinha era um prato cheio para o abutre do Lindico.

Creide Maria pagou o dízimo, recontou o que sobrou da parca aposentadoria e teve a certeza de que sua conta de luz seria novamente cortada. Estava feliz, o zelador de sua alma continuaria a comer do bom e do melhor, enquanto o demônio permanecesse amarrado o que importava era a sua salvação. Creide Maria não sabia que os urubus sobrevivem do seu medo da eterna danação.

O contrato superfaturado foi comemorado no melhor estilo, vinhos importados, garotas e garotos de programa, carne de primeira para o bando do lixo moral, dos que gastam em uma noite o ganho de um mês de quem batalha sem ter a quem reclamar e ainda bate palmas aos ladrões urubus que corroem o país voando alto sem dar a mínima satisfação.

Distenderam as negras asas, saciados alçam vôo, jamais entenderiam os homens esses bípedes sem penas que em sua loucura afugentam a razão, maltratam seus semelhantes, matam os próprios sonhos e acreditam serem os reis da criação. À noite em seus ninhos na montanha adormecerão felizes na espera de um novo amanhã... Ah! Esses homens quando aprenderão que o que importa é viver com o que Deus lhes dá.

Gastão Ferreira

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