sexta-feira, 30 de outubro de 2009

UMA NOBRE VISITA



UMA NOBRE VISITA

A Princesa do Litoral passou novamente pela cidade. Dessa vez chegou de barco, o qual ancorou atrás do CITUR:- Meu Bonje!Josephus, que pobreza, veja os guarda carros municipais... Tão mal vestidos.
- Esses não são guarda carros Majestades! São mendigos que estão prestando um belo trabalho comunitário, protegem os veículos de assaltos e vandalismos...
- O quê? Já temos isso nessa cidade pacata!
- Ainda não! Mas os proprietários das conduções não sabem...
- Mas Josephus! Sujinhos assim não vão afastar os turistas?
- Que turista majestade? Faz um bom tempo que por aqui só aparece meia dúzia de gatos pingados...
- Meu Bonje! Onde foram parar os turistas?
- Por incrível que pareça em Cananéia...
- O quê? Foram para aquela cidadezinha onde dizem que nem o vento presta...
- Pois é! Ela está recebendo muitos turistas... Ruas limpas, bem arborizadas, segurança e bons preços...
- Você deve estar enganado! Vamos até a praça da matriz.
- Vamos devagar majestade... Aprecie o passeio... Não se canse... A senhora vai fazer 471 anos em dezembro...
- Veja Josephus! Você estava enganado, os hotéis estão lotados, tem pessoas dormindo até na calçada...
- São pedintes majestade! Toda a semana aparece mais alguns...
- Meu povo continua generoso, adora alimentar quem não gosta de pegar no pesado...
- Não fale tão alto majestade! Vá que ouçam e pensem que seja uma carapuça, vai sobrar para a senhora...
- Josephus! Meu coreto! Que aconteceu com meu amado coreto?
- Calma majestade! Para tudo existe uma explicação. Seu coreto foi destruído...
- Isso eu já reparei! Mas como? Caiu um raio encima?
- Não Majestade! Sua cidade agora faz parte do patrimônio histórico nacional...
- Oh! E o velho coreto não fazia parte da praça?
- Sim! Mas não pertencia ao período tombado...
- Mas Josephus! Os nomes na placa também não pertencem ao tal período... Olhe aquele nome ali... Eu conheço... Eu conheço.
- Majestade! Vai sobrar para mim... É melhor sairmos da praça...
- Nem pensar! Vou imediatamente me queixar ao Bonje e resolver esse problema...
- Majestade! Tenho uma péssima notícia a vos dar...
- Pior do que o fim do coreto? Pior do que esses sem tetos e sem banhos dormindo nas laterais do templo? Pior do que o lixo no lagamar? Pior do que a falta de turistas? Pior do que a falta de perspectiva que noto no rosto dos cidadãos? Pior do que essas velhas árvores peladas? Ora Josephus! Me poupe...
- Majestade! O Bonje foi embora...
- Oh! Não... Não... Não!
- Majestade! Majestade!... Desmaiou.

Gastão Ferreira

DONA COTINHA



DONA COTINHA

Dona Cotinha melhor idade, exímia dançarina, única vencedora consecutiva da maratona “Calo de ouro”, um evento dançante promovido anualmente pelo clube Seupimpa, onde a vencedora ganha um fim de semana com direito a acompanhante no famoso resort “Adios Mutuca’s” na Barra do Ribeira, estava eufórica, acabara de conhecer Benedito e foi amor a primeira pisada no pé... Estavam dançando.
Paixonite na terceira idade é igual remédio milagroso, cura reumatismo, pressão alta, enxaquecas, nervo ciático, enfim qualquer dodói que possa infernizar a vida de quem já está para lá da Ilha Comprida, ou seja, no fim da picada, ou como se diz, na melhor idade.
Foi bailando que ela apaixonou-se. Benedito era um dançarino nato, um pé de valsa caiçara e naquela noite estava inspirado, não deu sossego à dona Cotinha e ela deslumbrada esquecia as dores na coluna e dançava e dançava.
Que homem o tal Benedito, muito jovem, alto, moreno, bem apessoado... Um tanto calado é verdade, mas para amar não há necessidade de muito converse, por vezes é até melhor ficar calado do que só falar bobagens. Dona Cotinha estava nas nuvens, digo dançando e pensava lá com suas sandálias de prata:- Quero esse homem prá chamar de meu!... E deu inicio a paquera:- Meu nome é Maria das Dores, apelido Cotinha, além de dançar muito bem, cozinho, lavo e passo...
- É! Disse Benedito com ar distante...
- Sim! Também arrumo muito bem uma casa, tomo dois banhos por dia, faço um excelente casadinho de manjuba, tainha na telha, na folha da banana, no forno...
- É!...Realmente Benedito não era de muita conversa, mas Cotinha não se deu por vencida...
- Sou aposentada, ganho muito bem, o falecido era pescador e meus filhos estão todos casados... Moro sozinha.
- É!...Não disse que Benedito era muito calado!
- São quase quatro horas da manhã, estamos dançando desde a meia noite, horário em que você entrou no clube, não poderíamos continuar nossa agradável conversa em outro local?
- Pode ser no meu barco?
- Noooossa! Você tem um barco? Vamos sim... Há quanto tempo não entro num barco...
- Vamos?
Quatro e meia da madrugada... Um barco ancorado entre a passarela e o antigo porto da balsa... Cotinha de mãos dadas com Benedito... A beira do valo completamente deserta... Neblina. Quanto mais se aproximavam do velho barco, mais Cotinha se arrepiava de frio. Pararam... O barco estava solto e flutuava a uns três metros da margem. Cotinha tremia... Alguma coisa estava errada:- Benedito! Agora que notei... Você não me é estranho.
- Claro que não Maria das Dores! Eu fui seu primeiro namorado... Benedito que há setenta anos morreu afogado.
João Carudo encontrou dona Cotinha desmaiada, eram seis horas da manhã de domingo e foi a ele que ela contou essa história que vai além da imaginação. Dona Cotinha nunca mais foi dançar no Seupimpa, agora é freqüentadora assídua da “Sandália de Cristal”, um local bem longe da água... Semana passada conheceu Alcino, um jovem caladão, com uma estranha marca vermelha ao redor do pescoço... Mora num sitio...

Gastão Ferreira

PESADELO




PESADELO

Ontem durante o sono tive um pesadelo, conheci um mundo povoado pelos personagens de todas as histórias que imaginei. Sem sol, sem luz, sem esperanças vultos vagavam na penumbra lunar. Os enforcados seguravam pedaços de cordas pendentes de seus pescoços, os suicidas pelas águas se apresentavam roídos por siris. Pessoas com furos na cabeça, outros no coração. O ladrão agarrado ao objeto furtado, o corrupto moralmente nu, mas se vendo vestido do ouro rapinado.
Os avarentos defendendo posses imaginárias, os mentirosos e vis com falsas carapuças de santos tentavam passar despercebidos. Politiqueiros gesticulando ao vento piamente crédulo que cada pedra imóvel era um desatento e corrompível eleitor.
Procissões com indigentes morais contornavam entre lamentos a grande basílica feericamente iluminada. Pagadores de promessas não cumpridas mendigavam uma prece sincera. Todos os romeiros de todos os tempos com suas cruzes, seus cilícios, seus gemidos ali se faziam presentes.
Num coreto fantasma idêntico ao destruído pelos atentos zeladores de nosso patrimônio histórico, seres deformados pela arrogância, prepotência e vaidade, discursavam entre gritos histéricos perante uma platéia imaginaria... Aves de mau agouro espiavam de sobre telhados em ruínas.
Em volta da grande praça a procissão era contínua. Falsos e cínicos carregadores de andor de todos os tempos se digladiavam chorando humilhados perante a divindade que tentaram em vão corromper, cientes dos maus passos, dos maus exemplos, das más atitudes.
Todo um passado estava presente. Índios, escravos, coronéis, rameiras e donzelas mortas por amor ou de tanto amar cercavam transeuntes em lagrimas. Todas as gentes que um dia aqui viveram estavam na praça clamando pela justiça divina. Padres de negras vestes, bispos e seus anéis, pastores e ovelhas clamavam por merecido descanso. Coronéis sem armas e sem poder, ultrapassados em vilania por novos mandatários, quedavam-se mudos frente à multidão que cobravam reparação de passados atos de tirania.
O vento sul castigava a cidade, bêbados tiveram visagens, mendigos acordaram sobressaltados... A cidade dormia desconhecendo o pesadelo. Quando a porta principal do grandioso templo foi escancarada, todos esses seres imaginários adentraram a imensa construção.
Tudo isso ocorreu num tempo sem tempo, entre dois repicar de sinos e eu era o observador... Fui o último a entrar no santuário e a praça estava vazia, todos os mortos do passado estavam dentro da matriz... Só o vento soprava entre os velhos casarões e para minha surpresa o majestoso templo também estava vazio, uma imensa paz se apoderou de minha alma apavorada e acordei sobressaltado, com a sensação que levantara um véu proibido, de um segredo que deve permanecer escondido, de uma eterna verdade onde tudo termina e tudo recomeça.

Gastão Ferreira

terça-feira, 27 de outubro de 2009

VISITA MATERNA


VISITA MATERNA

No spa onde se encontra, alguém recebeu uma agradável visita:
- Não acredito! Mamãe Peregrina...
- Bonje meu filho! Quanta saudade...
- Mamãe! Que bom que veio. Eu estou precisando tanto de um colinho de mãe...
- Oh! Filho. Noto que estás tão abatido! Serão as saudades da terrinha?
- Não mamãe! É que recebi notícias recentes do meu lar e fiquei muito magoado...
- Filho! Você já sofreu tanto... Carregou sua pesada cruz...
- Cruz credo! Nem fale em cruz perto de mim... To de saco cheio de cruz...
- Meu filho! Olhe as boas maneiras...
- Mãe! A senhora sabe o que Eu vou ver durante centenas de anos, lá do meu altar?
- As verdes montanhas da Princesinha?
- Não manhê! Uma cruz...
- Meu Deus! Nããão. Pobre filho! Será que aquela gentalha não entende que Ele tem trauma de cruz? Meu Deus! Esse pesadelo nunca termina... Oh filho! Sempre uma cruz no seu caminho... Meu Deus! Meu Deus!
- Calma mamãe! Não precisa ficar estressada... Calma... Calma!
- Vou conversar com minha amiga!
- Que amiga mamãe?
- Não te contei? A santinha Mãos Limpas...
- Mãe! A senhora quer arrumar mais encrencas? Foi ela, a santa, quem aprovou meu último e definitivo tormento...
- O quê? Ela te torturou?
- Mamãe! Mamãe! Sei que a senhora já passou a milênios da melhor idade, mas, por favor! Por favor! Mãos Limpas não é a manda chuva do local?
- Meu Bonje filho! É mesmo... Na próxima visita teremos uma conversa muito séria...
- Não mamãe! Por favor... Em cada visita a senhora arruma uma nova confusão...
- Eu? Filho! Ta me chamando de barraqueira?
- Mamãe! Mamãe! A cidade é pequena... A pedra quente fica perto... Eu ouço vozes...
- Não! Você ouve vozes?
- Sim! Fiquei sabendo do quase incêndio do meu santuário, das picuinhas com o padre, com o meu sacerdote... Bonito hem?
- Filho! Mas não fui eu que armei o bochicho... Foi aquele barraqueirinho pau mandado... Um que se esgoela de gritar quando me vê... Um sem educação... Um...
- Mamãe calma! Vá que nossa conversa esteja sendo gravada... Coitado do cronista! Vão achar que é carapuça... Calma mamãe! Calma!... Não se emocione... Calma... Calma... Isso!...Calminha! Calminha!
- Snif... Snif... Como mãe sofre e a de Cristo sofre muito mais!
- Mãe! Não precisa ficar assim só por causa de um reles barraqueiro sem educação...
- Meu filho! Ele me enganou! Enganou a Sua mãe! Ele foi só elogio... Todo amorzinho... E aprontou uma dessas para Você!...Oh filho querido!
- Mamãe! A senhora tão vivida e não conhece as pessoas... Sempre tão confiante... Tão ingênua! Se amanhã ou depois nosso inimigo vencer a ultima batalha, essas mesmas pessoas farão questão de carregarem o seu tridente... Elas são assim mesmo Mãe! Amam o ouro e o poder, e o resto que se danem...
- Meu filho! Como estás profundamente magoado.
- Não é para menos! Presentearem-me com mais uma cruz...
- Filho! Para tudo existe uma solução.
- Mas não vejo uma solução!
- Tem sim! E bem simples.
- Qual mãe? Qual?
- Não vivem dizendo que errar é humano?
- Sim! Todos os pecadores dizem isso...
- Você é metade humano, não é filho?
- Sim! Creio que sim...
- Então não retorne para lá... Confesse que errou na escolha do lugar e que agora você decidiu morar em Peruíbe...
- Mãe! Que excelente idéia!
- Mãe é mãe!
- Oh! Mamãe Peregrina...
- Oh! Filho Bonge!

Gastão Ferreira

MAIS UMA CRUZ NA PRAÇA


MAIS UMA CRUZ NA PRAÇA

São tantas cruzes na vida
Seguindo os passos da gente
Sempre uma cruz tão sofrida
Hoje uma cruz diferente...

Se for cruz de sofrimento
Essa jamais vai faltar...
Ouça do povo o lamento
Tem tanta gente a chorar!

Mais uma cruz na cidade
Em um novo monumento
Para marcar a maldade...
Nesse sofrido momento!

São sete cruzes na praça
Lembrando da escuridão
Chorando nossa desgraça
Pedindo ao povo perdão!

Perdão pela indiferença...
Essa maldade tem nome...
Perdão por tanta descrença
Que nosso sonho consome!

Gastão Ferreira

domingo, 25 de outubro de 2009

VISITA A FONTE


VISITA A FONTE

Beleza que me rodeia
É bem fácil de notar...
Coração amor semeia
Em minha alma a chorar!

Naquela fonte tão bela
Onde ELE lavou a dor
Está sobrando donzela
Está faltando pudor...

Por lá tem cheiro de mato
Tem craque, tem amador.
Tem passarinho de fato
E passarinho enganador...

Saudade que me visita
Qual o recado do mês?
Minha cidade bonita...
Vai me magoar outra vez?

As sereias quando cantam
Sempre nos querem perder
Vozes falsas que encantam
Nos caminhos do viver...

Gastão Ferreira

sábado, 24 de outubro de 2009

PASSARINHO


PASSARINHO

Pouca gente sabe, mas os bichos se comunicam entre si. Tatu entende tatu, gaivota entende gaivota, veado se entende com veado e assim o mundo fica cheio de sons e significado.
Um sabiá estava dando aula de canto a seu filhote:- Junior! Ainda bem que você nasceu no século XXI...
- Por que paiê?
- Porque no século passado você seria caçado como alimento...
- Noooossa paiê! Os humanos não criavam galinhas para alimentação?
- Sim! Mas tinham que cuidar muito bem delas e com passarinho não perdiam tempo, era matar e por na panela...
- Não diga paiê! Que tristeza...
- Seu bisavô foi um dos mártires de nossa família, era um sabiá muito esperto...
- Tão esperto que levou uma estilingada, não é paiê?
- Junior meu garoto! Você anda voando lá pros lados da fonte do Senhor? Ou foi em pátio de colégio que aprendeu essas respostas?
- Oh paiê! Os meninos humanos são tão inteligentes...
- Como assim? Se vivem falando palavrões!
- É uma nova forma de comunicação, paiê!
- É! Mudaram o nome da falta de educação?
- Esquenta não, paiê!
- Junior... Junior! Você andou bicando erva que passarinho não bica?
- Nada a ver paiê!... Paiê!Hoje voei sobre a praça da matriz...
- Alguma novidade por lá?
- Vi a construção do obelisco!
- Obelisco?
- Sim! A nova obra de arte estilo portal de entrada da cidade que enfeitará a praça...
- Ah! Aquele para o qual fizeram uma votação entre os habitantes da cidade para saberem que obra de arte colocar no lugar do coreto defenestrado...
- Fizeram uma consulta popular, paiê?
- Creio que sim! Afinal a praça é do povo e o povo tem o direito de escolher que monumento as pessoas gostariam de verem no local onde passeiam...
- Não vejo à hora da inauguração! Quero ser o primeiro a fazer um belíssimo cocô pós inauguração no fantástico monumento...
- Cuidado filhote! Você pode se ferir... Esqueceu dos foguetes?
- É mesmo paiê! Para a inauguração dessa grande obra de arte, a foguetada será inesquecível...
- Tenha cuidado! Não voe muito perto... Será que na placa constarão os nomes de todos os gênios que a conceberam?
- Acho que sim! Falam que será uma placa nunca vista... Dela constarão nome de anjos, arcanjos, querubins e paus mandados...
- Nada mais justo!
- Por que paiê?
- Filho! Esse será o único objeto feito por mãos humanas que o Bonje verá de seu altar pelos próximos séculos...
- É mesmo paiê! E Ele vai observar noite e dia tal monumento... Com certeza vai até decorar os nomes que constarão da placa...
- Beleza hem! Será que Ele vai gostar?
- Vamos aguardar o Seu regresso e anotar a Sua divina reação...
- Meu Bonje! Qual será a reação?
- Se Ele aprovar, quem sabe dará o mais breve possível o paraíso aos envolvidos no projeto...
- Paiê! E se Ele não gostar?
- Junior filhote! Eu sempre te falei que o inferno existe, mas tem muitos que afirmam que o inferno é aqui nesse mundo...
- Meu Bonje! Pai...
- Meu Bonje! Filho.

Gastão Ferreira

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

NOTÍCIAS DA CAPITAL


NOTÍCIAS DA CAPITAL

O Bonje foi dar uma geral, fazer uma limpeza facial, uma lipo, uma embelezada como se costuma dizer. No momento está em boa companhia,
no local há uma infinidade de santos e entre eles a conversa é amena. Um São José a espera de um novo cajado passa horas e horas pondo a prosa em dia com seu famoso filho adotivo:- Meu Filho! O que achou da viagem?
- Sabe pai! Estou abismado. Nunca pensei que existisse tanto progresso no mundo...
- Filho! Você veio de uma cidade pequena, isso aqui é uma cidade grande, mas com o tempo a gente acostuma...
- Que nada pai José! Aqui é que nem hospital, o que sinto é falta dos meus amados fiéis... Nenhum telefonema para saber como estou, nenhuma visita... Nadica de nada!
- Fique calmo Filho! Os homens são assim mesmo... Lembre-se do seu passado na antiga Judéia...
- Quem melhor do que eu para saber disso! Mesmo assim não me conformo... Durante as minhas procissões até brigavam para carregar meu andor, querendo demonstrar publicamente frente a milhares de romeiros seu devotamento filial e agora que estou só nem uns bons pensamentos me enviam...
- Sabia que sua mãe esteve por lá recentemente?
- Ah! Mamãe peregrina...
- Até hoje fala sobre a visita... Sua mãe é uma mulher maravilhosa, muito humilde... Gostou sobremaneira de uma concorrente...
- Concorrente?
- A tal Toda Amor!
- Ah! Sim...
- Depois do falecimento de madre Tereza de Calcutá é a primeira santa em vida de quem ouço falar! Sua mãe ficou impressionada...
- Ah! Mamãe. Continua a mesma ingênua de sempre...
- Que é isso Filho? Você como nosso líder supremo deveria ser mais respeitoso com a santarada! Sua mãe ficou deveras empolgada com a santinha Mãos Limpas! A Toda Amor.
- Papai! Se o senhor soubesse o que eu sei! De bons santos o inferno está cheio e com aquele pessoal da minha cidade vai ficar mais cheio ainda.
- Não me diga filho!
- Em cerimônias públicas lembram-se de mim... Choram... Gritam... Suplicam... Fazem a maior média. Acabou a solenidade todos vão encher a cara em lugares secretos, bebem dos melhores vinhos, cheiram os perfumes mais caros e meus pobres continuam a ver navios, alias nem navios vêem mais, pois o grande porto está assoreado a dezenas de anos.
- E você não reage?
- O povo adora quando gritam meu nome...
- Mas o povo não sabe que é pecado invocar o nome de Deus em vão?
- Pai! E o povo está ligando para isso? Eles querem é cesta básica, foguetes e festas...
- Meu Bonje! Mas que povinho hem!
- Agora que estou me reciclando, na volta vou agir diferente... Depois de ter visto tantas novidades, vou conversar com meu verdadeiro Pai e por ordem no barraco. Desculpa pai José! O senhor sabe que eu o amo e jamais esqueci que devo minha profissão, carpinteiro, ao trabalho que teve para ensinar-me.
- Bonje filho! Cuidado com esse linguajar chulo... Ordem no barraco?
- Estou falando à maneira que o meu povo entende!... E eu que achava que aquele coreto era o máximo em obra de arte! Santa ignorância. Também era o único objeto que eu enxergava do meu altar, mas agora as coisas serão diferentes... Quem viver verá!
- Não vá se exceder!
- Pai José! Quem melhor do que o senhor para saber que meu Pai verdadeiro é fogo! As sete pragas do Egito não serão nada perto do que Ele vai aprontar por lá. Eu vou exigir os meus direitos!
- Meu Bonje! Meu Bonje filho... Até que enfim!

Gastão Ferreira

domingo, 18 de outubro de 2009

CARTA NÃO ANÔNIMA


CARTA NÃO ANÔNIMA

Luna, 15 março de 2.506 DC.

Caro amigo KK-1000, espero que aí em Júpiter o tempo esteja ótimo. Aqui em Luna continuamos enfrentando problemas com os terráqueos. Esses favelados não se emendam. Ontem voltei de uma breve visita ao Brasil, fui consultar in loco os arquivos genealógicos de meus antepassados, estão concentrados numa pequena cidade do litoral no antigo estado de São Paulo.
Amigo, ainda não consegui entender como os terráqueos conseguiram destruir por definitivo o seu habitat. A cidade que visitei, uma das primeiras fundadas naquele país foi um exemplo do descaso que reinou no planeta Terra.
Consultando os arquivos holográficos do passado fiquei abismado com a beleza natural da região. Montanhas com nuances de verde de tirar o fôlego, um majestoso rio de águas piscosas, fauna e flora deslumbrante, uma infinidade de espécimes de pássaros. Comparando com a nudez e a aridez de Luna vi o que perdemos.
E saber como tudo começou foi chocante. Constam nos arquivos que a tal cidade era pacata, um local que vivia de pesca artesanal, turismo ecológico e religioso, povo hospitaleiro, festeiro e humilde. Naquela época distante, final do século XX, algo ocorreu na localidade. Uma coisa insignificante a qual os habitantes não deram a mínima atenção.
Devo lembrar para melhor entendimento que naqueles dias, as pessoas que optavam por uma melhor qualidade de vida, segurança e sossego, buscavam as pequenas cidades para viverem e a cidade a qual me refiro possuía todas essas qualidades e muito mais.
Que maravilha devia ser morar naquele lugarejo! A decadência começou quando bandos de pedintes (pedinte eram pessoas que optavam por nada produzir. Fugiam do trabalho, não tinham asseio e acreditavam que as demais pessoas produtivas deviam sustentá-los) resolveram se apossar de pontos turísticos do lugar. Os turistas foram rareando, pois eram achacados descaradamente pelos tais pedintes e como turistas presa sobremaneira a tranqüilidade, o turismo desapareceu.
Junto com os tais mendicantes vieram às drogas, o lixo acumulado, a insegurança, as doenças e todas as pragas que acompanham a decadência. As autoridades entretidas com o mando faziam vistas grossas aos problemas básicos da população. Reclamações não eram aceitas e quem ousasse criticar era tido e mantido como inimigo, o que tornava difícil o convívio social. Os comparticipes do poder possuíam segurança plena e casas monitoradas por câmaras.
Com o passar do tempo e o descaso generalizado, as esperanças de melhora foram minguando, os rios assorearam, os peixes acabaram, a religião foi desaparecendo e a escuridão moral que acompanha a decadência se apossou do local.
O que estou relatando ocorreu praticamente em todo o país. Ninguém queria estudar, crianças e adolescentes faziam o que bem queriam e por lei não podiam nem sequer ser advertidas, os professores eram impedidos de corrigirem os abusos, a paternidade irresponsável em jovens despreparados produzia pais relapsos e omissos. Os governantes criaram mecanismos de domínio pessoal chamado “bolsas” e o trabalho produtivo foi esquecido definitivamente.
Os exemplos a serem seguidos eram os artistas, jogadores e modelos. A corrupção, a ganância, a falta de ética e a imoralidade eram regras a serem aplaudidas e copiadas. Com as conquistas da astronáutica, os poucos que estudavam e prezavam o humanismo abandonaram a Terra que agonizava, criaram núcleos habitacionais em diversos planetas do sistema solar e tentaram levar uma vida mais digna.
Foi realmente uma pena termos perdido a Terra, mas como raça saímos lucrando, hoje habitamos tantos mundos e aprendemos a duras penas nossa lição, a de que somos apenas aprendizes de jardineiros nesse universo que nos foi ofertado para ser compartilhado com gratidão.
Em agosto conversaremos pessoalmente, pois estarei em Júpiter participando da grande festa em homenagem ao protetor do sistema solar. Descobri que a imagem original foi encontrada em uma praia deserta por dois índios em 1647 e levada para a cidade que visitei. Um abraço... Paz e prosperidade. ID-100T

Gastão Ferreira

sábado, 17 de outubro de 2009

AH! OS PRESENTES


AH! OS PRESENTES


Ah! Os presentes que a vida
Com o tempo vai nos dando...
Alguns fechando a ferida
E outros nos enganando!

Murmuram pelos caminhos
Pelas estradas sombrias
Sobraram apenas espinhos
E bem poucas alegrias!

É tamanha a violência...
Mas ninguém pode falar
Ah! Senhora inocência...
Não se pode reclamar?

Foi embora o Bom Jesus
Cansou de ver o pecado!
Mas deixou a sua cruz
Para um povo condenado

O amor chegou contente
Para enfim tudo mudar...
Ah! Esse amor indolente
Vai conseguir nos matar!

Gastão Ferreira

GLÓRIAS DE IGUAPE




GLÓRIAS DE IGUAPE

Quero cantar as Glórias
Dessa cidade gentil...
Iguape cheia de Glórias
Iguape de Glórias mil...

Tem a Glória Carolina
Moradora do Funil...
Ela é a Glória mais linda
Entre tantas Glórias mil!

Temos a Glória Odete
Apelido pé de anjo...
Brigava com canivete,
Surrava até marmanjo!

Temos a Glória Maria
Uma grande professora
Estudava noite e dia
Pois queria ser doutora!

Temos a Glória Regina
Tem a Glória Conceição
Temos a Glória Benvinda
Temos Glórias de montão!

Iguape cheia de Glórias
Iguape de Glórias santas!
Como é bela nossa história
Iguape de Glórias tantas!

Gastão Ferreira

LADRÃO



LADRÃO

Gente que rouba do pobre
Fazendo treta e fuxico...
Tem gente de alma podre
Fazendo pose de rico...

Pela vida vão passando
Rapinando o que podem
Cigarra sempre cantando
Até que um dia explodem!

Não entendo esses coitados
Se acharem donos do mundo
Nasceram todos pelados...
E por aqui deixam tudo!

Se colocar num caixão
Todo o seu ouro roubado!
Quem vai levar o ladrão
Nesse caixão tão pesado?

Talvez escondam de mim
Tantos crimes, todos seus!
O inferno é bem profundo
Não vão esconder de Deus!

Gastão Ferreira

terça-feira, 13 de outubro de 2009

O BACHAREL E A FONTE


O BACHAREL E A FONTE


Seu sonho era encontrar um cognome mais pomposo para juntar ao que já possuía:- Bacharel! Desterrado na vastidão do Vale do Ribeira, em suas andanças ficou sabendo de uma jovem e chorosa índia carijó que estava alimentando uma fonte com suas próprias lágrimas a qual os silvícolas se referiam jocosamente: - Hú!… Hú!… Como Fonte da Saudade.
Resolveu conferir o fato inusitado e após uma longa caminhada defendendo-se de onças, tapires, jaguatiricas e uma infinidade de animais selvagens, pois a região era de uma biodiversidade espantosa; araras, papagaios de cara roxa, azul, vermelha e amarela, garças, biguás, lontras, ariranhas, alem de uma floresta exuberante e chegou a Maratayama. Ali se informou com os selvagens guerreiros “os Negrões” que lutavam incansavelmente contra seus arquiinimigos “Os Trigos” de onde se localizava a maloca da formosa índia.
Encontrou-a em seu chororô diário, sentada a margem de uma pequena fonte. O Bacharel era muito inteligente, pois alem de ter concluído um curso universitário falava espanhol, português, francês, holandês e cinco dialetos tupi guaranis e também o nhenhengatu a língua geral da terra onde vivia, uma forma de portunhol da época.
A índia era realmente uma formosura, tipo Gisele Bündchen do pedaço, só que morena e peladona. Era de uma simplicidade espantosa, hoje diríamos,uma inocente criatura. Trocaram presentes. Ele deu a ela um velho e amassado espelho de latão português e ela retribuiu com meio quilo de mico-leão-dourado moqueado com farinha de mandioca. E, começaram o fictício dialogo:
- Por que choras inocente e bela criatura?
- Snif… Snif… Choro porque vejo o futuro…
- Mas não é pela morte de teu grande e verdadeiro amor que jamais retornou da nefanda guerra que vertes teu pranto? (repare no linguajar pomposo do Bacharel, afinal ele tinha curso superior).
- Snif… Snif… No começo sim! Mas depois me conformei e então comecei a notar imagens nunca vistas refletidas na água da fonte…
- E que imagens são essas que tanto a transtornam formosa selvagem?
- São do futuro! … De como será no futuro esse paraíso em que vivemos…
- E poderias descrevê-las para mim...Oh sibila não civilizada?
Ela não entendeu muito bem a tal sibila não civilizada, mas para não passar por ignorante fez de conta que compreendeu…
- Snif… Snif… Vejo nossas matas destruídas, nossos animais extintos, nosso grande rio assoreado e um imenso valo grande transportando toda a sorte de detritos para o lagamar…
- Oh!… E o que mais?
- Snif… Snif… Não existirão mais índios… Outras gentes cara pálidas povoarão a região… Luzes nos céus farão barulhos (foguetes)…
- Eu hem!… Que mais?
- Uma nova forma de vida chamada políticos infernizará a vida de todos e não deixarão a localidade progredir…
- Não acredito!… Mas por quê?
- Só pensarão no ouro e em si mesmos, não amam a ninguém a não ser o vil metal cor do sol… Formarão um tal de partido e só terão vez os que forem (a) filhados…
- Não estou entendendo nada!
- Nem eu!… Pois tudo isso ainda nem foi inventado. Por isso estou dizendo palavras que nem sei o que significam…
- Sejamos mais práticos!… A guerra entre “Negrões” e “Trigos” acabará?
- Enquanto existir um único “Trigo” a guerra não terminará… Os “Negrões” vencerão no final… Tupã está aflito, pois ama a todos da mesma forma…
- Salte a parte religiosa! Por favor…
- Snif… Snif… A cidade do futuro se chamará Iguape…
- Obrigado linda selvagem, prestou-me um favor inestimável, pois era com esse nome tão belo que pensava em batizar o local onde moro, mas depois de conhecer o futuro e saber o que está reservado para a cidade que tiver tal nome vou denominar minhas terras de Cananéia…
- Oh!… Oh!… Eu vi esse local tão formoso e progressista em minha fonte… O senhor será conhecido para sempre como o Bacharel de Cananéia… Snif… Snif…


GASTÃO FERREIRA

NOTÍCIAS DO FUTURO




NOTÍCIAS DO FUTURO



O homem viajava no tempo... Sua nave aterrissou no novo portal da bela cidade… Confundira-o com um moderno porto extraterrestre.
Ditinho avistou o objeto voador não identificado. Recolheu seu currico, certo de que eram fiscais de pesca a fim de multá-lo... Estava pronto para mil desculpas esfarrapadas quando foi abordado pelo piloto da aeronave:
- Saudações!… Habitante do passado. Posso saber o nome dessa localidade?
- Iguape!… Meu senhor.
- Iguape? Não pode ser!…Iguape é um bairro pobre de Registro!
- Não!… Não!… O senhor esta enganado!Aqui é Iguape e ali é o Rocio e essa água toda é o Valo Grande…
- Ah! Já entendi… Esse é o famoso valinho que se atravessava de um pulo e que depois foi desmoronando até engolir a cidade inteira…
- Meu Bonje!… O senhor tem certeza?
- Claro amigo! Venho do futuro e conheço o passado remoto dessa região…
- O senhor veio do futuro?
- Mais precisamente do ano de 2.500 D.C.…
- E Iguape não existe nesse futuro?
- Não!… Estudei bem essa localidade. Fiz vários documentários sobre a lendária Juréia…
- Mas a Juréia existe... Eu fui lá!
- No meu tempo ela é uma lenda, uma espécie de Atlântida tropical…
- Meu Bonje! E Iguape?
- Iguape foi uma cidade desaparecida. Também é uma lenda em minha época. Dizem nossas crônicas que contava com um famoso templo visitado por milhares de Romeiros. Ficou conhecida na história antiga pela questão “JvT” (Joio versus Trigo), uma disputa local que acabou ocasionando a destruição da tal cidade…
- Meu Bonje! O que era o tal “JvT”?
- Eram picuinhas de partidos políticos. Brigavam tanto entre si que se esqueciam de administrar o município… Estradas vicinais abandonadas, descaso na saúde, lixo e entulhos nas ruas, antipatias gratuitas por quem não abraçava suas idéias e métodos de agir… O Valo Grande desmoronava e assoreava o lagamar… Com o tempo uma tal de Ilha Comprida que ninguém conseguiu provar se realmente existiu, com o aterro do Mar Pequeno uniu-se a Iguape… Lotearam os terrenos e depois tudo afundou com o grande desgelo polar ficando apenas as mansões das montanhas.
- As mansões das montanhas?
- Não contei?… Toda a decadência começou quando um prefeito muito honesto e batalhador conseguiu comprar com apenas seu salário de representante do povo uma linda mansão com piscina e altos muros. Todos os que o seguiram no cargo competiram entre si para adquirirem uma moradia mais vistosa do que a dos outros…
- Meu Bonje!
- Com o tempo e novas tecnologias aplainaram o topo das montanhas e passaram a construir seus palacetes nas verdes alturas…
- Não acredito!
- Posso até mostrar fotos! Pois é uma das sete maravilhas do mundo antigo das poucas que sobreviveram as catástrofes que quase destruíram o planeta…
- Meu Bonje! Que coisa inacreditável!
- Sim!… Pensando bem foi inacreditável… Os mandatários construíram seus luxuosos palacetes com seus salários e até hoje apesar das duvidas não conseguimos provar se houve prevaricações, mas a cidade não progredia… Todo o dinheiro dos inúmeros impostos ajuda estadual, federal e mundial era rapidamente utilizado em pavimentação de estradas, reforma de escolas, maternidade e foguetes…
- Meu Bonje! Não mudaram nem no futuro…
- Com o descaso a cidade foi cercada pelo lixo, manguezal e doenças… Só os da montanha e seus afilhados tinham uma vida digna, boa alimentação, saúde e segurança garantidas…
- E ninguém fez nada? Ninguém reclamou?
- Você esta fazendo alguma coisa? Cidadão!
- Por favor! Pode pular esta parte?
- Tudo bem!… O povo sem poder criticar, averiguar e provar que o xis da questão estava na aquisição das belas mansões, começou a grilar terrenos próximos a uma localidade chamada Registro e lá construíram um favelão ao qual batizaram com o nome de sua ex amada cidade, que fora tragada pelo mar…
- Meu Bonje! E daí?
- Bem!… A classe dominante ficou isolada em suas mansões com piscinas e altos muros, no topo das montanhas. A ajuda oficial acabou… A fonte de recursos secou… E o tempo matou a todos e nem se quer temos o comprovante de seus nomes, apenas o de quem iniciou o processo… Restaram as imensas construções vazias. No meu tempo, habitadas por urubus e gaivotas e fotografadas do alto pelos raros turistas que se aventuram pelas terras selvagens…
- Meu Bonje!… Meu Bonje!
- Pare de falar meu Bonje a todo o momento! Não tem outra forma de se expressar?
- Meu Bonje!… Não!… Estou abismado…
- Afinal! Em que ano estamos?
- Em 2009…
- Meu Bonje! A decadência já começou…



GASTÃO FERREIRA

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

MEU CANDIDATO


MEU CANDIDATO

Ele aparenta ser humilde e cheio de amor para dar, vender ou emprestar. Muito religioso, toda à tardinha trocava a pinga e acendia um novo incenso ao santo. Cheirava mas não fedia, fumava e não tragava. Sei lá! Alguma coisa assim. Nem lembrava mais da bela figura tanto tempo faz que não converso com alguém que saiba do real paradeiro de Aparicildo.Desde que foi pego com a mão na cumbuca e em outras coisas, fugiu da cidade. Está em Brasília fazendo um mestrado! Dizia a mãe. Ah! O Aparicildo...
Sim! O nome é esse mesmo Aparicildo, Apari do pai Aparício e Cildo da mãe Cacilda. Em criança era uma belezinha, perto dos pais um anjo, longe torturava gatos e cachorros, cuspia nas pessoas, falava palavrão, um dissimulado desde o berço e ao lado de gente importante um pau-mandado de primeira.
Cildinho cresceu enviesado, um menino dividido entre a Terra e o Céu, o bem e o mal, a boneca e o estilingue. O pai o queria doutor, a mãe um estilista ou qualquer outra profissão que não necessitasse de tanto estudo e na qual pudesse sobressair e ficar famoso.
Dona Cacilda possuía educação de berço. Prestara serviço numa creche pública, setor berçário. Foi demitida por justa causa ao vender fraldas descartáveis que surrupiava do local de trabalho. Sua salvação foi o casamento, se Aparício não a tivesse pedido como esposa, hoje seria uma famosa dona de bordel ou talvez assessora parlamentar em Brasília.
A felicidade só foi completa com o nascimento de Aparicildo. Adorava vesti-lo de maneira diferenciada, no lar roupinhas de boneca, na pracinha terninho de marinheiro e quem sabe foi esse o motivo do menino ter desenvolvido dupla personalidade.
Aparicildo casou com Pedro, Zenon, Antonio e quando toda a cidade esperava pelo próximo, apareceu com a distante Penélope uma garota da zona rural que Cacilda jura até hoje que deu o golpe do baú.
Do pai Aparício herdou a beleza máscula e certo ar duvidoso de que tudo é valido. Da parte materna, Cacilda legou-lhe a vaidade, a ganância e a dissimulação. Nunca trabalhou de verdade, pois jamais encontrou um afazer a altura de seu ego gigantesco, mamou descaradamente nas tetas alheias e sempre soube tirar proveito de tudo e de todos.
Hoje recordei a história de Aparicildo ao ver seu nome no jornal. É candidato a um cargo eletivo. Ah! Com a esmerada criação e a vivência que possui, com a mania de compartilhar tudo com os amigos mais chegados, com sua lisura e honestidade, já ganhou. Quem viver verá!

Gastão Ferreira

OH MAÍNGA!


OH MAÍNGA!

Naquela hora tardia
Era tanta transgreção
Que a incerteza pedia
Uma voz na escuridão!

Naquela hora indecente
Em meio à desolação
Minha alma inocente
Desconhecia a razão...

Alguém mandou um aviso
Para clarear meu caminho:
- Tu vives num paraíso
E vês apenas o espinho...

Não é dono da verdade
Baixa um pouco tua voz
Saiba que a realidade
Vai alem de todos nós...

A justiça tem quem faça
Leia atento bom jornal...
O poder de tudo passa
E a vida cobra um final!

Gastão Ferreira

A BALSA


A BALSA

Foi o maior navio construído na região, imenso, majestoso. Batizaram-no com um nome feminino:- Princesa do Litoral.
Seus primeiros comandantes enfrentaram piratas, índios, revoltas, motins e guerras. Comercializavam com o mundo. Por seu porão passaram produtos vindos de Portugal, Inglaterra, Estados Unidos, China e Japão. Os passageiros da primeira classe nas festas espalhavam ouro em seus cabelos, vestiam-se a moda européia e eram tidos como referencia de bom gosto.
Com o passar do tempo o navio foi perdendo o prestígio. Primeiro esmaeceu a cor e lá se foi Eldorado, após uma terrível tempestade perdeu umas Sete Barras e por fim seu Registro também foi anulado. O navio virou um caco, fazia água, adernava, mas mantinha a pose e pose para quem vivia dela, era tudo.
O grande navio foi sucateado e com suas partes ainda aproveitáveis construíram outras embarcações mais modernas. Para não perderem nenhum material o coração da nave foi transformado em uma balsa que manteve o imponente e belo cognome:- Princesa do Litoral!
A balsa, menor e mais leve continuou singrando as águas revoltas do mar da vida. Muitos passageiros importantes dela não mais faziam uso e assim foi sendo paulatinamente esquecida. Os que diariamente se utilizavam da balsa,não se deram conta desse fato e continuaram acreditando que ela era o centro do mundo e o tempo foi passando.
Quem conhece a verdadeira origem da balsa, aquele navio privilegiado, não consegue entender tantas perdas. Como os seus donos permitiram a sua destruição? Por que não lutaram contra a adversidade? Alguém deve ter lucrado muito com isso tudo!
Hoje, revendo esses fatos e a luz de novos conhecimentos se pode chegar a uma conclusão. A razão do fracasso estava nos comandantes e imediatos que capitaneavam a embarcação. Tanto no passado como na atualidade os que comandam se acham no direito de fazerem o que bem querem, crendo erroneamente que são os únicos a amarem a velha balsa e a conduzem a seu bel prazer. Quando questionados ofendem-se e encaram os demais passageiros como inimigos, se fazem de espertos e se utilizam da balsa como propriedade particular.
Enquanto a totalidade dos passageiros não entender que são eles os verdadeiros donos, os que pagam os estragos, a manutenção e as melhorias.Que quem comanda são meros empregados e devem dar satisfação de seus atos aos proprietários,a balsa continuará sendo o que sempre foi; - Um meio pelo qual uma minoria privilegiada atravanca o progresso e garante para si e os seus um ótimo e seguro futuro.
O ideal é continuar lutando para que a balsa funcione cada dia melhor. Os comandantes e imediatos vem e vão, mas os passageiros permanecerão os únicos donos e não podem abdicar do direito de exigir o que é de seu, jamais esquecendo que foi o desinteresse que sucateou o navio do passado e o transformou na balsa atual.

Gastão Ferreira

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

A ALMA ZUNIRÁ!


A ALMA ZUNIRÁ!

A alma apara as áridas arestas. Antes assim! As amarras antigas apontam apreensões amarguradas afastando os ávidos e os arrogantes. Apenas a aurora ambiciona acobertar as arredias afeições.
Basta à banalidade brutalizar a beleza em brandos brindes e o bardo brandirá a bondade bendizendo a bela borboleta a borda do bosque e o bailado brilhante de um breve beija-flor.
Em conseqüência,a cândida criatura correrá confusa. Como conseguirei cantar se comigo coexistem crises, crimes e castigos em contagiantes cismares? Cruz credo!
Certamente contribuí em cada choque à caricatura cruel de coisas compostas contra o Céu!
Desperdício em demasia! Diria o diabo. Dado o desgosto, o desespero dirigirá o dardo em direção ao depoente. Deus dá direito à defesa e dependerá Dele o decreto definitivo.
Estamos à espera da entrega da encomenda.Encontramos entraves especiais entre o espelho e o espelhado. É evidente o engôdo!O egoísmo enegreceu o ego emergente e o esquecido esfriou o entusiasmo.
Foi fácil ferir a fera faminta e felizmente fracassou seu frágil futuro. Faremos do felizardo um fraco e facilitaremos a fabricação de fofocas e futricas. Feito o fuxico... Fui!
Gananciosos geram gastos e os gastos generosos geram a guerra. Será global o gênio glutão e a grana a genial gestora e a gentil guardiã dos gigolôs.
Hoje um honesto há de homenagear a histeria. Um homem habilidoso habitará o hospício e um herói humilhará a humanidade. É a hora do holofótico e do homicida.
A ignomínia e a insensatez serão incensadas. A ignorância será o ideal imaginário e o ignaro iluminará imóvel a imprudência, indeferindo a inefável e inoperante ilusão à insegurança.
Jamais juramos juntos!O joio é justamente a justiça em jejum, um juiz jocoso justificando o jantar, uma jura juvenil,uma justa justeza.
Lamentamos a lei. Lentamente levamos a leviandade a limites letais,
um lobo local lisonjeiro, de linhagem lôbrega ludibria o litoral em locução lucrativa.
Muitos os males! Murmuramos. A mentira mistura a musa e a merda, e o miasma mina moços e moças. É moda a miopia em mixórdia?
Nada a negar! Nunca negociamos as nossas necessidades, o nexo nutre a nebulosa notabilidade em novos nepotismos.
O ouro ofusca os olhos olvidando a omissão e a oligarquia onipotente. O opositor é um obstáculo, obstrui a oferenda oficial e ojeriza odaliscas ocultas, ofendendo o ócio.
Perante o príncipe um presente é primazia. Preservamos o petardo pestífero e o petróleo será parte pessoal a persuadir pecadores persistentes.
Sem questionar as quadrilhas quando qualificadas e as quixotescas questões do quotidiano, a quizila a querelar quase quietou.
A resposta é relevante.A redundância é referente ao reinado. As recriminações,as revoltas,os requintes e os repentes requerem rápidas e rígidas reportagens.
Seremos suficientes? Os sábios,os sacerdotes,os servos e os seresteiros em sussurros sorvem os sentimentos sinistros... Santo Suicida!
Tempos terríveis! Tronos, trovões e tipos traiçoeiros torpedeando trabalhadores em tramas e traquinagens, transgredindo o transitório em tretas e tremeliques.
Uma utopia se une a urna ultrajada,os useiros usurpam sem urbanidade um usufruto universal.
Veremos! O vexame, a velhacaria, o vampirismo venal, a verborragia venenosa e sem vergonha vergará.De vítima a vencedor... A vitória virá!

Ver:- Os xavequeiros,os xeques e os xerifes xingam os xeretas.Mas a xenofobia xaroposa é xucra.
Por Zeus! Um zagal zarpou em zelos a zumbaia zombeteira e a zorra em zunzum zurziu... Só o zéfiro em ziguezague e em zunzunzum zunirá.


Gastão Ferreira

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

NA DÚVIDA


NA DÚVIDA

Pacato cidadão! Você se julga uma pessoa civilizada? Com uma boa formação moral e sem preconceitos? Ótimo! Vamos ao teste.
Você está sobre uma ponte fotografando as belezas naturais de uma bela e conhecida região. Um carro desgovernado em alta velocidade com quatro passageiros completamente alcoolizados está voltando de uma festa num balneário próximo. O carro derrapa e é projetado na água. Nenhum dos quatro ocupantes do veículo sabe nadar.
Não vamos dar nomes aos bois para não sofrer retaliações, digamos que no carro estavam gordas ratazanas (Não gostou das ratazanas? Tudo bem! Então coloque seu bicho preferido:- Tateto, veado, ouriço, tamanduá, macaco mico leão, quati) cujo extermínio beneficiaria toda uma cidade.
O veículo está afundando rapidamente. Só você e sua máquina fotográfica estão no local. Lembra! As bichinhas não sabem nadar, aliás, esqueci de mencionar que você foi campeão de natação e prestou serviço como salva vidas no tal balneário próximo. Elas mal conseguem gritar por socorro... Eu sei o que você está pensando:- É! Merda não afunda mesmo! Que é isso cidadão? Mais respeito com nossos personagens, apesar de serem fictícios sempre pode aparecer um imbecil querendo vestir uma nova carapuça.
Pacato cidadão! O teste que pode mudar toda a sua visão do universo, seu futuro como ser humano íntegro, seu senso de responsabilidade, sua oportunidade única de colaborar com o progresso, de ocasionar profundas mudanças sociais, intelectuais e morais, é esse:- Você tiraria a foto do acidente com zoom ou normal?

Gastão Ferreira

CARTA AO PAPAI NOEL


CARTA AO PAPAI NOEL

Papai Noel, sei que o natal ainda está longe, mas como o senhor é bem velinho, desculpe como o senhor é da melhor idade talvez esqueça meu pedido. Meu nome é Benedito, apelido Ditinho. Coloquei meu nome para o senhor não pensar que é uma carta anônima. Sabe, carta anônima é coisa feia, denigre reputações, destrói amizades e famílias. Não dá chance das pessoas atingidas se defenderem. Jamais vou escrever uma carta anônima, é um péssimo exemplo de cidadania.
Papai Noel, não quero fazer fofocas, mas na minha cidade a coisa ta feia.Temos mais de quarenta mendigos perturbando turistas e moradores. Tem gente que nem vai mais à praça para não ser importunado. Meu primo ficou sem ir à escola por alguns dias por falta de condução... Estou me sentindo inseguro.
Tem muitas coisas que eu gostaria de contar ao senhor, mas vou esperar sua visita, pois apesar de ser criança posso sofrer retaliações, tem algumas pessoas por aqui que se acham donas de tudo e não respeitam nem crianças nem velhos, e ofendem qualquer um em público. Cuidado, hem papai Noel!
Um aviso de quem gosta muito do senhor; - Prenda bem as suas renas, podem virar churrasco. Estacione em lugar seguro e não permita que desconhecidos tomem conta dos presentes, roubam de tudo... Não! O coreto não foi roubado... Depois eu conto como foi.
Meu pedido para o senhor é que traga um pouco de uma tal ESPERANÇA para todos nós, que o restante a gente da um jeito.Não vá fazer igual político, prometer,prometer e não cumprir. Só mesmo o senhor para dar um puxão de orelhas em quem merece.
Eu apesar de criança estou aprendendo a não confiar em ninguém, mas ainda ponho fé no senhor. Olhe la! Não vá me decepcionar. Um abraço e até o natal.

Ditinho

Gastão Ferreira

CHAPEUZINHO/2010


CHAPEUZINHO/2010

Chapeuzinho fazia bico como garçonete no restaurante materno. Estava cansada de aturar cantadas de bêbados, ninfomaníacos, velhos babões e menininhos que se achavam reis do pedaço. Chapeuzinho tinha muitos planos, sair daquele fim de mundo, viajar, ganhar dinheiro fácil como manequim, atriz pornô, seguir carreira política ou fundar uma nova igreja. A fase de modelo passou quando um caminhoneiro gaúcho ao pagar a conta no restaurante falou:- Báh!... Mas tu és feia, hem guria!

Sua avó morava em um pequeno sitio tudo que conseguira na vida, fruto de seu honesto trabalho como garota de programa. Ao notar que há muito tempo se transformara em uma mulher de programa e antes de chegar a uma velha de programa abandonou a rendosa profissão, comprou uma gleba de terra e passou a ganhar o sustento diário como cartomante e receptora de objetos sem donos.
Chapeuzinho admirava sua avó. Uma mulher experiente, de muitos amores, bom copo, conhecedora profunda da alma humana e outras coisas que de momento não convém comentar. Boa conselheira, fora a responsável pela finíssima educação de nossa heroína.
Numa tarde de primavera, após encher duas marmitas com as sobras das refeições servidas no restaurante, foi visitar a avó; - Necessitava dos bons préstimos da vovozinha. Ou abandonava seu trabalho como garçonete e os pequenos biscates como ninfeta ou partiria de vez para a prostituição infantil.
Quase a entrada do sitio foi violentamente atacada sexualmente pelo senhor Dito Lobo, o homem mais rico das redondezas, político influente e carregador de andor em eventos religiosos, um cidadão acima de qualquer suspeita, guardião da moral alheia, ético defensor dos fracos e oprimidos. Foi salva do estupro eminente graças ao facão de um anônimo passante que ouviu seus gritos de socorro. A vovó gravou e fotografou a cena com o comportamento despudorado do senhor Lobo, que assim ficou documentado para possíveis ressarcimentos morais e pecuniários.
A fim de evitar uma exposição midiática negativa, o senhor Dito Lobo presenteou o anônimo passante com toda a grana que havia em sua gorda carteira. Vovó ganhou uma ampla casa na cidade onde inaugurou recentemente um luxuoso bordel e Chapeuzinho um tripléx na capital, uma generosa conta bancária acompanhada de poupança e toda a vez que o senhor Dito Lobo viaja a capital, Chapeuzinho é presenteada com mimos e jóias.

MORAL DA HISTÓRIA:- As histórias infantis também mudam.

Gastão Ferreira

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

FORMIGUINHA


FORMIGUINHA

A Formiga batalhou a vida inteira. Era um exemplo a ser seguido. Os pais diziam aos filhos:- Façam como a Formiga! Não tinha nada, mas acreditou na força do trabalho e de folha em folha ganhou posição e fortuna.
Todos entoavam loas à esforçada Formiga. Devido ao prestigio alcançado, os Tamanduás, Tatetos, Onças, Veados, Quatis, Macacos, Urubus e Serpentes, em fim quase a totalidade dos habitantes da floresta indicaram a Formiga para representá-los.
A Formiga abraçou a idéia e percorreu tocas, buracos, ninhos e lagos:- Tenho as patinhas limpas! Sou toda amor e meu sobre nome é honestidade! Dizia. Fez promessas, discursos, chorou em público e na privada. Conquistou corações e mentes, foi à grande vencedora.
Os animais da floresta ansiavam por reformas, segurança, progresso e transparência. O ultimo representante, o Raposão, fora afastado do cargo por improbidade, ou seja, por roubo e maracutaias. Agora sim! A honestidade, bom senso e amor vão trazer e fazer as mudanças tão esperadas. Diziam.
A Formiga manteve a mesma estrutura do governo anterior, delegando mais poderes as Raposas suas subordinadas e herdeiras do grande Raposo defenestrado. Os bichos da floresta continuavam confiantes:- Não tem problema! A Formiga sabe o que faz. Tem ética e estamos em boas patinhas.
Quase um ano após assumir a chefia nada mudou na floresta, mas muita coisa mudou para a Formiga; - Conheceu muitos reinos, viajou de avião, helicóptero, foi apresentada ao grande Formigão, freqüentou bons restaurantes, ótimos hotéis e fez turismo com os amados Raposos de sua equipe.
Hoje mal cumprimenta velhos amigos, anda com seguranças e aí de quem ousar fazer uma observação a suas atitudes. Nomeou uma raposinha nervosinha como pau-mandado para xingar os desafetos e insultar os críticos de sua fantástica administração.
Quem diria a Formiga enganou os animais da floresta que tanto confiaram em seu passado íntegro. Agora estão propensos a escolherem uma Cigarra a fim de substituí-la. A Cigarra tem fama de boa vida e gostar de cantar, mas quem sabe ao assumir um compromisso perante o reino, mude o comportamento... A Formiga mudou!

Obs.:- Isso é uma fábula, não serve de carapuça, os personagens são fictícios. Qualquer semelhança com a realidade é mera especulação e maldade.

Gastão Ferreira

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

BENEDICTA

BENEDICTA

Benedicta tinha um sonho,conhecer um parente. Foi dada em criação aos dez anos de idade para uma mulher do Rio de Janeiro que se comprometera a dar-lhe estudo e carinho. Foi transformada em empregada sem remuneração e trabalhou a troco de comida e abrigo. Quando reclamava, além das surras, castigos e pequenas torturas, a terrível frase:- Você foi dada como um filhote de cachorro!Cala a boca e seja grata.
Benedicta apesar da pouca idade tentou desesperadamente contatar com a mãe. Escrevia-lhe cartas contando seus inúmeros problemas, nunca recebeu resposta. A menina apagou o passado, suas recordações infantis, fechou a porta da mente e bem no fundo escondeu as saudades. Quando a pessoa que a criou faleceu, esquecidas em uma gaveta encontraram todas as sentidas cartinhas dirigidas como prece a uma mãe distante. Benedicta contava com quase vinte anos e seu passado soterrado entre tantas dores. Nunca perdeu a esperança de rever os familiares.
Como toda a mocinha, apaixonou-se! A mãe de criação não querendo perder a empregada gratuita, não permitiu o casamento. Benedicta lutou por seu amor e casou-se contra a vontade da patroa, que como presente de despedida lhe disse:- Essa foi minha paga por tanta dedicação, sua ingrata? Pois fique sabendo que sua mãe morreu e você jamais encontrará um parente e nunca será feliz!
Benedicta foi expulsa da casa com a roupa do corpo.Casou-se,vieram quatro filhos. O tempo passou. Ela nunca esqueceu o nome da mãe, Maria Santana e das poucas lembranças que afloravam de tempos em tempos não conseguia diferenciar a realidade do sonho; - Brincava com amiguinhos japoneses, uma capelinha no alto de um monte, pescadores e alguns nomes, Nadir, Silvio, Antonio, Benedita, Aline, Félix. Quem seria?Qual sua participação na infância de Benedicta?Um nome que ela jamais esquecera foi Iguape.
Em véspera de completar setenta anos, a filha Ana resolveu dar um presente a Benedicta,a possibilidade de conhecer um parente. Começou a procura. Ana e irmãos, criados no Rio de Janeiro, tinham como ponto de partida as esparsas lembranças da mãe que devido aos traumas infantis as soterrara no inconsciente e quando as mesmas afloravam, junto vinham às sofridas recordações das pequenas e grandes maldades que povoaram sua infância. Não queriam que a mãe sofresse, não podiam forçar suas recordações. O único nome consistente era:- Iguape.

Jô, uma professora do interior de São Paulo notou na internet (Orkut) uma mensagem de Ana e o nome Iguape chamou-lhe a atenção, era sua cidade natal. Entrou em contato com Ana e forneceu-lhe o e-mail de um desconhecido do qual lia pequenas sátiras num jornal cultural de Iguape. Ana solicitou ajuda ao desconhecido. Foram dias e dias de uma inútil procura. Na prefeitura local nenhum parente de Benedicta constava do cadastro de contribuintes. Sabia-se dos parentes porque a primeira providencia foi procurar no cartório de registro de nascimento a certidão de Benedicta através da data natalícia e nome dos pais. Pela primeira vez Benedicta ouviu o nome dos avôs... Que alegria! Sua família existiu realmente.
O desconhecido vasculhou a cidade. Unidade de saúde, obituários, igrejas, cartório eleitoral que negou ajuda. Foi atrás das reminiscências do passado, as crianças japonesas, a capela, os pescadores... Jipuvura? Um bairro onde foi fixada a primeira colônia japonesa no Brasil. Por lá havia a capela sobre o monte, as crianças e pescadores. O desconhecido procurou pelos moradores antigos, fez dezenas de amigos, pessoas com quase cem anos de idade buscavam em suas quase perdidas recordações por nomes do passado, queriam ajudar... Dona Benedicta não podia ser forçada a recordar-se, já sofrera em demasia.
O município de Iguape é imenso, 1.964 km quadrados, 70% florestas, com dezenas de bairros rurais a margens de rios, montanhas e lagamar. Transporte precário, época de chuvas, locais distantes e de difícil acesso. O desconhecido tinha que se ater as recordações da menina Benedicta, as crianças japonesas, uma capelinha sobre o monte e os pescadores. Iguape vive de pesca artesanal e possui dezenas de pequenos rios que deságuam no grande rio Ribeira de Iguape e cada vila tem sua capelinha em um lugar mais elevado.
O desconhecido fica desesperado, Ana não tem como fornecer informações, não podia questionar a mãe com falsas esperanças. O desconhecido possui um blog (eu-amo-iguape. blogspot.com) com centenas de fotos de Iguape e como ultima tentativa pede à Ana que mostre as fotos a sua mãe. Benedicta ao ver uma foto da estação ecológica da Juréia, onde estava escrito Cerro Azul começou a balbuciar:...Azul!...Cerro Azul!...Eu nasci em Cerro Azul...
O desconhecido retornou ao cartório de registro de nascimentos e fala com a cartorária Márcia, que a essa altura da história já era sua amiga no Orkut e pediu para analisar pessoalmente a certidão de Benedicta, pois na vez anterior o auxiliar de cartório apenas lhe fornecera os dados (pai, mãe, avós, etc.) que constavam do documento. E lá estava o bairro Subauma, Iguape e nesse local havia uma pequena vila chamada Cerro Azul.

O detetive novamente sai à procura de habitantes de Subauma que moram em Iguape, encontrou dona Helena no bairro do Rocio, a idosa senhora foi amiga dos parentes de dona Benedicta, forneceu o nome de alguns tios e o telefone. Ana telefonou ansiosa para o tio de sua mãe. Não quiseram atender a ligação do Rio com a estranha história,temerosos de que fosse um trote ou coisa pior.
Dona Benedicta depois de tanto tempo estava próxima de conhecer um parente. Não pediu, mas o desconhecido vai até Cerro Azul. O tio procurado havia vendido o sitio e se mudara para Pariquéra, um município vizinho, mas segundo o vigia do sitio, os parentes moravam a 5 km dalí, em Subauma. O detetive foi a pé, era pertinho como disse o caseiro. Todos os parentes de dona Benedicta estavam por lá. Tios, primos e surpresa das surpresas, dona Benedicta tinha um irmão Silvio, que ela em suas lembranças julgava ser um coleguinha de infância. A capela estava sobre um pequeno monte e os amiguinhos japoneses de dona Benedicta eram pequenos curumins de uma tribo indígena que está localizada a um quilometro do centro da vila.




Dona Benedicta ficou feliz, antes do final do ano virá a Iguape para abraçar um por um seus velhos tios que também a julgavam perdida para sempre nesse vasto mundo, mas que nunca a esqueceram.
A vida é isso, essa maravilha mutável que nos espanca e nos acaricia. Nunca desistam de sonhar, de acreditar, tudo flui e tudo pode acontecer, basta à boa vontade de acreditar e querer ser útil, de se colocar no lugar do necessitado e estender a mão na hora do socorro. Somos todos comparticipes desse mistério chamado existir, irmãos em humanidade e filhos da mesma fonte criadora. Felicidade e paz dona Benedicta, um desconhecido realizou o seu sonho. Obrigado a todos que me auxiliaram nessa busca, vocês fazem a diferença em nossa Iguape, todos nós saímos vencedores.

Gastão Ferreira