sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

O BRACELETE DE PRATA


O BRACELETE DE PRATA

Há muitos e muitos anos uma terrível epidemia devastou a cidade, muitas famílias foram totalmente dizimadas. As pessoas contaminadas eram levadas para a chácara Porcina e ali deixadas aguardando a morte. A chácara foi relegada ao abandono, pois seu proprietário também faleceu. O tempo passou, a epidemia foi esquecida e a vida continuou serena na pacata cidade.
Marcelo era um sonhador. Pouco estudou e sem uma profissão definida vivia da prestação de pequenos serviços. Nas horas livres gostava de um banho de cachoeira e a queda d’água mais próxima de sua residência ficava justamente na Porcina. Muitas moças e rapazes de sua idade faziam uso do local em ruínas e foi assim que Marcelo conheceu Martha.
O que chamou a atenção de Marcelo em relação à Martha foi a melancolia estampada no rosto jovem. Um halo de tristeza envolvia seu semblante. Sentava-se na grande pedra junto à cascata e parecia não dar a mínima aos alegres freqüentadores do local.
Marcelo tomou coragem, venceu a timidez e aproximou-se da garota. Realmente era encantadora. Pele alva, olhos verdes e sedosos cabelos castanhos. Um bracelete de prata enfeitava seu pulso, um presente de dias melhores, uma lembrança do passado. Tornaram-se amigos.
Martha confessou que a tristeza que a dominava era devida ao fato de nunca ter sido amada de verdade, pois segundo acreditava somente um grande amor lhe daria a paz de espírito e o sonhador Marcelo ficou perdidamente enamorado.
Martha jamais permitiu que Marcelo a acompanhasse de volta a casa. Não queria que o pai soubesse de seus passeios e também não tinha certeza de que Marcelo realmente a amava. Marcelo não sabia o que fazer para provar a realidade de seus sentimentos e Martha pediu-lhe uma prova de amor. Era um antigo sonho, uma tolice, mas caso Marcelo o realizasse ela seria totalmente sua para sempre.
O desejo de Martha era compartilhar numa noite de lua cheia, a meia noite seu primeiro beijo com o homem de sua vida e que tal ritual se realizasse sobre a pedra onde sempre ficava a admirar o grupo de jovens na Porcina. Marcelo consultou um calendário e imediatamente marcou a data e hora para o encontro, daria à Martha a prova de seu amor.
Marcelo chegou adiantado e ficou esperando por Martha, a lua cheia clareava as ruínas, animais moviam-se na mata e seus gritos noturnos ecoavam na noite. Martha chegou cinco minutos para a meia noite com seus cabelos esvoaçantes. Trajava um vestido branco a moda antiga, nas faces pálidas um sorriso e nos olhos o brilho de que finalmente realizaria o tão esperado sonho.
Deitaram-se sobre a pedra e Marcelo aninhou-a nos braços, afagou seus cabelos, sentiu o doce perfume do corpo jovem e ávido procurou os lábios da amada. Amaram-se tendo a lua como única testemunha daquele encontro e quando Marcelo abriu os olhos estava abraçando o ar, no chão um vestido branco envolvia um esqueleto que no pulso direito portava um bracelete de prata.
No jornal da cidade uma noticia chamava a atenção:- Encontrado em 15/03/2001 sobre a grande pedra próxima a cascata da Porcina um esqueleto. Os pesquisadores afirmam que os ossos são da jovem Martha de Albuquerque Lins falecida na epidemia que devastou a cidade no final do século XIX, um bracelete de prata pertencente a rica família Lins estava junto aos despojos.É interessante notar que toda a família pereceu em decorrência da epidemia que assolou a cidade no século citado e que justamente o corpo de Martha jamais foi encontrado. Mais um mistério a envolver nossa longa história.Ninguém sabe como o esqueleto foi levado até a pedra.
Marcelo abandonou a cidade e foi morar em Curitiba. Trabalhou e estudou, hoje possui diploma universitário. Confidenciou somente a seu amigo Zé Roque sua história, fazendo com que jurasse que jamais a contaria a alguém.

Gastão Ferreira

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