terça-feira, 8 de junho de 2010

MARTHA



MARTHA

Quando ela bebia transformava-se em outra mulher. Uma fêmea poderosa capaz de ousadias inconfessáveis. Martha era tímida, vez por outra apanhava de Luizico, seu amante drogado que nela descontava seu próprio medo, sua incapacidade de amar e assumir suas opções mais secretas, pois preferia espancá-la a ver no espelho a realidade que o diferenciava.
Mês passado ela foi uma cantora de cabaré. No bar do seu Zinho imitou Dolores Duran e Maísa, uma cover perfeita em suas dores, em seus amores. Deu autógrafo e algo mais a quem solicitou seus favores, afinal não é sempre que sua estrela brilhava.
O personagem da outra semana foi uma psicopata, quando maltratada matava e cantava hinos religiosos como parte do ritual. Exibiu-se ao público portando um punhal. Muito aplauso recebeu por seu monólogo, o que ninguém percebeu é que vestiu o personagem e um crime hediondo naquela noite abalou a cidade.
Muitos crimes ocorreram pelos becos sem nome, muito sangue coloriu as velhas calçadas. O assassino ninguém viu, mas sabia-se que na madrugada algo estranho ocorria, uma alma cantava hinos de louvor ao seu Criador e quando tal fato acontecia alguém morria.
Luizico entrou na cozinha e espancou o cachorro Tadeu que virou o saco de lixo. O homem sentiu-se ultrajado e em quanto não matou a pancada o tal Tadeu, não sossegou. O que ele não sabia era que Martha bebeu e também não sabia que quando ela bebia transforma-se em outra mulher. O que estranhou é que ela não xingou. Começou a cantar, começou a rezar. Ele a mandou parar, calar a boca. Quando levantou a mão para o primeiro tapa sentiu o punhal, nem chegou a gritar pois o segundo golpe sua garganta cortou.
Hoje no jornal eu vi o seu retrato, o que sobrou de Luizico com um punhal cravado bem no coração. Li que Martha foi encontrada rezando, acariciando o rosto desfigurado de seu amor, uma mulher tão nobre que ficou só. A polícia está à procura do autor de mais um crime hediondo, quem souber de algo é favor comunicar.

Gastão Ferreira

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