quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

DONA ZINHA - "PATRIMÔNIO TOMBADO"


DONA ZINHA – “PATRIMÔNIO TOMBADO”

Dona Zinha estava inconformada, passou o ano inteiro vendendo casadinho de manjuba e separando o dinheiro para a fantasia. Com setenta anos não via a hora de soltar a franga numa escola de samba, sonho de uma vida que finalmente realizaria, pois com a morte do maridão estava livre, solta e linda.
Na cidade histórica começaram os vários tititis pré aquecimento:- Esse ano nada de escolas de samba! Toda a verba foi para o magnífico monumento! O tema imposto não agradou:- Cidade Histórica, Patrimônio Brasileiro! Turistas e foliões:- Cananéia os aguarda de braços abertos! Registro já tem carnaval:- Ônibus grátis! O último a sair apague a luz do Cristo.
Dona Zinha foi falar com a “começão” responsável pelo evento e, diga-se de passagem, foi muito bem recebida:- Olha aqui sua mocréia! Sabe com quem está falando? Corta essa de se fantasiar de baiana! A coisa mudou... Está mais organizada, a cidade ficou importante. Nada de fantasia de pobre! A senhora pode optar por sair na ala dos “Sem Telhas” (homenagem ao sobrado dos Toledos), “Cruz Credo” (homenagem ao novo monumento da praça), ”Casarões Tombados” (homenagem a não sei o quê!)... Levamos turismo muito a sério e por isso nosso carnaval está cada vez melhor.
Dona Zinha enfezou-se:- Como levam turismo a sério? No lagamar tem mendigos cozinhando sobre paralelepípedos tirados da avenida em frente! Morando e enfeando a orla marítima! Em um local público! Público! Público!... Sabe o que é público garoto?Não é meu! Não é seu! É nosso... Ninguém pode usar em beneficio próprio! Entendeu ignorante? E vem me falar de turismo! Que turismo? Se vocês estão acabando com o turismo! Ruas sujas... Praças abandonadas... Lixo por todo o lugar... Me poupe!
Antes que saísse facada alguém rodou a baiana, digo “a tombada”, pois baiana já era:- Dona Zinha! Quem a senhora pensa que é para ofender a “começão” carnavalesca?Veja aquela donzela de cabelos indomáveis, aquela com o óculos na ponta do nariz e sorriso de quem sabe das coisas, já começou a fazer beição e está a ponto de abrir um berreiro de tão chocada com suas rudes palavras. Note nosso outro membro (opa!) tendo um chilique e pedindo seus sais importados! Minha senhora! Não é politicamente correto de sua parte ofender quem se mata de trabalhar em beneficio de vocês! Somos pessoas íntegras! Honestas! Mãos limpas! Cheias de amor para dar (opa!)!
Dona Zinha caiu na gargalhada. Riu tanto que acabou no hospital de Pariquéra, pois na Unidade Mista consultas só depois da Páscoa.
Foi o melhor carnaval de dona Zinha. Ficou alguns dias internada em Pariquéra e por la conheceu dona Margarida de Cananéia, fizeram amizade. Ambas saíram fantasiadas de “Patrimônio Tombado” e ganharam muitos prêmios em Registro e Cananéia.
Na cidade dona Zinha foi apelidada “A tombada”, uma heroína que realizou os seus sonhos. A “começão” de carnaval por puro despeito a chama de velha coroca e quer responsabilizá-la por danos morais ao município. Cidade turística é isso... O povo e visitantes que se danem, afinal quem precisa de carnaval? O comércio local agradece.

Gastão Ferreira

Obs.:- Esse texto é ficção e o carnaval ainda está longe. Nada de vestir a carapuça e sair rogando praga a quem escreve como passa tempo. Qualquer semelhança com o que poderá vir a ocorrer será mera coincidência.

ANO ELEITORAL


ANO ELEITORAL

Numa torre de castelo
Banhada pelo luar...
Oh! Uma meiga donzela
É quem está a chamar...

Dizem que a curva do rio
Fez uma nova proposta...
Agora é parte de um trio
Muita grana na aposta...

Novo Ano está chegando
Um Ano pleno de farra...
Esse pessoal ta tirando
Um sarro de nossa cara?

Nesse Ano tem lambança
Mas você pode ajudar...
De seu voto na mudança
Que está para chegar...

Depois não fique chorando
Como a donzela no cio...
E unidos vamos dando
Adeus a curva do rio!



Gastão Ferreira

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

NO ASILO DO TEMPO


2009 foi embora e nesse momento está no asilo do tempo. Um local aprazível para onde vão todos os Anos que passaram. Desde que o Tempo é tempo é la que ele acolhe todos os seus filhos que cumpriram sua missão na Terra e a conversa é sempre a mesma. Cada Ano a se gabar do que ocorreu em seu curto reinado. Alguns falam de guerras devastadoras, grandes catástrofes, fome e doenças. Poucos são os que contam sobre os heróis do passado, Perseu, Hercules, Prometeu, Zeus, Apolo, Ulisses, Ganimédes, Aquiles.
Tem os que se lembram de Moisés e as Sete Pragas, da guerra de Tróia, dos antigos faraós, da construção das pirâmides, do mausoléu de Helicarmasso, de Persépolis, da Atlântida, do Éden, de Adão, de Eva, da serpente, da formação do mundo. De Noé e sua arca, de Jesus e seus apóstolos, de Maomé e sua montanha, de Calígula e Incitatus, de Alexandre e Bucéfalo, enfim de tudo que já existiu e está na memória do tempo.
2009 chegou pondo panca... Moderninho, tipo terceiro milênio:- Aí velharada! Nem te conto arrasei!... To chegando! Ficam cochichando essas coisinhas ultrapassadas, coisas de museus. Caras! Eu participei do progresso. Eu vi o monumento do milênio... Eu vi a bondade, a perfeição, a honestidade em pessoa... Eu vi uma deusa!Eu vi o futuro... Eu vi Iguape!
- Hei Junior! Você viu a placa em homenagem a Albert Camus na Fonte do Senhor?
- E eu quero saber de placa! Quero saber é de grana! Você “véinho” alguma vez viu dólares? É isso aqui oh! Espia na minha meia! Reais! Dinheiro cara! É isso que conta meu! To ligando prá pobre, prá carente, prá lixo? Sai disso velhinho!
- Por Cronos! 2009 foi contaminado. Menino! Você não viu nada... Não viu piratas, ouro, escravos, festas que duravam dias, povo se divertindo, crianças comportadas, alegria no rosto das pessoas, esperança no futuro, confiança compartilhada. Você viu isso Junior? Conta para nós!
- Da um tempo cara! Cheguei cheio de amor para dar... Com as mãos limpas... Querendo colinho e vocês com essa cobrança toda! Qualé Mané? Somos todos irmãos...
- Pare garoto! Pare. Você realmente está contaminado com tantos discursos, com tanto oba-oba, com tanta propina. Vamos dar um tempo ao Tempo, ou seja, a nós mesmos e com muita calma e sem traumas separar o joio do trigo... Ah! Já estão separados.
- Alguns dizem que não!
- Na verdade você foi um Ano muito mau e por sua culpa 2010 jamais conhecerá uma escola de samba...
- Meu Bonje!
- Ah! Junior meu garoto. Acorda criança!Pare de falar bobagem antes que o pai Tempo se zangue e te de uma surra.

Gastão Ferreira

FELIZ ANO NOVO - 2010


FELIZ ANO NOVO

Chegou 2010... 2009 o foi buscar em Pariquéra, pois ainda não temos uma maternidade: ”- Que beleza de criança! Que carinha de safado... Bilú... Bilú... Bilú... Vamos lá garoto! Vamos para casa que muitos foguetes nos aguardam.”

- Cara! Acabei de nascer e já vou enfrentar barulho?

- É assim mesmo! Todos nós passamos por isso.

- Véiu! Você ta um caco e só tem 365 dias.

- É nossa sina! Envelhecemos muito rápido, mas eu era bem mais tolinho. Você chega falando gíria e ca entre nós... Que carinha de pilantra!

- Vim preparado para enfrentar a “barra”, você está meio caquético e esqueceu que sou um Ano eleitoral!

- Meu Bonje! É verdade. Você é um Ano eleitoral. Coitadinho! Quanto de promessas vai ter que aturar pobre criança. Pegue sua sacola com as fraldas e pé na estrada, pois temos que chegar antes da meia noite, a cidade inteira está em festa e na expectativa. Jamais saberei se os fogos são uma homenagem de despedida a mim ou de recepção a você.

Na estrada mantiveram a velocidade padrão e 2010 não parava de falar:- “Tio”! Vim com força total. Eu vou arrasar! Eu vou ficar na história. Primeiro Ano de tombamento municipal... Primeiro Ano do magnífico monumento na praça central... Primeiro Ano de jardins limpos, ruas arborizadas. Ano da grana das ONGs... Ano da barragem... Ano da segurança plena... Da saúde...

- Calma garoto! Ah! Essas crianças cheias de sonhos, de onde você tirou estas idéias?

- Dos panfletos! Por quê? Algo errado.

- Menino! Não quero te assustar, mas a cidade está um caos, não tem dinheiro para nada, uma paradeira de dar dó, mendigos se apossando de locais públicos, adolescentes drogando-se na Fonte do Senhor, prédios centenários perdendo o telhado, assaltos e roubos infernizando os cidadãos, saúde em estado crítico. Você nasceu em Pariquera porque na cidade não tem uma maternidade e eu vou ser velado em um canto qualquer, pois não temos local apropriado para um velório.

- Não!... Não!... O panfleto explicava direitinho. Cidade Histórica Patrimônio Cultural Brasileiro. Belíssimas fotos... Prédios coloniais muito bem conservados, praças e jardins muito bem cuidados, crianças felizes esperando o ônibus escolar, pessoas sorridentes, políticos atenciosos e honestos trabalhando em beneficio da população...

- Meu Bonje! Você leu um panfleto de propaganda... Até sei de quem partiu essa idéia de enganar... A coisa está pior do que eu pensava! Estão tentando engambelar o próprio Ano Novo.

-Sabe 2009! Eu estou chegando cheio de sonhos de prosperidade, paz, saúde, progresso, amizade, honestidade, amor e mil coisas para alegrar a vida do local onde fui designado para viver. Será que não erraram o endereço? Pare o carro! Quero voltar a Pariquéra.

- Agora não da mais, veja a placa, velocidade máxima permitida 40 km e nessa estrada quase deserta tem radar.

- Meu Deus! Ferrei-me e já estou envelhecendo prematuramente.

- É isso garoto! Quem manda acreditar em panfletos político. Outra coisa, por aqui não se diz Meu Deus e sim:- Meu Bonje!

Gastão Ferreira/31-12-2009

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

O MENINO JESUS


O MENINO JESUS

O padre pedófilo emocionou-se ao falar sobre o Menino Jesus. O significado da natividade, a dádiva divina a humanidade carente de valores morais, da inocência contida no olhar de uma criança, da necessidade de protegê-la contra as maldades da vida, dos vícios e da degradação.
Os fiéis seguravam as lágrimas furtivas. O corrupto sorriu:-“ Vou passar “na casa da sopa” e deixar alguns trocados.”Esquecido que tal casa só existia porque pessoas iguais a ele rapinavam o que poderia ser utilizado para gerar novos empregos e melhorias sociais.
O assassino que há uma semana matara um pai de família pediu ao Menino Deus que protegesse seus filhos contra as vicissitudes da vida, que também não permitisse a falta de saúde para que pudesse alimentá-los e amá-los. Não passava por sua cabeça que nesse momento outros filhos, por sua causa, sentiam a falta de um pai.
O ladrão que na calada da noite assaltara e barbarizara uma família levando as economias de uma vida inteira de sacrifícios, pedia ao Menino paz e prosperidade, enquanto a família assaltada completamente apavorada estava tendo um péssimo final de ano.
A mocinha doidivana que recentemente fizera um aborto clandestino também se emocionou:- “Como era lindo o filho de Maria e José! Que criança feliz! Que grande missão estava destinada a cumprir.” Esquecida de que o filho abortado igualmente viria com uma bela missão de aprendizado e que por sua culpa fora interrompida.
As mães pediam saúde, a possibilidade de nunca faltar alimentação, que os filhos crescessem alegres e que fossem felizes em suas escolhas perante a vida. Que fossem honestos, que respeitassem os semelhantes, que se tornassem cidadãos úteis a sociedade e que realmente entendessem e vivenciassem a mensagem que o Menino Deus trazia ao mundo.
A imagem do Menino em seu altar irradiava paz. Todos estavam comovidos, seus pensamentos e pedidos chegavam ao coração de Jesus, que tudo via tudo sabia e na infinita bondade da criação uma lágrima de puro amor rolou por sua face:- Meus filhos! Minhas crianças, espinhos de minha coroa, peso de minha cruz!... Oh! Pai... Tenha piedade de todos nós.

Gastão Ferreira

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

A FEIRA DE QUINTA FEIRA


A FEIRA DE QUINTA FEIRA - 24/12/2009



- “Olha o peixe! Temos robalo, tainha, cascudo, traíra, mandi, manjuba, bagre em posta... Olha o peixe!” Olha a feira! É o seu Paulo vendendo o seu peixe na primeira barraca, depois vem o Arildo com suas frutas e verduras, um dos mais antigos feirantes de Iguape. Qual iguapense não comeu um delicioso pastel feito por dona Irene e seu Tomyo? Pois é venderam a barraca, mas o pastel continua o mesmo.

Seu Augusto é o homem das bananas, há mais de trinta e cinco anos fazendo a feira semanal. Na feirinha tem de tudo, desde peças para fogão, concerto de panelas, roupas, calçados, flores, mudas de árvores, temperos e carnes defumadas.

A barraca do Osmar só vende produtos sem agrotóxicos, o pai de sua esposa foi um dos iniciantes e a história de nossa feira começou há muito tempo, em 1973 na orla do lagamar, na Avenida Princesa Isabel. Com as filas quilométricas que se formavam para a travessia na balsa para a Ilha Comprida mudaram a feira para a Vila Garcez. Ficou pouco tempo, era longe e o povo não aprovou e desde os anos noventa está na Rua Capitão Dias.

A feira é nosso ponto de encontro semanal e todo o iguapense sabe onde é a rua da feira, mesmo em épocas em que a rua alagava e o povo reclamava, ninguém deixava de comparecer. Temos feirantes de nossa própria cidade, alguns vêm de mais longe e fazem feira em várias localidades do Vale do Ribeira. Nossos sitiantes trazem mercadorias fresquinhas, farinha de mandioca, aipim e frutas da região.

É na feira que conhecemos as figuras mais estranhas, onde ocorrem fatos pitorescos e onde se fica sabendo das últimas novidades e fofocas. É na feira que revemos velhos amigos e conhecidos e encontramos pessoas dos bairros rurais mais afastados.

-“Olha o peixe! Temos filé de pescada, camarão, lula, ostra...” É o Santana, um peixeiro da Ilha Comprida que na última barraca, já no fim da rua encerra a feira. É a feira! É a feira.

Gastão Ferreira





























terça-feira, 22 de dezembro de 2009

OSMARZINHO


OSMARZINHO

Osmarzinho era um garoto especial, sua bondade sem limites chamava a atenção. Era o único menino que qualquer um poderia afirmar com absoluta certeza:- Quando crescer será um grande veterinário!
Era inacreditável! Bastava Osmarzinho sair a passear e um cão sarnento se aproximava, ou então um pássaro ferido ou um gatinho solitário o seguia. Ele tratava a todos com o mesmo desvelo; - Não falei! Um espanto.
Um belo dia durante uma excursão a Cachoeira do Guilherme, Osmarzinho ouviu gemidos vindo da floresta, preocupado que era com a preservação ambiental, sua mente ecologicamente correta esqueceu todo o perigo e adentrou a densa vegetação. Notou um filhote de onça com a patinha levantada e que imóvel soltava pequenos urros, aparentemente a patinha estava quebrada. Osmarzinho, nosso todo amor, não se conteve:-” Ele precisa de ajuda urgente! Vou até la.”,”Pelo Bonje! Osmarzinho, não vá.”disse apavorado o guia turístico.”Ele chama por mim! Parece até que me conhece. É meu dever como ser humano auxiliar sempre que necessário...Eu vou!”.
Um moleque que fazia parte do grupo de excursionistas filmou a cena. A oncinha se lamentando mostrando a patinha ferida e Osmarzinho feliz se aproximando. A meninada morrendo de inveja, doida para estar no lugar do corajoso herói.
Quando Osmarzinho gentilmente tocou no filhote, esse deu um grande salto e mamãe onça saiu do meio da cerrada vegetação, deu um bote e com uma só patada arrancou fora a cabeça do garoto. Arrastou seu corpo ainda se debatendo para o fundo da mata. O filhotinho ronronando feliz seguiu sua mamãe, havia feito muito bem a lição.

Moral da história:- É isso que dá se meter a herói. Sempre sobra. Eu em!


Gastão Ferreira

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

GAVETA DO PASSADO


GAVETA DO PASSADO

Abro com muito cuidado
A gaveta do passado...
Retiro o velho cadeado
E espio o seu guardado.

Noto num canto largado
Causando certo destrato
Num papel amarelado
Meu sorriso num retrato.

O que foi que nessa hora
Me fazia assim sorrir?
Criança que fui outrora
Como te deixei partir!

No meu olhar de menino
Vi o passado surgindo
Na gaveta do destino...
Deixei saudade dormindo!

Fecho a gaveta atulhada
Com tanta recordação...
Oh! Minha alma cansada
Passado! Não volta não.

Gastão Ferreira

REENCARNAÇÃO



REENCARNAÇÃO


Quando vim a esse mundo
Vim para ser vencedor
Deixei abismos profundos
Fiz de mim batalhador...

Esquecido dos espinhos
Que eu mesmo mereci...
Plantei em novos caminhos
Tudo aquilo que aprendi.

E a vida cheia de encantos
Transformava o meu amor
Numa cascata de prantos
Numa cachoeira de dor...

Até que um dia entendi
Tudo aquilo que eu fiz.
Os frutos que eu colhi
Foi de um passado infeliz.

Agora rego as sementes
Que um dia irei colher
E voltarei novamente
E de novo hei de vencer.

Gastão Ferreira

sábado, 19 de dezembro de 2009

VOTO DE MINERVA


VOTO DE MINERVA

Naquela cidade, tão perto do mar, um novo e caríssimo monumento estava para ser erigido. O povo curioso queria saber como seria a grande obra que marcaria para sempre a passagem do alcaide de plantão e seus assessores pelo poder municipal e em cuja placa de bronze as gerações futuras veriam os nomes dos mentores do projeto ali realizado. Diziam as boas línguas ferinas que toda a moderna tecnologia do século XXI, desde os computadores “on-line”, as ligas de tungstênio que revestem as naves espaciais, os materiais de última geração, enfim tudo que o gênio humano pudesse comprar seria utilizado, pois havia um motivo para que assim o fosse, a obra de arte seria a primeira do novo milênio e ficaria exposto na praça principal, um chamariz para turistas e apreciadores do belo. Muito dinheiro estava envolvido no projeto.
Os engenheiros responsáveis pela obra fizeram um concurso para escolher o melhor projeto, pois não queriam arcar com a responsabilidade de erigirem uma coisa qualquer. Caso o vencedor tivesse domicilio na cidade estaria dispensado de pagar IPTU pelo resto da vida, se um estrangeiro ganhasse, seu premio seria um ano de hospedagem gratuita no hotel mais chique do município, a mundialmente famosa “Pousada dos Condores”, um cinco estrelas para ricos da terceira idade.
Monumento em cidade histórica é coisa séria, notem como são comentados os que enfeitam Roma, Paris, Moscou e o mundo estava voltado para aquela cidade tão perto do mar. Todos os que entendiam de arte se perguntavam:- Qual obra será escolhida? Qual seu significado perante a humanidade?
No dia da escolha do vencedor, as televisões passavam flashes dos projetos. Um americano montou um labirinto onde imagens holográficas tridimensionais mostravam o passado glorioso da localidade, desde que a primeira ostra foi jogada displicentemente no primeiro sambaqui até o preparo da última refeição pelos pedintes nas proximidades da praça central, que naquele momento gratinavam alguns mariscos para tira-gosto acompanhado de uma garrafa de pinga. Uma superprodução... Um diferencial na história da arte.
Um europeu esnobou, fez um apanhado geral da raça humana e no puro mármore de Carrara esculpiu a raio laser o que nem Fídias, o maior escultor de todos os tempos conseguiu:- A perfeição! O Homem Caiçara.
A escolha deu empate. O representante da ONU temeroso de tomar partido em tão importante decisão chamou ao microfone um pau mandado dos mandatários, informou do impasse e disse:- O voto de Minerva é seu! Escolha.
O pau mandado, que não gostava nada de aparecer, arrancou o microfone das mãos do homem da ONU. Não xingou desafetos, não mandou recadinhos e com toda a sua fina educação apenas concluiu:- Meu nome não é Minerva! Eu não sou Minerva! Não conheço essa jabiráca e não quero conhecer! O monumento será o que eu criei. Uma obra prima que levará meu nome para a eternidade. O monumento será uma CHURRASQUEIRA CRISTÃ, já temos a cruz e será minha homenagem ao pessoal de Santa Catarina que adora carne assada! Fui.

Gastão Ferreira

Obs.- Esse texto é ficção. A cidade de Matutinhos no Paraná, tão perto do mar que me perdoe, mas qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

QUANDO FORES


QUANDO FORES

Tudo na vida termina...
Nada fica de modelo.
Amor que me ilumina
Não seja meu pesadelo!

Quando chegar tua hora
Pois aqui tudo tem fim...
Oh! Meu Amor vá embora
E não se esqueça de mim.

Quando chegar o momento
O momento de partir...
Que possa meu pensamento
Sem rancores te seguir!

Oh! Meu Amor quando fores
Trilhar um outro caminho,
Leva a saudade e as dores
Para o teu novo cantinho!

Gastão Ferreira

O BONJE VOLTOU - 17/12/2009


O BONJE VOLTOU

Hoje retornei a minha cidade e estou me inteirando das novidades. Ela agora faz parte do patrimônio histórico brasileiro. De relance vi o novo monumento na praça da matriz, uma gracinha! Que bom gosto! Que arte! Que refinamento! Que caro! Qual gênio concebeu o trambolho? Desculpa! Quanta criatividade desperdiçada nessa obra prima da inventividade humana.
Quando da primeira vez que adentrei a cidade, isso há quase quatro séculos, uma multidão jubilosa recepcionou-me com cânticos, flores, ladainhas e num grande cortejo banharam-me na fonte que tem o meu nome. Hoje cheguei sorrateiramente anônimo num caminhão baú, tendo dois hereges como condutores, ninguém para me recepcionar. Que será que aconteceu com os foguetes? Não mereci nenhum fogo de artifício? Nem loas de boas vindas? Nadica de nada!
Quando querem me bajular frente a milhares de fiéis soltam rojões e se esgoelam de gritar meu nome, fazem discursos, brigam para carregar meu andor e em meu retorno nem um foguetinho desmilinguido! Começou bem essa nova etapa de meu relacionamento com os responsáveis pela cidade, pelos que dependem de mim como fonte de sustento, pelos que me veneram e dizem que me amam! Novos tempos... Novas atitudes... Novas prioridades!
Algo estranho está ocorrendo... Algo está mudando na alma e na mente desse povo! Fiquei meses fora daqui em recuperação e não recebi nenhuma visita. Volto saudoso na espera de uma bela e merecida recepção. Oh! Meu Pai. Sou necessário apenas na hora do aperto, na hora do sufoco, na hora do milagre. Vou aguardar! Tudo vem e tudo passa, mas Eu permaneço. Quem viver! Verá.

Obs.- O Bom Jesus é o grande fomentador do turismo religioso na cidade. Milhares de romeiros visitam anualmente seu santuário. Sua estátua milagrosa ficou 93 dias sendo recuperada fora do município e hoje em 17/12/2009 retornou a seu altar. Não houve aplausos, nem discursos, nem foguetes e foi assim que a cidade na qual é a maior fonte de renda o recepcionou.

Gastão Ferreira

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

UM MILAGRE!


UM MILAGRE

Ditinho era pobre, pobre, pobre de maré, maré de si e tinha um sonho:- Ganhar uma bicicleta do Papai Noel.
Seus amiguinhos falavam:- Ditinho! Papai Noel não existe. Pare de perturbar a paciência dos outros e cresça menino.
De nada adiantava, há meses que a conversa era a mesma. O garoto nem se alimentava direito e ficava horas e horas sonhando com a nova bicicleta. Com ela poderia passear a vontade. Quem sabe conhecer a Fonte do Senhor, as belas e limpas praças da cidade, os casarões preservados, o tal patrimônio histórico, seja la o que isso signifique, a barragem, o Porto do Ribeira, o novo monumento inaugurado na Praça da Matriz. Um dia fugiria de casa só para conhecer o famoso bairro de Icapára. Nem o novo tênis que o pai lhe dera, o deixou satisfeito:- Eu quero é uma bicicleta! Uma bicicleta! Uma bicicleta!
Na noite de natal, Ditinho colocou o tênis na janela do quarto:- Dizem que Papai Noel não resiste ao ver um tênis ou sapato numa janela e sempre coloca um presente ao lado. Coisas de Papai Noel!
No almoço de natal a comida era especial, frango com polenta. A família de roupas limpas e banho tomado. Ditinho era o único com chinelos de dedo, haviam roubado seu novo tênis durante a noite. Chocante!
Paulinho era só alegria. Natal! Que bom Papai Noel atendera seu pedido. Levara seu velho e gasto chinelo de dedo e deixara no lugar um par de tênis novinho. Que milagre!

Gastão Ferreira

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

MEMÓRIAS DO FUNIL


Quem me trouxe ao mundo foi Maria Bruno, famosa parteira da Vila Garcez, filha de escravos. Meu nome é Aparecida Ferreira Lopes, nasci em Iguape, Rua das Neves, Funil de Cima em 21/10/1934. Filha de Antonio Paulino Ferreira e Juliana da Silva Ferreira. Casei com João Honório Lopes e tive dois filhos. Sérgio Ferreira Lopes (falecido) e Sônia Ferreira Lopes (funcionária da Unidade Mista).
Recordo das crianças Rosa Gamba, Dito Caixeiro, Joaquina, Pequenina Teixeira brincando na areia de nossa rua. Do portinho de pesca bem no fundo da casa de papai, onde ele, o senhor Andrade e Antonio Florido saiam ao nascer do sol para a pescaria diária no mar pequeno. Da dificuldade de arrastarem o barco através da lama e do pirisal. Lembro do Porto Grande a uma quadra de casa.
Da porta dos fundos avistava-se a Ilha Comprida e após a dragagem ganhamos uma rua, Valdomiro Barros Athayde e um imenso e verde gramado junto ao lagamar. Antes de 1943 recordo da alegria de esperar o barquinho a vela vindo do sul, Santa Catarina, que trazia mercadorias para as lojas. Brinquedos que eram vendidos a bordo e que meu pai jamais se esquecia de nos presentear.
Meu pai foi um grande pescador, um homem valente que faleceu em 1995 aos 94 anos. Um pescador nessa época provia de sustento, educação e vestuário de cinco a seis filhos sem pedir favor a ninguém, sem cesta básica e sem defeso. Nossa casa tinha eiras e beiras, éramos considerados remediados e devido a esse fato nunca me foi permitido buscar os presentes natalinos doados aos pobres pela professora Zelí Fortes na praça da matriz nos finais de ano.
As Festas de Agosto marcaram profundamente minha juventude. Quantas lágrimas derramadas ao assistir aos dramalhões apresentados no circo montado próximo ao Largo do Rosário. “Três almas para Deus.” e “O céu uniu dois corações.” Peças de teatro inesquecíveis. Quanto susto com o trapezista “Adãozinho”, quanto riso com os palhaços brincalhões.
Como esquecer a chegada da “Caravana Santista” no vapor “Bento Martins”, a recepção com foguetes e banda de música, sinos badalando e crianças correndo curiosas, acompanhando os romeiros até o hotel São Paulo. Centenas de canoas vindas de sítios próximos, os vaqueiros vindos a cavalo. Os serracimanos, moradores da serra de Juquiá para cima, descendo de caminhões e lanchas.
O povo alugando cômodos aos visitantes. Os negociantes se hospedavam no hotel do Commercio. Os mais abonados ficavam no hotel São Paulo. As barracas montadas no Largo do Rosário. Os Turcos vendiam ternos que encolhiam na primeira chuva e mudavam de cor. Alugavam casas por vários anos e que eram utilizadas apenas na festa. Fora os dois grandes hotéis não havia restaurantes na cidade e a pensão de Dona Sinhá atendia aos romeiros que não cozinhavam nas casas onde alugavam cômodos.
Lembro do primeiro automóvel que vi na vida, era do senhor José Cardoso que morava na Praça da Matriz e do segundo que foi de Casimiro Teixeira. Do primeiro ônibus a chegar a Iguape, uma Jardineira vindo de Juquiá. Trabalhei como atendente da agência Viação Sul Paulista localizada na praça central da cidade.
A educação era rígida e cobrada insistentemente pelos pais, horários para chegar a casa, do respeito aos mais velhos, da boa educação para com todos. Dancei no clube “Liberdade” onde é hoje a loja Kaio e no clube “25 de Janeiro”, atual casa dos padres. Recordo de meu tio Júlio Soldado e de seus porres homéricos, dos passeios na Fonte do Senhor, dos flertes em volta da praça. Lembro com saudade de uma Iguape pacata, sem drogas, sem crimes. Uma cidade sem pobreza extrema, uma cidade do passado em que fui uma menina feliz, uma menininha que corria pelas ruas de areia e que realizou todos os seus sonhos.

Aparecida Ferreira Lopes


Gastão Ferreira (Reporter)

sábado, 12 de dezembro de 2009

VENTO SAFADO


VENTO SAFADO

A noite soprou um vento
Mudou tudo de lugar.
Estava faltando evento
Para o povo fofocar...

O pastor comeu a ovelha
E alguém mudou de cama
O velho enganou a velha
É mais um nome na lama.

Uma “ongue” bem discreta
Comprou a honestidade
Uma fortuna secreta...
Para poucos na cidade.

Cancelaram uma adoção
A mãe falou pro juiz:
- Numa casa de ladrão
Eu não deixo meu petiz!

Ah! Esse vento safado
Trocou tudo de lugar.
Gente mudando de lado
Para melhor rapinar...

La no alto da montanha
O Cristo ficou de costas.
Oh! Que vergonha tamanha
E ainda tem quem gosta...

Gastão Ferreira

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

"GUDI BAI" - ANIVERSÁRIO


Caviar com trufas


“GUDI BAI”- ANIVERSÁRIO


Esse foi o melhor aniversário do qual não participei. A velha senhora ficou na maior solidão, também está um caco... 471 anos. Quando casei com seu papai herdei a múmia, era o preço à ser pago pelo golpe do baú... Velha caquética! Quantas falsas lágrimas tiveram de serem derramadas em público? Quantas juras de eterno amor pronunciadas com a consciência pesada?Oh! Quanto riso... Quanta alegria nas reuniões secretas em sítios e recantos particulares junto a meus verdadeiros amigos, os que me deram de mão beijada a possibilidade do casório!
A velha é rica e muito mais agora que foi tombada... Oh!... Oh!... Oh!...Já conheci metade do país a suas custas. Seus filhos, a infeliz é mãe solteira, vivem a reclamar, mas qual o filho que não está sempre a reclamar da mãe:- “Mamãe! Onde ponho o lixo?”, “Mamãe! O telhado caiu.”, ”Mamãe! Onde estão os remédios?”, ”Mamãe! Eu quero arrumar trabalho e a senhora nem prá me ajudar.”... Nem ligo! Afinal só eu tenho a chave do cofre, apesar de alguns desafetos afirmarem que muitos têm a cópia da chave... Hi!...Hi!...Hi.
O pai da velhota mora longe e temos muito em comum. Um homem encantador, de uma honestidade incontestada, gosta de viajar, de mimosear amigos com mensalões, mensalinhos e cargos. Tenho inveja de uma coisa, ele tem as mãos mais limpas do que as minhas também só tem nove dedos. Outra coisa que temos em comum é essa maneira tão nossa de possuir bons amigos. Amigos incorruptíveis, humildes, sem ganância, sem pose... Ah! Meus amigos. Donos do meu amoroso coração, que Oxalá nosso pai jamais permita uma separação.
A velhota anda desconfiada, está em plena crise existencial, 471 anos e ainda não aprendeu a viver! Por mim que se dane! O importante é curtir a vida. Noooossa! Eu nem imaginava que no mundo existiam tantos locais luxuosos, hotéis maravilhosos, comidas tão saborosas e caras! Um potinho de um tal caviar sai mais caro que o salário de um professor... Escargot, sopa de barbatana de tubarão chinês, algas tailandesas, ovos de estorninho... Champanha!... Sim a verdadeira, a francesa!... Uma garrafa quase o preço de uma ambulância.
Nos locais por onde meu “petit comitê” passa deixamos saudades e muito dinheiro... Ah! Esses meninos. Tão pândegos! Se sentem em casa... Falam alto... Batem na mesa para chamar o garçom, uns palavrões básicos para mostrarem a fina educação, alguns chiliques que ninguém é de ferro e para quem não pode passar sem dar um vexamezinho em público uns namoricos para a coleção de corações despedaçados.
Realmente jamais irei esquecer esse aniversário de minha enteada. Duas Vans lotadas, festas e mais festas e a velhota sentindo a minha falta:- “Mamãe! Mamãe! Por que me abandonou?”... “Eu não te abandonei meu tesouro! Mamãe foi contra a vontade cuidar dos teus interesses... Ah! Querida. Essas viagens são tão cansativas e você reclama do meu sacrifício, quanta ingratidão!”... ”Mamãe! Eu posso ser burra e velha, mas ainda não sou cega.”... “Relaxa amor! Você não vai se livrar de mim tão fácil.”“Oh! Mamãe. Oh! Mammy.”
Ano que vem caso não me separe do pai da velhota, por motivos alheios a minha vontade, eu e meus amigos estaremos em Nova York... Já comecei a aprender inglês... Os trouxas pagam e nós aproveitamos:-”Gudi bai mai pipol”.

Berenice Emilia Tancredo & Silva

Obs: Trechos de um diário encontrado no lixo no ano de 2.379 DC. Os historiadores estão tentando definir se é um texto fictício ou real. Uma senhora com 471 anos de idade?Uma moça de família dando o golpe do baú?Pessoas curtindo a vida com o dinheiro alheio? Amigos que se aproveitam de uma amizade? Onde está a ética?Onde está a moralidade?Quem foi Berenice Emilia Tancredo & Silva?Será que essa pessoa realmente existiu? Será que no passado esse comportamento era comum?Oh! Quantas dúvidas que jamais serão esclarecidas!Para mim que transcrevi é pura ficção, não é carapuça, aliás:- O que é carapuça?

Gastão Ferreira

domingo, 6 de dezembro de 2009

OH! COMO SOFRE UMA VELHA PRINCESA.


OH! COMO SOFRE UMA VELHA PRINCESA.

Consegui chegar aos 471 anos! Sei o que vocês estão pensando:- “Nooossa que múmia!”... Pois estão enganados, eu sou uma cidade, uma das filhas mais velhas do senhor Brasil e tenho muitas primas pelo mundo que são realmente idosas. Roma (2.800 anos), Atenas (3.590 anos), Mênfis (5.150 anos) Jerusalém (4.600 anos)... Viram? Perto delas sou uma adolescente.
Meu problema é que papai Brasil nunca se importou comigo, é um pai ausente e fui criada por desconhecidos que sempre dilapidaram meu dote. Já possui muitas terras, tinha ouro para dar e vender.
Fui uma garota fútil e caipirinha, também pajeada por estranhos! Ficava emocionada ao ser apontada como Princesa... Princesa do Litoral Sul! Que fofinha! Que tolinha!Que burra! E eu crendo que era verdade e me achando a tal, até o dia em que descobri que não existia mais monarquia nesse país. Como sofri! Enganada por tanto tempo, deitada em berço esplêndido e acordada num cocho brigando com um berne... Oh! Vida.
Papai Brasil nunca gostou de mim, talvez porque sou o fruto de uma aventura juvenil com uma portuguesa ou espanhola, ninguém tem certeza desse romance, sou filha de uma desconhecida. Fui abandonada no berço na Vila Nossa Senhora das Neves do Icapára e ainda criança de colo me trocaram de casa e a única lembrança do velho lar é uma cruz de pedra que está comigo até hoje... Minha cruz!
É verdade que papai ainda me paga uma pensão, uma mesada. Uma meréca que nem sei de quanto é! Sua última esposa, dona Brasília, é uma descarada e por ela eu estaria à míngua, comendo casadinho de manjuba e bebendo água da fonte. A atenção que recebo dela é mínima, mas agora quer fazer uma média e me tombou. Não?... Não me derrubou! Foi uma forma que a safada arrumou de me chamar de coroa, ultrapassada, velhusca, terceira idade, titia... Sei lá! Está mandando uma graninha para a manutenção do esqueleto e com certeza pela fama que tem, dona Brasília fica com boa parte do repasse. Papai nem confere... Oh! Papai!
Meu último aniversário foi uma tristeza, nem quero lembrar... No passado era uma festança com direito a desfiles de escolas, de funcionários municipais, de equipamentos, balões e crianças. Nesse nem minha atual madrasta participou, estava longe, lá em Minas Gerais com seus verdadeiros amigos e quase filhos, comendo do bom e do melhor as minhas custas, se aproveitando de minha fama de velhinha para conhecer o mundo... Oh! Minha madrasta.
Tentei o suicídio várias vezes. A primeira quando rapinaram o meu ouro, depois quando acabou o ciclo do arroz, quando fecharam meu porto e me senti isolada do restante do mundo, quando proibiram “farofeiros” de me visitarem. Em muitas ocasiões pensei seriamente que estava chegando o meu fim e meu desgosto é notar que estou cada vez mais pobre e que os responsáveis por minha tutela estão cada vez mais ricos as minhas custas. Alguns compraram fazendas, palacetes, apartamentos e dólares... Oh! Vida. Como sofre uma Princesa do Litoral.

Gastão Ferreira