domingo, 13 de junho de 2010

DONA BARATINHA


DONA BARATINHA
- UMA HISTÓRIA INFANTIL -

Naquele reino encantado onde os bichos e as bichas falavam os vermes faziam a festa, mandavam e desmandavam, não estavam nem aí para o restante dos habitantes da floresta. Quando um velho e esperto verme foi enquadrado pela lei, por ter metido a mão em cambuca, sobrou para Dona Baratinha. Foi ela quem ficou a frente do reino. Todos os bichos aplaudiram cheios de esperança:- Finalmente a honestidade olhará por nós!Dona Baratinha exterminará a raça amaldiçoada dos vermes que se nutrem do sangue alheio. O futuro chegou... Olé... Olé... Olá!
A primeira providência agradou a bicharada, a nova mandante contratou a peso de ouro um conjunto musical de outra floresta, chamado “Som da Trilha”, no que foi muito aplaudida:- Oba! Começou com festa.
O que ninguém sabia é que o reino fora amaldiçoado há muitos e muitos anos e todo o soberano mal colocava a coroa era absorvido pelo poderoso feitiço. Esquecia o propósito de melhorias, esquecia os moradores da floresta, esquecia a ética e a honestidade. Alguns dos ex monarcas chegaram a comprar imensas extensões de terras fora dos limites do reino, outros, locais de moradia para seus herdeiros e outros, belas tocas apenas com seus parcos rendimentos reais. Com Dona Baratinha não foi diferente, assim que iniciou seu reinado tomou gosto por longas viagens, conheceu lugares paradisíacos, usufruiu do bom e do melhor e descuidou da chave do cofre.
A floresta virou um caos, riachos poluídos, doenças, troca de favores e favores na troca. Quem devia exercer vigilância ao poder se omitia e passava a cantar loas a Dona Baratinha, cobrando altos cargos para seus afilhados junto à corte.
Quando o Exterminador de Pragas chegou e enquadrou a todos, o espanto generalizou-se, os mandantes juravam inocência, os corruptos escondiam as mãos sujas, os corrompidos juravam ter mãos limpas, os omissos gritavam que jamais calaram a voz e que foram eles que defenderam o reino da destruição total.
Na verdade o problema foi resolvido pelos próprios habitantes da floresta que desta vez fizeram corretamente a sua parte, pegaram os documentos necessários e no local onde estava o temido Exterminador, também chamado Urna, deram o voto certo. Foi assim que a Maldição foi quebrada, o Macaco não se trocou por bananas, o Gambá por uma garrafa de pinga, o Cupim por um pedaço de madeira e o Bicho Preguiça por algumas folhas verdes. Um bicho consciente pode mudar tudo a sua volta, basta querer e não se vender.
Dona Baratinha, com seu gosto por viagens, hoje é muito feliz. Por seu grande amor ao conjunto “Som da Trilha”, associou-se ao grupo e com ele percorre o mundo cantando e dançando. Os demais participantes da história trocaram de máscaras e tentam passar uma imagem de humildade e competência, baixando o sarrafo no novo rei. Viva a floresta!O palco da vida. Onde desde que o Mundo é mundo, todas as histórias se repetem, pois só mudam os personagens.

Gastão Ferreira

terça-feira, 8 de junho de 2010

MARTHA



MARTHA

Quando ela bebia transformava-se em outra mulher. Uma fêmea poderosa capaz de ousadias inconfessáveis. Martha era tímida, vez por outra apanhava de Luizico, seu amante drogado que nela descontava seu próprio medo, sua incapacidade de amar e assumir suas opções mais secretas, pois preferia espancá-la a ver no espelho a realidade que o diferenciava.
Mês passado ela foi uma cantora de cabaré. No bar do seu Zinho imitou Dolores Duran e Maísa, uma cover perfeita em suas dores, em seus amores. Deu autógrafo e algo mais a quem solicitou seus favores, afinal não é sempre que sua estrela brilhava.
O personagem da outra semana foi uma psicopata, quando maltratada matava e cantava hinos religiosos como parte do ritual. Exibiu-se ao público portando um punhal. Muito aplauso recebeu por seu monólogo, o que ninguém percebeu é que vestiu o personagem e um crime hediondo naquela noite abalou a cidade.
Muitos crimes ocorreram pelos becos sem nome, muito sangue coloriu as velhas calçadas. O assassino ninguém viu, mas sabia-se que na madrugada algo estranho ocorria, uma alma cantava hinos de louvor ao seu Criador e quando tal fato acontecia alguém morria.
Luizico entrou na cozinha e espancou o cachorro Tadeu que virou o saco de lixo. O homem sentiu-se ultrajado e em quanto não matou a pancada o tal Tadeu, não sossegou. O que ele não sabia era que Martha bebeu e também não sabia que quando ela bebia transforma-se em outra mulher. O que estranhou é que ela não xingou. Começou a cantar, começou a rezar. Ele a mandou parar, calar a boca. Quando levantou a mão para o primeiro tapa sentiu o punhal, nem chegou a gritar pois o segundo golpe sua garganta cortou.
Hoje no jornal eu vi o seu retrato, o que sobrou de Luizico com um punhal cravado bem no coração. Li que Martha foi encontrada rezando, acariciando o rosto desfigurado de seu amor, uma mulher tão nobre que ficou só. A polícia está à procura do autor de mais um crime hediondo, quem souber de algo é favor comunicar.

Gastão Ferreira