sexta-feira, 30 de julho de 2010

BALA CERTA


“BALA CERTA”

Quando garoto, as armas foram meus brinquedos favoritos. Posso manejar com perfeição desde um arco e fecha a um canhão antiaéreo. Meu nome é Rodolfo, codinome “Bala Certa”.
Tenho uma pequena dificuldade na leitura de jornais. Problema adquirido no ensino fundamental não concluído devido a uma professora mal amada. Esfaqueei a desgraçada que cismou com a minha cara, além de me corrigir no que eu escrevia, sempre achava motivos para me expor ao ridículo frente aos meus colegas de sala.
Na Casa da Criança e do Adolescente fiz amizade com todos. Paguei o que a Lei determinou, a vida da professora moralista custou dois anos naquele albergue onde eu comia e dormia de graça. Hoje acho que foi uma grande sorte ter matado a mestre na hora certa, pois como poderia aprender o básico para sobreviver em uma escola decadente que só me ensinava besteiras.
Éramos intocáveis e a mídia sempre estava do nosso lado. Considerados menores infratores, tínhamos médicos, dentistas, nutricionistas, psicólogos, cama, mesa e alimentação grátis a custa do cidadão contribuinte que vivia apavorado com medo do ladrão.
Meus colegas eram gente fina, um pessoal antenado com as novidades. Fiz curso de trombadinha, passador de drogas, arrombador de residência, seqüestro relâmpago e muitos outros. Foi nessa escola prisão que aprendi o que realmente conta para que se possa sobreviver numa boa. Aos dezoito anos sai para a liberdade, formado e com ficha limpa, eu estava recuperado.
Aos vinte anos possuía um carrão roubado, jóias, roupas de marca, muita grana escondida num buraco que fiz na parede do meu quarto, lá na favela. Não podia morar num lugar melhor, pois como justificar um salário se nunca trabalhei com carteira assinada. No futuro comprarei um apartamento de cobertura com o dinheiro de um assalto maneiro.
Comecei a viajar... Desde moleque a maconha nunca me fez mal. A cocaína dava a maior moral, mas esse tal crak vicia prá dedéu. O barraco desabou! Não sei como aconteceu. Estou com vinte e três anos, morando na rua, comendo de favor. Lembro de um tiroteio... Estava escuro, intimamos um cidadão a passar a grana, cartão de crédito, a chave do carro. O cara reagiu, descarregou a arma em nossa direção. Fiquei ferido, desmaiei, mas ao despertar estava bem. Não sei como um sujeito pacato, que por lei não pode andar armado teve aquela reação, coisa de doido!
Meu nome é Rodolfo, vulgo Bala Certa, não sei a idade que tenho. Esse crak acabou com meus neurônios. Têm noites que noto vultos a minha volta, alguns estendem as mãos. A professorinha que matei me abraçou, disse que a vida continua e que faz tempo me perdoou, que sem perdão ninguém é feliz de verdade, que a primeira pessoa a perdoar é a nós mesmos, pois somos todos crianças tentando aprender. Hei! Meu senhor. Preste atenção no que eu falo... Estou contando a minha história... Que coisa estranha! Desde o acidente com o cara que reagiu ao assalto no qual fui ferido, as pessoas parecem não me notar. Alguma coisa ocorreu... A luz foi embora, é sempre escuridão. Ouço gritos, gente pedindo socorro, muita oração. Deve ser efeito do crak ou quem sabe estou vivendo noutra dimensão. Quando garoto, as armas foram meus brinquedos prediletos. Meu nome é Rodolfo, apelido Bala Certa...

Gastão Ferreira

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