quarta-feira, 28 de abril de 2010

HORA DO VOTO


HORA DO VOTO

Chegou a hora do acerto
É a hora da razão...
Agora é a hora do aperto
É a hora de um não!

De um não a roubalheira
Ao bolso do cidadão...
Um não a tanta besteira
Um não a avacalhação...

É a hora da cobrança
Ao voto que a gente deu
É a hora da mudança
De se olhar o que perdeu

Meu povo essa hora existe
Ponha um fim à escuridão!
A todo o temor resiste...
Aprende a dizer um não!

Um não a quem nos dirige
Como gado ao matador...
A quem a cidade agride
Com tanta falta de Amor!

Vamos plantar a semente
De uma árvore esperança
Trabalhando realmente
Para que aja a mudança...

Não venda o voto pedido
Acredite em seu futuro...
Pois todo o voto vendido
São quatro anos de escuro.

Gastão Ferreira

sábado, 24 de abril de 2010

CANTADOR


CANTADOR

Eu quero sentir espanto
Num coração sonhador
Ouvir o primeiro canto
Do sabiá madrugador!

Eu quero ver da colina
O barco de um pescador
Cantando entre a neblina
Passarinho... remador...

Quero provar da doçura
Que o mundo me oferece
Me embriagar da ventura
Que minha alma merece

Não carregar incertezas
De quem ofende de graça
A minha cruz com certeza
Não foi erguida na Praça...

Vou levando a minha sina
Como bom navegador...
A luz que me ilumina...
Fez de mim um cantador!

Gastão Ferreira

SORRIR


SORRIR


Saudade bate na porta,
Carregando tantos medos.
Agora bem pouco importa
Esses teus tolos segredos!

Por que lembrar o passado
Que morreu há tanto tempo?
Bem melhor ficar calado...
Pois meu futuro eu invento.

O que vai me acontecer
A você não diz respeito!
Tenho mais é que viver
Sem você dentro do peito.

Cansei de ficar magoado
Cansei de me apunhalar,
Nesse momento encantado
Eu quero mais é sonhar...

Não insista velha amiga
A porta não vai se abrir.
Fui eu que ganhei a briga
Voltei de novo a sorrir...

Gastão Ferreira

RANCHINHO


RANCHINHO

Vejo um ranchinho no sonho
Num rincão de Caçapava...
Na porta um homem risonho
E uma mulher que cantava!

Para as duas criaturas
Na pobreza do ranchinho
A noite não era escura...
A sua casa era um ninho.

Aquele homem sentado
Num silêncio de espera
Num momento encantado
Me roubou do Céu pra Terra

E aquela mulher querida
Com ternuras no olhar
Me carregou pela a vida
E me ensinou a sonhar...

Ranchinho que me importa
Se eras simples demais?
Saudade!Bate na porta.
Ali moraram meus pais!

Gastão Ferreira

quarta-feira, 21 de abril de 2010

DIA DO TRABALHO


DIA DO TRABALHO

Naquela cidade... Tão perto do mar, a comemoração ao Dia do Trabalho foi inesquecível. Uma festa para ninguém por defeito. Os professores e seus alunos representaram no entorno da Praça da Matriz os períodos históricos pelos quais a cidade passou. Começou com os índios formadores de Sambaquis e suas montanhas de lixo, depois vieram os Descobridores, os Desterrados, os Mineradores, os Escravocratas, os Senhores de Engenho, os Coronéis, os Navegantes, os Pescadores e o Zé Povinho.
Um belo palanque foi montado para as autoridades e comezinhos, o povo aplaudia o evento, afinal era uma festa comemorativa ao Dia do Trabalho e naquela cidade... Tão perto do mar, como se trabalhava! Algumas pessoas labutavam em vários cargos diferenciados, a bem da verdade metiam o bedelho em tudo e recebiam para isso.
Perto do meio dia os funcionários da municipalidade ofereceram um show à parte. Os fiscais com seus blocos de multa, as mulheres da limpeza pública com seus carrinhos e vassouras fazendo malabarismo incentivavam a galera ao aplauso, as ambulâncias, os caminhões, os carrinhos de mão, uma famosa máquina varredora de rua que nunca ninguém viu fechou a apresentação.
As autoridades almoçaram no restaurante mais caro da cidade, afinal era Dia do Trabalho e eles tão abnegados servidores mereciam o melhor, o povo que pagasse a conta da comilança. O Povo foi para casa comer um bolinho de arroz com peixe frito e esperar a festa noturna.
A festa noturna era aguardada com ansiedade, normalmente uma banda ou artista famoso se apresentava e nesse ano seria um conjunto. As pessoas vestindo suas melhores roupas foram se acercando do local do evento esperando a abertura dos portões... Foi quando foi solicitado o bilhete de entrada. Bilhete de entrada?Pagar para festejar o Dia do Trabalho?
Caso o fato ocorresse em outra cidade, longe do mar, o desfecho seria fatal. O trabalhador exigiria respeito ao seu dia, mas naquela cidade... Tão perto do mar! Bem... Ficou por isso mesmo, afinal quem paga a boa vida dos mandantes?Quem paga cruzeiros marítimos?Viagens
nacionais e internacionais?Rega-bofes intermináveis?Dinheiro não dá em árvores e de algum lugar terá que sair!Que saia então do bolso de quem paga impostos... Que saia do bolso do povo que não reclama e ainda aplaude a mediocridade, a arrogância e a prepotência. Bom Dia do Trabalho!

Gastão Ferreira

terça-feira, 20 de abril de 2010

PRINCESA DESENCANTADA


PRINCESA DESENCANTADA

Mais uma vez a velha Princesa do Litoral e seu fiel escudeiro Josephus visitam seu feudo:- Olhe Josephus! Quantas faixas com dizeres preventivos contra a temível dengue.
- Ah sim! As faixas para turista ver.
- Como assim Josephus?
- Quem nota as faixas logo pensa:- Nooossa que cidade preocupada com a saúde dos moradores!
- E não é a realidade?
- Majestade! Sua Alteza não notou o acúmulo de lixo nas calçadas? Os terrenos baldios sem carpir?Ruas com poças de água?
- É verdade! Olhe ali um homem pelado tomando banho de canequinha! Que vergonha.
- É um pedinte! Princesa. E por aqui eles podem tudo. Agora se dividiram em três grupos; - Os que nasceram ou tem famílias na cidade, os caminhantes que ficam alguns dias e os completamente estranhos e que se apossaram da orla do lagamar.
- Sabia Josephus que minha prima Princesa de Cananéia me informou que por lá não existem pedintes?Está na hora dos dirigentes locais fazerem uma visita à Cananéia e aprenderem algumas coisas...
- Jamais farão uma coisa dessa majestade!
- Qual o problema? Cananéia é tão perto.
- Por isso mesmo!Caso a consulta fosse ao Ceará, Brasília, Rio de Janeiro, Exterior, mas aqui perto... Nunquinha.
- Não acredito! E por quê?
- Majestade! Todos poderão ir de micro-ônibus... Como irão justificar os altos custos da viagem? E essa cidadezinha nem sequer possui um hotel sete estrelas para a nobreza reinante.
- Não é bem assim, meu amigo! Eu acredito que todos os políticos que aqui atuam são bem intencionados, que amam essa cidade, que almejam o progresso coletivo, que são honestos e íntegros...
- Kakakaka...
- Josephus! Abra os olhos menino. Cidade pequena tem muitas fofocas, invejas... Lembra que assistimos os discursos dessas pessoas e só falavam em amor, mãos limpas, com mil soluções para todos os problemas?Eu com toda a experiência de vida longa que tenho creio no ser humano e no seu potencial de bondade e altruísmo...
- Ah! Princesa do Litoral. Só falta a senhora sugerir que ao fazerem uma visita à Cananéia levem uma Cruz de presente...
- Boa idéia Josephus! Nada como uma Cruz para nos lembrar que somos todos pecadores e que o inferno existe...
- Eu em!
- Basta Josephus! Nunca esqueça que quem realmente manda numa cidade é o povo e se o povo está feliz ou não, cabe ao povo demonstrar...
- Majestade! A senhora é nobre por nascimento e não entende a realidade de quem não tem voz para reclamar...
- Como não tem voz para reclamar? Quem tem a obrigação de votar pode reclamar...
- Pura ilusão Princesa! Tem um lugar aqui chamado “Casa do Povo” e coitado do povo se reclamar em sua casa, são expulsos e enxovalhados...
- Não me diga!
- Sim! Quem não beija a mão do poder é inimigo...
- Meu Santinho Protetor...
- Qual deles?
- Ah! Josephus... Você é um pândego.


Gastão Ferreira

sábado, 17 de abril de 2010

MENINO


MENINO...

Por que menino o destino
Se pôs comigo a brincar?
De um lado só desatino
Do outro lado... Sonhar!

O sonho que me embalava
Pelo caminho ficou...
Menino que Amor cantava
Quem o meu sonho matou?

Foi a vida indiferente...
Foi falta de compreensão?
Oh! Meu menino inocente
Sou parte da escuridão...

Perdi-me pelos caminhos
Fui pelo mundo tragado...
Tristeza! Tantos espinhos
No meu olhar estampado.

Meu menino foi embora
Meu menino envelheceu
Que saudade sinto agora
Do menino que era eu!

Gastão Ferreira

domingo, 11 de abril de 2010

PRIMEIRO DE ABRIL



PRIMEIRO DE ABRIL

Dona Maricota varreu a frente da casa e a sua metade da rua. Dona Anita não se conteve e varreu a outra metade da rua e mais a sua calçada. Dona Cotinha a próxima vizinha fez a mesma coisa e assim até o fim da rua cada morador fez a sua parte. Seu Joca deu uma geral na sua calçada, retirou o matinho que a umidade teimava em fazer crescer. Seu Ari, Seu Ronaldo, Seu Tião, Seu Zico também fizeram o mesmo, parecia outra rua.
Cada casa passou a dividir uma cesta de lixo com a casa vizinha e quem jogasse lixo na rua era advertido com todas aquelas belas palavras feitas para ofender e magoar. Sobre os muros plantas saudavam os passantes e por incrível que pareça ninguém roubou um vasinho sequer.
As pessoas tomaram gosto e pintaram as casas, os mais pobres apenas caiaram e os ricos usaram as melhores tintas. Cachorros com endereço nas coleiras podiam circular livremente, a velocidade máxima era respeitada e carros de sons acima do permitido por lei (?) apedrejados a fim de aprenderem que ouvido alheio não é penico.
A noitinha era com orgulho que todos sentavam frente a suas casas para fofocar, pois ninguém é de ferro. As crianças reaprenderam a brincar e as mocinhas a namorarem civilizadamente sem aqueles lances de filmes pornográficos. Gatos e cachorros faziam sua parte e as famílias desfrutavam juntos momentos de paz e harmonia. A rua era o maior sucesso... Calma... Limpa... Sossegada.
Quando o lixo não foi recolhido foram em passeata até a prefeitura, cada um com seu saco de lixo particular e o colocaram frente ao prédio municipal. Nem foi necessário discursos e xingamentos e a coleta nunca mais foi esquecida. Fizeram o mesmo com o primeiro mendigo que apareceu. “Quem quiser comida que trabalhe por merecê-la, é uma lei divina que foi imposta a Adão ao ser expulso do Paraíso”. Os pedintes nem passaram mais por aquela rua de pessoas tão desalmadas.
Outras ruas copiaram esse ato de cidadania e a cidade ficou linda. Os politiqueiros ficaram apavorados com a iniciativa:-“ Não reclamam! Não pedem nada! Cada um faz a sua parte... Que será de nós? Povo consciente é difícil de manobrar, oh meu São da...! Faça um milagre.”
Dona Maricota acordou com dor de cabeça devido a cachaçada da noite anterior, jogou água quente no cachorro, ofendeu o marido e falou alguns palavrões caprichados para que a vizinha ficasse esperta e soubesse com quem estava mexendo. Fazia um mês que não varria a calçada, Cryslaine sua filha adolescente chegara às cinco da manhã dos escurinhos da vida e só acordaria lá pelas onze horas. O pivete do Juca já estava baseado frente à tevê e o maridão estava enchendo a cara de pinga... Hoje é dia de buscar o Vale-gás, o Vale-pão, o Vale-transporte, o Vale-papél higiênico, o Vale-canabis para o Juca, o Vale-pinga para o marido, o Vale-pírula para a Crys, o Vale-voto para... Deixa para lá, a Bolsa Família, a Bolsa Escola, a Bolsa-bolsa. Oh vida!Logo hoje que queria varrer a calçada, logo hoje... Primeiro de Abril.
E assim a súplica dos que não amam a cidade foi ouvida e um poderoso santo estrangeiro fez mais um milagre e o que era para acontecer jamais aconteceu... Primeiro de Abril!

Gastão Ferreira

quinta-feira, 8 de abril de 2010

PAPO FURADO


PAPO FURADO

Pelos caminhos do mundo
Nenhum destino se perde
Quer seja pouco profundo
Ou algo ruim que se herde!

Basta ver a roubalheira
Estampada nos jornais
Levanta a sua bandeira
Aquele que rouba mais

Nossa terra é tão rica
Basta plantar e colher
Mas todo o ouro só fica
Prá quem está no poder!

“Um dia serei prefeito
Ou quem sabe vereador
Quero ter meu prato feito
Feito com o alheio suor...”

É assim que eles pensam
Para teu voto comprar...
Depois eleitos dispensam
Fica o vendido a chorar...

Quem cala tudo consente
Fingem não sentir fedor...
E vão enganando a gente
Nesse papo “Todo Amor”.

Gastão Ferreira

segunda-feira, 5 de abril de 2010

MATOU O LEON A PAULADAS


MATOU O LEON A PAULADAS

Leon era um cachorro. Um cão sem dono que batalhava seu sustento de casa em casa, de praça em praça, de lixo em de lixo. Desde tótozinho ganhou o apelido de Leon, El Bueno... Um cão desmilinguido que jamais teve uma casinha para chamar de sua, um sem teto que nunca foi vacinado, enfim um vira-lata amigo e amado por todos. Um paquerador nato. Um ser irracional com mais admiradores do que muitos bacanas moradores da periferia ou das praças da vida.
El Matador era um homem. O ser mais inteligente do planeta Terra, o único animal que interage através da razão com seus semelhantes, um sapiens, um predador intelectual, santo e pecador, bom e mau, egoísta e generoso, herói e bandido, um homem e um assassino em potencial.
El Matador cismou com Leon, alias El Matador cismava com qualquer coisa. Atirava em gatos de rua, urubus e passarinho, Saci Pererê e Boi Tatá, gado no pasto, radar nas estradas da vida... Se mexer leva bala, assim era El Matador e ai de quem cruzasse seu caminho... Pimba! Olha aí um corpo estendido no chão.
Foi um escândalo com direito a primeira página. Leiam as manchetes... “Uma cocotinha canina apaixona-se perdidamente por um vira-lata.”,” Leon passa diariamente frente à bela mansão de Lilibeth que finge não notá-lo.”,” Leon paquera Lilibeth...”,” Leon conquista a Dama dos seus sonhos...”,” Leon ama e é amado.” El Matador é informado do romance e um recado é dado:-“ Lilibeth não é osso para a sua laia!Cai fora Leon.”
O Amor foi cego, surdo e mudo as convenções do mundo. Lilibeth, uma cadelinha patinhas limpas, criada com Danoninho e contra filé, freqüentadora de pet shopping, acostumada a banhos de espuma e petiscos importados, ama e é amada, nada mais importa... Seu mundo tem um nome e o nome é Leon!
Leon sabe que seu amor é impossível, altos muros o separam de seu objeto de desejo. Começa a rondar a casa da amada, uivar para a lua, dormir no portão a espera de um milagre:- “Um dia essa porta abre!”
A porta abriu... Leon e Lilibeth juntos... Cheira daqui... Cheira dalí...Funga aqui... Cafunga ali e o circo esta armado... O cão vagabundo e a dama toda amor dão vazão a seus instintos. Os sinos repicam, as beatas benzem-se e reclamam de padres foliões, os mendigos de vida difícil batalham a vida fácil de cada dia:- “Me dá um Reau!”. Baseado na mente alguns garotos pensam num futuro melhor e o mundo gira... Gira... Gira numa boa.
El Matador sente-se traído:- “Com minha cadela de raça? Jamais!” “Como Lilibeth teve coragem de fazer isso comigo?”, “Isso é um ultraje! Uma putaria! Uma cachorrada!”, “Quem esse vagabundo pensa que é para invadir minha privacidade! Somente a morte para lavar minha reputação e honra!”,” Viva a Tradição, a Família e a Propriedade!”
A primeira paulada foi certeira e fatal. As outras trinta apenas para confirmarem que o Leon estava morto e bem morto. “Um bicho a menos no mundo não vai fazer falta! Não aturo desaforo.”, comentou El Matador, o ser mais inteligente do planeta Terra, que se diz a imagem e a semelhança do Criador.

Obs. Texto traduzido grosseiramente de um manuscrito hispânico da Baixa Idade Media, reparem no nome dos personagens (Leon e El Matador). Lilibeth creio que era da nobreza canina inglesa. Na Idade das Trevas devido à ignorância crassa o drama relatado era normal. Fiz pequena adaptação à modernidade para um melhor entendimento, mas qualquer semelhança com a atualidade é mera especulação.
A.Lamartine(Poeta francês -1790/1869)dizia:- " Entre a crueldade para com o homem e a brutalidade para com os animais só há uma diferença:- A vitima."

Gastão Ferreira