domingo, 11 de abril de 2010

PRIMEIRO DE ABRIL



PRIMEIRO DE ABRIL

Dona Maricota varreu a frente da casa e a sua metade da rua. Dona Anita não se conteve e varreu a outra metade da rua e mais a sua calçada. Dona Cotinha a próxima vizinha fez a mesma coisa e assim até o fim da rua cada morador fez a sua parte. Seu Joca deu uma geral na sua calçada, retirou o matinho que a umidade teimava em fazer crescer. Seu Ari, Seu Ronaldo, Seu Tião, Seu Zico também fizeram o mesmo, parecia outra rua.
Cada casa passou a dividir uma cesta de lixo com a casa vizinha e quem jogasse lixo na rua era advertido com todas aquelas belas palavras feitas para ofender e magoar. Sobre os muros plantas saudavam os passantes e por incrível que pareça ninguém roubou um vasinho sequer.
As pessoas tomaram gosto e pintaram as casas, os mais pobres apenas caiaram e os ricos usaram as melhores tintas. Cachorros com endereço nas coleiras podiam circular livremente, a velocidade máxima era respeitada e carros de sons acima do permitido por lei (?) apedrejados a fim de aprenderem que ouvido alheio não é penico.
A noitinha era com orgulho que todos sentavam frente a suas casas para fofocar, pois ninguém é de ferro. As crianças reaprenderam a brincar e as mocinhas a namorarem civilizadamente sem aqueles lances de filmes pornográficos. Gatos e cachorros faziam sua parte e as famílias desfrutavam juntos momentos de paz e harmonia. A rua era o maior sucesso... Calma... Limpa... Sossegada.
Quando o lixo não foi recolhido foram em passeata até a prefeitura, cada um com seu saco de lixo particular e o colocaram frente ao prédio municipal. Nem foi necessário discursos e xingamentos e a coleta nunca mais foi esquecida. Fizeram o mesmo com o primeiro mendigo que apareceu. “Quem quiser comida que trabalhe por merecê-la, é uma lei divina que foi imposta a Adão ao ser expulso do Paraíso”. Os pedintes nem passaram mais por aquela rua de pessoas tão desalmadas.
Outras ruas copiaram esse ato de cidadania e a cidade ficou linda. Os politiqueiros ficaram apavorados com a iniciativa:-“ Não reclamam! Não pedem nada! Cada um faz a sua parte... Que será de nós? Povo consciente é difícil de manobrar, oh meu São da...! Faça um milagre.”
Dona Maricota acordou com dor de cabeça devido a cachaçada da noite anterior, jogou água quente no cachorro, ofendeu o marido e falou alguns palavrões caprichados para que a vizinha ficasse esperta e soubesse com quem estava mexendo. Fazia um mês que não varria a calçada, Cryslaine sua filha adolescente chegara às cinco da manhã dos escurinhos da vida e só acordaria lá pelas onze horas. O pivete do Juca já estava baseado frente à tevê e o maridão estava enchendo a cara de pinga... Hoje é dia de buscar o Vale-gás, o Vale-pão, o Vale-transporte, o Vale-papél higiênico, o Vale-canabis para o Juca, o Vale-pinga para o marido, o Vale-pírula para a Crys, o Vale-voto para... Deixa para lá, a Bolsa Família, a Bolsa Escola, a Bolsa-bolsa. Oh vida!Logo hoje que queria varrer a calçada, logo hoje... Primeiro de Abril.
E assim a súplica dos que não amam a cidade foi ouvida e um poderoso santo estrangeiro fez mais um milagre e o que era para acontecer jamais aconteceu... Primeiro de Abril!

Gastão Ferreira

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