quinta-feira, 22 de outubro de 2009

NOTÍCIAS DA CAPITAL


NOTÍCIAS DA CAPITAL

O Bonje foi dar uma geral, fazer uma limpeza facial, uma lipo, uma embelezada como se costuma dizer. No momento está em boa companhia,
no local há uma infinidade de santos e entre eles a conversa é amena. Um São José a espera de um novo cajado passa horas e horas pondo a prosa em dia com seu famoso filho adotivo:- Meu Filho! O que achou da viagem?
- Sabe pai! Estou abismado. Nunca pensei que existisse tanto progresso no mundo...
- Filho! Você veio de uma cidade pequena, isso aqui é uma cidade grande, mas com o tempo a gente acostuma...
- Que nada pai José! Aqui é que nem hospital, o que sinto é falta dos meus amados fiéis... Nenhum telefonema para saber como estou, nenhuma visita... Nadica de nada!
- Fique calmo Filho! Os homens são assim mesmo... Lembre-se do seu passado na antiga Judéia...
- Quem melhor do que eu para saber disso! Mesmo assim não me conformo... Durante as minhas procissões até brigavam para carregar meu andor, querendo demonstrar publicamente frente a milhares de romeiros seu devotamento filial e agora que estou só nem uns bons pensamentos me enviam...
- Sabia que sua mãe esteve por lá recentemente?
- Ah! Mamãe peregrina...
- Até hoje fala sobre a visita... Sua mãe é uma mulher maravilhosa, muito humilde... Gostou sobremaneira de uma concorrente...
- Concorrente?
- A tal Toda Amor!
- Ah! Sim...
- Depois do falecimento de madre Tereza de Calcutá é a primeira santa em vida de quem ouço falar! Sua mãe ficou impressionada...
- Ah! Mamãe. Continua a mesma ingênua de sempre...
- Que é isso Filho? Você como nosso líder supremo deveria ser mais respeitoso com a santarada! Sua mãe ficou deveras empolgada com a santinha Mãos Limpas! A Toda Amor.
- Papai! Se o senhor soubesse o que eu sei! De bons santos o inferno está cheio e com aquele pessoal da minha cidade vai ficar mais cheio ainda.
- Não me diga filho!
- Em cerimônias públicas lembram-se de mim... Choram... Gritam... Suplicam... Fazem a maior média. Acabou a solenidade todos vão encher a cara em lugares secretos, bebem dos melhores vinhos, cheiram os perfumes mais caros e meus pobres continuam a ver navios, alias nem navios vêem mais, pois o grande porto está assoreado a dezenas de anos.
- E você não reage?
- O povo adora quando gritam meu nome...
- Mas o povo não sabe que é pecado invocar o nome de Deus em vão?
- Pai! E o povo está ligando para isso? Eles querem é cesta básica, foguetes e festas...
- Meu Bonje! Mas que povinho hem!
- Agora que estou me reciclando, na volta vou agir diferente... Depois de ter visto tantas novidades, vou conversar com meu verdadeiro Pai e por ordem no barraco. Desculpa pai José! O senhor sabe que eu o amo e jamais esqueci que devo minha profissão, carpinteiro, ao trabalho que teve para ensinar-me.
- Bonje filho! Cuidado com esse linguajar chulo... Ordem no barraco?
- Estou falando à maneira que o meu povo entende!... E eu que achava que aquele coreto era o máximo em obra de arte! Santa ignorância. Também era o único objeto que eu enxergava do meu altar, mas agora as coisas serão diferentes... Quem viver verá!
- Não vá se exceder!
- Pai José! Quem melhor do que o senhor para saber que meu Pai verdadeiro é fogo! As sete pragas do Egito não serão nada perto do que Ele vai aprontar por lá. Eu vou exigir os meus direitos!
- Meu Bonje! Meu Bonje filho... Até que enfim!

Gastão Ferreira

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