terça-feira, 25 de maio de 2010

EDRIAN


EDRIAN

O carro capotou três vezes antes de cair na ribanceira. Quando Edrian acordou era noite fechada, subiu pela encosta e caminhou na lateral da rodovia pedindo socorro, ninguém o auxiliou... Cansado adormeceu.
Uma garoa fina em meio à névoa matinal o despertou, seu corpo dolorido pelo acidente necessitava de atenção. Os automóveis passavam céleres e não havia maneira de pará-los... Edrian fraco e faminto quase a arrastar-se continuou a caminhada.
Avistou a casa na beira da pista e para lá se dirigiu. Bateu palmas, gritou, chamou... A casa estava vazia ou seus moradores estavam trabalhando, não conseguiu destravar a porta, apenas bebeu da água que encontrou em um balde e seguiu seu caminho.
Encontrou o homem e o menino. O menino demonstrou medo e o homem fez de conta que não o via... Tentou explicar a situação. O menino apavorado agarrava-se ao pai que aparentemente não entendia a criança e nem sequer dirigiu um olhar a Edrian que gemia e chorava.
O caminhante maltrapilho também não foi de muita ajuda, apenas balbuciava palavras desconexas sobre um acidente na estrada, da fome que era sua companheira constante, das vozes que ouvia dentro da neblina, dos vultos atravessando a pista e dos gritos pedindo socorro que pareciam partir do nada... Acreditava-se um louco.
Edrian Salvatore, o famoso advogado que cobrava fortunas para qualquer consulta, nesse momento se comparava a um mendigo, na verdade pior que um mendigo, pois não tinha a quem recorrer e chegaram às lembranças... O dinheiro fácil, as bebidas, as drogas, o envolvimento com o lado negro da sociedade, a politicagem, a arrogância... “Meu Deus! Quanto tempo perdido com bobagens.” “Que vida sem sentido! Que vazio.” “Meu Deus! Ajude-me, por favor.”
-Edrian?Gritou uma voz.
-Sou eu!Que bom que me encontraram em meio a essa densa neblina. Quem são vocês?Policiais Rodoviários? Grupo de resgate?
- Grupo de Resgate... Venha em direção a nossa voz!
Eram cinco pessoas, Adrien reclamou da demora, da fome, das dores, da falta de socorro imediato e que processaria os responsáveis pelo descaso à sua posição social.
O chefe do grupo explicou que há vinte dias o estavam procurando. ”Palhaçada! Foi ontem a noite que ocorreu o acidente”, disse Adrian.
- Não! Já passaram vinte dias e o socorro foi imediato, não o encontramos porque sua alma não brilha, pois é praticamente impossível detectar algo sem luz própria em meio a neblina espiritual que envolve está região pós morte.
- Região pós morte? Exclamou Adrian.
- Sim! Seu corpo pereceu no acidente e você se pôs a vagar a procura de auxílio... Somente quando se lembrou de Deus foi que conseguimos detectar sua presença na neblina... Agora vamos conduzi-lo a um hospital e de lá o encaminharão para uma nova vida.
- “Meu Deus! Voltei de mãos vazias.” Disse Adrian.
-Algum bem você deve ter feito! Normalmente as pessoas iguais a você ficam anos e anos perdidos na neblina e somente quando se tornam merecedoras de ajuda é que são auxiliadas... Vem! Vamos para casa.

Gastão Ferreira

domingo, 23 de maio de 2010

ALGUÉM SE LEMBROU DE MIM


ALGUÉM SE LEMBROU DE MIM

Desde que o mundo é mundo a boa convivência entre os seres humanos segue algumas regras básicas. O homem acumula diariamente problemas, o seu lixo pessoal que podemos traduzir pela incapacidade de amar e respeitar aos seus semelhantes. De se crer superior, de ser mais “dono” da vida, do ar, de tudo que o cerca em relação aos outros.
A Natureza em sua sabedoria nos mostra que a alimentação é o único fator preponderante para a manutenção da Vida, o restante é decorrência da ambição, do egoísmo e de carências íntimas mal resolvidas.
Quem foi à poderosa figura que assessorou o primeiro Prefeito de nossa cidade, Cel. Antonio Jeremias Muniz Junior em 1914? O que restou da fabulosa riqueza da senhora Porcina?Onde estão os descendentes dos donos do palacete mais antigo de Iguape?
A vida passou e todos foram para o esquecimento com seus sonhos de riqueza, domínio e poder... Também passará para todos nós, pois nosso destino é o túmulo e isso é fatal, pois ninguém escapará da Morte.
Escrevo crônicas, faço literatura e tento preservar fatos que se perderão. Algumas pessoas se magoam profundamente quando “param” na primeira página dos jornais, mas ninguém “para” de graça na primeira página. Algo ocorre!Algo fora do padrão acontece... Se foi uma coisa boa, beleza... Se foi ruim, tristeza. Vamos tentar melhorar nossa forma de interagir em sociedade e errar menos.
Quando se consegue entender que nada somos perante a grandeza do Universo, frente às forças da Natureza, frente o inconstante fado que nos trás a Saúde ou a Dor, frente à Vida que nos acaricia ou bate, talvez se possa mudar alguns conceitos e simplesmente deixar o tempo fluir, sem retaliações, sem ver em cada comparticipe da vida um concorrente, sem rancores, sem ódios e se colocar como aprendiz no Mundo que nos é dado para experimentar o milagre de existir.
O passado é passado e o que aconteceu jamais poderá ser mudado, o futuro será o há de vir e o que realmente importa é o presente, o momento onde ocorre a ação real. Que cada um assuma suas responsabilidades frente à própria consciência, pois é ela quem estabelece o preço pela audácia de viver. Quanto aos escritores! São eles que nos tiram do esquecimento e preservam nossa história. São eles que nos dão a imortalidade:- Que bom que alguém se lembrou de mim!

Gastão Ferreira

sábado, 15 de maio de 2010

INFÂNCIA


INFÂNCIA

Fui eu o menino que domou o Dragão!
E foi com ele que eu conheci o mundo...
Era um tempo de aventura e muita ação
Do alto do monte ao abismo mais fundo

Com meu Dragão eu nunca tive medo
Era meu amigo e enxergava no escuro
Partilhava a vida e voava em segredo
Eu nem sabia que existia o futuro...

Conheci a Sereia e a Iara mãe do rio
Curupira... Boi Tatá e um Saci Pererê.
Vi a Fada Madrinha tremendo de frio
Coisas em que hoje mais ninguém crê

Um dia o Dragão foi embora e não voltou
E eu nunca mais voei... Tornei-me adulto
Jamais esqueci o que ele me contou...
Repare naquela nuvem! Parece um vulto.

É o meu Dragão que lá de cima espia
A procurar o menino que fui eu...
Estou aqui Dragão! É fim de dia
Vem me salvar Dragão amigo meu!

Devolve a minha alegria de criança...
Põe nos meus olhos novamente a luz
Afasta da minha vida a desconfiança
E para aos céus de novo me conduz!

Gastão Ferreira

quinta-feira, 13 de maio de 2010

TELA


TELA

O dia em que eu for embora
E me transformar em nada,
Serei um pouco de tudo
Do que prendi na jornada.

Serei um pouco do vento
Serei a rua alagada...
Serei Iguape ao relento
Por Bom Jesus abençoada.

Serei a Festa de Agosto
Serei o Cristo no Monte
Serei menino sem rosto
Bebendo água na fonte.

Pescador! Lembra de mim.
Não mude o rumo da vela
Para que eu fique assim
Como dentro de uma tela...

Então serei passarinho...
Ave na mata encantada
E Iguape será meu ninho
Minha luz na madrugada!

Gastão Ferreira

sexta-feira, 7 de maio de 2010

RECEITA CASEIRA


RECEITA CASEIRA

Querida amiga Amnésia, notei que você anda um tanto ressentida comigo devido a fofocas. Que bobagem! Nossa amizade é tão antiga, vem de antes de você casar com o senhor Dinheiro e ter essa penca de filhos... Suas crianças são lindas, se bem que um tanto sapecas. Sua filha Vaidade e seu filho bastardo Mediocridade, adoram provocar a “titia”, mas sei que é coisa de criança mimada e não levo a sério. Aproveito e mando um abraço a todos, em especial ao garoto Sabidinho e a menina Saudade que já deve estar uma mocinha.
Velha amiga, eu sei que quase não dispões de tempo ocioso, mas quero te presentear com uma receita caseira. É um prato simples e saboroso:- Frango caipira a moda da casa. Olhe lá! Não vá errar.
Primeiro limpe muito bem as mãos, mão limpa é fundamental, entendeu?Vá até o galinheiro e pegue um frango. Esqueça o galo velho Ary, ele se julga o dono do galinheiro e é cheio de truques. Isso mesmo pegue o frango Bobão, aquele que acredita em você desde pintinho... Não vá pegar o frangote Confiado, esse é bem capaz de dar uma esporada e você vai ficar refém de todo o galinheiro.
Pegou o Bobão? Muito bem... Engambele-o com muito amor, diga que você só quer o bem dele, que ele deve acreditar em suas boas intenções, que você é humilde, trabalhadora e leal. Caso ele não entenda suas palavras, não ligue é apenas um bicho para se tirar proveito.
Ele não acreditou em você? Não é possível que frango safado! Comece a chorar, diga que você é carente, que as pessoas pensam que você mudou, mas que não é verdade, que você é simples como uma rainha... Nada feito! Bem amiga... Manda esse galináceo imbecil por a asinha na mão de Deus e o problema estará resolvido.
Amnésia! A água já está fervendo... A faca está sobre a pia e chegou à hora de sacrificar o frango. O quê! Não tem coragem. Então chame seus filhos e mande fazer o serviço sujo em seu lugar. Ah! Sempre manda e sai mal feito. Cansei! Sabe de uma coisa? Solte o coitado do bicho, abra a porta do galinheiro, chame as raposas para tomarem conta e vá passear... Não se estresse amiga! A vida é breve e não esqueça de que tudo passa, mas a fama permanece. A receita fica para outra ocasião. Um abraço dessa velha amiga que muito te estima e acredita piamente em você.

Maria Zinha

(Gastão Ferreira)

terça-feira, 4 de maio de 2010

TEXTO PARA TEATRO AMADOR


A VINGANÇA


TEXTO PARA TEATRO

MARIETA - ATO I

(Na sala uma mesa coberta até o chão, sobre a mesa um manequim coberto com um lençol... Algumas cadeiras... Acendem-se as luzes... Umberto sai debaixo da mesa)

Umberto – (Saindo espantado debaixo da mesa)- Como vim parar nesse
lugar? Que estou fazendo aqui? Estava jantando com Marieta,
um belo risoto de mariscos e agora acordo embaixo de uma
mesa... Sozinho... Não tão sozinho... Parece que tenho uma
companhia (levanta o lençol)... Meu Deus! Sou eu... Claro que
é eu!... Frio!... Mortinho!... Mortinho?(baixa o lençol)... Deve
ser uma brincadeira de mau gosto! Uma pegadinha imbecil
para algum programa de TV. Onde estão as câmeras?(olha em
volta da sala)... Pois que se danem! Vou esperar sentado e
estragar essa palhaçada. (senta na cadeira frente à mesa)

(Entra Marieta toda de preto... Lenço preto nas mãos... levanta o lençol)

Marieta - Morto e bem morto! Descanse em paz Umberto. Espero que
tenha gostado do risoto de marisco! Nada como um veneninho
básico para dar fim a um marido indesejado... Agora é a vez da
viúva inconsolável (passa o lenço preto nos olhos)

(Entra Neyde... Amante secreta de Umberto – Vai até o morto)

Neyde - Não acredito! Umberto mortinho... Mortinho! O que será de
mim sem a mesada mensal? Terei que vender o carro?
Voltar a rodar bolsinha? E essa Marieta milionária! Essa burra,
essa anta... Essa coisa ridícula!

Marieta - Boa noite Neyde?

Neyde - Boa noite dona Marieta! Vim aqui me despedir do doutor
Umberto...
2)


Marieta - Estranha a sua atitude Neyde! Lembro que abandonou o
emprego em nossa casa por não aturar os modos rudes de
Umberto e agora tantos meses depois aparece assim... Do nada
e fica assim chocada ao vê-lo defunto!

Neyde - Sabe dona Marieta! Não devemos guardar mágoas... Assim que
fiquei sabendo do falecimento do doutor, pensei! É melhor eu pedir desculpas ao mortinho... Vá que depois me venha
assombrar!

Marieta - Bobagens Neyde! Umberto morreu e acabou... Que será de
mim sem meu adorável esposo?

Neyde - Oh dona Marieta! A senhora tão rica! Tão jovem! Logo há de
superar esse trauma.

Marieta - Não sei! Não sei! Minha boa Neyde. Sem Umberto minha vida
não terá sentido... Estou confusa... Magoada... Você poderia
ficar um pouco mais aqui enquanto vou a sala ao lado tomar
um comprimido?

Neyde - Claro que sim dona Marieta! Fique a vontade...

(Marieta sai... Neyde se aproxima do caixão... Levanta o lençol)

Neyde - Cachorro! Pilantra! Enganou-me esse tempo todo dizendo que
não era amado pela esposa... Empregou-me como doméstica
no próprio lar... Falsificou meus documentos... Mudou meu
nome... De Clarisse virei Neyde por amor! E você mentiu...
Mentiu... Mentiu!

(O espírito de Umberto se aproxima de Neyde... Passa a mão em seus
cabelos)

Umberto – Clarisse!... Clarisse!... Eu não menti! Marieta me matou... Me
envenenou... Me assassinou!
3)


Neyde - Cruz credo! Senti um arrepio... Um toque nos cabelos... Um
sussurro...Será que Umberto ainda está por aqui?

Umberto - Clarisse! Meu único amor... Vingue-me... Vingue-me... Marieta
não presta... Não presta... Ela me assassinou... Me assassinou!

Neyde - Ai! Já to ficando com medo. Parece que ouço a voz de meu
Umberto dizendo que me ama e que foi assassinado!Será
possível que a anta da Marieta chegou a tanto com seu ciúme
doentio? Vou especular melhor e tomar as providências
cabíveis...

(Marieta voltando)

Marieta - Neyde! Pode se retirar e obrigada pela demonstração de afeto
a minha pessoa...

Neyde - Vou ficar mais um pouco... Fazer companhia a senhora nessa
hora de dor...

Marieta - Fique então! Preciso desabafar com alguém...

Neyde - Tudo bem dona Marieta! Sou toda ouvidos...

Marieta - Sabe Neyde! Eu amei muito a Umberto... Conhecemos-nos
numa praia e foi amor a primeira vista, contra a vontade de
meu pai casei...

Neyde - Seu pai era contra o casamento?

Marieta - Sim! Papai afirmava que Umberto era um caça dotes, um pé
rapado querendo dar o golpe do baú...Briguei feio com papai,
ele contratou um detetive para seguir Umberto...

Neyde - E descobriu alguma coisa?

Marieta - Papai foi assaltado... Reagiu e foi morto. Eu herdei sua imensa
fortuna e uma semana depois casei-me com Umberto.
4)


Neyde - Foi feliz dona Marieta?

Marieta - Sempre!... Umberto foi um excelente esposo, nunca deu
motivos para ciúmes... Adorava-me...

Neyde - Mas quando trabalhei em sua casa muitas vezes a via triste
alheia à tudo... Desgostosa da vida.

Marieta - Sim! Era verdade... Um dia descobri alguns relatórios entre os
papéis trancados em um cofre no escritório de papai...

Neyde - Relatórios num cofre?

Marieta - As informações que o detetive levantou sobre Umberto...

Neyde - Nossa! As informações que seu pai pediu?

Marieta - Lendo as informações minha vida mudou completamente...

Neyde - Doutor Umberto não era o que a senhora julgava ser?

Marieta - Primeiro Neyde, o tal doutor Umberto nunca existiu, seus
documentos pessoais eram falsos... Seu nome verdadeiro
era Eriberto Martins...

Neyde - Eriberto Martins?

Marieta - Sim!Um terrível psicopata que matou mais de trinta mulheres...

Neyde - Tem certeza dona Marieta? Doutor Umberto parecia uma
pessoa tão sensata.

Marieta - Tudo falsidade querida! E caso você for a minha casa vou lhe
mostrar as provas...

Neyde - Dona Marieta! Estou apavorada... Como a senhora chegou a
essa conclusão?
5)


Marieta - Os relatórios informavam que o método usado pelo tal
Eriberto Martins era enganar pobres moças com promessa
de casamento e falsas juras de amor... Tirou algumas fotos de
Eriberto e suas acompanhantes... Todas acabaram mortas e
todas foram esquartejadas. Todas as namoradas de Eriberto
tiveram um triste fim... Namorava várias ao mesmo tempo...
Algumas por anos a fio, mas todas morreram de forma sinistra.

Neyde - Dona Marieta! Esse Eriberto era um monstro... O tal detetive
não informou as autoridades?

Marieta - O detetive foi assassinado no mesmo dia em que meu pai foi
morto...

Neyde - Que horror! E tudo isso estava nos relatórios?

Marieta - Não Neyde! Consegui a muito custo descobrir o código do
cofre de Umberto e durante uma de suas estranha ausências
abri o cofre e fotografei tudo...

Neyde - Tudo?

Marieta - No cofre encontrei mais de trinta documentos pessoais de
moças que haviam desaparecido misteriosamente...

Neyde - Tem certeza?

Marieta - Contratei um ex policial para fazer o levantamento e ele
descobriu que dos trinta e cinco documentos, trinta e quatro
das meninas estavam desaparecidas...

Neyde - Meu Deus! Dona Marieta. O homem era um monstro, quer
dizer que escapou apenas uma?

Marieta - Sim! Dessa o policial nada descobriu, talvez seja a última vítima
de Umberto... Tomara que nada tenha ocorrido com a moça...
Mas ele vasculhou em todos os locais possíveis e nada
encontrou...
6)


Neyde - Dona Marieta! Posso saber o nome da moça?

Marieta - Ah Neyde! Acho que já falei demais... Isso poderá atrapalhar
as investigações. Bem! Por favor, guarde segredo e não conte
para ninguém... O nome dela é Clarisse!

Neyde - Meu Deus! Clarisse?

Marieta - Você ficou pálida Neyde! Você conhece alguma Clarisse?

Neyde - Não! Não! Nenhuma. Dona Marieta eu já estou indo... Ainda
bem que esse cretino morreu.

(Neyde passa frente à mesa... Levanta o lençol, olha o rosto do morto e
diz:- Cachorro!... E vai embora)

(Marieta se aproxima da mesa... Também levanta o lenço... Olha o morto)

Marieta - Vamos aguardar a próxima!Essa acreditou na falsa história:-
Cachorro!

(Fim do primeiro ato)









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A VINGANÇA


UMBERTO – ATO II


(Marieta sentada numa cadeira bem longe da mesa, a beira do palco, lê um livro... O espírito de Umberto levanta do local onde está sentado e se aproxima de Marieta)

Umberto – Sua cadela!... Cretina!... Eu te tirei da sarjeta!... Você não era
nada!... Nunca foi nada!... O máximo que você conquistou foi
um título de miss simpatia que eu comprei! Eu comprei!... Eu
comprei! Te dei o meu nome... Um nome honrado... Um nome
de bem!Te dei carros... Jóias... Viagens... Um palácio para
morar... Empregados... Luxos... Tudo o que uma mulher pode
sonhar! E o quê eu ganhei com isso? O quê eu ganhei? Ser
envenenado em meu próprio lar!... Eu nem sei o quê está
acontecendo! Vejo-me morto sobre a mesa, mas eu estou aqui
vivinho da Silva!Mas não vou deixar barato... Eu quero justiça.
Eu exijo justiça... JUSTIÇAAAAAA...

(Entra na sala um homem todo de preto com o rosto pintado de branco, uma capa comprida (tipo vampiro) e vai ao encontro de Umberto)

Junior - Chamou por justiça?... To aqui!

Umberto - Opa!... Opa!...Quem é você?

Junior - Sou o encarregado de te conduzir ao Tribunal?

Umberto - Que tribunal meu caro? Quem precisa de um Tribunal?

Junior - Ué! Você não gritou JUSTIÇAAAAA!... E eu vim!

Umberto - Eu não quero ir a nenhum Tribunal... Essa mulher me
assassinou... Destruiu meus sonhos... Tirou minha vida...
Eu quero é me vingar... Acabar com essa mocréia... É isso
que eu quero... E se manda do meu velório coisa ruim!

Junior - Nãnãnã... Nana! Nada feito eu vim te buscar para falar com
o chefe. O nosso chefe!

Umberto - Que chefe cara? E eu lá tenho chefe.

Junior - Tem sim!... Você não vivia pedindo mil favores as forças da
escuridão?

Umberto - Eu? ... Eu?

Junior - Você sim! Temos tudo gravado... Ou vem por bem ou vai por
mal!... Acompanhe-me!

Umberto - SOCORRO! Alguém me ajude... Eu não quero ir junto com esse
demônio!... SOCORRO!


(Entra um novo personagem, esse todo de branco e com um grande livro nas mãos)

Carlos - Alguém pediu socorro? Posso ajudar em algo?

Umberto – Eu pedi socorro!... Essa figura quer me levar à força para um
tal Tribunal.

Carlos - Oi Junior! Você como sempre chegando primeiro!

Umberto - Meu! Vocês se conhecem? Isso é um complô?

Carlos _ Calma!... Calma Umberto!Junior é um grande amigo seu...

Umberto_ Meu amigo? Nunca vi esse sujeito na vida!

Carlos - Na vida não! Mas agora estamos na morte e era ele o
mensageiro de seus pedidos para os das trevas...
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Junior - É isso amigão! Você vivia pedindo bens materiais... Poder...
Dinheiro... Umas macumbinhas básicas para se livrar dos
inimigos, acabar com desafetos, arrumar belas mulheres,
aprontar todas e sair impune...

Umberto- Era tudo de brincadeira! Nunca levei a serio esses tolos pedidos.

Junior - Não interessa! Eu realizei os seus desejos... Agora você é meu...

Umberto - Que negocio é esse de “Agora você é meu!”... Comigo não
violão! Tem prova que eu pedi alguma coisa?... Tem? Tem?

Junior _ Ai Carlão! Abre o livro...

Umberto - Carlão? Livro?

Junior - Carlão é do bem! É o que anotava tudo o que você fazia para
acompanhar sua evolução no planeta...Era, digamos, o seu
Anjo da Guarda.

Umberto – Carlão meu amigo! Meu guardião... Meu camarada, me livra
desse coisa ruim... Me livra!

Carlos - Não posso Umberto! Você feriu muitas leis... Não se
comportou direito... Não fez o bem... Só se aproveitou das
pessoas... Ofendeu a vida...

Umberto - Não foi bem assim! Eu até que fui uma pessoa honesta...

Junior - Kkkkkkkk...Kkkkkk... Honesta? Mostra para ele Carlos...
Mostra no livro!

(Carlos abrindo o livro e procurando alguma coisa)

Carlos - Vejamos uma página qualquer... Não!... Não!... Vamos espiar o
inicio... Você Umberto foi coroinha da Igreja Matriz...

Umberto – Fui um coroinha exemplar...
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Carlos - Não é o que consta aqui no livro... Aqui diz que você roubava o
dinheiro das ofertas...

Umberto – Eu? Eu?

Carlos - Olha aqui essa foto! Não é você roubando?

Umberto – Caramba! Vocês filmavam tudo?

Carlos - O tempo todo... O tempo todo...

Umberto - Tive meus motivos! O padre era um pedófilo...

Carlos - Umberto!... Umberto! Pare de mentir. Nós sabemos de tudo e
você acabou com a reputação do padre, assim como fez com
muitos desafetos...

Umberto - Eram coisas de criança! Mas depois melhorei...

Junior _ Oh! E como melhorou. Carlão mostra para ele a parte
quando foi eleito para um cargo municipal...

Umberto - Essa parte é boa! Fiz muitos benefícios para a cidade...

Carlos - Falcatruas... Mensalinhos... 10%... Compra de votos...

Umberto – Haha! Eu fiz um monumento...

Carlos - Mas subfaturou e ficou com 90% das verbas...

Umberto - Mas fiz!... Não fiz?

Carlos - Fez! Fez!... Mas roubou o que não era seu... Prejudicou a
cidade...

Umberto – Como prejudicou a cidade?

Carlos - Se você não tivesse subfaturado e ficado com a grana para
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comprar um carro novo, viajar de navio, comprar uma bela
mansão... Quanta coisa boa em beneficio da cidade poderia
ter sido feito com esse dinheiro... Melhorias na saúde, um
velório público, uma melhor coleta de lixo, mais merenda
escolar... Na verdade você se tornou um devedor da
sociedade... Você foi um péssimo exemplo de cidadão, um
corrupto, um ladrão, um salafrário, um falso que afrontou
a vida...

Umberto - Afrontou a vida? Eu sempre cuidei muito bem da vida. Cerquei
o meu mundo com o que havia de melhor, plantei árvores,
cuidei de jardins, tratei muito bem dos animais...

Carlos - Sim! Você cuidou muito bem da sua vida, das suas árvores, dos
seus animais... Comeu e bebeu do melhor com o suor alheio,
achava que o mundo era só seu, orgulhoso, vaidoso, arrogante
e prepotente... E ainda grita por SOCORRO! Quem você pensa
que é? Você pensa que toda a dor que causou não tem um
preço? Que o mal não se cobra? Que não existe justiça?

Umberto – Tudo bem! Eu assumo que fui um canalha... Que me aproveitei
das pessoas, que menti, que enganei, que roubei. E daí? E daí?

Carlos - Junior! O cara é seu... Pode levar para a escuridão

Junior - Vem Amor! Chegou a hora de pagar a conta...

Umberto – Que conta? Que conta?

Junior - A conta dos favores prestados ou você acha que te ajudamos
de graça? Você alguma vez ajudou alguém de graça?

Umberto – Meu Deus! O que eu fiz!

Carlos - Não chame o Deus que você negava dentro de você... Tenha
respeito por nosso criador que te deu um bom pai, uma boa
mãe, te cercou de bons exemplos... Colocou-me ao teu lado
para inspirar boas obras... Amigo! Você faliu...
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Junior - A toda a ação corresponde uma reação... Até pagar todo o mal
feito na Terra você não terá um minuto de paz... Será escravo
da escuridão... A degradação e o sofrimento vão começar...

Umberto – E ela? E ela? A minha assassina vai continuar livre e se apossar
do que conquistei com tanta mentira e esforço?

Carlos - Ela não é mais um problema seu Umberto...

Umberto – Como não? Se ela me matou!

Carlos - Agora ela é um problema da vida... Aliás, tudo o que ela sabe
aprendeu com você...

Umberto- Comigo?

Carlos - Sim! Com você. Quando Marieta apareceu em sua vida era uma
mocinha ingênua, sonhadora... Foi através dos seus péssimos
exemplos que ela se tornou nessa mulher vaidosa, orgulhosa,
essa predadora que afasta com um veneno mortal quem
atrapalha seus sonhos... Foi você quem transformou Marina no
que ela é hoje...

Umberto – Carlos! Meu amigo e protetor... Deixa-me voltar... Deixa-me
voltar para tentar desfazer todo o mal que fiz... Eu não tinha
idéia de quanto mal eu causei...

Junior - Deixa de ser falso Umberto... Você sempre soube muito bem o
que fazia... Quantas vezes ouvi você dizendo que assumia os
os seus atos...

Carlos - Umberto! Os amigos que vivem na luz cansaram de ajudar...
Mandar pensamentos bons, intuir o bem... Falhamos com você,
você escolheu o sofrimento... Agora é à hora de pagar o preço.
O preço que você mesmo se comprometeu a pagar.

Umberto- Não! Não!... Eu quero uma chance para mostrar que posso ser
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realmente bom, que posso ser humilde, simples, honesto, que
posso me tornar uma pessoa melhor, que posso ajudar aos
meus semelhantes, que posso compartilhar da vida sem
maldade... Carlos me dê essa nova chance!

(Umberto baixa a cabeça e chora)

Carlos - Um dia... Num tempo que ainda há de vir você terá essa chance
novamente... A vida é eterna e todos caminham para a
perfeição.

Junior - Vamos aguardar a hora do sepultamento e depois seguiremos
A viagem...

Carlos - Junior! Cuide bem do meu amigo...

Junior - Não se preocupe! Enquanto não aprender através de todos os
sofrimentos a respeitar a vida, não se livrará de nós e daqui há
alguns séculos quando estiver pronto para a próxima viagem
entrarei em contacto... Até breve irmão!

Carlos - Até breve! Agora irei até a casa de nosso Pastor... Irei triste! Pois
terei que noticiar que mais uma ovelha se desgarrou.



(Fim do Ato II)












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A VINGANÇA

AOS VIVOS – ATO III

(Entra Nestor, secretário de Umberto e vai olhar o defunto)

Nestor - Esse já era! Nunca mais vai atrapalhar nossos planos...

Marieta - Foi uma pena termos que nos desfazer de Umberto...

Nestor - Está arrependida Marieta? Afinal não foi o primeiro...

Marieta - Realmente não foi o primeiro que matei, mas foi o último,
não voltarei a agir dessa maneira... A fortuna de Umberto
é imensa e posso tocar a vida sem preocupação e ser muito
feliz...

Nestor - Está se referindo a seu tórrido romance com Jessé?

Marieta - Nestor meu amigo! Estou tão feliz. Finalmente encontrei um
homem para chamar de meu... Um tanto ingênuo é verdade,
não entendo porque você e Jessé não se suportam...

Nestor - Jessé é honesto demais para meu gosto... Quer tudo certinho,
já pensou Marieta se ele descobrir a fonte geradora da grande
fortuna de Umberto?

Marieta - Sim! Pensei sobre o assunto... Vamos aproveitar a morte de
Umberto e parar com o tráfico de drogas, também devemos
esquecer a venda de armas para as quadrilhas que assaltam
bancos e caminhoneiros...

Nestor - Pobre Umberto! Morreu sem saber que era um dos maiores

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traficantes do país...Ele nunca desconfiou Marieta?

Marieta - Nunca!... Confiava cegamente na esposa e eu me aproveitei o
máximo para usar secretamente seu nome em negócios
escusos e colocar toda a grana no exterior...

Nestor - E Neyde? Não vai atrapalhar nosso plano? Umberto amava
profundamente a tola criatura...

Marieta - Neyde Clarisse? Coitada!... Caiu feito um patinho na história
que inventei... Essa jamais voltará a aparecer.

Nestor - Umberto tão corrupto... Tão sem caráter... Sempre tentando
levar a melhor com seu eleitorado e jamais imaginou como
usamos seu nome para enriquecer...Agora que ele se foi caso
algo seja descoberto podemos jogar a culpa nele...

Marieta - Foi por isso que matei Umberto!... Estava a um passo de
descobrir nossos trambiques... Um fornecedor avisou a tempo,
a policia já começou as investigações preliminares, por isso o
corpo será cremado...

Nestor - Após a cremação uma longa viagem ao exterior com Jessé...
Caso a polícia descobrir a ligação de Umberto com o Narco
tráfico, uma viúva incrédula afirmando que nada sabia e
horrorizada com a conduta do marido comoverá as
autoridades...

Marieta - Você destruiu todas as pistas que poderiam levar a nós dois?

Nestor - Quanto a isso fique sossegada... Somos dois inocentes...
Umberto levará toda a culpa e nós sua imensa fortuna, mas
lembre-se, jamais conte a Jessé a verdadeira história...

Marieta - Óbvio que jamais contarei... Jessé é honesto em demasia... Eu
quero começar uma nova vida... Conhecer o mundo... Viajar...
Divertir-me sem culpas... Ser feliz...

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(Entra Jessé, coloca a bolsa sobre a mesa e olha o morto)

Jessé - Jamais pensei que Umberto fosse morrer tão jovem...

Marieta - Frutos do mar mal conservados são fatais e ele adorava
mariscos...

Jessé - Marieta! O responsável pela cremação quer falar com você e
está aguardando lá fora...

Marieta - Vou até lá... Volto já e, por favor, não briguem meninos...

( Sai Marieta... Nestor olha para Jessé... A linguagem corporal muda)

Nestor - Ulálá! Vencemos amor...

Jessé - Reservou o hotel?

Nestor - Daqui a quinze dias... Paris!

Jessé - Não vejo a hora de andar de gôndola...

Nestor - Gôndola é em Veneza amor...

Jessé - Nossa eu nem sabia... Vamos repassar o planejado?

Nestor - Siga corretamente as minhas instruções... Amanhã vocês
seguem em vôos separados para o exterior... Casem-se
imediatamente... As passagens para a lua de mel em um
luxuoso transatlântico já estão reservadas... Na primeira
oportunidade mate Marieta... Jogue-a pela amurada...
Mostre-se um viúvo inconsolável... Um helicóptero irá
apanhá-lo no navio... Uma passagem de avião para Paris está
reservada em seu nome... E voilá! A felicidade nos espera.

Jessé - Não sei o que seria de mim se não tivesse conhecido você
Nestor?

16

Nestor - Provavelmente ainda seria um simples garoto de programas...

Jessé - Você é um gênio! Convenceu Marieta a entrar no negócio das
drogas... Ganhou rios de dinheiro...Me apresentou a esposa
mal amada e finalmente o grande desfecho:- O assassinato de
Umberto...

Nestor - O que não se faz por amor!

Jessé - Não se preocupe Nestor! Serei eternamente grato e farei de
você o cara mais feliz do mundo... Eu juro!

Nestor - Eu sei! Tenho tanta certeza de seu amor que nossa conta é
conjunta... Quer uma prova maior de confiança?

Jessé - Eu agradeço... Jamais darei motivo para desavenças em nosso
relacionamento... Tenho tanto a aprender com você meu gênio
do mal...

Nestor - Não vá esquecer o combinado... Case... Mate a mocréia e toda
a fortuna de Umberto e Marieta será nossa... Ela está voltando.

(Entra Marieta com ar feliz)( Nestor e Jessé estão de costa um para o outro)

Marieta - Mais alguns minutos e o corpo seguirá para cremação... A única
coisa que me deixa triste é essa rixa entre vocês dois...

Nestor - Não adianta Marieta!... Não suporto esse menino... Acho que
meu santo bateu de frente com o dele, só aceito ficar perto
desse sujeitinho pela amizade que tenho por você, mesmo
assim quero vê-la feliz amiga... Vamos? Está na hora da
cremação...

(Saem Marieta e Nestor... Jesse vai pegar sua bolsa que está sobre a mesa e se aproxima do defunto – Olha para o cadáver... Passa a mão
no rosto do morto)

17

Jessé - Adeus Umberto... Que descanse no inferno! Seu pedófilo...
Eu nunca te esqueci... Jurei destruir a todos vocês, Marieta
é só uma peça nesse jogo... A próxima vitima será Nestor.




(Sai Jessé e ficam Umberto e Junior)



Umberto – Que podridão... Que podridão... E eu participei disso tudo...
leve-me para o inferno Junior... Lá deve ser bem melhor do
que aqui.

Junior - São apenas crianças espirituais brincando de viver... Um dia
crescerão e aprenderão a respeitar a todos... Eu também
tenho os meus pecados secretos e sei que fora do grande
mandamento:- “ Amar a todos como a si mesmo” não
existe outro caminho para a casa do Pai...

(Umberto cansado coloca a cabeça no ombro de Junior que o retira de
cena... A luz apaga e a vida continua)






FIM


Gastão Ferreira/Iguape/2010