sábado, 28 de agosto de 2010

IZABEL E O LOBISOMEM


IZABEL E O LOBISOMEM

Izabel mora no Despraiado em casa de taipa, uma tapera caiçara a beira mar, seu pai Juvenal planta mandioca, rouba uns palmitos e ocasionalmente pesca. É moça letrada dessas que completaram a quarta série e por isso trabalha na quitanda São Benedito cujo proprietário senhor Dito é aparentado de Juvenal.
Essa história meio destrambelhada foi a própria Izabel, também conhecida como “Zero Bala”, devido ao fato de nunca ter namorado, quem me contou. Seu pai é um homem rígido que não quer ver a filha de namoricos e sempre fala:- “Primeiro os estudos e depois o desfrute!”. A garota conseguiu a duras penas concluir o primeiro grau, o que foi ótimo, pois assim pode ler a Bíblia para a família crente que acredita ser a moça quase uma doutora:- “Nooossa! Como ela consegue juntar tantas letras? Nossa filha é um gênio.”
A quitanda do Dito, único mercadinho nas redondezas é o ponto de encontro e desencontro dos moradores do bairro. Desencontro por causa das brigas de alguns desavergonhados que se aproveitam do álcool para ofender os desafetos. Encontros porque é ali na humilde mercearia que rola as fofocas locais.
Izabel como vocês podem notar é muito esperta, estudada e um tanto assanhadinha, louca para arrumar um marido e esquecer a ridícula alcunha de “Zero Bala”. Numa noite de lua cheia atendeu alguns bêbados até mais tarde. O senhor Dito que também é seu tio se ausentou devido a uma consulta marcada há cinco meses, pois no município em que eles moram o atendimento médico é uma calamidade. Outro motivo que levou a garota a não reclamar por ficar até tão tarde é que paquerava as escondidas um sujeito chamado Josias, que todo o mundo chamava de Jôse, mas ele aparentemente jamais desconfiou das intenções amorosas da garota sonhadora.
Quando Izabel fechou a quitanda, a lua estava no alto, o que ela achou muito bom, pois a claridade iluminava o caminho. De tanto servir pinga aos bebuns achava-se um pouco embriagada, nem tentou defender-se quando foi atacada ferozmente por um animal desconhecido que rasgou suas roupas e deu uma bela chupada em seu pescoço. Sua sorte foi que no momento do vamos ver os finalmente, apareceu o seu Dito e acertou uma paulada bem na cabeça do bicho fera que saiu ganindo igual cachorro, daí a afirmação que a animália era um lobisomem.
No dia seguinte na quitanda o alvoroço foi grande, todos queriam saber os detalhes do sórdido e incomum acontecimento. Izabel fez questão de contar timtim por timtim o ocorrido, aumentando um pouco na parte erótica e deixando bem claro que permanecia “zero bala”. A freguesia espalhou aos quatro ventos a história do lobisomem, Izabel virou notícia. Josias, vulgo Jôse, desapareceu por alguns dias e quando voltou estava usando chapéu para esconder um machucado na cabeça. Agora lança uns olhares estranhos, igual quem provou um doce de que gostou e quer mais... Sei não! Sei não!

Gastão Ferreira

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