sábado, 23 de outubro de 2010

APENAS UMA PORTA ?


APENAS UMA PORTA?

O aguaceiro era eminente, um vendaval varria a cidade, algumas habitações foram destelhadas, galhos de árvores arrancados pela ventania cortaram a eletricidade, as ruas estavam às escuras. Cheguei a casa no exato momento em que um raio caiu nas proximidades, lembro que seu clarão ajudou a encontrar a fechadura da porta. Sem luz fui à procura de velas. Onde as coloquei?

- “Estão no armário da cozinha!” Sussurrou uma voz.

Meu cabelo arrepiou. Eu moro sozinho! Quem invadiu meu lar? Um vento gelado dominou o ambiente; - “Estou apavorado com o relâmpago! Inventei essa voz.” disse a mim mesmo. ”Acenda a luz!” Cochichou alguém. Quase paralisado de medo encontrei o interruptor e acendi a lâmpada da sala. No aposento meus parentes e alguns amigos sentados nos sofás bateram palmas; - “Parabéns! Você conseguiu. Nós jamais obtivemos êxito ao tentar!” O horror se apossou de mim... Meus amigos e parentes mortos estavam em minha casa.

Corri para a cozinha... Não havia cozinha! Portas e janelas eram inexistentes, um vidro cristalino era a única parede e lá fora brilhava o sol. Num jardim florido árvores frutíferas, um pequeno regato com muitos seixos enfeitava a paisagem. Animais de há muito desaparecidos pastavam placidamente entre Dinossauros, bandos de Dodós, Tigres dente de sabre. No céu voavam pterodátilos pré-históricos. Ao longe se avistavam altas montanhas que davam forma ao vale onde eu estava:- “Moro perto do mar! Minha casa está localizada no centro de uma pequena cidade. Essa não é a minha casa!” pensei.

Voltei à sala e a sala estava vazia. Realmente não era a minha sala, vários quadros, pinturas desconhecidas, poucos móveis. A parede frontal totalmente de vidro e lá fora muita pessoas a olharem para mim como se eu fosse um extraterrestre. Uma fina corrente de ouro com um camafeu pendente chamou a minha atenção:-“ O camafeu de mamãe!Dentro está a foto de seu casamento... Foi seu último pedido ser enterrada com ele!.” Coloquei-o no pescoço.

“A porta está no armário!” Gritou uma voz. Abri o grande armário encostado junto à parede e dentro vi uma porta igual à de minha casa, com muito esforço consegui abri-la... A escuridão me envolveu e perdi os sentidos. Quando acordei estava do lado de fora, a chuva passara e eu completamente encharcado segurava a chave de entrada na mão. Abri a porta e acendi a luz, estava em casa. Creio que desmaiei com a queda do raio tão perto de mim e tive um pesadelo. Fui ao banheiro e ao me olhar no espelho tive o maior choque da minha vida, pendendo do meu pescoço estava o camafeu com o qual mamãe foi enterrada. Meu Deus! O que será que realmente aconteceu?

Gastão Ferreira/2010

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

A VIDA E O TEMPO


A VIDA E O TEMPO

A velha espiava pela janela e a Vida era uma criança. Uma menina de longas tranças, num vestido cor de rosa com uma flor nos cabelos... Sorria. Nesse tempo a dor não existia, o mundo era um lugar mágico com muitas fadas no jardim. No quintal de árvores antigas os passarinhos faziam seus ninhos, contavam histórias entre si e voavam longe trazendo novidades. Falavam do Bugio que gritava na montanha e carregava nas costas seus filhotes, do bicho Preguiça que tinha esse nome porque era vagaroso, da Anta que assustada corria derrubando o que encontrava pela frente, do grande gavião chamado Harpia que era o rei das aves.

A velha cochilou e ao abrir novamente os olhos, a menina Vida era uma mocinha. Seu coração sonhava... Um príncipe encantado estava a chegar. O que a menina moça não sabia era que todos os príncipes foram para a guerra matar o Dragão da maldade e nenhum conseguiu voltar, os que se diziam príncipes mentiam, eram ladrões de corações, enganavam as donzelas, davam o golpe do baú.

Num piscar de olhos o tempo passou, a mocinha sonhadora era uma senhora de preto, faces macilentas de quem muito chorou, carregava três filhos pela mão. Não era viúva, o marido foi embora com uma ricaça, nem se despediu simplesmente a abandonou, agora para alimentar os pequenos lavava roupas para fora, fazia arrumação, qualquer serviço era bem vindo e a molecada tinha fome igual a bicho carpinteiro.

A mulher na janela sorriu... Agora quem estava velha era a outra, a abandonada, a que encontrou o príncipe errado e pagou o preço em fome e solidão. Um filho se perdeu, a droga o venceu. O outro filho morreu num assalto e a filha toda perfumada ganhava a vida com a beleza que Deus lhe deu, nem sequer olhava quando passava pela mãe.

Hora de fechar a janela. Na praça a Vida agonizava, sua amiga a Beleza há muito a abandonara, outra amiga chamada Juventude marcou breve presença num passado esquecido. A Tristeza, a Solidão, a Angustia, a Fome e o Desamparo deram lugar às irmãs Saudade e Lembrança que a confortaram quando a Morte chegou.

A Morte tomou a Vida pela mão. A velha fechou a janela, arrastando os rotos chinelos, abriu a porta e a Morte falou:-“ Tempo! Estou trazendo essa Alma que é sua filha, não posso entrar em sua casa, cuide bem dela... Dê-lhe o seu amor!”

Quando a velha trancou a porta, transformou-se em criança, ela era o Tempo sem idade. Foram para o jardim nos fundos da casa:- “Voltei ao meu lar! Disse a Vida. Sou uma menininha novamente, estou na casa de meu Pai.”

Gastão Ferreira

LEMBRANÇAS DE MEU PAI...


LEMBRANÇAS DE MEU PAI!

Um filho é o espelho do caráter de um homem. Quando a saudade chega e me abraça murmurando o seu nome, a sua lembrança invade todos os meus espaços, ouço o seu riso, vejo o brilho do amor em seu olhar antigo... Meu pai!

Um homem simples que fez do respeito a seus semelhantes à base de seu caráter. Um homem honesto na simplicidade de seus pequenos negócios. Um homem que apenas com um olhar era obedecido, um pai as antigas, um pai que impunha respeito sem maltratar, um pai que se sabia amado e muito amava... Meu pai.

Lembro do dia em que o circo chegou! A velha lona encobria todos os segredos tão bem guardados, um mundo mágico e desconhecido, um mundo para ser desvendado por um menino curioso, um menino de onze anos... Eu!... Vadico. Reuni os amigos, formamos um pelotão, temerosos passamos por debaixo da lona e silenciosamente invadimos a arquibancada, a primeira batalha estava ganha e a diversão grátis garantida.

Meu pai chegou a casa e perguntou por mim, minha mãe contou do meu intento com os demais colegas, meu pai sabia que eu não tinha o dinheiro para comprar o ingresso... Saiu em direção ao circo.

As gargalhadas, os aplausos, os assovios. O palhaço acabara de entrar no picadeiro, um toque de leve nas minhas costas, era um guarda e os guardas naquela época eram o temor da garotada:-“ Todos vocês! Venham comigo.”Na portaria estava meu pai:-“ Vadico! Pegue o seu ingresso e entre pela frente... Comprei entrada para todos.”

Esse era meu pai, o homem em quem me espelhei, o companheiro das horas boas e das horas difíceis. O homem que me ensinou o valor da honestidade, a importância de uma amizade, a humildade perante a grandeza da vida. Meu professor, meu anjo protetor, meu abrigo... Meu pai.

Hoje remo sozinho nessa canoa vida, quando a tristeza chega e crava suas negras garras em minha alma solitária, meus olhos entrevêem a imagem de meu pai e uma lágrima solitária teima em brotar arrastando a memória aos dias da minha infância. Não choro o abandono, pois tudo aqui tem fim, meu pranto é uma saudade de reencontros, de antever o futuro e nesse futuro poder abraçar meu velho pai e finalmente junto a seu coração dizer do quanto o amei.

(Memórias de Vadico sobre seu pai)

Texto: Gastão Ferreira

AMOR DESPEDAÇADO


AMOR DESPEDAÇADO

No alto da montanha, do local onde o bugio espia a paisagem e a estreita picada começa a descer em direção à cidade o viajante admirava o deslumbrante panorama. Mesmo de tão longe notou o abandono, casarões em ruínas, lagamar assoreado, bandos de urubus ciscando no lixo não recolhido: ”-Minha cidade! O lugar onde nasci. Esse ar sempre límpido, o verdor das matas, essas águas piscosas de onde o humilde pescador tira o sustento diário, esse cenário magnífico, essa beleza que encanta a primeira vista... Meu lar!”

Já na cidade encontrou com dona Maricota sua primeira mestra:-“ Dona Maricota! Quanta saudade professora. A senhora não mudou nadica de nada!”

”- Oh! Oh! Oh! Meu aluno Juvenal que há vinte anos foi ganhar a vida longe daqui e continua o mesmo cegueta de sempre, eu sei que estou um traste velho meu querido.”

“- Para mim a senhora continuará sempre aquela mocinha que me ensinou a ler e a escrever. Fessora! A cidade está diferente, as pessoas estão mais caladas, parece que a cidade se encontra um tanto abandonada!”

“- Meu filho! Estão assim tão visíveis as coisas por aqui? Meu Bonje! Vocês está há vinte anos fora!”

“- Há vinte anos havia no ar uma esperança. Uma ponte que faria milagres, uma promessa de melhores dias para a juventude. Todos acreditando num futuro melhor! O que aconteceu mestra?”

“- Foi o Amor que nos destruiu!”

“- Que é isso dona Maricota! O Amor jamais destrói.”

“- Parece um paradoxo, mas foi o Amor que causou toda essa paradeira!”

“- Professora! Como isso foi possível?”

“- Juvenal! Você sabe que política por aqui é o assunto do dia. Até hoje é impossível separar o joio do trigo ou o trigo do joio e nosso povo sempre cai na mesma lenga lenga... Parece mentira! Eles sobem em palanques e gritam aos quatro ventos seu Amor a cidade, fazem mil promessas nunca cumpridas e o povo não aprende... Depois que você foi embora o Amor nunca abandonou a cidade, mudou de nome, teve muitos apelidos, Tamanduá, Formiga,Mãos Limpas, mas lá no fundo estavam os bernes de sempre não deixando a ferida cicatrizar... O Amor despedaçou a cidade!”

“- Meu Bonje!Nada mudou por aqui.”

“- Na verdade a cidade está crescendo, quase todas as ruas calçadas, muitas mansões, carros e motos. O comercio prospera, mas os mais humildes continuam na dependência do beijar de mão...”

“- Que tristeza ver esse lugar lindo que tem tudo para dar certo não prosperar! Quantas cidades gostariam de contar com os recursos naturais que nos cercam para explorar o turismo ecológico, a pesca esportiva, os esportes náuticos, as trilhas nas matas, a gastronomia, o artesanato, as visitas a bairros rurais... Que potencial desperdiçado! Esse Amor tão cantado acabou com o progresso.”

“- Juvenal! A esperança é a última que morre.”

“- Professora Maricota! Ainda bem que a esperança ficou. Sem ela a cidade estaria completamente estagnada. Ela é uma brasa quase apagada, mas será ela que fará com que o povo aprenda a exercer a cidadania, a exigir satisfação das promessas eleitoreiras e a cobrar seus direitos.”

“- Juvenal! Você voltou politizado.”

“- Nada disso, dona Maricota! É que visitei muitos lugares e vi a diferença, o quanto temos de potencial não explorado. Vou conversar com os amigos, procurar esse tal Amor Despedaçado e pedir explicações.”

“- Estou orgulhosa de você, meu aluno! Faça isso, não se omita e parodiando Mário Quintana, você está coberto de razão:- O que mata uma cidade não é o abandono, o que mata uma cidade é esse olhar vazio de quem nela vive indiferente.”

Gastão Ferreira

terça-feira, 5 de outubro de 2010

URUBUS


URUBUS

Voaram em círculos sobre a montanha, dividiram-se em quatro grupos e partiram velozes na busca de alimento. Uma parte do bando sobrevoou a cidade recém desperta, sacolas plásticas contendo o lixo do dia anterior atraíram seus olhares. Os restos de um cão morto a pauladas por atentado violento ao pudor foram rapidamente consumidos.

Sua Excelência contratou Bituca para carpir o seu terreno. Bituca era um deficiente mental, não conhecia o valor do dinheiro, mal balbuciava o próprio nome, tinha fome muita fome e precisava comer. Sua Excelência prometeu pagar-lhe três reais pelo serviço diário desde que após carpir, retirasse os entulhos e os jogasse no lagamar. A refeição mais em conta nos restaurantes da cidade estava em torno de dez reais. Bituca era a carniça de Sua Excelência.

Martinha estava agoniada, a última pedra fora consumida, o que restava de seus neurônios gritava pela droga. Encontrou o traficante e usuário Lindico na entrada da Fonte, não houve necessidade de negociação, entraram na mata, despiram-se e o preço foi pago... Martinha era um prato cheio para o abutre do Lindico.

Creide Maria pagou o dízimo, recontou o que sobrou da parca aposentadoria e teve a certeza de que sua conta de luz seria novamente cortada. Estava feliz, o zelador de sua alma continuaria a comer do bom e do melhor, enquanto o demônio permanecesse amarrado o que importava era a sua salvação. Creide Maria não sabia que os urubus sobrevivem do seu medo da eterna danação.

O contrato superfaturado foi comemorado no melhor estilo, vinhos importados, garotas e garotos de programa, carne de primeira para o bando do lixo moral, dos que gastam em uma noite o ganho de um mês de quem batalha sem ter a quem reclamar e ainda bate palmas aos ladrões urubus que corroem o país voando alto sem dar a mínima satisfação.

Distenderam as negras asas, saciados alçam vôo, jamais entenderiam os homens esses bípedes sem penas que em sua loucura afugentam a razão, maltratam seus semelhantes, matam os próprios sonhos e acreditam serem os reis da criação. À noite em seus ninhos na montanha adormecerão felizes na espera de um novo amanhã... Ah! Esses homens quando aprenderão que o que importa é viver com o que Deus lhes dá.

Gastão Ferreira