segunda-feira, 12 de outubro de 2009

MEU CANDIDATO


MEU CANDIDATO

Ele aparenta ser humilde e cheio de amor para dar, vender ou emprestar. Muito religioso, toda à tardinha trocava a pinga e acendia um novo incenso ao santo. Cheirava mas não fedia, fumava e não tragava. Sei lá! Alguma coisa assim. Nem lembrava mais da bela figura tanto tempo faz que não converso com alguém que saiba do real paradeiro de Aparicildo.Desde que foi pego com a mão na cumbuca e em outras coisas, fugiu da cidade. Está em Brasília fazendo um mestrado! Dizia a mãe. Ah! O Aparicildo...
Sim! O nome é esse mesmo Aparicildo, Apari do pai Aparício e Cildo da mãe Cacilda. Em criança era uma belezinha, perto dos pais um anjo, longe torturava gatos e cachorros, cuspia nas pessoas, falava palavrão, um dissimulado desde o berço e ao lado de gente importante um pau-mandado de primeira.
Cildinho cresceu enviesado, um menino dividido entre a Terra e o Céu, o bem e o mal, a boneca e o estilingue. O pai o queria doutor, a mãe um estilista ou qualquer outra profissão que não necessitasse de tanto estudo e na qual pudesse sobressair e ficar famoso.
Dona Cacilda possuía educação de berço. Prestara serviço numa creche pública, setor berçário. Foi demitida por justa causa ao vender fraldas descartáveis que surrupiava do local de trabalho. Sua salvação foi o casamento, se Aparício não a tivesse pedido como esposa, hoje seria uma famosa dona de bordel ou talvez assessora parlamentar em Brasília.
A felicidade só foi completa com o nascimento de Aparicildo. Adorava vesti-lo de maneira diferenciada, no lar roupinhas de boneca, na pracinha terninho de marinheiro e quem sabe foi esse o motivo do menino ter desenvolvido dupla personalidade.
Aparicildo casou com Pedro, Zenon, Antonio e quando toda a cidade esperava pelo próximo, apareceu com a distante Penélope uma garota da zona rural que Cacilda jura até hoje que deu o golpe do baú.
Do pai Aparício herdou a beleza máscula e certo ar duvidoso de que tudo é valido. Da parte materna, Cacilda legou-lhe a vaidade, a ganância e a dissimulação. Nunca trabalhou de verdade, pois jamais encontrou um afazer a altura de seu ego gigantesco, mamou descaradamente nas tetas alheias e sempre soube tirar proveito de tudo e de todos.
Hoje recordei a história de Aparicildo ao ver seu nome no jornal. É candidato a um cargo eletivo. Ah! Com a esmerada criação e a vivência que possui, com a mania de compartilhar tudo com os amigos mais chegados, com sua lisura e honestidade, já ganhou. Quem viver verá!

Gastão Ferreira

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