quarta-feira, 25 de novembro de 2009

UM CIRCO FALIDO


UM CIRCO FALIDO

Boa noite damas e cavalheiros! Sejam bem vindos ao último espetáculo desse magnífico circo. Como podem observar a lona está um tanto furada, as poltronas quebradas e o picadeiro central incapacitado de receber artistas e bailarinos. Os leões foram roubados, as panteras fugiram e os macacos amestrados um por um nos abandonaram.
Esse circo marcou época, foi um dos maiores e melhores de nosso país. Gente famosa nos visitou, artistas, poetas, cientistas e ficamos conhecidos até mesmo na Europa, pois um ilustre escritor Francês escreveu um conto a nosso respeito. Tínhamos uma placa comemorativa lembrando sua breve estadia entre nós, mas parece que um espertinho a roubou e hoje ela enfeita a parede da sala da honesta figura.
Na fase áurea navios eram fretados e traziam centenas de passageiros para assistirem aos maravilhosos espetáculos aqui realizados. Ouro enfeitava nossas vestimentas e grandes peças teatrais foram encenadas sob essa velha lona.
A decadência começou quando a diretoria não mais se importou com o bem estar dos espectadores e todo o dinheiro arrecadado e destinado as benfeitorias começou a ser repartido entre eles. Não se contratava artistas famosos e sim os filhos e filhas de amigos, uns canastrões que afastavam com suas péssimas atuações o público pagante, perseguiam os que realmente possuíam talento e conseguiram através de maquinações diabólicas se perpetuarem no palco, ocasionando a ruína.
Boa noite senhoras e senhores, na penumbra não consigo divisar seus rostos, mas eu os conheço um por um... Sei que não se lembram de mim, mas fui eu quem indicou o lugar de cada um de vocês na assistência antes do início da função. Já fui o porteiro, o bilheteiro, fui um dos primeiros a fazer parte da equipe circense. Um pau para toda a obra! Banhei e alimentei os animais, vendi ingressos, fui ator, trapezista, bailarino e com o tempo tornei-me a figura central nas apresentações e agora com profunda tristeza eu me despeço... Boa noite distinto público... Eu sou a alma do circo... Eu sou o palhaço... Adeus!

Gastão Ferreira

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