domingo, 28 de fevereiro de 2010

JURAMENTO





JURAMENTO

Depois de tantas tristezas
Ausência dor e maldade...
Negras horas de incertezas
E os suspiros da saudade.

Quero esquecer o desgosto
Pois não é bom conselheiro
E sentir de novo o gosto
De me encontrar por inteiro

Quero viajar pelos sonhos
Que surgem no fim do dia
Curtir momentos risonhos
Me embriagar de alegria...

Viver a vida contente...
Sem ver em tudo pecado
Meu coração indolente
Que por amor foi marcado.

Pois todo o ressentimento
É um peso prá carregar...
Fiz um novo juramento
Não quero mais me magoar!

Gastão Ferreira

sábado, 27 de fevereiro de 2010

HORA DO ACERTO


HORA DO ACERTO

Agora é hora do acerto
De colher o que plantou
É uma hora de aperto...
De olhar o que restou.

Por tantas coisas padeço
Por tanta dor já passei...
Tanto espinho e tropeço
Pelo muito que andei...

Pelos sonhos perdidos
Pelas horas de agonia
Pelos temores contidos
Por uma falsa magia...

Pelos caminhos do mundo
Pelas trilhas... Solidão!
Por esse amor profundo
Pago com ingratidão...

Uma lágrima furtiva
Nos meus olhos ficará
É lembrança sempre viva
Do que jamais voltará!

Gastão Ferreira/2010

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

TAPA NA BUNDA




TAPA NA BUNDA


Quando vim a esse mundo
Eu não trouxe inimigo
Não demorou um segundo
Tinha um junto comigo...

Levei um tapa na bunda
E comecei a gritar
A parteira furibunda
Começou a gargalhar...

É menino minha senhora
Informou cheia de graça
E a partir dessa hora...
Sempre chorei de pirraça

Fui perdendo a inocência
Com o mundo a me ferir
Aprendi que da violência
Poucos conseguem fugir...

Estou voltando pra casa
Pro lugar de onde vim...
Pois o Amor me deu asa
Tenho Paz dentro de mim!

Gastão Ferreira

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

A MUSA


A MUSA

Para marcar em definitivo o maior carnaval do Vale, a festa que atraí milhares de turistas do mundo inteiro para a cidade, que faz concorrência direta a Salvador, São Paulo e Rio de Janeiro e que lota todos os hotéis, pousadas e casas de cômodos. O acontecimento que trás os jornalistas e as televisões, representantes da mídia global, artistas americanos e milionários árabes, foi criado especialmente para o evento um concurso:- A Musa do Carnaval.
As garotas que sonham em ser modelos, sair peladonas em revista erótica, ser apresentadoras de programas de tevês ou sair da pobreza através de um marido rico, ficaram eufóricas e foram batalhar os votos necessários para a indicação como candidatas.
No edital do concurso ficou explicito que a Musa deveria ser simpática, culta, loira falsa ou verdadeira, ter seu nome vinculado a um escândalo ou fotos publicadas em jornais e revistas e cláusula das cláusulas, ter viajado a custa dos impostos dos munícipes para locais inacessíveis aos pobres mortais em jatinho fretado.
Quando as menininhas espertas descobriram que a musa de um famoso bloco local poderia ser confundida com uma Vaca, que a de outro com uma Galinha e que a de outro bloco com uma Falecidinha, tiraram a perereca da chuva e foram reclamar com a “comichão” organizadora.
- Não é justo! Diziam. Queremos aparecer e vocês nos podam, cerceiam nosso direito básico com um concurso de caras e bundas marcadas... Não vamos admitir isso!
- Ne...Ne... Nem!E desde quando nós damos a vocês o direito de reclamar? Que ousadia da parte de vocês garotas se insurgir contra quem manda e desmanda? Quem vocês pensam que são?
- Não é justo! Esse edital é de cartas marcadas...
- Como ousam pensar uma coisa dessas? Bando de desocupadas.
- Olha aqui! Seu “comichão”... Aqui na cidade só tem uma pessoa com as características exigidas. O senhor quer que gritem o nome da mocréia?
- Ah! Meus sais. Esse concurso tem que ficar na história de nossa cidade e temos que ter uma representante à altura do evento. Uma pessoa culta, simpática, inteligente, humilde e de uma beleza chamativa, algo que atraia as lentes fotográficas...
- E o senhor acredita que a velha Barbie é tudo isso? Uma medíocre, sempre envolvida em purpurinas e dando uma de gostosa... Poupe-nos!
- Meninas! Se enxerguem. Qual de vocês voou gratuitamente pelos céus? Quem comeu lagosta com caviar?Quem tem um santo forte? Bando de pobres! Qual de vocês desfrutou de um hotel nove estrelas?Vocês querem ver a minha caveira? Estamos tentando o melhor... Ela é assim com o chefe e o chefe já decidiu e assim será feito, custe o que custar... Lamento, mas somos todos paus mandados... Oh vida!
- Tá bom seu “comichão”! Nós vamos dar uma entrevista aquele jornal que vocês amam de coração e aguardar as conseqüências.
- Meu São da Ilha! Não façam isso. Eu posso perder meu emprego! Não!... Vamos repensar o assunto... Podemos tirar a mocréia da jogada e salvar a situação... Por favor!... Por favor!
- Garotas unidas... Jamais serão vencidas. Garotas unidas...
- Oh! Adeus Musa do Carnaval. Essa não colou!

Gastão Ferreira

Obs. – Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência. O concurso de Musa jamais ocorreu e todos os personagens são fictícios... Nada de vestir carapuças.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

CADERNO


CADERNO

Primavera vai embora
E depois vem o Verão.
Esse amor jogado fora
É ave em arribação...

Pois no Verão outros sonhos
Hão de tomar meu lugar...
E nos meus olhos tristonhos
Tua imagem vem brincar.

Chega o Outono mansinho
Com tanta recordação...
Voa... Voa... Passarinho
Passarinho... Coração!

Agora no meu Inverno
Nesse espelho de ilusão
Os versos desse caderno
Tem teu nome... Solidão!

Gastão Ferreira

sábado, 20 de fevereiro de 2010

TEATRO DE RUA - CIDADE LIMPA É CIDADE VIVA



CIDADE LIMPA É CIDADE VIVA

TEATRO DE RUA

Atores: Oito atores no total,
todos caracterizados para chamar a atenção
dos passantes.

Objetivo: Conscientizar crianças e adultos sobre a
necessidade de manter a cidade limpa.


Cenário:- 10 cadeiras colocadas na esquina da rua (cinco para cada rua). A esquina vira um palco improvisado. Um ator (com focinho e orelhas de porco) sentado frente a essas cadeiras está comendo pipocas e jogando-as no chão... Chega o Cidadão...

Cidadão:- Pacato Cidadão o senhor está sujando a rua!

Cidadão:- Qual o problema? Por acaso a rua é sua?

Cidadão:- Eeeeee! Nervosinho. Não a rua não é minha! A rua é
nossa. A rua é um bem comum... Ela é de todos nós
por isso não se pode sair por ai sujando o que é dos
outros, seu porquildo!

Porquildo:- Da onde você me conhece para saber que meu nome é
Porquildo?

Cidadão: - Já vi você jogando embalagem de doce, palito de picolé, um
monte de lixo no meio da rua...

Porquildo:- Mas todo o mundo faz isso...

Cidadão: - Mas é errado... O senhor nunca notou que quando chove esse
lixo todo que vai sendo jogado, tapa os bueiros causando
alagamento.

Porquildo:- O senhor tem razão! Não havia me tocado desse fato...

Cidadão: - E, além disso, o fato de jogar lixo por todo o lugar revela uma
uma grande falta de educação...

Porquildo:- Opa... Opa...

Cidadão: - Vamos perguntar aos pacatos cidadãos que nos assistem...
(Dirigindo-se aos que estão assistindo a peça, aos que estão sentados nas 10 cadeiras)- Cidadão:- Você acha certo jogar lixo na rua? (Aqui começa uma interação entre o ator e platéia... Temos que conduzir a assistência a se interessar pelo conceito de cidadania e ver que não pode sair por ai sujando água, pichando muros, quebrando telefone público e até mesmo gritando na rua). É aqui que começa o verdadeiro conceito de teatro de rua, a improvisação em cima das respostas dadas levando quem assiste a pensar no assunto abordado... A criança ou adolescente da platéia que estiver interagindo nunca mais vai esquecer o fato de ter participado no meio da rua de uma peça de teatro e sempre vai lembrar isso e do assunto que foi discutido... Essa será a base para levar a informação sobre cidadania ao público e tentar mudar para melhor nossa cidade... Tudo tem que ter um começo.

Cidadão:- Está vendo seu Porquildo! Todos concordam que é horrível,
além de uma grande falta de educação jogar lixo na rua...

Porquildo:- Puuuuxa! Me desculpem... Me perdoem... Eu não sabia que
estava fazendo uma coisa errada... Minha mãe jogava lixo
na rua, meu pai também...Meu avô também...

Cidadão:- Parece que a família toda era porcalhona mesmo...

Porquildo:- Ninguém lá em casa ligava para isso, mas você tem razão
Cidadão, nossa cidade é linda e cada um de nós tem o
dever de zelar por ela... Ela não se suja sozinha, um
Porquildo tem que fazer isso... Estou envergonhado!

Cidadão:- Seu Porquildo! Que bom que o senhor entendeu o conceito
de cidadania... Não adianta a gente ficar reclamando de tudo
de ruim que acontece na cidade... A cidade não suja as ruas, a
cidade não picha paredes, a cidade não fala palavrão e nem
destrói o que é dos outros... São as pessoas que fazem isso e
podemos mudar tudo isso defendendo a nossa cidade das
pessoas que não gostam dela...

Porquildo:- Nooooossa! Tem gente que mora na cidade e não gosta dela?

Cidadão:- Claro que tem! Uma pessoa que sai por ai sujando as ruas,
fazendo baderna, gritando, falando altos palavrões... É uma
pessoa que não gosta do lugar onde vive... Quem ama cuida.

Porquildo:- É verdade! Quem ama de verdade o lugar onde vive, tenta
mantê-lo o mais limpo possível para que todas as visitas
possam admirar suas belezas...

Cidadão:- Entendeu Porquildo! Se cada um de nós cuidar de nossa rua
e cobrar o mesmo de nossos vizinhos, a cidade em breve se
modificará e todos teremos orgulho de poder dizer:- Eu
ajudo a cidade a ser cada vez mais bonita!

Porquildo:- Bacana Cidadão! Vou começar a dar o exemplo e catarei esse
lixo que joguei no chão sem querer querendo...

Cidadão:- Eu vou ajudar você...

(Ambos estão juntando os restos das pipocas jogadas no chão quando se aproximam dois peixes)

TEXTO DOIS; - O PEIXE

Dois peixinhos conversando... Um deles todo cheio de esparadrapos na cabeça:
Peixe-l:- Seu Mandi o que aconteceu com o senhor?Foi atacado por um
tubarão?

Peixe-ll:- Eu estava ali na agüinha... Bem na porta da minha casa quando
um Porquildo da vida jogou uma sacola plástica cheia de lixo na água e acertou bem aqui na minha cabecinha...Oh!...Oh!...Como dói.

Peixe-l:- Meeeeu! Jogaram uma sacola com lixo na água!Na água em que
os filhotes de bicho homem nadam? Na água em que os
pescadores tiram o sustento de suas famílias?

Peixe-ll:- É para você ver! O ser humano não respeita a casa dos outros...
O lagamar é um berçário para diversas formas de vida... Ali tem
Pitu... Caranguejo... Lagostim... Camarão... Peixes... Peixe...
Peixe...

Peixe-l:- Será que eles gostariam que alguém que passasse na rua jogasse
uma sacola de lixo dentro da casa deles?

Peixe-ll:- Vamos perguntar?

(Começam a perguntar as crianças sentadas nas cadeiras...)

Peixe-l:- Tá vendo? Elas não jogam lixo na água.

Peixe-ll:- Sei não! Parece que já vi aquele ali jogando pedra na água...

Peixe-l:- Acertou algum parente seu?

Peixe-ll:- Não acertou, mas tirou uma fininha...

Peixe-l:- Seu Mandi vai embora que eu levo o senhor para trocar esses
curativos... Meeeeeu o bicho tá feio... Oh gente sem educação.

(Enquanto eles se afastam chegam dois ratos...)


TEXTO TRÊS – OS RATOS

Dois ratos... Ao chegarem à esquina param frente às cadeiras, um deles vê o saco de lixo que o Porquildo deixou encostado na parede e começa a abrí-lo...

Rato-l; - Puxa que sorte ter encontrado esse saco de lixo jogado na rua.

Rato-ll:- É mesmo! Tomara que tenha resto de comida dentro...

Rato-l:- Sempre tem... O ser humano é muito descuidado e joga resto de
comida em qualquer lugar.

Rato-ll:- Sorte nossa que eles são porcalhões senão eu nem teria nascido...
É por isso que gosto tanto de humanos.

Rato-l:- Verdade! Basta chegar numa casa e tem pote de comida aberto,
comida dentro do forninho do fogão, sacos de bolacha pela
metade abertos...

Rato-ll:- Ah! Não acredito... Vou perguntar...

(Interagem com a criançada da platéia fazendo perguntas sobre limpeza em suas casas...)

Rato-I: Tá vendo! Uma maravilha... É por isso que nós não existimos. Rato
só vai em lugar que tem comida... Casa limpa, alimentos bem
guardados em lugares sem buracos e adeus ratos...

Rato-ll:- Cara qual é a sua dando essas dicas de como exterminar a gente?
Que coisa feia em! Não liguem para o que ele disse:- Sujem bem
a casa de vocês... O quintal de vocês... Os bueiros da cidade e
nós os ratos vamos agradecer trazendo uma porção de doença
para todos...

Rato-l:- É isso galera do mal... Tamos nessa (Começam a gritar:-
Nóis ama voceis... Nós precisamos de vocês para sobreviver...
Quanto mais sujeira melhor para nós. Não esqueçam.)

(Chega uma mulher com uma vassoura e começa uma briga com os ratos... Tenta afastá-los com a vassoura e toma o saco de lixo deles... Esta parte é lúdica e tem que fazer a assistência rir... A mulher espanta os ratos que vão embora chorando. Ela começa a varrer a calçada)


TEXTO QUATRO – DONA MARICÓTA



Vizinho: - Dona Maricota! Que é isso? A senhora varrendo a rua! Tá
trabalhando na Prefeitura?

Maricota:- Que nada seu Dito! Só estou fazendo a minha parte... Se cada
um de nós limpasse a frente da própria casa pouparia muito
trabalho para as varredoras de rua...

Vizinho:- Ah! Para com isso. É obrigação da prefeitura limpar a rua...

Maricota:- Mas não é por isso que devemos sujar as ruas... Jogar lixo na
frente da casa dos outros é sinal de péssima educação e
devemos respeitar o trabalho dos outros... O senhor acha
bonito jogar lixo só para que o lixeiro possa catar?

Vizinho:- Calma! Calma! Eu só disse que a senhora está fazendo o
serviço do catador de lixo e ele é pago para fazer isso...

Maricota:- Nós só temos catadores de lixo porque tem um monte de
gente igual ao senhor que pensa que catador é nosso
empregado...

Vizinho:- Mas eles são nossos empregados... Pagamos impostos.

Maricota:- Ai é que está! Pagamos impostos... Todos os funcionários
públicos ganham seus salários de nossos impostos e o
senhor vem cobrar serviço só dos catadores de lixo?
Por que o senhor não vai aos gabinetes e dá uma prensa
nos responsáveis por nossa cidade? Medinho! É?

Vizinho:- É mesmo! Coitados dos lixeiros... Matam-se de trabalhar e
eu fico culpando-os pelo lixo na rua... Tenho que culpar
os porcos e porquinhos pelo fato... Eu vou é parar de
jogar lixo pela rua...

Maricota:- Seu Dito! Nossa cidade vai ficar linda... Bem limpinha... Vai
dar gosto andar pelas ruas... Quando chover os bueiros não
vão mais entupir e a água vai embora logo...

Vizinho:- É verdade! Vou começar a varrer a frente da minha casa...
Colocar o lixo numa sacola e deixar no lugar onde o caminhão
possa recolher...

Maricota:- Se cada cidadão agir dessa maneira o problema lixo estará
resolvido... Podemos fazer uma campanha aqui na rua. Que
tal? “VAMOS VARRER A FRENTE DE CASA.”

Vizinho:- Dona Maricota! Vamos saber a opinião da vizinhança?

(Novamente interagindo com o público... Fazer perguntas sobre o lixo e se concordam em uma campanha para não jogar mais lixo pelas ruas)

Maricota: Viu seu Dito! Todos eles querem ver a cidade limpa...

Vizinho:- Se cada um fizer a sua parte e cobrar dos sujos e sujinhos, a
nossa cidade ficará uma beleza e teremos muito orgulho dela...

Maricota:- Bacana! Vou até dar um copo de suco para esse pessoal...

Vizinho:- Ei! Nada de jogar os copos na calçada... Podem colocar dentro
desse saco... Hoje nós vamos começar a mudar nossa cidade:-
Lugar de lixo é no lixo.

(Todos os atores se aproximam para tomar o suco e ficam interagindo com os participantes)

F I M


Gastão Ferreira
Iguape/18-02-2010

domingo, 14 de fevereiro de 2010

NINA NENÊ


NINA NENÊ

Nina Nenê era pobre. De uma pobreza moral extrema. Vivia do corpo e para o corpo. Alma vazia preenchida com festinhas. Não olhava ninguém nos olhos, pois acreditava ser o comportamento correto para uma representante da elite.
Nina era na verdade uma garota insuportável. Medíocre e burra sem uma gota de semancol. Com caras e bundas abria seu espaço se achando o máximo e desdenhando os semelhantes.
Moralmente os iguais se atraem e Nina cativou com seu desdém um grupo afim. Descobriu as vantagens de engambelar os outros, tirar partido da carência dos excluídos. Viver de aparência e se exibir a custa do suor alheio.
Pela primeira vez na vida Nina andou de avião. Desfrutou de um hotel sete estrelas. Pela primeira vez comeu caviar e bebeu o verdadeiro champanha francês. Curtiu com tudo o que tem direito um iate e se esbaldou em festinhas particulares.
Nina ofuscada pelo brilho passageiro e amoral dos que se julgam donos de cofres que não lhes pertencem tudo fotografava. Tinha que provar as amigas e familiares que as incríveis histórias que contava eram verdadeiras. Que era possível desfrutar dos prazeres do mundo a custa do sofrimento alheio. Tinha que mostrar que ela chegara lá. Que agora também fazia parte do mundinho obscuro onde à retaliação, a desonestidade e a ganância comandam.
O álbum fotográfico de Nina foi roubado e suas fotos estampadas em uma revista famosa. Ali estava a prova das coisas apenas murmuradas e negadas. Nina foi defenestrada e teve que voltar à sua vida medíocre de caras e bundas, mas após provar o gosto da arrogância e da prepotência com certeza ficou um pouquinho pior... Nina Nenê!

Gastão Ferreira

Obs.- Crônica bobinha. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência. Um pobre sempre pode progredir, mas pobre de espírito só retrocede.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

TATÁ BEL - NHÁ BELINHA


TATÁ BEL – NHÁ BELINHA

Dona Izabel, Mãe Bela, Vó Iza, Bisa Bel, Tatá Bel... Nhá Belinha teve treze filhos, sessenta e oito netos, cento e setenta bisnetos, trinta e dois tataranetos. Nasceu em 30/05/1912 em Baissununga, Lagoa do Cedro, criou-se em Sete Barras e recém casada com Augusto Guedes mudou-se para Iguape em 1930.
Seu Augusto comprou doze alqueires de terras no Jipuvura e por lá começou a nova vida. Plantou arroz, milho, feijão, maracujá, aipim e mandioca. Semanalmente trazia de barco a Iguape quinze sacas de farinha de mandioca, mais de duzentos porcos eram alimentados diariamente e centenas de galinhas produziam carne e ovos.
Naquela época a alimentação era farta e a caça do mato fazia parte do cardápio. Tateto, quati, macaco, paca, capivara, tatu e tamanduá, alem dos grandes peixes fornecidos pelo Rio Ribeira. A família crescia e todos trabalhavam no pesado e sem preguiça.
Dona Izabel Guedes foi a mão direita do marido. Quando em tempo de mutirão fazia almoço, janta e café para mais de oitenta pessoas. A noite ainda participava do arrasta pé, pois era uma exímia dançarina. Gostava de um baile e uma festa, mesmo após cair de um cavalo e quebrar uma perna não deixou a dança.
Nhá Belinha sabia manejar como ninguém uma foice, um machado. Fora as mutucas e cobras nada temia. Nessa época a colônia japonesa Katsura estava no auge e no Jipuvura tinha médicos homeopatas, cinema, farmácia, vários engenhos e uma pensão que fornecia comida e pouso.
Pelo Rio Ribeira navegava barcos, canoas e vapores que eram as conduções mais rápidas para Iguape. Apesar de morar em um sitio a vida era movimentada e alegre. Quando seu Augusto faleceu nhá Belinha veio morar com as filhas no Rocio. Os Guedes estão entre os fundadores desse imenso bairro.
Dona Izabel está forte. Fora um início de catarata sua saúde é perfeita e aos 98 anos ainda fuma seu pito de barro e sonha com comidas impossíveis nos dias atuais, só de pensar em um tamanduá assado ou um tateto no espeto... Fluem as antigas lembranças.
Tatá Bel reparte seu amor e experiência de vida com filhos, netos, bisnetos e tataranetos. Nuca está só, pois além de 283 descendentes possui centenas de amigos que gostam de ouvir suas histórias de uma época em que as crianças eram educadas, os amigos sinceros, as pessoas honestas e confiáveis. Uma época sem tecnologia, sem geladeira, rádio, televisão, sem fogão a gás e sem avião. Um tempo em que o ser humano era avaliado por sua disposição ao trabalho. Um tempo que a união familiar orgulhava aos pais, um tempo de respeito aos mais velhos e as tradições... Um tempo que se foi.
Tatá Bel é uma pessoa alegre e feliz. De uma lucidez incrível, uma mulher que enfrentou a vida sem reclamar. Uma mãe que educou com amor e severidade todos os filhos. Uma mulher simples e humilde que gosta de festas. Uma heroína... Uma vencedora. Na festa de cem anos se Deus quiser e eu for convidado estarei presente... Saúde nhá Belinha, a senhora merece chegar lá.

Gastão Ferreira

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

MEMÓRIAS DE UMA PRACINHA




Na Beira do Valo, Avenida Ébano Pereira esquina com a Rua Ana Cândida está a Praça São Sebastião. Antigamente antes da construção da igreja de São Sebastião na Vila Garcez era nessa pracinha que se faziam as homenagens ao santo e após a quermesse anual encerravam a festa com uma missa campal.
Egidio morava na Rua Major Young, era um pescador e possuía um oratório com a imagem do santo. A pracinha possuía um cruzeiro de madeira, árvores e alguns bancos. Quando da celebração religiosa Egidio cedia o oratório para o oficio da missa. Egidio tinha um pequeno problema, bebia em demasia e quando torrado não respeitava ninguém.
No início dos anos sessenta a festa estava animada, muita cerveja, Cristiano, quentão. O padre Mathias era o vigário da cidade e pediu a Egidio o oratório com o santo para a missa festiva. Egidio estava trebado e começou a importunar quem assistia a missa. O padre expulsou Egidio do culto e esse revoltado:- Saio, mas levo meu santo!
Foi um escândalo, ano de 1962. O padre e Egidio começaram um bate boca que deu muito que falar. Egidio passou a mão no santo e se mandou. A missa não foi concluída e o padre jurou que nunca mais rezaria no local. Os amigos de copo de Egidio quebraram a velha cruz que enfeitava o logradouro e foram em passeata até a Praça da Matriz. Desde então a pracinha ficou abandonada.
Nesse ano de 2010 os vereadores municipais doaram uma cruz e a recolocaram no mesmo lugar da cruz destruída. O interessante é que quase ninguém sabia que aquele terreno abandonado ao lado da peixaria do Wilson era uma praça que já teve seus dias de glória, que foi causa de uma feia briga entre um padre e um pescador.
Esse fato quem me contou foi o Lolô. Iguape tem histórias que estão se perdendo. Vamos preservar a memória da cidade e enriquecer nosso folclore. Iguape não foi só casarões e pessoas abastadas com o cabelo cheio de ouro dando festas em clubes privados. Em nossa cidade a maioria da população sempre foi pobre, gente que lutava bravamente para sobreviver com dignidade e foram eles, os humildes, que ergueram os antigos casarões, carregaram pedras, suaram, amaram, se divertiram e sofreram.
Em respeito a essas pessoas incríveis, os únicos que nunca viraram as costas à cidade nas horas amargas e difíceis. Os que pagam o preço de acreditar num futuro melhor é que tento preservar para a posteridade esses pequenos fatos quase esquecidos.

Gastão Ferreira