domingo, 4 de julho de 2010

SOMBRA




SOMBRA


Adentrei na casa vazia, a minha espera estavam lembranças há muito adormecidas. No ar um tremeluzir de saudades, no vaso flores murchas e retorcidas. Na parede um retrato sorrindo em um casamento feliz. Na sala sofás velhos sobrecarregados de segredos sussurrados ao pé do ouvido, muitos risos abafados esquecidos no corredor, o latido dos cães no quintal, um gato dormindo no abandono da cozinha.
Abracei o ar e dancei. Rodopiando ao som de música antiga vi-me novamente menina. Uma criança banguela, com a mão na boca, tentando esconder o primeiro dente que se foi. A mocinha tímida contou seu sonho ao vento. A realidade chegou e tinha um nome, um nome mil vezes escrito em folhas de cadernos, páginas de livros, na areia do chão. O nome do homem que foi o meu único amor.
Pela manhã casei, a tarde enviuvei. Com dois filhos o fardo pesou, mas jamais reclamei, pois essa foi à parte mais doce com que a vida me presenteou. Minha filha formou-se professora, o meu menino mimado uma bala perdida o achou. Como doeu! Meu mundo envelheceu. Perdi o riso, o cabelo branqueou e nunca, nunca me recuperei. A dor foi tão profunda que deitou raízes, se multiplicou em sombras e lágrimas que levaram meu gosto de viver.
Minha menina casou-se com um pastor, foi pastorear no fim do mundo, num lugar imundo onde o pecado mandava e desmandava. O pastor se perdeu, o demônio venceu, minha filha apanhava do marido drogado. Adoeceu, quase endoidou, dava aula a favelado num lugar que desconheço. Meu neto me escreveu, por isso eu sabia o quanto ela sofria, mas o que fazer se ela casou por amor com o pastor.
Quando a Morte me chegou, eu estava sentada naquele sofá. Deu-me a mão, me abraçou, afagou meus cabelos brancos, eu estava tão cansada!Meu velho corpo cedeu, a minha alma saiu correndo feito criança, se escondeu no porão. Ela não desistiu! Adulou-me, me consolou, por fim levou-me, mas o tempo! O tempo passou. Hoje aqui estou nessa casa vazia, casa que foi minha escola, casa de dor, casa de muito amor.
Peço desculpas por incomodar com a minha história! Uma história tão banal. Agora sou apenas uma sombra sem medo, sou só um pensamento que voltou, sou uma saudade e aquele ali parado junto à porta é meu Anjo Guardião, o anjo bom que me acompanha. Eu vim mostrar a ele a casa em que vivi a prisão de onde fugi!

Gastão Ferreira

2 comentários:

... disse...

Que lindo seu texto, muito lindo mesmo *-*
adorei aqui, to seguindo :D

sou filha da Professora Eli, ela que me mostrou o blog o/
;*

Anônimo disse...

Uau! Muito bom, você sabe lhe dar com as palavras!
Parabéns...♥