terça-feira, 31 de agosto de 2010

MARIAZINHA - HISTÓRIA NADA INFANTIL


MARIAZINHA – HISTÓRIA NADA INFANTIL

Mariazinha era órfão, uma menininha tão sensível que nem pernilongo matava, por isso seus bracinhos viviam cheios de hematomas. Também não assassinava mutucas, baratas, ratos... Uma pequena Buda roceira, um tanto mimada, um tanto estouvada, um tanto bobinha, mas muito inteligente. Jamais rasgou uma nota de dinheiro para dar a metade a um pedinte carente.
Sua madrinha e tia, a bela Cremilda, trucidava a beleza para dar do bom e melhor a sobrinha. Como trabalhava na zona rural e era filiada ao Movimento dos Sem Nada, fazia longos discursos para politizar a criança:- “Mariazinha, meu docinho de atenóia! Nunca desista dos seus sonhos, não faça como eu que vim parar na zona rural devido a um cafajeste que conheci num comício. Lute por seus direitos, estude para ser alguém na vida!”
A menininha enfiava os cinco dedinhos na boca e respondia:-“ Dinda! Eu vou ser famosa. Eu vou ser modelo... Modelo não precisa estudar.””Linda da titia! O estudo é a base de tudo, sem estudo a pessoa não é nada.” Martelava a madrinha.”” Isso era antes, hoje em dia quanto menos estudo melhor, a gente pode ser até presidente!”Dizia Mariazinha.” Essa menina é muito inteligente! Tão novinha e já sabe o caminho do cofre, digo da roça... Huuuum! Vamos aguardar o futuro.”
Mariazinha cresceu... Cresceu... Cresceu. Parou de crescer:- “Estou tão feliz! Agora sou uma professora. Uma mestra, alguém para disseminar o conhecimento, plantar a semente do saber nas mentes infantis, uma pedagoga... Cheguei lá!”
Na primeira aula acertaram o apagador no seu rosto, foi chamada de anta duas vezes, de vaca quatro vezes. Como podem notar os alunos moravam em sítios, caso habitassem na cidade os apelidos seriam outros. Mariazinha decepcionou-se:- “Quanto tempo perdido! Essas crianças não querem aprender... Essas crianças são o futuro! Que futuro elas terão... Oh God!”
No final do primeiro semestre a professora estava um traste. Olheiras profundas, as mãos tremiam, tinha dificuldade motora para chegar até a sala de aula... Um medo... Um pavor... Mal conseguia dormir:- “Cheguei ao fundo do poço! Onde foram parar os meus sonhos? O meu ideal conquistado com tanto suor? Hoje é a última aula... Ufa!”
Mariazinha trancou a porta da sala de aula, agradeceu a presença de todos, distribuiu as notas, contou entre os risos de deboche dos alunos sua história de vida, tirou da bolsa uma mini metralhadora e enquanto teve bala foi disparando, restou apenas um com vida para contar a história. Está presa, mas sossegada e feliz.

Gastão Ferreira

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