domingo, 28 de março de 2010

PARA NOYA COM AMOR...


PARA NOYA COM AMOR

Querida amiga Noya, você que é uma pesquisadora e estudiosa do comportamento humano poderia me esclarecer algumas dúvidas?É possível que um evento seja visto de maneira diferenciada por grupos distintos?Estou escrevendo de uma pequena cidade conhecida pelos nativos como “Novíssima Jerusalém”. É assim chamada pela mídia local para diferenciá-la da Nova Jerusalém, aquela cidade que encena um grandioso espetáculo sobre a Paixão de Cristo. Li num panfleto local que milhares de pessoas estariam presentes a um evento e fiquei deveras impressionado... Que maravilha!Que beleza!Que raridade!
Noya, contei aproximadamente trezentas pessoas no entorno de uma praça, não percebi a presença de turistas nem de caravanas de outras cidades, mas os realizadores do espetáculo agradeciam o comparecimento das tais milhares de pessoas. É correto chamar trezentas pessoas de milhares?
Em “Novíssima Jerusalém” ocorre um fato inusitado. Percorrendo as ruas nota-se acumulo de entulhos pelas calçadas, mas as autoridades afirmam que um dos cognomes da cidade é “Cidade Limpa” e negam a presença de detritos em logradouros públicos apesar dos habitantes reclamarem constantemente do descaso com a faxina municipal.
Chegando ao centro da cidade o visitante se depara com muitos pedintes enfeando um lugar tão aprazível, são moradores de rua com seu direito de ir e vir que não pode ser cerceado. Dizem que a autoridade acrescentou o direito de ficar e perturbar.
O comércio está em crise e são muitas as reclamações dos micro-empresários. Centenas de jovens abandonam a cidade em busca de emprego em locais distantes e os que permanecem na cidade vivem de pequenos biscates ou serviços temporários.
Noya! Tudo isso que relato é devido ao fato dessa dissonância que não consigo entender. Um verdadeiro paradoxo! O povo vivencia uma coisa e as autoridades outra. As pessoas enxergam uma coisa e os mandantes outra. Onde um vê sujeira o outro vê mãos limpas. Onde há descaso o outro chama de todo amor. Será uma doença?Uma epidemia que atinge os habitantes? Realmente não sei e gostaria de contar com seu conselho.
A cidade de “Novíssima Jerusalém” não possui maternidade nem velório público, mas muitos comissionados em cargos de confiança viajam pelo país, mandam e desmandam mais do que as autoridades eleitas pelo povo, desfrutam de ótimos hotéis pagos com o sofrido dinheiro de contribuintes que nada podem reclamar e a frase mais ouvida é:- “Quem não beija a mão é inimigo.”
Noya!Gostaria de contar com sua presença para juntos desvendar esse mistério antes que me expulsem como elemento indesejado. Um abraço de seu amigo Zeca.

Obs. – Caso venhas a “Novíssima Jerusalém” traga algumas carapuças, pois algumas pessoas aqui na cidade adoram vesti-las.

Gastão Ferreira

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