domingo, 11 de julho de 2010

NA PAREDE


NA PAREDE

Ainda não enlouqueci. A primeira vez que me lembro de Naya ela passeava num bosque, colhia flores e me sorriu. Foram muitos encontros, tantos risos, olhares, algo de estranho estava a acontecer. Meu problema é que nunca encontrei Naya na vida real, basta dormir e ela está em meu sonho.

No inicio eu a encontrava no bosque, depois no lago, a beira mar, no supermercado e em todos os locais aos qual o sono me levou. Não falava, apenas olhava e sorria. Uma noite ela me seguiu, descobriu onde eu morava e desde então vive na parede do meu quarto.

Uma noite ela falou, contou sua história. Nasceu em outra cidade, conheceu um cafajeste, apaixonou-se e fugiu com ele, aqui foi abandonada e desde então procura ajuda. As pessoas não querem ouvi-la, fazem de conta que ela não existe, por isso só agora resolveu se comunicar comigo, pois percebeu que sou diferente.

Sempre acordo cansado com a impressão de uma noite mal dormida, exausto, sem ânimo, como se alguém roubasse a minha energia vital. Naya me abraça me beija, eu acordo numa lassidão. Ela está a cada dia mais linda e eu mais apaixonado.

Confesso que estou apavorado, descobri que Naya foi assassinada há muitos e muitos anos e que de inocente nada tem. Fui enganado, acreditei em seu amor. Um homem apareceu no quarto, no meu sonho, ofendeu Naya, a chamou de vampiro e disse que não permitiria que ela fizesse comigo o que com ele fez. Naya gargalhou, mas ao notar que eu também via o visitante, me abraçou, me adulou e contou que fora aquele monstro que a matou.

O homem negou:- Repare em minhas roupas! Faz pouco tempo que parti, estou nesse estado lamentável porque o suicídio foi minha porta de saída, o único meio que encontrei para escapar dessa criatura que de mim se apossou. Destruiu meus sonhos, roubou minha luz, acredite em mim!

Tem três noites que não durmo. Estou com medo, pois ao acordar julguei ver Naya espancando a criatura doentia e guardei a sua voz:- Escravo! Saia, ele é meu.

Não posso dormir! Sinto-me fraco e cansado, tão cansado que vejo Naya dentro da parede... Eu não sou louco! Eu ouço a voz dela a chamar por mim, eu sei que se dormir não vou mais acordar. Necessito de ajuda, não quero me matar... Ela está dentro da parede a me chamar, a me chamar.

Gastão Ferreira

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