sexta-feira, 30 de julho de 2010

BALA CERTA


“BALA CERTA”

Quando garoto, as armas foram meus brinquedos favoritos. Posso manejar com perfeição desde um arco e fecha a um canhão antiaéreo. Meu nome é Rodolfo, codinome “Bala Certa”.
Tenho uma pequena dificuldade na leitura de jornais. Problema adquirido no ensino fundamental não concluído devido a uma professora mal amada. Esfaqueei a desgraçada que cismou com a minha cara, além de me corrigir no que eu escrevia, sempre achava motivos para me expor ao ridículo frente aos meus colegas de sala.
Na Casa da Criança e do Adolescente fiz amizade com todos. Paguei o que a Lei determinou, a vida da professora moralista custou dois anos naquele albergue onde eu comia e dormia de graça. Hoje acho que foi uma grande sorte ter matado a mestre na hora certa, pois como poderia aprender o básico para sobreviver em uma escola decadente que só me ensinava besteiras.
Éramos intocáveis e a mídia sempre estava do nosso lado. Considerados menores infratores, tínhamos médicos, dentistas, nutricionistas, psicólogos, cama, mesa e alimentação grátis a custa do cidadão contribuinte que vivia apavorado com medo do ladrão.
Meus colegas eram gente fina, um pessoal antenado com as novidades. Fiz curso de trombadinha, passador de drogas, arrombador de residência, seqüestro relâmpago e muitos outros. Foi nessa escola prisão que aprendi o que realmente conta para que se possa sobreviver numa boa. Aos dezoito anos sai para a liberdade, formado e com ficha limpa, eu estava recuperado.
Aos vinte anos possuía um carrão roubado, jóias, roupas de marca, muita grana escondida num buraco que fiz na parede do meu quarto, lá na favela. Não podia morar num lugar melhor, pois como justificar um salário se nunca trabalhei com carteira assinada. No futuro comprarei um apartamento de cobertura com o dinheiro de um assalto maneiro.
Comecei a viajar... Desde moleque a maconha nunca me fez mal. A cocaína dava a maior moral, mas esse tal crak vicia prá dedéu. O barraco desabou! Não sei como aconteceu. Estou com vinte e três anos, morando na rua, comendo de favor. Lembro de um tiroteio... Estava escuro, intimamos um cidadão a passar a grana, cartão de crédito, a chave do carro. O cara reagiu, descarregou a arma em nossa direção. Fiquei ferido, desmaiei, mas ao despertar estava bem. Não sei como um sujeito pacato, que por lei não pode andar armado teve aquela reação, coisa de doido!
Meu nome é Rodolfo, vulgo Bala Certa, não sei a idade que tenho. Esse crak acabou com meus neurônios. Têm noites que noto vultos a minha volta, alguns estendem as mãos. A professorinha que matei me abraçou, disse que a vida continua e que faz tempo me perdoou, que sem perdão ninguém é feliz de verdade, que a primeira pessoa a perdoar é a nós mesmos, pois somos todos crianças tentando aprender. Hei! Meu senhor. Preste atenção no que eu falo... Estou contando a minha história... Que coisa estranha! Desde o acidente com o cara que reagiu ao assalto no qual fui ferido, as pessoas parecem não me notar. Alguma coisa ocorreu... A luz foi embora, é sempre escuridão. Ouço gritos, gente pedindo socorro, muita oração. Deve ser efeito do crak ou quem sabe estou vivendo noutra dimensão. Quando garoto, as armas foram meus brinquedos prediletos. Meu nome é Rodolfo, apelido Bala Certa...

Gastão Ferreira

terça-feira, 20 de julho de 2010

ESMOLAS DEMAIS


ESMOLAS DEMAIS

Naquele lugar secreto onde os Santos se reúnem o ciúme pegou:-“ Como é que pode? Desconhecemos esta figura que nunca fez parte do time titular. Agora uma cidade inteira pedindo favores, intercessão, milagres!Alguém aqui presente pode elucidar tal mistério?Cada um de nós teve um passado de dores, lutas, provas de absoluta fé, muitos foram jogados aos leões, outros queimados, apedrejados, martirizados e esse tal São da Tia! O que ele fez? O que aprontou para merecer tamanha devoção?”
Estavam os Santos nesse tititi quando um mensageiro chegou:- “Novas noticias do fronte, o amado São da Tia fez novos milagres!”
-” Quais milagres fez o tal santinho?” Perguntou desdenhosamente um velho Santo já de há muito esquecido.
- Alguém ganhou do nada uma nova televisão. Um infante assanhado passou a ser a figura de proa da patroa a distribuir favores a quem lhe beija a mão. Uma garota um tanto avoada, cuja maior preocupação era ser amada descolou um alto cargo do dia para a noite sem ter a mínima formação. Quem nunca saiu daquele fim de mundo, num passe de mágica viaja de avião, outros passam férias em luxuosos transatlânticos sem gastar um tostão.
- Oh! Quando a esmola é demais até os Santos desconfiam. Que será que move a essa bondade sem limite esse novo irmão?Afinal! Quem é o São da Tia? Qual foi a sua trajetória para a perfeição?Senhor mensageiro, pode nos esclarecer sobre essa questão?
- Não sei bem a história, mas parece que não é natural da cidade. É da proximidade disso tenho certeza, talvez de uma cidade vizinha. O interessante é que no local de onde veio jamais fez um reles milagre, nem mesmo um bem simples como transformar a água em vinho, ressuscitar um afogado, curar um aleijado ou salvar uma criancinha de ser devorada por uma onça feroz.
- Estranho! Esse comportamento não é normal. Adoramos aparecer para o povo local, basta olhar nossa biografia; - Assis, Pádua, Cássia, Calcutá, foram residências oficiais de alguns dentre nós. Senhor mensageiro poderia nos elucidar sobre tais fatos?
- Peço desculpas ao Santo Velho, mas não posso me demorar. Na lista de amigos do santinho estão Anjos e Arcanjos, é bem provável que já tenha a seu favor Serafins e Querubins. Estão vendo esses envelopes, são cheques ao portador, os pequenos milagres desse novo amigo ao qual devo favor.
- Como assim mensageiro! Você se vendeu?
- Antes quando eu vinha lá da Terra passava por um longo protocolo, bisbilhotavam até minha agenda particular. Agora entro e saio à hora que bem quero sem dar satisfação. Estou num novo negócio, ganhei uma promoção, o meu santinho veio prá ficar. Ninguém quer vir pro céu virar anjinho, a nova moda é ter dinheiro de montão. Adeus caráter, ética, moral. Quem manda é o vil metal, quem pode compra a quem quer se vender. A única exigência do corruptor é que o corrompido fique calado e o defenda da lei. Hoje existem novos santos de montão. Passar bem! Lembranças ao Patrão.

Gastão Ferreira

sábado, 17 de julho de 2010

APENAS UM ANJO


APENAS UM ANJO...

Quando o Anjo desceu, desparafusou as asas, trocou de roupas e foi fazer o seu trabalho. Evitou a tempo um acidente de carro, retirou um gato do alto de uma árvore, consolou um menino que perdera a pipa, ajudou uma velhinha a atravessar a rua, correu atrás de um ladrão.
Ao meio dia comeu da marmita requentada, dividiu com um pedinte o que restou, ouviu a história do mendigo e prometeu que conseguiria um trabalho se ele o acompanhasse a uma instituição. Ouviu um não:- “Estou pedindo comida, agasalho, alguns trocados em nome de Nosso Senhor, por favor, não insista, trabalho não!”
Quase no fim do expediente uma briga de transito chamou sua atenção, consegui evitar uma tragédia, a bala picotou. Ao homem que voltava a pé para casa por não ter como pagar a condução, mostrou uma carteira com dinheiro e sem documento estendida no chão. O homem abriu a carteira, agradeceu a Deus, contou as notas e pensou:- “Vou passar no mercado, fazer umas comprinhas, não posso esquecer-me do Joãozinho o meu filhote, hoje ele vai ter um doce depois do jantar.”
O Anjo se emocionou. Todo o homem nasce bom, ele sabia que o que falta é o tal de amor ao próximo. Uns com tanto, outros sem nada... Fazer o quê cada um com sua cruz, mas não é por isso que devemos negar uma ajuda na hora certa. Nosso Pai é um bom pai, não deixa seus filhos no abandono, o que falta é pedir com humildade.
O Anjo agradeceu a oportunidade de servir, vestiu as asas, foi subindo... Subindo. Uma bala perdida o acertou bem no meio da testa, ele despencou qual pássaro morto em pleno vôo lá de cima e caiu na mata.
O Jornal Nacional publicou a foto da menina seqüestrada que fugiu do cativeiro e escondeu-se na floresta. O que a salvou foi o abrigo que encontrou para passar a noite. Estranho o tal abrigo tinha a forma de duas brancas asas, asas de Anjo, asas de quem morreu por Amor.

Gastão Ferreira

domingo, 11 de julho de 2010

NA PAREDE


NA PAREDE

Ainda não enlouqueci. A primeira vez que me lembro de Naya ela passeava num bosque, colhia flores e me sorriu. Foram muitos encontros, tantos risos, olhares, algo de estranho estava a acontecer. Meu problema é que nunca encontrei Naya na vida real, basta dormir e ela está em meu sonho.

No inicio eu a encontrava no bosque, depois no lago, a beira mar, no supermercado e em todos os locais aos qual o sono me levou. Não falava, apenas olhava e sorria. Uma noite ela me seguiu, descobriu onde eu morava e desde então vive na parede do meu quarto.

Uma noite ela falou, contou sua história. Nasceu em outra cidade, conheceu um cafajeste, apaixonou-se e fugiu com ele, aqui foi abandonada e desde então procura ajuda. As pessoas não querem ouvi-la, fazem de conta que ela não existe, por isso só agora resolveu se comunicar comigo, pois percebeu que sou diferente.

Sempre acordo cansado com a impressão de uma noite mal dormida, exausto, sem ânimo, como se alguém roubasse a minha energia vital. Naya me abraça me beija, eu acordo numa lassidão. Ela está a cada dia mais linda e eu mais apaixonado.

Confesso que estou apavorado, descobri que Naya foi assassinada há muitos e muitos anos e que de inocente nada tem. Fui enganado, acreditei em seu amor. Um homem apareceu no quarto, no meu sonho, ofendeu Naya, a chamou de vampiro e disse que não permitiria que ela fizesse comigo o que com ele fez. Naya gargalhou, mas ao notar que eu também via o visitante, me abraçou, me adulou e contou que fora aquele monstro que a matou.

O homem negou:- Repare em minhas roupas! Faz pouco tempo que parti, estou nesse estado lamentável porque o suicídio foi minha porta de saída, o único meio que encontrei para escapar dessa criatura que de mim se apossou. Destruiu meus sonhos, roubou minha luz, acredite em mim!

Tem três noites que não durmo. Estou com medo, pois ao acordar julguei ver Naya espancando a criatura doentia e guardei a sua voz:- Escravo! Saia, ele é meu.

Não posso dormir! Sinto-me fraco e cansado, tão cansado que vejo Naya dentro da parede... Eu não sou louco! Eu ouço a voz dela a chamar por mim, eu sei que se dormir não vou mais acordar. Necessito de ajuda, não quero me matar... Ela está dentro da parede a me chamar, a me chamar.

Gastão Ferreira

quarta-feira, 7 de julho de 2010

PRINCESA



PRINCESA

Quando chegam as lembranças eu me debruço sobre o tempo e vejo uma criança feliz. Do alto da montanha contemplo o mar, recordo das caravelas, dos navios piratas, dos selvagens que brincavam comigo nos dias infantis. Minha irmã Cananéia sempre foi a mais retraída dentre nós, meu irmão Vicente era o rezador da família, virou santo, São Vicente. Meu outro irmão, O Santos, cresceu e ficou famoso. Papai Portugal andou aprontando com uma índia, desse romance espúrio nasceu meu irmão bastardo Itanhaem e eu. Essa história faz parte dos segredos familiares.

Papai Portugal foi um pai distante, com o passar do tempo descobri que éramos parte de uma grande família, frutos de suas aventuras pelo mundo. Possuo irmãos na África e na Índia, mas o verdadeiro amor de papai nunca saiu da Europa.

Meu nome é Iguape, sou de origem indígena, cresci livre nesse local banhado por inúmeros rios que por aqui se misturam ao oceano. Quando menina mudei de casa, os piratas não davam sossego. Saímos da pequena vila de vovó Icapára para esse aprazível sitio onde com o tempo fui feita Princesa.

A juventude foi gloriosa, muito ouro enfeitou minha casa. Possuí um dos maiores portos do país, minha fama corria o mundo. Pessoas ilustres me visitavam, os produtos de minhas inúmeras hortas disputavam mercados distantes. Era uma Princesa de fato e uma garota feliz.

Oh! Como a mocidade é cruel e inconseqüente. Eu, uma princesa indígena, perdida na vastidão desse país continente queria ser rainha. Ordenei aos súditos a construção de um grande valo ligando o Rio Ribeira ao lagamar. Esse passo foi minha ruína, causei um dos maiores desastres ecológicos na América do Sul. Meu grande porto foi assoreado, os navios nunca mais voltaram. As áreas de plantio desapareceram devido a enchentes, minha decadência começou.

Não posso culpar ninguém pelo mau passo dado na juventude, sobrevivi, meus irmãos se tornaram famosos. Santos é ponto de referência no planeta, tem casa luxuosa com numerosos súditos. Vicente! Continua rezando, mas prosperou. Itanhaem já não é tão selvagem, talvez seja o mais feliz de todos nós, pois continua um eterno curumim.

Não quero que pensem que sou uma despeitada, afinal, de toda a família só eu sou nobre, só eu detenho o título de Princesa, mas uma coisa que está me magoando profundamente é essa estagnação, essa falta de perspectivas, esse não progresso que me envolve. Até minha irmã caipirinha, a doce Cananéia, está progredindo mais do que eu e isso dói! Como a tolinha da família tenta tomar o meu lugar? Como ousa competir com a irmã Princesa?Jamais passou pela minha cabeça ser uma decadente, uma nobre da melhor idade sem futuro visível. Dizem que no meu destino serei apenas uma velha senhora tombada pelo patrimônio histórico. Meu Bonje! Eu não quero ser um asilo.

Gastão Ferreira

segunda-feira, 5 de julho de 2010

MEMMORIUM


MEMMORIUM

O quarto na penumbra. Sou um velho cansado de tudo. O corpo imóvel pedindo repouso... O menino portando um ramalhete de flores silvestres aproxima-se da cama. Seu olhar inocente me fita:- “Quem será?” penso eu.
- Eu sou você! Essas flores foram colhidas naquele dia em que fui visitar vovó Maria Inês, lembra? Noventa e tantos anos já se passaram.
- Vovó Maria Inês! Vovó com seus doces e seus afagos, uma sombra de amor enfeitando minha infância, esse menino doido dizendo que sou eu.
- Valdo! Eu sou você. A tua memória me tornou criança para recordar toda uma vida, a nossa vida. Sou o depósito dos teus sonhos, o menino que vive em ti, a esperança nunca perdida, a chama que te move à parte luminosa do teu longo caminho.
- Menino maluquinho! Não posso negar, é a minha imagem... Meu Deus! Como fui feliz. A casa simples no sitio de meus pais... Meus irmãos, primos, tias, parentes, risos. A mudança para a cidade, os estudos, as lutas, a vontade de vencer, a gana de viver num futuro melhor... As muitas vitórias, os poucos fracassos. Dores de amores, dores de dores, dores sem dores. Um homem e seu mundo, um homem conquistando seu espaço no mundo... Um homem que foi um vencedor. Essa mansão! O cofre camuflado na parede onde guardo parte do meu ouro... Meus filhos sem tempo para uma visita ao pai doente... Minha poderosa família, meus herdeiros... Meu sangue pobre que transformei em nobre... Minha luta.
- Valdo! Tudo isso ficará aqui. Em que parte da jornada me abandonou? Onde ficou o menino que sonhava? Que acreditava em magia e era feliz!O adolescente que queria modificar o mundo?Que amava a natureza e que se encantava com os mistérios da vida?
- Ah! Meu menino. Dessa criança me afastei. Com suas crenças, sua inútil amabilidade era um estorvo ao sucesso profissional. Tornei-me um empresário famoso, a riqueza chegou, esqueci do riacho onde pescava nos dias infantis, dos parentes pobres que só pediam favores, dos amigos perdedores, do nascer do sol, das estrelas, da simplicidade... Tornei-me um nobre, como nobre vivi.
- Valdo, Valdo! Que valia teve o sangue nobre se a tua alma é pobre?Chegastes ao mundo de mãos vazias e de mãos vazias partirás. Repara!... Nesse luxuoso aposento com quadros valiosos nas paredes, quadros cujo valor saciaria a fome de muitos e que servem de enfeites a tua doença terminal, apenas mostram a tua solidão!
- Menino! Esses quadros famosos custaram o suor de meus empregados, foi à paga pelo muito que os ajudei.
- Mentes! Pois sabes das lágrimas que tua extrema avareza causou.
- Criança! O que é meu foi conquistado...
- Nada de material se conquista verdadeiramente, pois tudo fica aqui... Quando nascestes eras uma pedra bruta a ser trabalhada, lapidada, transformada em uma jóia viva, um ser humano buscando a perfeição...
- Criança... Criança! De quem são as sombras que te acompanham?
- São amigos e inimigos que aguardam...
- Aguardam o quê?
- O momento da partida que se aproxima...
- Vou morrer?Assim sozinho! Como um traste velho abandonado...
- É à hora de colher o que semeou... Nem tudo são flores, nem tudo são dores, algum bem foi feito e como informei de mãos vazias todo o homem parte, a fortuna está no coração, o único cofre que nunca será roubado e nele está guardado a compreensão, o amor, a humildade... Esses bens que as traças jamais comerão.
- Ah meu menino! O cansaço me invade, uma doce lassidão... Quero dormir, esquecer essa conversa sem pé nem cabeça... Obedeça-me! Dá-me tua mão.
- Segura minha mão. Agora!... Voltarás a ser o menino e eu serei o teu guardião.

Gastão Ferreira

domingo, 4 de julho de 2010

SOMBRA




SOMBRA


Adentrei na casa vazia, a minha espera estavam lembranças há muito adormecidas. No ar um tremeluzir de saudades, no vaso flores murchas e retorcidas. Na parede um retrato sorrindo em um casamento feliz. Na sala sofás velhos sobrecarregados de segredos sussurrados ao pé do ouvido, muitos risos abafados esquecidos no corredor, o latido dos cães no quintal, um gato dormindo no abandono da cozinha.
Abracei o ar e dancei. Rodopiando ao som de música antiga vi-me novamente menina. Uma criança banguela, com a mão na boca, tentando esconder o primeiro dente que se foi. A mocinha tímida contou seu sonho ao vento. A realidade chegou e tinha um nome, um nome mil vezes escrito em folhas de cadernos, páginas de livros, na areia do chão. O nome do homem que foi o meu único amor.
Pela manhã casei, a tarde enviuvei. Com dois filhos o fardo pesou, mas jamais reclamei, pois essa foi à parte mais doce com que a vida me presenteou. Minha filha formou-se professora, o meu menino mimado uma bala perdida o achou. Como doeu! Meu mundo envelheceu. Perdi o riso, o cabelo branqueou e nunca, nunca me recuperei. A dor foi tão profunda que deitou raízes, se multiplicou em sombras e lágrimas que levaram meu gosto de viver.
Minha menina casou-se com um pastor, foi pastorear no fim do mundo, num lugar imundo onde o pecado mandava e desmandava. O pastor se perdeu, o demônio venceu, minha filha apanhava do marido drogado. Adoeceu, quase endoidou, dava aula a favelado num lugar que desconheço. Meu neto me escreveu, por isso eu sabia o quanto ela sofria, mas o que fazer se ela casou por amor com o pastor.
Quando a Morte me chegou, eu estava sentada naquele sofá. Deu-me a mão, me abraçou, afagou meus cabelos brancos, eu estava tão cansada!Meu velho corpo cedeu, a minha alma saiu correndo feito criança, se escondeu no porão. Ela não desistiu! Adulou-me, me consolou, por fim levou-me, mas o tempo! O tempo passou. Hoje aqui estou nessa casa vazia, casa que foi minha escola, casa de dor, casa de muito amor.
Peço desculpas por incomodar com a minha história! Uma história tão banal. Agora sou apenas uma sombra sem medo, sou só um pensamento que voltou, sou uma saudade e aquele ali parado junto à porta é meu Anjo Guardião, o anjo bom que me acompanha. Eu vim mostrar a ele a casa em que vivi a prisão de onde fugi!

Gastão Ferreira

sexta-feira, 2 de julho de 2010

A LÁGRIMA DE DEUS


A LÁGRIMA DE DEUS

Na solidão do Nada o Verbo dormia e sonhava. Constelações, galáxias, universos, multiversos povoavam seu sonho. Sistemas planetários eram criados... Sóis de imensa grandeza, luas, asteróides, esferas orbitavam na imensidão.
O planetinha azul era o seu preferido, um mundo quase aquático. Muito se divertiu povoando-o... Sua imaginação não tinha limites, a perfeição era sua meta. Criou a matéria sólida, deu forma a todos os seres... Do átomo à suas ínfimas partículas, das algas marinhas aos grandes vertebrados, da humilde grama as majestosas árvores, do pequeno Beija-flor ao gigantesco Condor, da modesta fonte à imensidão do mar.
A paz, a harmonia, a beleza... Cada ser criado cumpria com um propósito evolutivo. O tempo passava na espera da criatura que seria chamada “O Rei da Criação”, um ser com pensamento contínuo, não fragmentado como os demais animais. Uma entidade mista, um invólucro contendo o sopro do Verbo Criador... O Homem e a sua Alma.
Essa criatura seria o jardineiro planetário, o zelador do patrimônio divino, a inteligência materializada, o único que teria uma idéia de toda a Criação. A bondade o acompanharia em sua missão. A humildade perante a grandeza do Criador, a gratidão pelo existir fariam dele um ser diferenciado, pois traria consigo a certeza da eternidade e sua parte imortal falaria mais alto.
O Verbo despertava e nesse fragmento de tempo entre o sonho e a realidade ele viu a sua obra concluída... Viu o sangue de inocentes ser ofertado em sua honra, os grandes exércitos devastando a Terra, as Cruzadas, a Inquisição, a Dor, a Revolta, o Assassinato... O forte dominando o fraco, o poderoso desprezando o humilde, a vaidade tomando o lugar da simplicidade, a luta entre a luz e as trevas, tudo isso em seu nome. Sua mente criadora dera uma forma física a seu sonho, o Verbo criou a eternidade, a impossibilidade de retorno ao nada original era nula. Nesse despertar o sonho seria a realidade... Não havia a mínima possibilidade de anular a criação, a matéria estava a se condensar, a realidade a existir... Nesse instante o Verbo chorou pela única criatura que o conheceria, a qual presenteou com uma parte de si mesmo e as lágrimas do Criador consolidaram o Universo. “Faça-se a Luz e a Luz foi feita”. O Homem foi criado;- É o único fruto das lágrimas de Deus.


Gastão Ferreira

SECRETO


A transformação...

SECRETO

Gilmar foi meu melhor amigo, conhecíamos desde crianças, mesma escola, mesma sala de aula. Jogos, pescarias no riacho, brincadeiras, éramos vizinhos, companheiros nas artes infantis, nossa idade era a mesma.
Quando papai mudou para a cidade grande eu era um adolescente preparando-se para conquistar o mundo. Formei-me com louvor, meu trabalho levou-me para muitos países. O tempo passou, esqueci as aventuras de menino. Quando antigas lembranças vinham à mente, eu lembrava de Gilmar.
Eu contava vinte e cinco anos, aproveitando as férias vim visitar a família, resolvi rever Gilmar. Foi grande a alegria, muita conversa jogada fora, muitos risos. Fomos em meu carro dar uma volta, um acidente aconteceu. Numa curva o carro derrapou, caímos numa ribanceira. Gilmar desmaiou, de um pequeno corte em seu queixo saia um líquido amarelado, fiquei curioso, notei que a ponta de uma película translúcida aparecia... Toquei levemente no local, a aparência de meu amigo sofreu uma metamorfose. Um rosto desconhecido sobrepunha-se ao rosto tão conhecido, uma medonha face nunca vista, onde olhos de um fulgor extraterrestre me fitavam zombeteiros... Desmaiei.
Ao acordar, Gilmar tentava socorrer-me, me afastando do veículo em pane. Era o amigo de sempre com seu sorriso luminoso, o aspecto de galã de novela, o olhar franco de quem confia. Informou que nada sofrera, que eu desde a queda na ribanceira permanecera desmaiado e que em nenhum momento recuperara a lucidez.
Aquele acidente marcou-me para sempre, tinha a certeza de que não perdera os sentidos, que havia realmente presenciado uma estranha e horripilante transformação... Nunca mais me encontrei com Gilmar, o tempo foi passando.
Hoje completo noventa anos, estou voltando de um passeio na orla marítima. Estou apavorado! Minha memória é excelente, tenho certeza absoluta que vi Gilmar... Um jovem de vinte e cinco anos, cabelos negros, traços de galã de novela, o sorriso luminoso. Os olhos que me fitaram em um quase reconhecimento!... A juventude! Meu amigo jamais envelheceu.O acidente de carro, o sangue amarelo, a transformação perante meus olhos... Meu melhor amigo era um extraterrestre!

Gastão Ferreira