segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Ingênua... A princesa


INGÊNUA... A PRINCESA

Era uma vez uma princesa muito linda. Seu nome era Ingênua. Dizem que foi belíssima, uma mistura de Iracema, a virgem dos lábios de mel com a Gisele Bündchen e a Sonia Braga dos bons tempos. Virou um trapo, mal tratada, esquecida, enfim uma garota da terceira idade igual a tantas que ao se olharem no espelho exclamam:- “Gostosa! Não me troco por duas menininhas de dezoito anos.” Como se uma donzela juvenil fosse se trocar por uma velhota decadente.

Nossa princesa velhusca, desculpe, da melhor idade, andou um tanto amargurada com a vida. Muitas de suas propriedades foram literalmente tombadas, ou seja, no chão, em ruínas, aos cacos. O senhor Condephaat, um homem abastado insinuou-se na vida intima da nobre senhora, até colocou algumas faixas nos imóveis:- “Aguardando dinheiro do Condephaat para futura reforma.” Ficou só nisso, não casou e nem reformou.

Outro pretendente foi o jovem Iphan, cheio de panca, chegou como se fosse dono da casa ditando leis, um tanto zombeteiro foi mandando em Ingênua igual marido ciumento e na verdade mal se conheciam, mas Ingênua não era tola, era apenas meio bobinha e louca para se casar, sempre caía no golpe do baú. Ela era riquíssima, vitima constante de aventureiros que se aproveitando de sua simplicidade tentavam tombar o seu vasto patrimônio.

Com o tempo Ingênua foi perdendo a esperança, pois os ousados pretendentes sempre a deixavam menos rica. Nenhum namorado a abandonou sem ficar bem de vida. Alguns compraram fazendas, outros apartamentos, mansões, lanchonetes e muitos terrenos ou imóveis espalhados por localidades próximas ou distantes. Ingênua sofria com tudo isso, mas era o preço que pagava pela ânsia de casar e matrimônio bom jamais aconteceu.

Com o passar do tempo Ingênua parou de lutar, deixou os urubus tomarem conta das praças, os pedintes espantarem turistas, as drogas corroerem a juventude, os paus mandados locupletarem-se e paulatinamente a princesa aquietou-se, entrou em crise existencial, quase morreu, mas Tupã é um bom Pai e quando todas as portas se fecharam Ele abriu uma janela. Espiando pela janela Ingênua notou um jovem pescador que passava frente a sua casa e qual não foi sua surpresa quando o ousado mancebo jogou-lhe um beijo. É óbvio, ela bateu com a janela na cara do pescador, pois jamais se dera ao desfrute com gentinha da plebe, porém o tal pescador era um Hercules, um Édipo, um Perseu, um semideus de beleza inigualável e Ingênua pensou:- “Que tal provar dessa fruta? Desse peixe saboroso? Creio que esse filho de Posseidon está tentando uma aproximação!”

Ingênua se apaixonou, rejuvenesceu e a cada olhar do fogoso pescante ficava mais jovem, mais bela, mais popozuda. Um belo dia ela abriu a porta e deixou o Amor entrar em sua vida. Foi o que a salvou da decadência definitiva, descobriu que o amor do povo humilde é o único verdadeiro, que se contenta com pouco. Hoje é uma mulher realizada, voltou às origens e descobriu quanto tempo perdeu ao tentar se passar por uma dama esnobe, seu destino era ser feliz na simplicidade.

Gastão Ferreira

domingo, 12 de setembro de 2010

CONDOMÍNIO FELIZ - CONTOS DA FLORESTA


CONDOMÍNIO FELIZ – CONTOS DA FLORESTA

No Condomínio Feliz começou a pré escolha dos candidatos para a seleção do próximo síndico de plantão. A bicharada andava temerosa devido à péssima administração do penúltimo zelador, um Macaco Prego que foi pego com a mão na botija e de dona Formiguinha a atual zelante que lavou as límpidas patinhas e entregou a floresta de mãos beijadas para Gamos, Sílfides e forças do Além. O Raposo tentou impor uma Oncinha muito esperta para concorrer à seleção. Dona Capivara se negou a competir, assim como o Jacaré, a Paca e o Tateto. O Bugio, a Anta, o Tamanduá e o Papagaio conhecido como “O Loro Sábio” decidiram disputar a indicação. A Oncinha reclamou, mas devido à má fama do padrinho Raposo, foi desclassificada.
Na apresentação dos aspirantes ao cargo máximo, o Bugio propôs a distribuição grátis de cachos de bananas aos povos da floresta, no que foi muito aplaudido. A proposta do Tamanduá foi tombar a selva e transformá-la em um patrimônio da fauna mundial. O Loro Sábio, como é muito sábio fez um discurso de altíssimo nível, ninguém conseguiu entender suas complicadas palavras. A Dona Anta chorou ao apresentar toda a sua numerosa família, os netos, bisnetos, afirmou ser amicíssima do próprio Saci Pererê e foi ovacionada, pois metade dos presentes ao evento era de comezinhos ou familiares. Os candidatos aguardavam a indicação definitiva.
No matagal começou um tititi danado. O Bugio contratou um bando de Macaco Aranhas para proclamarem em altos brados seus atributos. Ninguém conseguiu dormir com tanto alarido, muitos bichos levaram tombos devido às cascas de bananas jogadas no chão pelos macacos panfleteiros. O Tamanduá contratou o velho Urubu Zeca como informante. Tal urubu é conhecido como um leva e trás de primeira, conhece os detalhes mais sórdidos da privacidade dos jovens animais e também de seus pais, avós e bisavós. Adora fazer coco na cabeça dos outros. Como é analfabeto, não conseguiu escrever um dossiê dos desafetos do senhor Tamanduá que o demitiu.
O Condomínio estava completamente sem domínio quando as notícias se espalharam:- “Loro Sábio tem mapa da mina; - Madeireira Mata-Árvore é de sua propriedade!”, “ Dona Anta fez conluio secreto com o Boi Tatá com a intenção de se apossar da floresta!”, “ Tamanduá pedófilo é pego no escurinho com filhote de Cutia.”Foi um pega para capar! Cobra contra Cobra, Aranha brigando com Aranha, Veado falando mal de Piranha, Onça Pintada fazendo pouco caso de Pantera Negra. Um Tupã nos acuda! Descobriram que eram factóides lançados pelo Bugio para desequilibrar a disputa pela indicação de quem dirigirá o Condomínio.
A bicharada fez uma reunião de emergência, prometeu tocar fogo na mata e desqualificou todos os pretendentes a eleição. Escolherão novos candidatos. Já pleiteiam a vaga o senhor Ratazana, a cobra Jararaca, o Veadinho Catingueiro, o senhor Pica-pau e a avoante Quero-quero. Como podem observar, todos são bichos acima de quaisquer suspeitas, honestos, humildes, educados, cheios de amor para compartilhar. Quem será o próximo zelador do Condomínio Feliz?

Gastão Ferreira

domingo, 5 de setembro de 2010

DÁDIVA DE DEUS - FAZENDO A DIFERENÇA


DÁDIVA DE DEUS – FAZENDO A DIFERENÇA

Somos viajores no universo, aprendizes de vida. Cada estrela um sol com planetas orbitando a sua volta. Em algum longínquo sistema solar deixamos um lar, em outros astros teremos futuras moradias. O próprio Cristo afirmou:- “Na casa de meu Pai há muitas moradas.”
Hoje compartilhamos a Terra, esse pequeno planeta azul acompanhando um sol de quinta grandeza, um diminuto ponto de luz brilhando no infinito da criação. Um planeta jovem, um planeta em evolução tentando melhorar o bicho homem, um ser criado para cuidar e manter sua efêmera casa no espaço.
Nossa mente, a mente hominal é uma mente criadora. Diferenciada dos outros comparticipes da vida, divide emoções, sentimentos, planos e idéias, num constante combate com a ignorância. Na teoria evolucionista nosso planeta foi criado a partir da agregação do pó estelar e segundo os preceitos religiosos nossa alma imortal é parte do sopro divino. A maioria de nós não consegue entender a profundidade e grandeza desse fato. Perdemos-nos em ódios, retaliações, desamor. Muitos dentre nós vêem o semelhante como alguém para ser humilhado, explorado, hostilizado como animal daninho.
Muitos tiram proveito da inteligência para o crime, o roubo, a degradação moral. Outros nos utilizam politicamente em sua sede de poder, outros tentam nos dominar através da religião e muitos outros nos tratam com arrogância e prepotência, esquecidos que derivamos de um mesmo princípio biológico e que no fim seremos iguais perante o túmulo que nos aguarda. Nosso ouro não nos seguirá para além da morte. Nossa ganância, tolos preconceitos, vaidades, desafetos e picuinhas não nos tornam melhores frente a nossos semelhantes. Infernizamos nossos iguais, abrimos à porta a escuridão moral nos crendo superiores. Não compartilhamos, não dividimos. Nosso egoísmo é uma cela sombria em que nos trancamos por comodidade e onde encarceramos o sopro divino que nos diferencia dos outros seres.
Nem todos são assim. Nosso Criador é um Pai generoso, nos presenteou com o planeta Terra, um jardim esplêndido, com fonte farta de alimentação e vez ou outra para aliviar nossas dores manda disfarçado em homem um de seus anjos. Esses seres, raros entre nós, são um bálsamo aos que sofrem, aos desvalidos, aos carentes de bens materiais. São seres que conseguem ver em cada semelhante um irmão necessitado, independente de cor ou ideologia. Seres que compreendem a dor alheia sem se importarem se serão ou não reconhecidos.
Essas pessoas não terão seus nomes em ruas, praças, pontes e avenidas. Não merecerão um diploma de cidadão, não ouvirão aplausos bajuladores em atos públicos nem pisarão nos tapetes vermelhos do poder. Disso não carecem, sabem que cumprem honestamente com seu dever social. Confortam, socorrem, auxiliam a medida do possível. São uma dádiva divina á uma humanidade criança e irresponsável.
Nossa cidade. Nossa amada, velha e simpática Princesa do Litoral Sul não é esquecida por nosso Pai Criador. Dizem que a unanimidade não faz parte da razão humana, sempre haverá alguém a discordar. Mas no meu conceito e no de milhares de iguapenses pedimos reconhecimento para uma pessoa diferenciada, que com humildade, trabalho e dedicação, é uma dádiva divina à nossa comunidade:- José Carlos Martins Ribeiro, o Zé Carlos da farmácia. Vamos dar um bom dia, um sorriso, um aceno de reconhecimento. Ele não necessita de títulos e honrarias para se sentir respeitado e amado, ele sabe o quanto vale. Vida longa, saúde e felicidade ao Zé Carlos, ele faz a diferença.

GASTÃO FERREIRA