segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

"GUDI BAI" - ANIVERSÁRIO


Caviar com trufas


“GUDI BAI”- ANIVERSÁRIO


Esse foi o melhor aniversário do qual não participei. A velha senhora ficou na maior solidão, também está um caco... 471 anos. Quando casei com seu papai herdei a múmia, era o preço à ser pago pelo golpe do baú... Velha caquética! Quantas falsas lágrimas tiveram de serem derramadas em público? Quantas juras de eterno amor pronunciadas com a consciência pesada?Oh! Quanto riso... Quanta alegria nas reuniões secretas em sítios e recantos particulares junto a meus verdadeiros amigos, os que me deram de mão beijada a possibilidade do casório!
A velha é rica e muito mais agora que foi tombada... Oh!... Oh!... Oh!...Já conheci metade do país a suas custas. Seus filhos, a infeliz é mãe solteira, vivem a reclamar, mas qual o filho que não está sempre a reclamar da mãe:- “Mamãe! Onde ponho o lixo?”, “Mamãe! O telhado caiu.”, ”Mamãe! Onde estão os remédios?”, ”Mamãe! Eu quero arrumar trabalho e a senhora nem prá me ajudar.”... Nem ligo! Afinal só eu tenho a chave do cofre, apesar de alguns desafetos afirmarem que muitos têm a cópia da chave... Hi!...Hi!...Hi.
O pai da velhota mora longe e temos muito em comum. Um homem encantador, de uma honestidade incontestada, gosta de viajar, de mimosear amigos com mensalões, mensalinhos e cargos. Tenho inveja de uma coisa, ele tem as mãos mais limpas do que as minhas também só tem nove dedos. Outra coisa que temos em comum é essa maneira tão nossa de possuir bons amigos. Amigos incorruptíveis, humildes, sem ganância, sem pose... Ah! Meus amigos. Donos do meu amoroso coração, que Oxalá nosso pai jamais permita uma separação.
A velhota anda desconfiada, está em plena crise existencial, 471 anos e ainda não aprendeu a viver! Por mim que se dane! O importante é curtir a vida. Noooossa! Eu nem imaginava que no mundo existiam tantos locais luxuosos, hotéis maravilhosos, comidas tão saborosas e caras! Um potinho de um tal caviar sai mais caro que o salário de um professor... Escargot, sopa de barbatana de tubarão chinês, algas tailandesas, ovos de estorninho... Champanha!... Sim a verdadeira, a francesa!... Uma garrafa quase o preço de uma ambulância.
Nos locais por onde meu “petit comitê” passa deixamos saudades e muito dinheiro... Ah! Esses meninos. Tão pândegos! Se sentem em casa... Falam alto... Batem na mesa para chamar o garçom, uns palavrões básicos para mostrarem a fina educação, alguns chiliques que ninguém é de ferro e para quem não pode passar sem dar um vexamezinho em público uns namoricos para a coleção de corações despedaçados.
Realmente jamais irei esquecer esse aniversário de minha enteada. Duas Vans lotadas, festas e mais festas e a velhota sentindo a minha falta:- “Mamãe! Mamãe! Por que me abandonou?”... “Eu não te abandonei meu tesouro! Mamãe foi contra a vontade cuidar dos teus interesses... Ah! Querida. Essas viagens são tão cansativas e você reclama do meu sacrifício, quanta ingratidão!”... ”Mamãe! Eu posso ser burra e velha, mas ainda não sou cega.”... “Relaxa amor! Você não vai se livrar de mim tão fácil.”“Oh! Mamãe. Oh! Mammy.”
Ano que vem caso não me separe do pai da velhota, por motivos alheios a minha vontade, eu e meus amigos estaremos em Nova York... Já comecei a aprender inglês... Os trouxas pagam e nós aproveitamos:-”Gudi bai mai pipol”.

Berenice Emilia Tancredo & Silva

Obs: Trechos de um diário encontrado no lixo no ano de 2.379 DC. Os historiadores estão tentando definir se é um texto fictício ou real. Uma senhora com 471 anos de idade?Uma moça de família dando o golpe do baú?Pessoas curtindo a vida com o dinheiro alheio? Amigos que se aproveitam de uma amizade? Onde está a ética?Onde está a moralidade?Quem foi Berenice Emilia Tancredo & Silva?Será que essa pessoa realmente existiu? Será que no passado esse comportamento era comum?Oh! Quantas dúvidas que jamais serão esclarecidas!Para mim que transcrevi é pura ficção, não é carapuça, aliás:- O que é carapuça?

Gastão Ferreira

Nenhum comentário: