sábado, 28 de novembro de 2009

SEMANCOL


SEMANCOL

Os estudiosos estavam intrigados, algo estranho ocorria na pequena cidade. Possuía tudo para dar certo, poderia optar por diversas formas de turismo, era cercada por uma natureza privilegiada (turismo ecológico), muita água (turismo náutico), rios em abundância (turismo de pesca), uma arquitetura antiga preservada (turismo histórico), ruas planas e muitas praças (turismo para a terceira idade), um povo alegre, hospitaleiro e festeiro (turismo pagão?). Ah! Quase esqueci... Igrejas (turismo religioso).
Os cientistas brasileiros chegados diretamente de Brasília, foram hospedados nos melhores hotéis, alimentação de primeira, horas extras corridas, carros com motoristas a disposição, cartão corporativo e muita cachaça, tudo a custa de nossos impostos e pagos pela municipalidade.
Após estudarem o problema nas horas vagas em que não estavam se aproveitando das mordomias e não tendo encontrado a causa da paradeira geral recomendaram a doação de cestas básicas, vale-luz, vale-água, vale-tudo, menos vale transporte porque todos tinham bicicleta. A pindaíba continuou a mesma e chamaram os americanos.
Os mandatários de cara não simpatizaram com os cientistas americanos que armaram acampamento no campo de futebol, bebiam a própria água, comiam alimentos enlatados e falavam um idioma que ninguém entendia, mas mostraram serviço e o resultado foi um espanto, descobriram o famigerado VINDES (Vírus Interessado Na Decadência Social).
Cientista americano vai fundo! As equipes de apoio detectaram que todos os nativos quando saiam da tal cidade se davam bem, prosperavam,eram trabalhadores, ficha limpa, bem aceitos, um exemplo de bons cidadãos, enquanto os que permaneciam no local de origem eram desbocados, propensos a armarem barraco, um tanto egoístas e sem perspectiva de vida.Fizeram uma pesquisa e menos de um por cento da população estava contaminada com o VINDES (Vírus Interessado Na Decadência Social)... Ufa! Ainda bem que era menos de um por cento.
Quando a exaustiva pesquisa foi apresentada na ONU foi um Deus nos acuda! E se esse vírus se espalhar! O que vai ocorrer com o mundo civilizado? Vamos retroceder?... Não!... Não!... Joguem uma bomba atômica nessa cidade, matem o problema no nascedouro!
A solução foi fácil, o vírus não sobrevivia fora da pequena cidade, pois os nativos que moravam fora não o carregavam consigo. Americano não é fácil e levam o trabalho a serio, descobriram um antídoto chamado SEMANCOL e obrigaram na marra e para o bem coletivo os portadores a beberem a dose única e como ninguém é besta de criar encrenca com americano todos se mostraram felizes em colaborar.
Não é que deu certo! Toda a vez que um ex infectado pegava um microfone para se esgoelar de gritar dava um saricotico no coitado. O fogueteiro começava a tremer e não conseguia acender o rojão. Quando alguém propenso a falar palavrão abria a boca caia um dente, o metido a besta ficava só no besta, os corruptos doavam o fruto de suas negociatas.
Que coisa! A cidade não prosperava porque menos de um por cento de seus habitantes estava contaminada com esse estranho vírus. Tão poucas pessoas causando a decadência de tantos, atravancando o sonhado progresso e se achando donos de corações, mentes e cofres. Uma pequena dose de SEMANCOL resolveu um problema tão antigo. Viva aos cientistas americanos... Hei! Nada de soltar foguetes.

Gastão Ferreira

Obs.:- Esse texto é ficção, nada a ver com nossa realidade, mas caso existam os menos de um por cento:- Já passou da hora de tomarem SEMANCOL.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

INDIFERENTE


INDIFERENTE

Indiferente ao anseio
De quem não pode sonhar
O Amor planta e semeia
Olhando a vida a passar.

Tudo depende da terra
Para o fruto germinar...
Mesmo no peito da fera
O Amor tem seu lugar...

As pessoas egoístas
Só enxergam o seu eu
E adoram serem vistas
Como se fossem um deus!

Mesmo assim o Amor chama
Mostra o caminho a seguir...
Quem a si mesmo não ama
Não pode Amor repartir...

Há uma estrada que leva
Por entre o bem e o mal.
Pode ser de luz ou treva
Você escolhe o final...

Gastão Ferreira/2009

ERA UMA VEZ UM CIRCO


ERA UMA VEZ UM CIRCO

Era a primeira vez que um circo visitava a cidade. Foi o maior alvoroço, as autoridades sorriam de orelha a orelha:- Finalmente o tal progresso chegou! Esse circo vai dar no que falar.
O padre foi contra a novidade:- Bom cristão tem trauma de circo! Nunca vai esquecer o que ocorreu na Roma antiga, ainda mais circo com leões famintos... Fora com esta gente pagã!
O pastor foi categórico:- Crentes unidos jamais serão vencidos! Circo é coisa do demônio, tem mulher pelada e palhaçada. Sai Satanás! Nem pense em tentar meu rebanho.
A molecada estava em festa e de olho comprido nas bailarinas tentavam erguer a lona, queriam porque queriam ajudar na montagem e assim descolar uma entrada grátis.
As garotas de programa contavam os minutos para o inicio do espetáculo, finalmente um programa de verdade, uma tarde no circo.
Alguns meninos empreendedores saíram à cata de cachorros vadios para venderem aos alimentadores das feras. Outros apareceram com cachos de bananas para os macacos e os restantes estavam doidos para saberem o que o elefante comia.
À noitinha a população estava preparada e ansiosa, a fila da entrada era imensa. As damas, apesar do calor insuportável, trajavam casacos de peles e múltiplas jóias falsas, afinal dama é dama e o resto é gentalha. Os cavalheiros portavam cartolas e fraques. O restante do povão de chinelo de dedos e camisetas de campanha eleitoral, felizes por se misturarem a granfinagem.
Na fila a fofoca rolava:- Aquela sirigaita deve ser a trapezista! Cruz credo... Só pelanca. Olha o mágico! Tem cara de engana bobo. Hein! Não é o palhaço? Não!...Não!É o Dito louco querendo aparecer.
Cidade falida não é fácil! As autoridades não queriam pagar o ingresso porque eram autoridades. Os parentes das autoridades porque eram parentes. As crianças porque trouxeram gatos e cachorros para alimentar os leões, os pobres porque diziam ter direito a um vale-circo, as garotas de programa porque estavam ofendidas, pois foram chamadas de macacas de auditório. Os meninos do mal porque abriram um buraco na lona para entrarem na moita e foram pegos no flagra.
O dono do circo tentou negociar, falou que vivia da venda dos ingressos e que o circo era igual a uma cidade, que se os habitantes da cidade não pagassem os impostos como poderiam exigir ruas limpas, segurança, saúde e progresso. O barraco estava armado e como todos por ali estavam na duranga o espetáculo foi cancelado.
O povo entendeu que o discurso do dono do circo era uma indireta ofensiva a população. Foi um Deus nos acuda! Tocaram fogo no circo e bateram tanto no palhaço que até hoje ele não consegue lembrar o próprio nome. É isso aí! Coisas de cidade falida, em vez de dialogar e buscar soluções, quando o circo pega fogo quem apanha é o palhaço que, aliás, não tinha nada a ver com a história

Gastão Ferreira

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

UM CIRCO FALIDO


UM CIRCO FALIDO

Boa noite damas e cavalheiros! Sejam bem vindos ao último espetáculo desse magnífico circo. Como podem observar a lona está um tanto furada, as poltronas quebradas e o picadeiro central incapacitado de receber artistas e bailarinos. Os leões foram roubados, as panteras fugiram e os macacos amestrados um por um nos abandonaram.
Esse circo marcou época, foi um dos maiores e melhores de nosso país. Gente famosa nos visitou, artistas, poetas, cientistas e ficamos conhecidos até mesmo na Europa, pois um ilustre escritor Francês escreveu um conto a nosso respeito. Tínhamos uma placa comemorativa lembrando sua breve estadia entre nós, mas parece que um espertinho a roubou e hoje ela enfeita a parede da sala da honesta figura.
Na fase áurea navios eram fretados e traziam centenas de passageiros para assistirem aos maravilhosos espetáculos aqui realizados. Ouro enfeitava nossas vestimentas e grandes peças teatrais foram encenadas sob essa velha lona.
A decadência começou quando a diretoria não mais se importou com o bem estar dos espectadores e todo o dinheiro arrecadado e destinado as benfeitorias começou a ser repartido entre eles. Não se contratava artistas famosos e sim os filhos e filhas de amigos, uns canastrões que afastavam com suas péssimas atuações o público pagante, perseguiam os que realmente possuíam talento e conseguiram através de maquinações diabólicas se perpetuarem no palco, ocasionando a ruína.
Boa noite senhoras e senhores, na penumbra não consigo divisar seus rostos, mas eu os conheço um por um... Sei que não se lembram de mim, mas fui eu quem indicou o lugar de cada um de vocês na assistência antes do início da função. Já fui o porteiro, o bilheteiro, fui um dos primeiros a fazer parte da equipe circense. Um pau para toda a obra! Banhei e alimentei os animais, vendi ingressos, fui ator, trapezista, bailarino e com o tempo tornei-me a figura central nas apresentações e agora com profunda tristeza eu me despeço... Boa noite distinto público... Eu sou a alma do circo... Eu sou o palhaço... Adeus!

Gastão Ferreira

sábado, 21 de novembro de 2009

APLAUSO AOS CORRUPTOS


APLAUSO AOS CORRUPTOS

Você pacato cidadão que aplaude e dá tapinhas nas costas de um indivíduo corrupto, dê um tempo... Ponha a mão na consciência e pense um pouco, só um pouquinho para não danificar seus inocentes neurônios.
Você tem idéia de onde vem essa paradeira, esse desânimo frente ao progresso que nunca chega e essa falta de perspectiva que nos aflige? Essa sensação de que nada vale à pena?
Você sabe de onde veio o dinheiro do corrupto? Duvido!... Veio da falta de melhores escolas, de um emprego mal remunerado, de um alimento mais caro. Veio da criança desnutrida, da falta de remédios, da exploração da pobreza, da falta de caráter de quem se apossa do que não é seu por direito.
Esse dinheiro, essa grana, esse dindim veio da morte do teu sonho não realizado de melhorar de vida, da impossibilidade de formar teus filhos para fugirem da pindaíba, do acabamento de terceira da tua casa, da roupa nova que não podes comprar, do lazer que gostarias de ter e não podes pagar.
Sabe por que, cidadão? Sabe!... Dinheiro não dá em árvores. Dinheiro vem do trabalho de quem produz. Do homem que levanta cedo para cuidar do campo, da horta, do plantio. De quem acorda de madrugada para dar duro numa indústria, numa fábrica, num comércio. De quem quebra pedras, pinta, pesca,ergue casas, varre ruas, recolhe lixo, dirige ônibus. De quem sua a camisa oito horas por dia para poder comer, vestir e pagar impostos.
Taí!... Pagar impostos. Leu direitinho, cidadão? Pagar impostos! Só não pagamos impostos do ar que respiramos; o restante, desde a água da torneira até a certidão de óbito, tudo tem imposto embutido. Tem parte do teu ganho, do teu salário, das tuas dores, da comida não comprada, da saúde comprometida, do teu amanhã com menos esperanças.
Quando um esperto cidadão, gente como a gente, se apossa de parte desse dinheiro em maracutaias, lembra?... Dinheiro não dá em árvores, esse dinheiro veio do trabalho de alguém. Desse dinheiro uma parte veio de você, do imposto que foi imposto a você. Esse esperto cidadão te roubou... Ele é um ladrão, um mão-leve, um corrupto, um aproveitador do suor alheio. E você pacata e honesta criatura, fica aplaudindo, tomando dores, se expondo ao ridículo ao defender o indefensável.
Pacato cidadão, você merece a vidinha que tem. Você merece sofrer, passar fome, não ter dignidade, ser espoliado descaradamente. Você não tem vergonha na cara, e é essa sua falta de vergonha que nos trás a pobreza, a penúria, a doença, a falta de segurança, a morte dos sonhos. Porque quando você bate palmas , afaga, sorri complacente e dá tapinhas nas costas do ladrão, você está aprovando sua maneira de agir, você está banalizando uma atitude reprovável, um comportamento imoral e dando um péssimo exemplo de cidadania a seus filhos, seus amigos e a seus companheiros de existência.
Valorizando o que não presta, você dá continuidade e aprovação ao ilícito, à maldade, à ganância, à injustiça e reconhece publicamente como um bom negócio a falta de caráter e a desonestidade.

Gastão Ferreira

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA


DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA

Que importa a cor da pele
Se o coração não tem cor?
Quando o destino nos fere
Nos fere da mesma dor!

A vida é igual para todos
Cada bem com o seu mal
A cor é simples engôdo
Para quem se acha o tal!

O importante é ser gente
Ter amigos, viver bem
Levar a vida contente
Não ofender a ninguém.

Não é negro nem é branco
O abraço de um irmão...
Não é a conta no banco
Que nos dá educação...

Por isso tomem cuidado
Do preconceito sem graça
Sujeitinhos descuidados...
Que julgam outros por raça

Em tudo encontram defeitos
Nunca notam os que são seus
Se acham todos perfeitos
E tomam o lugar de Deus!

Gastão Ferreira-20/09/2009

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

DITINHA GIGLIO/ HOMENAGEM


DITINHA GIGLIO


Meu nome é memória. Sou a guardiã da história do homem. Estou presente desde o momento em que o primeiro ser pensante ergueu os olhos para as estrelas e perguntou:- Quem sou?
Sou o arquivo de tudo o que existe, de tudo que pensa, de tudo que vive, acompanho cada criatura do berço ao túmulo. Eu sou a memória e conheço Ditinha Giglio e partilho de seus sonhos. Lembro de seu pai Floramante Regino Giglio, comerciante, dono do engenho de arroz que ficava onde é hoje a pizzaria Canal na Beira do Valo, político, três vezes prefeito, filho de imigrantes italianos, teve quatorze irmãos e foi capitão da Guarda Nacional. Recordo a mãe de Ditinha, Maria do Carmo de Toledo Giglio com seus oito filhos e dos dois que sobreviveram à primeira infância.
Lembro Ditinha estudando inglês, das aulas de piano, das serestas, das viagens ao Rio de Janeiro que demoravam cinco dias. No primeiro dia o vapor saído de Iguape navegava o rio Ribeira até Registro e por lá pernoitávamos. No segundo dia ainda de vapor chegávamos a Juquiá e a noite cantávamos, fazíamos serestas e a felicidade era cúmplice de nossas inocentes brincadeiras juvenis. No terceiro dia era o trem até Santos e no quarto dia também de trem alcançávamos São Paulo. Não havia estradas e de São Paulo ao Rio de janeiro mais doze horas de trem.
Bons tempos, tempos felizes... Geraldo saudável, Ditinha jovem... Geraldo único irmão sobrevivente formara-se em contabilidade no Rio de Janeiro e passou a estudar Direito no Largo São Francisco em São Paulo... Eu lembro Geraldo afastando-se de mim, apagando da mente as lembranças, os sonhos e se perdendo por caminhos desconhecidos.
Lembro dos lampiões de gás, dos bois pastando na Praça São Benedito, dos bailes, teatros e clubes... Da revolução Constitucionalista de 1930 e Ditinha como voluntária da Legião Brasileira de Assistência. Lembro da Iguape de outrora, dos passeios na Fonte, dos muitos amigos, de seu noivo falecido e dos sonhos perdidos.
Recordo Ditinha funcionária pública, leitora voraz, soltando a voz no coro da igreja da matriz e lembro Ditinha ao entardecer. Suas lembranças são minhas, guardo comigo seus sonhos, seus fracassos, suas vitórias e juntas sentamos no alpendre e olhamos a Praça São Benedito e visitamos o passado e corremos crianças pela praça vazia de sonhos e rimos e choramos.
Eu sou a memória, o arquivo da vida, eu não minto, eu não invento... Eu anoto e recordo. Hoje sou apenas uma pequena chama na grande fogueira em que nos consumimos em que nos purificamos das vaidades em que transformamos nosso personagem em herói ou vilão... Benedicta de Toledo Giglio, uma amiga querida, alguém que ama, chora, canta e vive... Última sobrevivente de um poderoso político do passado, hoje sem vaidades, sem sonhos, mas com muitos amigos... Sentada a seus pés eu recordo... Eu sou a memória.

Gastão Ferreira

GUIA TURÍSTICO


GUIA TURÍSTICO

Bom dia caro visitante fui indicado pelo conselho turístico municipal para acompanhá-lo gratuitamente nesse breve passeio por nossa bela cidade. Somos famosos por preservar nosso patrimônio histórico, num local secreto estão guardados a sete chaves nossos velhos chafarizes que enfeitavam as praças onde a população dos séculos anteriores retirava a água diária. Os pelourinhos tinham vários, estão todos seguros e as visitas suspensas para evitar contaminar peças tão valiosas. Os gradis, enfeites e moveis dos centenários casarões que por motivos alheios a nossa vontade sofreram excessivo desgaste por causas naturais, juntamente com as estatuas de bronze, as placas comemorativas, os ídolos antropomórficos, as urnas funerárias indígenas, moendas das antigas fazendas, santos, sinos, objetos sacros, relíquias de um passado cantado em prosa e verso, enfim todo um passado cultural de centenas de anos está em lugar seguro, longe dos olhos gulosos de colecionadores venais e a salvo.
Note que todos os nossos casarões possuem uma placa explicativa com data de construção e o nome da família patromínica, as calçadas mantêm as pedras originais e no entorno da praça principal todas as casas são anteriores ao século XIX e até mesmo fizemos questão de preservar a grafia original no nome dos estabelecimentos comerciais, não estranhe se notar várias pharmacias na praça.
Num local especial mantemos os centenários arquivos da época do império, tivemos dezenas de jornais nos diferentes períodos históricos, estão todos preservados e cópias digitalizadas poderão ser consultadas... São como uma viajem no tempo e causa de nosso orgulho.
Peço desculpas caso tenha lido um ou dois jornais da atualidade, nossos jornalistas adoram denegrir tanta perfeição, em sua maldade gratuita vêem casarões deteriorados, sem portas e janelas, telhados desabando, placas rapinadas, estátuas desaparecidas misteriosamente, navios abandonados, nem aos mortos dão sossego, pois agora estão afirmando que anjos foram roubados do cemitério.
Esses detratores, filhos ingratos, cuspidores no prato que comem nada entendem de cultura, de humildade, bondade, de honestidade, bando de mal resolvidos, inúteis, crápulas, corruptos, nada sabem... Veja nosso último monumento, essa belíssima peça em mármore italiano, um Carrara legítimo, caríssimo... Custou os olhos do povo, representa uma ara sagrada e eles, os jornalistas, a chamam de churrasqueira e ainda por cima de churrasqueira papal por causa da cruz. Ora me poupem! Gentalha ignorante que nada entende de arte! Moleques que não merecem a cidade que tem e que não dão valor ao que realmente merece ser preservado! O passeio acabou! Ah! Meus sais. Fui!

Gastão Ferreira

Obs. – Esse texto é ficção e nada tem a ver com a realidade... Nossa bela cidade agora é parte do Patrimônio Histórico Nacional. Os jornalistas que me perdoem as duras palavras, mas ficção é ficção.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

UMA ARTE


UMA ARTE

Na vida a minha parte
Foi fácil de aprender...
Viver contente é uma arte
Não vim aqui prá sofrer...

O sofrimento tem nome
Basta por ele chamar...
Alguns o chamam de fome
Outros a falta de amar...

Vivo um dia, passo a passo
Não canso meu caminhar...
O mundo inteiro eu abraço
Pois dele fiz o meu lar...

Minha alma não tem cor
Não tem dinheiro no banco
Eu amo e o meu amor...
Não é preto nem é branco!

Venho de muitos caminhos
Vencendo o medo em mim
E transformando espinhos
Em flores do meu jardim...

Gastão Ferreira/2009

domingo, 15 de novembro de 2009

OS PIRATAS


OS PIRATAS

Tudo começou no dia em que Marócas contrariando a ordem paterna foi banhar-se próximo a Pedra da Paixão, uma espécie de Fonte do Senhor da época. Um lugar onde os “dimenor” faziam o que bem entendiam e que ninguém tinha coragem de questionar, pois até mesmo os conselheiros com seus inúmeros conselhos se passavam por cegos, mudos e surdos talvez temerosos de serem confundidos com pedófilos, evitavam vistoriar o local. Foi nesse dia que Marócas realmente reparou em Zóinho.
Marócas não tinha eira nem beiras, apenas um sorriso matreiro e um olhar de “eu posso”, “eu quero”, ”eu consigo”, “é meu”. Seu pai pertencia ao bando do famoso Manjubão, um pirata de Cananéia que possuía um papagaio da cara roxa que falava tupi-guarani.
Zóinho, filho do coronel Alcides, era o garoto esperto do pedaço. Numa caverna perto do Itaguá escondia seu tesouro; Peças barrocas, placas comemorativas de bronze, ídolos pré-colombianos, muitas moedas, objetos de arte, coisas e coisinhas de ouro e prata surrupiadas na calada da noite de igrejas e locais públicos aos quais tinha acesso por ser filho de coronel e cidadão acima de qualquer suspeita. Um mapa de um provável tesouro pirata era o bem mais precioso.
Marócas, esperta como só podia ser uma filha de pirata, descobriu fácil o segredo de Zóinho. Resolveu seduzi-lo e se apossar legalmente do tesouro. Contou ao pai o seu plano diabólico e como ouro é ouro, seu honrado genitor deixou os brios de lado e armaram uma arapuca.
Zóinho ouviu os gritos de socorro, tinha a alma de herói e o coração de um veado catingueiro, chegou a tempo de retirar das águas o corpo sem sentidos de Marócas que nua banhava-se no Mar Pequeno. Gritou!
Chamou! Implorou! Marócas não dava sinal de vida e quase histérico começou a fazer respiração boca a boca na garota, foi nesse momento que os piratas o cercaram e até explicar o que estava fazendo com uma inocente donzela peladona, desmaiada e num lugar deserto, já estava casado na marra.
Zóinho jamais contou a Marócas sobre seu tesouro, pois não a amava. Amava em segredo (não muito) Davi o seresteiro, dono de um conjunto musical chamado “Três Coqueiros e uma cabana”. Marócas sabia do que ocorria “no escuro” da vila graças aos serviços de Sandrinha, uma garota muito dada e que dava muito. Contratou Sandrinha para dar encima de Zóinho que ficou muito feliz por passar por machão aos olhos dos bacanas (não muito) da época e um novo esquema foi estabelecido.
Os piratas intimaram Zóinho a parar com o romance com Sandrinha; - Como ele ousava trair a filha de um pirata? Óbvio! O garanhão negou o fato. Foi espancado tão violentamente que ficou de molho por mais de mês e foi nesse ínterim que o tesouro trocou de esconderijo.
Marócas aproveitou o escândalo e se passou por vítima, abandonou a vila e jurou jamais voltar à por os pés no local onde foi tão humilhada. Foi morar na corte com seu pai e sabe como é!Um pirata a menos e a população agradecida soltou foguetes.
Zóinho já recuperado e junto com Davi encontrou a caverna destruída e na parede o desenho da famosa caveira pirata, entendeu o recado:- Em boca fechada não entra mosca. Achou outro esconderijo e continua rapinando pequenas obras de arte sacra, anjos e sinos de cemitério, objetos de bronze e esculturas de mármore e vive a reclamar dos ladrões de fora que roubam tais objetos.
Marócas montou uma loja de decoração na corte, compra e vende objetos furtados. Ficou muito rica. Nessa história toda, quem perdeu foram os habitantes da vila que desde então de tempos em tempos notam que seu patrimônio artístico vem diminuindo. Claro que sabem quem realmente se apossa desses bens comuns, mas como é mais prático não falarem o nome dos bois, digo dos ladrões, continuam a culpar os piratas.

Gastão Ferreira

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

O BARRACO CAIU !




O BARRACO CAIU!

Naquela cidade tão perto do mar... Nas igrejas, nos bares, nas lojas e pizzarias. Na zona rural e em outras zonas o assunto era um só:- O barraco vai cair!
Foi o maior alvoroço, com direito a passeata, carro de som nas ruas, mocinhas e velhinhas nas calçadas portando faixas com dizeres. Todos os moradores ficaram abismados e esperançosos, as dondocas esquecidas de dondocar, os mendigos de mendigar, pedintes de achacar, pescadores de pescar e óbvio, pecador de pecar.
Passou até em horário menos nobre na televisão. Tudo começou após um crime hediondo, o assassinato de um pacato comerciante. A irmandade exigiu providencias imediatas. Basta de violência! Queremos segurança plena! Ou fazem-se as mudanças ou abrimos os arquivos secretos e doa a quem doer.
As autoridades (in) competentes estavam com uma batata quente nas boas mãos. Um chororô de partir coração corrompido, lágrimas de molhar as mãos limpas... Oh! Maínga. Como sofre um bom cristão com uma alma cheia de amor para dar, vender ou alugar.
Para complicar, uma carta anônima devastou reputações ilibadas. Um morador da roça, da zona rural, um sitiante semi-analfabeto, qual político ofendido colocou a boca no trombone, ou melhor, colocou uma carta no correio... Deve estar apavorado até hoje, pois até Mãe de Santo foi consultada para descobrir o sacana, mas como era anônimo... Continuou anônimo.
As mudanças serão imediatas! Tudo vai mudar! Todos vão mudar! Em quinze dias quem viver verá! O barraco vai cair!Pois não é que acertaram... Começou a chover, chover e chover.Deu um vendaval e naquela cidade, tão perto do mar, os irmãos fizeram as pazes com a parentada e tudo continuou como antes .Só o Ditinho se ferrou, com tanta chuva e vento, seu barraco caiu!

Gastão Ferreira

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

TENHO VERGONHA


TENHO VERGONHA

Por ser honesto e acreditar no bem,
Por trabalhar, por merecer meu pão
Por crer em Deus e no que Dele vem
Por muito errar e por pedir perdão...

Por tudo isso eu me sinto um tolo...
Pela ganância que não mora em mim
Por não comprar e me trocar por ouro
Tenho vergonha de ter sido assim...

E mais vergonha por ter me calado
Na hora triste da corrupção...
De ficar mudo e não ter falado
Ao ser roubado como um cidadão...

Tenho vergonha dos falsos amigos
Que me conhecem e apunhalam tanto
Tenho vergonha de guardar comigo
Restos de sonhos e meus desencantos!

Querem que eu parta e não vou embora
Eu amo muito esse nosso chão...
Querem que cale nesse momento agora
Querem que eu traia o meu coração...

Tenho vergonha porque sou honesto
Tenho vergonha de amar demais...
Tenho vergonha e me sinto um resto
De tantas coisas que não vejo mais!

Gastão Ferreira

AH! IGUAPE


AH! IGUAPE

Quando calaram os ventos
Depois do bramir do mar...
Restaram tantos tormentos
Que o sonho veio embalar...

A mão que rezou o terço
Foi a mesma que pecou...
Histórias que desconheço
Foi o vento quem contou!

A casa que o comandante
Com sangue alheio comprou
É de um povo tolerante
Que nada nunca cobrou

No escuro da memória
Estão os velhos jornais
Segredos de nossa história
E que ninguém lembra mais

Ah! Iguape. Como pode
O Amor agir assim?
Foguete no céu explode
Tanta merda no jardim!

Gastão Ferreira

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

ANASTÁCIO MÃOS LIMPAS


ANASTÁCIO MÃOS LIMPAS

Nunca existiu uma pessoa tão honesta quanto Anastácio Mãos Limpas, desde petiz afirmavam:- Que criança toda amor! Qual será o seu destino?
Anastácio cresceu saudável, enquanto a garotada esgoelava gato ele cuidava dos filhotes abandonados. Caso jogasse água quente em cachorro vadio ele atirava água fria, enfim um santinho infantil e um completo babaquinha.
Nem tudo eram flores na vida dessa doce figura, o mundo é uma escola e ele mal passava de ano. Os coleguinhas o apelidaram de Anastácio o anta.
Na adolescência os hormônios falaram mais alto e ele começou a freqüentar a fonte do Senhor. Aquele cheiro de mato que qualquer craque sabe o que é. Aquela cola misturada a palavrões e permissividade chamava por novas experiências e ele foi fundo.
Anastácio conheceu o lado obscuro da cidade onde morava. Sabia dos locais secretos onde rolava o proibido e teve uma idéia genial, iniciou um diário secreto onde anotava tudo que ocorria, com nome, apelido, horário e endereço, testemunhas... E o tempo foi passando.
Aos vinte e poucos anos, Anastácio concorreu a um cargo eletivo... Conselheiro qualquer coisa e obteve uma expressiva votação. Todos comentavam:- Chegou o futuro! Anastácio mostra ao que veio.
Comprou carro, moto, sitio, mansão. Sua fortuna multiplicava-se e tornou-se um respeitável ricaço, e todos beijavam suas mãos limpas para obterem os mais variados favores.
Os invejosos não se conformavam:- Alguma coisa está errada! Como esse anta conseguiu vencer? Nessa história tem dente de coelho, jacaré, capivara. Sei lá!
Quando a Polícia Federal desarticulou as quadrilhas que infestavam há muito tempo todo o município, os chefões, chefes, chefinhos e chefetes fugiram. Anastácio foi detido e levado para a cidade grande, jamais voltou, seu nome constava da lista de propinas dos bandidos e o segredo estava no diário... Anastácio desde mocinho anotava o que via e a chantagem era o grande truque. Anastácio foi execrado e amaldiçoado... E o tempo passou.
Ontem foguetes e faixas anunciaram:- A cidade agradece a seu mais nobre e honrado filho a liberação da verba para a construção do albergue municipal. Senador Anastácio Mãos Limpas, nosso muito obrigado.

Moral da história:- História sem nenhuma moral.

Gastão Ferreira

terça-feira, 3 de novembro de 2009

MENDICÂNCIA


MENDICÂNCIA

Hoje iniciei uma pesquisa a fim de realizar uma futura reportagem sobre mendicância. Procurei os mais velhos para compartilhar as memórias do passado e fomos unânimes, até o início dos anos 90, mendigos em Iguape só em véspera de festa de agosto. Pelo que lembro tínhamos alguns débeis mentais que faziam uso dos fundos da basílica, nada pediam, ficavam por ali sentados, olhando a vida passar e a noite voltavam para suas casas.
Percebo que esse assunto é delicado, envolve humanismo e aspectos religiosos, mas a mendicância está a tornar-se um problema crônico em nossa cidade e é um dos sintomas da decadência que se faz mais visível. As reclamações dos turistas se juntam a de cidadãos que evitam freqüentar o centro histórico e assim vamos perdendo um espaço que é nosso. Os pedintes têm todo o direito de ir e vir e nós não temos o direito básico de não sermos molestados.
O que se conhece como mendicância não faz jus a esse nome em nossa cidade. Todos os municípios têm os seus carentes, pessoas destituídas momentaneamente da possibilidade de se manterem e que recorrem à caridade alheia até superarem essa má fase. Temos no Brasil os mendigos caminhantes, que são aqueles que encontramos a margem das rodovias, esses permanecem por dois a três dias em uma cidade e continuam sua viagem.
Logo no inicio da pesquisa deparei-me com dois fatos que desconhecia; - O primeiro foi que a tão famosa desova de mendigos, pelo menos nos dias atuais é lenda urbana. O segundo fato é que em nossa cidade na atualidade temos vinte e cinco pessoas que se passam por mendigos e que desse total apenas três são de fora de nosso município.
Outro fator que causa constrangimento é que todos os nossos mendigos são alcoólatras e não querem por vontade própria morarem com suas famílias. Um problema que tem solução. Basta não vender mais bebidas a essas pessoas, pois todos os comerciantes os conhecem. Parece complicado e é, mas não podemos contar com mais ninguém para resolver a questão.
Depois de constatar esse fato inusitado desisti da reportagem. Desde que fui expulso aos gritos de um local público, estou evitando o máximo me expor ao ridículo perante nossa sociedade, assim não me é dada a oportunidade de saber o que pensam as autoridades constituídas sobre o tema mendicância.

Gastão Ferreira-03/11/2009