sábado, 30 de janeiro de 2010

CORDEL - MEU ESPINHO


CORDEL

Oh minha doce princesa
Nobreza do Litoral
Acabou virando presa
Dessa gentinha do mal!

Quanto mendigo na rua
Quanto lixo no Canal...
A maldade se insinua
E acha tudo normal...

Tem gente de alma suja
Tem gente cara de pau.
Anjo virando coruja...
Piranhas no pantanal.

Gente tirando proveito
Dessa pobreza geral...
Tanta falta de respeito
Almas pintadas de cal.

Um dia tudo termina
Todo o ano tem inverno
E essa gente cretina
Vai direta pro inferno...

Me salve meu São da Ilha
Não posso fechar meu olho!
Quem perdeu a sua trilha
Bota o rabinho de molho...

O Diabo vai dar risada
Pois vai faltar condução
Pra tanta gente safada
Entre pilantra e ladrão.

A pedra que tanto brilha
Escureceu nessa hora...
Socorro meu São da Ilha
O inferno me devora!

Voltarão tenho certeza.
Como pedintes? Talvez!
Pois quem semeia tristeza
Não acredita em Deus.

Oh minha doce Princesa!
Com seu fardo tão pesado
Feiúra virou beleza...
Cidadania é pecado!

Não posso ficar calado
Eu sou gente não sou bicho
Não quero ser comparado
Com esses montes de lixo.

Pescador que pesca tanto
Vento que chora mansinho
Cidade que é meu encanto
Meu amor e meu espinho!

Gastão Ferreira

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

O MENINO PASSARINHO


O MENINO PASSARINHO

Há muito e muito tempo quando as crianças ainda não sonhavam em serem modelos, artistas ou trombadinhas, existiu um menino que queria ser passarinho. Seu nome era Miguim.
Miguim morava numa pequena cidade. Uma cidade cercada de altas montanhas, frente a um belíssimo e piscoso lagamar onde um canal todo arborizado unia um grande e majestoso rio ao manguezal.
A cidade era linda. Possui diversas praças e jardins. Muitas escolas e o pai de Miguim era um pescador. Seu Leléco tinha uma pequena canoa e com ela percorria toda a orla do grande lagamar. Pescava tainha, salteira, oveva, pescada, manjuba, bagres e muitos outros tipos de peixe.
Quando seu Leléco voltava da pesca diária ficava horas e horas contando suas histórias de pescador para o filho. Era viúvo e enquanto preparava o jantar contava das garças, dos biguás, dos socós e dos flamingos vermelhos. Contava do lobo guará, do bugio, do porco espinho e inventava a onça e dizia do grande gavião real que morava na montanha mais alta. Falava do tucano, da saíra, do sanhaço e dos mil pássaros que sobrevoavam sua canoa.
Miguim amava o pai que era seu herói e aguardava ansioso sua volta da pesca para ouvir encantado as novas histórias. Miguim queria ser um passarinho para poder seguir lá do alto as canoas solitárias, espiar de perto as montanhas, conhecer novos lugares. Miguim queria ser um Bem-te-vi.
A molecada zombava de Miguim e de seu sonho. Tanta coisa importante e ele queria ser um reles Bem-te-vi. O pai não dizia nada, coisas de criança, pensava. Miguim contava para seu pai que voava para longe da cidade, via uma ponte, estradinhas cortando a mata, pequenas quedas d’água e também o mar com seus barcos e as grandes ondas que visitavam a praia.
Uma tarde Miguim e os amigos resolveram nadar no Valo Grande, Miguim nunca mais voltou. Seu pai quase enlouqueceu. Por mais que procurassem o pequeno corpo nunca foi encontrado.
Leléco não se conformava. Como amava o filho! Como sentia sua falta! Tornou-se um homem triste. Agora seu mundo era sombrio, já não tinha a quem contar suas histórias, aqueles olhos que brilhavam, o abraço que tirava seu cansaço, o sorriso que iluminava sua pobreza e dava força para continuar lutando tinha desaparecido para sempre... Para sempre.
Leléco jogou a tarrafa, estava frente à Pedra da Paixão. Recolheu vazia. Olhou a montanha e a saudade chegou apunhalando:- Miguim!
Leléco chorou... Já não queria mais viver, sem sua luz, sua razão de existir, era melhor tombar a canoa... Fechou os olhos, fez uma oração, pediu perdão dos pecados... Bem-te-vi... Bem-te-vi... O passarinho estava pousado na borda da canoa... Miguim?... Bem-te-vi... Bem-te-vi.
A pescaria foi proveitosa, Leléco nunca dera lanço tão bom, uma alegria tomava conta de sua alma humilde e as pessoas ficaram maravilhadas, pois na frente da canoa sem temer o pescador um passarinho cantava:- Bem-te-vi... Bem-te-vi.

Gastão Ferreira

O ANJO


O ANJO

Quando o Anjo surgiu Lidú não estava preparado: ”- Tenho tanto para fazer! Problemas a solucionar, contas a acertar pequenas coisas a concluir.”
O Anjo sorriu: ”- Chegou à hora da viagem! Nada de levar coisas desnecessárias. Na bagagem apenas as realizações, os gestos de bondade, o carinho ofertado, a palavra amiga, o amor aos semelhantes, o altruísmo e o desprendimento.”
- Oh Anjo! Minha bagagem não é leve. Muito trabalhei para conquistar um lugar ao sol. Construí casas, ergui empresas, meu nome consta de diversas placas em diferentes locais, sou um grande político.
- Não Lidú! Eu não vim buscar o político, eu vim em busca de uma alma imortal e das conquistas espirituais por ela realizadas.
- Conquistas espirituais?
- Como político você teve oportunidades únicas. Criar e executar leis para tornarem a vida mais digna, auxiliar os menos favorecidos, exemplificar a ética, a honestidade, a bondade. Por suas mãos passou fortunas a serem empregadas na comunidade. O bem estar de muitas pessoas dependeu de uma simples decisão ou assinatura sua.
- Não Anjo! Não é bem assim. Somos uma equipe e se um dentre nós não concordar nada pode ser realizado. Tomamos decisões em conjunto, todos os colegas participam e não posso ser responsabilizado pelo comportamento de um grupo.
- Não estou te julgando Lidú! Eu também faço parte de uma equipe, sou apenas o teu acompanhante nessa viagem de volta. Quem vai te julgar é tua própria consciência...
- Se é minha consciência quem me julga estou absolvido. Nada fiz que não tivesse uma justificativa de minha parte e estou tranqüilo.
- Que bom! A lei de causa e efeito costuma ser fatal...
- Lei de causa e efeito! Que é isso?
- Toda a ação gera uma reação. Espero que teus atos não afetem negativamente os que em ti confiaram. Que não fostes causa de tristeza, desesperança, lágrimas, fome. Que com o teu trabalho tenhas melhorado a tua cidade, dado um exemplo de humildade, plantado progresso e dignificado teu cargo público.
- Anjo! Eu não posso partir. Por favor, me dê uma nova chance!
- Você já teve a chance! Foi você que pediu para ser político e assim saldar velhas dívidas. Chegou a hora do acerto de contas... Vamos!

Gastão Ferreira

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

YES! NÓS TEMOS A FÔRÇA.


YES! NÓS TEMOS A FÔRÇA.

Algo que chama a atenção em Iguape é a imensa criatividade de nossos cidadãos. Desde artes cênicas, artesanatos, música, festas e eventos o iguapense se destaca pela originalidade. Na atualidade, numa civilização globalizada possuímos esse diferencial. Nos antigos carnavais anteriores ao ano de 1985 lembro das fantasias com que muitos foliões nos brindavam. Fantasias criativas que encantavam crianças, adultos, turistas e as quais ficavam na memória por meses. Alguns cidadãos acima de qualquer suspeita se vestiam de mulher e ficavam passeando na praça. Não mexiam com ninguém, não partiam para a baixaria, simplesmente estavam travestidos e respeitavam a todos.
Seu Domingos do Funil de Baixo era procurado pela criatividade, O Nicanor da prefeitura, O Paulo Mijada e o Edson com suas caricaturas de homens da mala, o senhor desconhecido que era metade boneco e metade gente, a mulher bunda desfilando e correndo atrás da meninada, o Xixilá vestido de diabinho na lateral da igreja matriz dando garfadas na criançada. Famílias inteiras fantasiadas e divertindo-se juntos. O carro alegórico da turma do Peixinho despachante que era aguardado com a novidade do ano. A quem iriam satirizar?
Imagino como eram nossos velhos carnavais em sua simplicidade e alta criatividade. A época a que me refiro, anos 80, nenhum bloco era subsidiado e turistas vinham aos milhares e traziam suas famílias e fantasias, pois o divertimento era garantido.
Algumas pessoas não acreditam que fazemos parte do Vale do Ribeira, o rincão mais pobre do Estado de São Paulo e teimam em concorrer com as escolas de samba de cidades mais privilegiadas, como se os ricos turistas desistissem do Rio de Janeiro a nosso favor. Nossos donos esquecem que temos o essencial para um ótimo carnaval, a criatividade de nosso povo, que bastando um pequeno incentivo teria um maravilhoso e divertido carnaval, único em todo o estado pela maneira de ser.
Mas os donos de nossa cultura não admitem opiniões divergentes das suas e partem para a agressão verbal tornando difícil o convívio social. Numa cidade onde um pequeno grupo faz o que bem quer sem dar satisfação aos demais munícipes algo está errado. Senão vejamos:
1)- Monumento na Praça da Matriz:Um monumento no principal logradouro público é algo muito serio,algo para servir de ponto de referência e orgulho da população. Um monumento para ser admirado, comentado, fotografado e elogiado. Um monumento que merecia uma consulta popular. O que o povo quer ver? O que o povo gostaria de ver exposto na sua praça?Não!... Não. O povo é ignorante e nada entende de arte, não deve jamais ser consultado. Só que o povo de mau gosto que não serve para opinar, serve muito bem para votar e pagar impostos. Serve também para aplaudir e ficar calado. Somos cidadãos que quando tentamos exercer nossa cidadania somos apontados como inimigos vilipendiados e retaliados.
2)-Carnaval: Um carnaval diferenciado seria a solução para nosso turismo. Incentivar a população a comparecer fantasiada na praça. Um bom prêmio em dinheiro vivo para as melhores fantasias. Um júri composto por turistas, nada de colocar apadrinhados e amigos da realeza para julgar os foliões. Explorar o máximo esse diferencial único que é a nossa criatividade e investir na novidade. Nós não estamos em Recife, Rio de Janeiro, Baia. Nós estamos num local pobre de recursos, mas rico de criatividade. Deixem de serem egoístas, de sonharem com a primeira página dos jornais, isso é coisa para gente mesquinha e espíritos de porco que oferecem falsos sonhos sabendo que são falsos. Ninguém ganha fama duradoura a custa dos outros, o mundo é bem maior que nossa pequena cidade e aqui tem purpurina para todos.
O que falta em nossa cidade é uma cobrança de nossos direitos, hoje temos leis que protegem a cidadania. Ninguém é dono de uma cidade, as pessoas não são ovelhas para tosquiar, débeis mentais que necessitam de protetores. É a mediocridade que está nos sufocando. Nem todos os seres nascem para voar. Vamos aplaudir os que voam, mas não vamos dar asas às cobras. O ódio gratuito, a inveja, a prepotência e a baixaria moral nunca somaram nada de positivo, mas jamais esqueçam que todos têm o direito à vida e ao sonho.

Gastão Ferreira

CRUZ CREDO


CRUZ CREDO!

Iguape cidade histórica, patrimônio cultural brasileiro. Famosa pelo ciclo do ouro, do arroz, navegação fluvial e marítima. Hoje cidade das cruzes. Nossos políticos se esgoelam de gritar nos palanques eleitorais prometendo profundas mudanças. Falam em turismo e no porvir radiante de nosso município.
Roma, Paris, Londres, Nova Yorque são cidades provincianas perto de Iguape. Onde já se viu perder tempo com esculturas em praças públicas, monumentos contando lendas e homenageando heróis?O melhor enfeite para um logradouro é uma cruz, esses estrangeiros ignorantes serão bem vindos a nossa cidade, assim talvez aprendam sobre a verdadeira arte.
Sou um defensor ferrenho das cruzes e graças ao bom São da Ilha ainda temos muitas praças a serem enfeitadas. Se eu tivesse poder de mando daria nome as cruzes. Cada cruz com o seu nome. A Cruz de taquara do sitiante que não pode desmatar. A Cruz do pescador que não pode pescar. A Cruz do cidadão que não pode andar tranqüilo pela rua, pois é achacado por um pedinte. A Cruz de quem freqüenta bares, pois sempre aparece um bêbado pedindo que se pague uma pinga.
Sou e serei um fã das cruzes. Uma cruz nunca será roubada como o Leão da passarela, como o Veado de bronze da Fonte do Senhor, os Anões e a Branca de Neve da praça homônima no Rocio. O Leão da Praça dos Pescadores do Porto da Ribeira. A placa de bronze de Albert Camus, o remo da fragata da Marinha, o Anjo e o Sino do cemitério, o Cupido urinando da piscina da Fonte, as miniaturas de animais que enfeitavam a rua ao lado do Supimpa.
Uma cruz além de ser baratinha (R$149.610,95) jamais deixa esquecer que cada um de nós possui a própria Cruz que se subdivide em muitas cruzinhas. A Cruz do medo, a Cruz da ignorância, a Cruz sem futuro certo, a Cruz dos impostos, a Cruz Cala a Boca de não poder reclamar, a Cruz da ingratidão e tantas outras.
Temos em nossa cidade uma nova praça, uma praça sem árvores, sem banquinhos, uma praça com jeito de quem tem medo de ser feliz, uma praça sem passarinhos, uma praça triste, a Praça São Sebastião que fica na orla do Valo Grande ao lado da peixaria do Wilson e sabem qual o diferencial desse novo local:- Uma Cruz! Cruz credo.

Gastão Ferreira

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

"UMA CANOA PARA O CÉU"


UMA CANOA PARA O CÉU

Seu Lolô foi um grande pescador. Um mito que ficou na lembrança. Fazia canoa, remo, redes, currícos e jerivás. Morava com o único filho, o Maequinho, pros lado do Jairê. Estava picando fumo de rolo quando sem mais nem menos falou:- Tive uma visagem! Preciso fazer uma viagem logo... Logo. Sonhei que vou morrer sem conhecer nada do mundo, mas antes que a vida vá embora eu farei um longo passeio.
O povo quando soube da novidade ficou de olho cumprido espiando. Seu Lolô foi à mata, escolheu a árvore certa e começou o que tinha se proposto a fazer. Levou tempo a concluir a embarcação, mas um belo dia, ali estava ela, leve e perfeita.
O rio Ribeira é imenso, 470 km de extensão, nasce no estado do Paraná, percorre centenas e centenas de quilômetros e deságua em Iguape no estado de São Paulo. A maior parte do percurso desse rio é dentro da Mata Atlântica e nas suas margens vivem comunidades indígenas, quilombolas, agricultores, vilas e cidades. Grandes plantações, criação de gado e retirada de areia para construção civil.
Jairê é um bairro rural de Iguape, na divisa com o município de Pariquéra e seu Lolô com sua nova canoa seguiu Ribeira acima a procura das nascentes. Comia do que encontrava. Banana, mandioca, goiaba, araçá, mexerica e dezenas de outras frutas que crescem a beira do grande rio. Pescava o seu próprio alimento e desfrutava da deslumbrante paisagem.
De sua canoa ele via o mundo. O caiçara amainando a terra para o plantio, o gado pastando, a mulher lavando a roupa da família na margem do rio, a criança brincando, o vento sussurrando, a lua boiando nas águas e as estrelas cadentes cortando o espaço noturno. Seu Lolô atracava sua canoa e proseava com as pessoas. Ficou conhecendo a fundo os problemas regionais, os sonhos, as lutas e realizações do povo caiçara.
Vibrou com as pequenas conquistas dos humildes, sentiu a arrogância dos poderosos, chorou as perdas e sorriu com as crianças. Muito aprendeu sobre a alma humana, os segredos da natureza, a flora e fauna de todo o Vale do Ribeira. Descobriu plantas medicinais com os indígenas, as garrafadas dos caboclos, os remédios caseiros dos afros descendentes.
Ao regressar ao Jairê após meses e meses de ausência, seu Lolô estava modificado. Menos exigente, mais compreensivo e alegre. Repintou a canoa e batizou-a com o nome de “A canoa do Céu”. O povo estranhou, mas ele explicou:- Quando saí para desvendar o mundo, estava amargurado, não via perspectivas de melhoras para nosso bairro, para a minha vida e a dos demais moradores da região. Achei que iria buscar a morte, mas na verdade encontrei a vida e esse passeio marcará para sempre minha existência. Existem coisas mais importantes que as pequenas desavenças locais, dores maiores do que as nossas, sonhos a serem plantados, cultivados e colhidos em todos os locais, independentes dos chefes de plantão. Nós sofremos porque pensamos que aqui é um inferno, mas estamos enganados, depois de ter compartilhado de tantos sofrimentos, dores, desilusões e fracassos, posso afirmar que vivemos num paraíso e essa canoa foi a condução que me levou ao Céu... “A Canoa do Céu”.

Obs.- Essa é a nossa sina. Muitos precisam sair de Iguape para valorizar nossa cidade e notar que realmente ela necessita de tão pouco para oferecer a todos nós uma vida digna. Saúde, segurança e trabalho pleno... Tão pouco e temos medo de exercer a cidadania e lutar por nossos direitos básicos.

Gastão Ferreira

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

JUNIOR


JUNIOR

Junior era um garoto esperto. Faminto de conhecimento tudo queria saber, estava descobrindo o mundo. Neobaldo seu pai passava apuros para elucidar as dúvidas da criança.
- Pai! Por que aquele homem está deitado na grama da praça?
- Ele é um pedinte, meu filho.
- O que é um pedinte?
- Alguém que não trabalha e tem que pedir comida para sobreviver.
- Por que ele não trabalha?
- Porque em nossa cidade não tem trabalho para todos.
- Mas o seu Tretéco é bem velhinho e carpe terrenos para ganhar uns trocados!
- Seu Tretéco tem dignidade e sabe que todo o ser vivo tem por obrigação ganhar o próprio sustento...
- Como assim? Pai.
- O passarinho não fica de la para ca o tempo todo catando insetos para sobreviver?
- Fica sim!
- Ele está trabalhando. Aquele menino seu amigo, o Nildo, está sempre procurando serviço.
- É mesmo! O Nildo procura madeira usada, vende para pizzarias e padarias e sempre tem um dinheirinho.
- Então! O seu Tretéco e o Nildo têm dignidade e sobrevivem à custa do próprio esforço.
- Mas o homem que está deitado na grama quer que as pessoas lhe dêem as coisas de graça, é isso?
- Sim! Ele não quer fazer nada e se aproveita do bom coração dos outros para sobreviver.
- Pai! É certo isso?
- Claro que não! Meu filho. Um pedinte é uma pessoa sem dignidade, um perdedor e talvez um esperto que descobriu que é mais fácil recorrer a pequenos truques para ganhar o sustento diário do que suar a camisa.
- Pai! Mas se é errado sair pedindo pela cidade, por que as pessoas ajudam?
- Para acalmarem a própria consciência ou por ignorância.
- Por ignorância? Pai.
- Sim! Acham que fazendo isso estão prestando uma caridade e na verdade estão apenas mantendo indefinidamente uma situação de dependência. Enquanto tiver gente para sustentar esse tipo de pessoas, elas jamais irão batalhar o próprio sustento.
- Pai! É errado fazer caridade?
- Claro que não Junior! Mas caridade não é sair por aí dando sobras do que se tem. Caridade é auxílio. É tentar sanar uma dificuldade em definitivo...
- Não consigo entender!
- Caridade é resolver uma situação difícil, dar um trabalho para alguém, ajudar quem não tem realmente como sobreviver devido a doenças, idade avançada ou abandono.
- Abandono pai?
- Crianças muito novas que estão em casas de custódias, velhinhos doentes em asilos, pais e mães desempregados que momentaneamente necessitam de socorro.
-Mas os mendigos não devem ser socorridos?
- Sim filho! Mas não pelos cidadãos e sim pela assistência social...
- Pela assistência social pai?
- Os mendigos não querem trabalhar, são intocáveis e podem fazer o que bem entendem em nossa cidade...
- São que nem os políticos Pai? Intocáveis, não trabalham e fazem o que bem entendem!
- Isso mesmo Junior! Os mendigos são os políticos que não deram certo e talvez seja por isso que são tão protegidos pela lei.
- Que chato! Meu sonho era ser político e tentar ajudar nossa cidade, mas tenho medo de virar mendigo...
- Oh filho! Um político jamais vira mendigo de rua, ele se transforma em um mendigo moral quando se aproveita da credulidade alheia para atos ilícitos...
- Mendigo moral pai! Existe isso?
- Sim Junior! Quando uma pessoa engana a outra com falsas promessas, sabendo de antemão que não tem como cumprir o que está prometendo. Quando ganha um alto salário para fazer um serviço que não faz. Quando se acha um intocável, um ser superior aos demais... Essa pessoa apesar da posição privilegiada não passa de um mendigo moral e não serve de bom exemplo para ninguém.
- Nossa pai! Eu não quero mais ser político.
- Calma Junior! Um político imbuído de princípios éticos, com os pés no chão e vontade real de ajudar é algo grandioso e faz a diferença, caso no futuro você se transformar em um político espero que seja assim.
- Com certeza pai! Tendo o senhor para me educar e ensinar, eu sei que serei uma pessoa honesta, digna e farei a diferença em qualquer profissão que seguir.
- Obrigado filho! Agora vamos tomar um sorvete. Você merece garoto.

Gastão Ferreira

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

UMA ADORMECIDA


UMA ADORMECIDA

Dona Belinha estava inconformada com a paradeira e a falta de perspectiva na cidade. Fã do conto infantil a “Bela adormecida” queria dormir e um dia acordar num mundo melhor. Tanto procurou que encontrou uma droga que a induziria a dormir por um tempo determinado. Cada pílula era um ano de sono e assim tomou quatro pílulas.
Abriu os olhos e pensou:- Ué! Já se passaram quatro anos? Creio a tal droga não fez efeito, pois tenho a impressão de uma noite normal de sono. Darei um passeio pela cidade para conferir.
Não foi nada fácil convencer os médicos do hospital da cidade vizinha a liberarem sua alta:- Dona Bela, a senhora ficou quatro anos em coma e não pode sair por aí como se isso seja a coisa mais normal do mundo! O helicóptero ambulância para sua cidade está lotado, terá de aguardar o de horário noturno, o que transporta os bebes recém nascidos e suas mães.
- Que chique! O transporte agora é feito por helicópteros?
- Sim! Desde que o uso excessivo de ambulâncias há uns dois anos passados esburacou completamente a rodovia estamos utilizando esse meio de transporte.
- Não era mais prático arrumarem a rodovia?
- Com certeza! Mas ninguém sabe onde foi parar a verba que veio para a reforma. Doença é coisa grave e as consultas em sua cidade só eram possíveis com seis meses de espera. Há uns três anos começaram a velar seus mortos em nosso velório municipal, pois o local apropriado em sua cidade ficou apenas em promessas...
- Oh! Meu São da Ilha. Não construíram o velório municipal?
- Muito pelo contrário! Terceirizaram o serviço e como vocês já nascem aqui, consultam aqui, são operados aqui, nada mais práticos que serem velados por aqui mesmo.
Naquela noite não foi possível o transporte, estavam em curso o nascimento dos bebes da safra do carnaval e os helicópteros com sua capacidade máxima comprometida. Dona Belinha conseguiu uma vaga pela manhã. Ao sobrevoar o Valo Grande o primeiro susto:- Que é isso? Que belas mansões!
- Quando fechou à barragem e o Valo Grande foi assoreado, uma ONG se apossou das terras, construiu essas belas casas com o dinheiro do pré-sal e hoje a Vila “Mãos Limpas” é o bairro cartão postal da cidade.
- Noto construções ao longo do lagamar junto ao muro da orla marítima!Está parecendo uma favela...
- Ah! A Vila Pidona. Com a chegada de uma grande horda de novos pedintes, o poder público cedeu oficialmente o local que na realidade por usucapião já pertencia aos mendigos e como estão próximo de seu local de trabalho, dos visitantes e bares, nada mais justo que usufruam da bela paisagem. Não incomodam ninguém, pois com a cobrança de pedágio a quem se aventura a desfrutar da orla, tocam sossegadamente a vida.
- Parece que o centro velho está um tanto abandonado? Muitos casarões destelhados.
-Com a implantação definitiva do projeto “Tombar é preci$o, cuidar $ão outro$ quinhento$” e o grande afluxo de capital utilizado para as reformas, os proprietários para receber o benefício começaram a destelhar suas casas e assim ter direito a uma parte desse dinheiro.
- Meu São da Ilha! O centro da cidade está literalmente destruído.
- Sim! Os idealizadores do projeto estão eufóricos. Mato por toda a parte, lixo se acumulando, casas em ruínas, urubus e ratos fazendo a festa, cortes constantes na energia elétrica. Os índios que a senhora está vendo no entorno das praças são os novos moradores...
- Como! Novos Moradores?
- Esqueceu que com o tombamento a cidade deve preservar tudo o que estiver relacionado com a época colonial? Os índios são os remanescentes dessa época e fazem parte da paisagem original.
- Eles venceram! Eles venceram! Conseguiram destruir minha linda cidade... Oh meu São da Ilha! Eu quero dormir... Dormir... Dormir.
- Calma dona Bela! A senhora nem viu tudo...
- Eu pensei em dormir e acordar num lugar maravilhoso, uma cidade limpa, próspera, com belos monumentos...
- A senhora nem viu os novos monumentos. Seguem o padrão do que está na praça principal. Temos o “Manjubete”, o “Eva & Adão” e muitos outros embelezando a cidade e o custo total para a construção de tais obras já ultrapassaram os dez milhões de Reais.
- Em quatro anos e tudo mudou! Afinal quem manda na cidade?Quem venceu a ultima eleição?
- É verdade! A senhora nem imagina quem é o mandatário. Chega mais perto... É... Bzbzbzbzbz.
- Oh! Meu São da Ilha!... Não... Não... Não.

Gastão Ferreira

Obs. – Esse texto é ficção. Nada a ver com nossa realidade. Qualquer semelhança com o que poderá ocorrer no futuro foi mera coincidência.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

ESTRANHO



ESTRANHO

Muito bem comportado ele dançou a noite toda. Moreno claro, alto, olhos verdes, uns vinte e poucos anos, corpo sarado de quem freqüenta academia ou pega no pesado. O sonho de consumo de todas as dançarinas presentes. Não falou com ninguém, ou melhor, não respondia quando interrogado:- Tão bonito e com defeito de fabricação! Deve ser mudo, diziam.
As garotas da primeira idade desistiram, mas ficaram de olho comprido admirando e prestando atenção nas moças da segunda idade que não davam tréguas ao belo dançarino.
- Acho que não gosta das frutas verdes, falou dona Matilde, uma representante da terceira idade ali presente. Com certeza prefere uma mulher experiente, conhecedora das coisas boas da vida, uma que sabe tudo e um pouco mais.
Dona Matilde tanto fez que obteve sucesso. Falou gíria, bebeu todas, contou piada, cantou e acabou despertando a curiosidade do rapaz que finalmente a tirou para dançar.
- Você dança muito bem!
- Obrigado!
- Nooooossa! Você fala?
- Por quê? Não devia falar?
- Estávamos pensando que você era mudo!
- Nada disso! É que sou tímido...
- Seu safadinho! Comigo não está sendo tímido...
- É que a senhora é diferente...
- Por favor, deixe a senhora de lado.
- Não entendo! A senhora não é uma senhora?
- Menino! Vamos mudar de assunto...
- Mas senhora!
- Eu não sou uma senhora! Gritou descontrolada dona Matilde. Eu sou uma mulher da terceira idade, da melhor idade ouviu?
A essa altura todo o salão prestava atenção no saricotico de dona Matilde. O rapaz parecia envergonhado e não sabia que atitude tomar:- Mas minha senhora...
- Senhora é aquela velha que está na sua casa! Tá pensando o quê seu jacú? Saio em escola de samba, faço teatro, yoga e balé. Tenho o meu próprio dinheiro, não devo satisfação para ninguém, venho curtir com minhas colegas e sou assim ofendida. Sim tenho setenta e poucos anos e daí?
- Minha mãe tem quarenta e cinco anos...
- Problema dela! Azar dela! O mundo é da melhor idade e eu estou na melhor idade...
O rapaz teve um acesso de riso e dona Matilde partiu para a briga:- Tá rindo do quê imbecil?Tá rindo do quê palhaço?
- Se a senhora com setenta e tantos anos se acha na melhor idade, coitadas das garotas que tem dezoito...
As amigas de dona Matilde entraram na briga e sobrou cadeira, mesa e garrafadas para todos. Quase destruíram o salão de baile. O dançarino apanhou tanto que ficou traumatizado, também bem feito, já estava na hora de aprender que além das ninfetas e peruas, as meninas da terceira idade estão super poderosas. O divertido é que todos acham esse tipo de comportamento à coisa mais normal do mundo. Estranho!... Muito estranho.

Gastão Ferreira

Obs.- Não encarem o texto como preconceito.
Este fato foi real e aconteceu na cidade.

domingo, 10 de janeiro de 2010

UM PESADELO

UM PESADELO

Palácio da marani Avandra

Avandra descendia dos marajás de Brhamaeskol, um reino milenar situado na misteriosa Índia. Uma noite a marani Avandra sonhou que seu belo e próspero reino foi tombado. No sonho, sua majestade e seu Bobo da corte saíram a conferir o estrago. Num grande e belo portal que dava acesso ao reino, notou uma placa com um pequeno resumo da história do vetusto reino:- “Olha Bobo! Que maravilha, uma placa explicativa apontando aos visitantes o que temos que outros locais não possuem...” e o Bobo disse:- ”Mandarei retirar imediatamente essa coisa horrorosa. Para que placa se o mundo todo conhece vosso afamado reino!”.
- Bobo! Olha que graça de pracinha, possui até um Tori, é a homenagem de um antigo marajá a primeira colônia japonesa estabelecida na região. Os turistas ficarão encantados com esse pequeno e mimoso jardim em estilo nipônico...
-Não se preocupe! Vamos alugar a frente a uma banca de jornal e assim ninguém vai notar essa infantilidade construída com o dinheiro enviado pelo consulado do Japão.
- Praça São Ghandidito com seus velhos casarões completamente preservados, que maravilha! Prédios antigos, solares do passado, árvores centenárias fornecendo abrigo aos pássaros e aos transeuntes... Que belezinha!
- Marani! Menos por favor!Só ignorantes chamam a praça por esse nome vulgar. Por favor, Praça Dr. Sirgreenhalghnenmoraaki e pode ficar sossegada que vamos mandar podar essas árvores e destelhar os casarões.
- Meu Bobo! Que local paradisíaco. A Fonte do senhor Brhama! Quantos casais enamorados sentados recatadamente nos bancos de pedra. Turistas alimentando os peixinhos no piscoso lago. Adolescentes banhando-se nas águas cristalinas ao som dos pássaros canoros. Oh! O deus do amor fazendo pipi.
-Majestade pelo visto conseguiu ler seu primeiro livro na vida! Sua linguagem está encantadora e um tanto rebuscada, mas não se preocupe vou mandar retirar e levar para um local secreto e bem longe de vosso reino esse Cupido desnudo, quem sabe ele possa ser causa de prostituição infantil, pedofilia e uso de drogas nesse local num futuro próximo.
- Querido Bobo! Estou encantada... Ruas limpas, crianças com uniforme escolar... Há quanto tempo não via um aluno com uniforme, só uma cidade tombada tem dessas reminiscências do passado.
- Hoje mesmo darei severas ordens para que a coleta de lixo se torne menos ostensiva... Um relaxo básico. Essa criançada está destoando dos tempos modernos, não ouço um palavrão, um xingamento, que coisa mais ultrapassada... Xô criançada ridícula!
- Bobo! Veja o lagamar. Que limpeza, que colírio para os olhos, quantos pescadores, quantos biguás, garças e socós!
- Nhanhanham! Nada disso. Vamos colocar alguns moradores de rua para enfeitar essa orla marítima, que construam seus mocós embaixo das árvores e façam fogões com as pedras do calçamento e vamos dar um jeito de assorear essa água toda. Vamos tornar esse local civilizado.
- Bobo! Veja. Ali no meio da praça. Espia que coisa ridícula, uma churrasqueira com uma cruz de pedra! Ridícula... Ridícula... Ridícula!
- Majestade! Marani Avandra... Chega... Basta! Aonde vossa majestade quer chegar?Eu sou uma pessoa culta. Um homem viajado. Um estudioso. Seu guri, digo, seu guru. O ser que o próprio universo preparou para guiá-la nessa jornada evolutiva. Eu sou os seus olhos, os seus ouvidos, seu amor e seu ódio, mas eu não sou os seus neurônios, a sua inteligência e assim não da mais! Eu vou explodir! Eu vou virar purpurina... Que se dane sua imbecil! Sua burra! Pode me demitir. Expulsar-me do reino, mas nunca mais ofenda esse monumento ou eu mudo de lado e arrumo uma improbidade imediatamente para você sua vaca velha.
A marani acordou trêmula e imediatamente sentiu o cheiro do lixo acumulado frente ao palácio. Ouviu os palavrões das educadas crianças e a voz de um pedinte alcoolizado insistindo em descolar uma grana para um cafezinho:- “Ufa! Estou em casa, no meu lindo e próspero reino. Ainda bem que foi apenas um pesadelo!”

Gastão Ferreira

Obs. – Esse texto é ficção. Aos conhecedores da Índia milenar peço desculpas... Coisas de pobreza intelectual.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

DEPOIS DE MAIAKOVSKI


DEPOIS DE MAIAKOVSKI
- EM IGUAPE? -

Um dia não recolheram o lixo.
Não me importei...
Outro dia destruíram as árvores
Não me importei.

Roubaram o leão da passarela
Não disse nada...
Roubaram placas e pratarias
Não disse nada.

Um telhado antigo despencou
Fiquei calado...
Um vizinho foi assassinado
Fiquei abismado.

Um monumento destruído
Eu me calei...
Uma praça abandonada
Eu me calei.

Uma cidade tombada
Já não se pode falar...
Fiquei de boca fechada
É tarde prá reclamar!

Gastão Ferreira

CHUVA


CHUVA

Oh chuva que está caindo!
Lavando a alma da Terra...
Um temporal é bem vindo
Nesse tempo de espera...

Que possam nascer as flores
Onde a semente brotou...
Que possam brotar amores
No coração que secou...

Que um dia a felicidade
Possa chegar até nós.
E transforme em bondade
A ganância mais atroz.

Que a luz vença o escuro
Que o sol volte a brilhar
E que num breve futuro
Iguape possa cantar...

Que essa canção adormeça
A dor que o povo abate...
Que essa canção aconteça
Antes que o tempo nos mate!

Gastão Ferreira

O BRACELETE DE PRATA


O BRACELETE DE PRATA

Há muitos e muitos anos uma terrível epidemia devastou a cidade, muitas famílias foram totalmente dizimadas. As pessoas contaminadas eram levadas para a chácara Porcina e ali deixadas aguardando a morte. A chácara foi relegada ao abandono, pois seu proprietário também faleceu. O tempo passou, a epidemia foi esquecida e a vida continuou serena na pacata cidade.
Marcelo era um sonhador. Pouco estudou e sem uma profissão definida vivia da prestação de pequenos serviços. Nas horas livres gostava de um banho de cachoeira e a queda d’água mais próxima de sua residência ficava justamente na Porcina. Muitas moças e rapazes de sua idade faziam uso do local em ruínas e foi assim que Marcelo conheceu Martha.
O que chamou a atenção de Marcelo em relação à Martha foi a melancolia estampada no rosto jovem. Um halo de tristeza envolvia seu semblante. Sentava-se na grande pedra junto à cascata e parecia não dar a mínima aos alegres freqüentadores do local.
Marcelo tomou coragem, venceu a timidez e aproximou-se da garota. Realmente era encantadora. Pele alva, olhos verdes e sedosos cabelos castanhos. Um bracelete de prata enfeitava seu pulso, um presente de dias melhores, uma lembrança do passado. Tornaram-se amigos.
Martha confessou que a tristeza que a dominava era devida ao fato de nunca ter sido amada de verdade, pois segundo acreditava somente um grande amor lhe daria a paz de espírito e o sonhador Marcelo ficou perdidamente enamorado.
Martha jamais permitiu que Marcelo a acompanhasse de volta a casa. Não queria que o pai soubesse de seus passeios e também não tinha certeza de que Marcelo realmente a amava. Marcelo não sabia o que fazer para provar a realidade de seus sentimentos e Martha pediu-lhe uma prova de amor. Era um antigo sonho, uma tolice, mas caso Marcelo o realizasse ela seria totalmente sua para sempre.
O desejo de Martha era compartilhar numa noite de lua cheia, a meia noite seu primeiro beijo com o homem de sua vida e que tal ritual se realizasse sobre a pedra onde sempre ficava a admirar o grupo de jovens na Porcina. Marcelo consultou um calendário e imediatamente marcou a data e hora para o encontro, daria à Martha a prova de seu amor.
Marcelo chegou adiantado e ficou esperando por Martha, a lua cheia clareava as ruínas, animais moviam-se na mata e seus gritos noturnos ecoavam na noite. Martha chegou cinco minutos para a meia noite com seus cabelos esvoaçantes. Trajava um vestido branco a moda antiga, nas faces pálidas um sorriso e nos olhos o brilho de que finalmente realizaria o tão esperado sonho.
Deitaram-se sobre a pedra e Marcelo aninhou-a nos braços, afagou seus cabelos, sentiu o doce perfume do corpo jovem e ávido procurou os lábios da amada. Amaram-se tendo a lua como única testemunha daquele encontro e quando Marcelo abriu os olhos estava abraçando o ar, no chão um vestido branco envolvia um esqueleto que no pulso direito portava um bracelete de prata.
No jornal da cidade uma noticia chamava a atenção:- Encontrado em 15/03/2001 sobre a grande pedra próxima a cascata da Porcina um esqueleto. Os pesquisadores afirmam que os ossos são da jovem Martha de Albuquerque Lins falecida na epidemia que devastou a cidade no final do século XIX, um bracelete de prata pertencente a rica família Lins estava junto aos despojos.É interessante notar que toda a família pereceu em decorrência da epidemia que assolou a cidade no século citado e que justamente o corpo de Martha jamais foi encontrado. Mais um mistério a envolver nossa longa história.Ninguém sabe como o esqueleto foi levado até a pedra.
Marcelo abandonou a cidade e foi morar em Curitiba. Trabalhou e estudou, hoje possui diploma universitário. Confidenciou somente a seu amigo Zé Roque sua história, fazendo com que jurasse que jamais a contaria a alguém.

Gastão Ferreira

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

BEM TE VI


BEM TE VI

Passarinho quando canta
Alguma coisa ele viu...
Estrada que o pó levanta
Foi o vento que sorriu...

Tudo tem o tempo certo
Cada coisa em seu lugar!
Tem camelo no deserto
E pescador pelo mar...

Tem monumento na praça
Pedintes no lagamar...
Tem gente achando graça
E muito mais a chorar...

Minha cidade é bonita
Mas acabou de tombar.
Cachorro que tanto grita
Algum osso quer roubar!

Passarinho foi embora
Foi cantar longe daqui
Que tristeza sente agora
Passarinho... Bem te vi!

Gastão Ferreira

MÃE DE SANTO


MÃE DE SANTO

Inicio de Ano e todo o mundo fica curioso para saber como serão os próximos 365 dias. Dona Cidinha foi consultar dona Zilda a famosa vidente e mãe de santo de Santos, agora despachando em nossa cidade das oito as vinte e duas horas.

Dona Zilda ficou conhecida entre nós ao desvendar o mistério do desaparecimento da esfinge do Papa e através das artes mágicas obrigar a guardiã da placa a recolocá-la. Consultada sobre a placa Albert Camus não quis tecer comentários, alegando que forças estranhas interferiam e que a turma da escuridão protege o pilantra e ladrão que se apossou desse patrimônio público, não soube informar se foi um homem, mulher ou etc. quem roubou a placa comemorativa. Conseguiu através de seus fantásticos dons descrever uma parede e a moldura onde a placa foi fixada, soltou um grito lancinante e a única palavra que proferiu foi: ”- Não acredito!”, desmaiou e o assunto virou tabu.

Mãe Zilda como prefere ser chamada nossa vidente previu que o ano de 2010 trará muitas novidades difíceis de serem aceitas, mas vamos aos fatos:- 2010 pelo menos em nossa cidade não será regido por um Orixá e sim por um novo e milagroso santo, SÃO DA ILHA, um santo cultuado no escurinho e especialista em presentes caros a seus devotos. Os preocupados com a preservação do patrimônio histórico podem dormir sossegado, o único a pagar o pato foi o belo coreto e as casas modernas no entorno da praça central continuarão destoando dos antigos casarões. Os mendigos conseguirão uma importante vitoria e serão tombados. Os habitantes do município farão sua parte, pois toda a infração cometida no centro histórico reverterá em cestas básicas aos pedintes e quem visitar a orla marítima pagará uma taxa destinada à compra de água que passarinho não bebe para uso exclusivo dessas criaturas que só embelezam nossa cidade.

Mãe Zilda previu que algumas pessoas de ética questionável conseguirão engambelar os tolos com tapinhas nas costas e promessas de melhoras caso votem em seus candidatos para cargos federais.

Uma nova ONG propiciará a seus fundadores todos os sonhos de consumo. A barragem será concluída e alguns novos monumentos serão erigidos:- Uma manjuba de concreto ao custo de R$145.000,00 enfeitará o porto da antiga balsa. Duas mãos postas em oração substituirão o símbolo que está sobre o monumento da praça central, ao custo de R$149.999,99 e será uma merecida homenagem às “mãos limpas” de nossos munícipes.

Dona Cidinha pagou a contra gosto a consulta. R$50,00 desperdiçados, pois a vidente não detectou nenhum milionário em sua vida, nem viagens ou dinheiro aparecendo do nada, mas esperta como é foi correndo para seu barraco e acendeu uma vela ao São da Ilha e humildemente pediu sua filiação. Quem viver verá! Dona Cidinha terá um 2010 muito feliz.

Gastão Ferreira

Obs. – Esse texto é ficção. O São da Ilha não existe, mas nunca se sabe, fica aqui o meu singelo pedido:- Meu São da Ilha interceda por mim! Não deixe que nada de mal ocorra comigo em 2010.

domingo, 3 de janeiro de 2010

O FANTASMA


O FANTASMA

Dona Carminha, uma mulher muito rica faleceu repentinamente. Viúva e sem filhos sua fortuna ficaria com Heitor sobrinho de seu marido, disse a lei, mas na verdade não era essa a vontade da falecida...

Carminha nasceu pobre e desde menina trabalhou para ajudar os seus. Sempre prestou serviço em casas de pessoas abonadas e conhecia regras e etiquetas. Aos quinze anos Rodolfo apareceu em sua vida e foi amor à primeira vista, filho de pescador e também pescador, entre juras de amor eterno uma gravidez precoce e Marcos veio ao mundo.

Marcos não chegou a conhecer o pai, Rodolfo foi encontrado em estado de decomposição três dias após seu barco ter afundado durante uma tempestade e em choque Carminha foi encaminhada a maternidade e realizou-se o parto.

No próprio hospital Marcos foi dado em adoção e Carminha entre lagrimas entregou o fruto de seu amor a um casal sem filhos, Ester e Antonio, pois tinha plena consciência de que não poderia criá-lo, mas jurou que o protegeria mesmo de longe e que jamais o esqueceria.

Carminha foi trabalhar na capital, queria esquecer o passado e começar vida nova. Sua beleza e simplicidade chamaram a atenção de Mario um rico industrial com o qual se casou. Nunca contou a respeito de Marcos e o tempo foi passando. Mario gostava de presentear a esposa com jóias, as quais eram guardadas num cofre secreto.

Marcos estava com sessenta anos, perdera os pais ainda jovem e muito lutara para sobreviver, era pintor de paredes. Há alguns meses começou a ter um estranho sonho:- Uma senhora muito bem vestida aparecia a seu lado e o chamava de filho, dizendo que tinha um presente reservado somente para ele e que tal presente estava num cofre, mostrava um palacete, uma rua arborizada e sussurrava o código do cofre.

A cada noite o sonho se repetia e aumentava em detalhes, Marcos já sabia o nome da rua, o número da casa, o bairro e a cidade. Devo estar ficando louco pensava Marcos, essa mulher do sonho não tem nada a ver com minha mãe dona Ester, a senhora do sonho diz se chamar Carmem. Bem! Irei até o endereço indicado, pois não tenho mais sossego é só deitar que começo a ver o vulto de dona Carmem.

Marcos tocou a campainha e Heitor atendeu a porta. Marcos estava apavorado, o palacete era o mesmo do sonho. Pediu desculpas e contou a Heitor tudo o que ocorria com ele. Heitor achou estranho, mas o nome Carmem não podia ser ignorado. Como Marcos que morava numa pequena cidade do interior, que segundo ele nunca estivera na capital podia descrever em detalhes o interior do palacete? O que não batia era a história do cofre, Heitor sabia que na sala descrita por Marcos não havia cofre, mesmo assim levou Marcos até o cômodo.

Marcos apontou para o centro da parede e disse: ”- No sonho é aqui que está o cofre!” Heitor examinou o local e notou pequenas falhas na pintura:-“ Algo está errado! Essas marcas não deviam existir.”As marcas formavam um quadrilátero e resolveram remover a tinta, realmente um cofre estava embutido na parede.Marcos falou os números do código e Heitor abriu o cofre. Muitas jóias, muitos dólares e uma cartinha.

Na carta a história de Carmem seus pequenos e grandes segredos, tudo estava ali e assim finalizava:- Heitor meu sobrinho! Toda a riqueza acumulada por seu tio Mario está em seu nome. Estas jóias e dólares foram guardados durante toda a minha vida para meu filho Marcos, o que dei em adoção a Ester e Antonio. Tenho certeza que depois que a morte me levar de algum modo o conduzirei a essa sala e gostaria, que você de bom coração permita que ele receba a herança de sua verdadeira mãe para que enfim eu possa descansar em paz.

Gastão Ferreira