segunda-feira, 28 de setembro de 2009

COCOS CHEIROSOS


COCOS CHEIROSOS

Tem gente em minha cidade
Que tem o rei na barriga.
Na alma negra maldade...
Vivem de pose e de briga.

Quando vêem um andor
Querem logo o carregar.
Mas todo o bom pecador
Quer sempre Deus enganar.

Não cumprimentam ninguém
Tão importantes se acham...
Não podem ver um vintém
Para o dinheiro se agacham.

Todos sabem que no fundo
Deram as almas ao tinhoso.
Fedem iguais a todo o mundo
São nossos... Cocos cheirosos!

Gastão Ferreira/2009

domingo, 27 de setembro de 2009

EU PERDI


PERDI

Saudade falou teu nome
Foi importante? Não sei!
Fantasma que vem e some
Caminhos por onde andei...

Em noite do esquecimento
Como posso te lembrar...
Minha alma igual a vento
Sopra por tanto lugar...

Em um passado distante
Eu fui escravo e fui rei...
Mas hoje sou caminhante
E de quase nada sei...

Já perguntei a saudade
Onde eu te conheci...
Teu nome é FELICIDADE...
Lembrança do que perdi!

Gastão Ferreira/2009

domingo, 20 de setembro de 2009

ADEUS CORETO


ADEUS CORETO
16/09/2009

La se foi o meu coreto!
Sou contra a demolição
O boi-tatá está preto...
Só falta soltar rojão!

Para quem vive de festa
Sem ter boa profissão...
É necessária uma fresta
E a grana vem de montão.

Grana para o necrotério?
Essa nunca chega não...
Vá a pé pro cemitério
Ou em carrinho de mão!

Construção em todo lado
Dinheiro muda de mão...
Menino! Fica calado
Ou vai levar bofetão!

Gastão Ferreira

MINHA VOZ


MINHA VOZ

Eu não nasci para escravo
Nem capacho de ninguém!
Eu sou limpo e não lavo...
Nome sujo de quem tem!

Eu sou livre igual vento
O que eu tenho batalhei
Procurei o meu sustento
Nunca na vida roubei...

Por que tudo que falam
Eu tenho de concordar?
E quando eles me calam
Eu não posso discordar?

Quero ser bom eleitor
E não passar por otário
Sangue de trabalhador
Não sustenta salafrário!

Pois tudo é igual na vida
E o ar é de todos nós...
Eu olho, vejo a ferida...
Que ouçam a minha voz!

Gastão Ferreira

sábado, 19 de setembro de 2009

NINHO DE AMOR


RIR OU CHORAR

Na vida são dois caminhos
Os que podemos trilhar...
É entre amor ou espinhos
Onde vamos caminhar...

Sei que o fardo é pesado
Tão difícil carregar...
E com o corpo magoado
Mais leve não vai ficar!

Pois então meu camarada
Vamos ter que o suportar
Chorando ou dando risada
O peso não vai mudar...

A nossa vida é breve!
Não vale a pena sofrer...
Torne a tua alma leve
O importante é viver!

Por isso os dois caminhos
Levam ao mesmo lugar...
Onde o amor faz seu ninho
A dor jamais vai chegar!

Gastão Ferreira/2009

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

MEU MAPA


MEU MAPA

Pelas muitas madrugadas
Pelo tanto que vivi...
Por ermos e por estradas,
Terras que eu nunca vi...

Fui percorrendo a vida
Como bom navegador.
Com minha alma vestida
De poeta e sonhador...

Estas marcas são espinhos
Das lições que eu aprendi!
Andei por tantos caminhos
Onde sempre me perdi...

Resolvi fazer um mapa
Desses lugares fatais...
Se do mundo levei tapa
Agora... Não levo mais!

Gastão Ferreira

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

E O BOM JESUS FOI EMBORA


E O BOM JESUS FOI EMBORA

“Tudo começou em Portugal no ano de 1647. Encaixotado, fui embarcado em uma nau a caminho de Pernambuco. Em meio a uma violenta tempestade um descrente jogou-me ao mar. Qual Noé por um longo tempo vaguei sobre as ondas. Quando me dei conta, dois índios haviam me resgatado do cativeiro líquido. Queriam porque queriam me conduzir a Itanhaém... Fiz meu primeiro milagre e acabei vindo para a cidade de Iguape em 02/11/1647.
Minha história é longa e minha memória excelente. Os iguapenses, devido a meus muitos milagres, resolveram presentear-me com um belo templo e em 1787 (demorou hem!) iniciou-se a obra que foi concluída em 30/06/1876... Meu Pai! 89 anos para construírem uma igreja, nem Eu entendia a demora. Tanto ouro jogado fora e Eu aqui esperando e fazendo milagres.
Dessa época lembro-me dos escravos, feitores, senhores de engenhos e principalmente do mestre canteiro José dos Reis que ficava horas e horas conversando comigo. Ah! O primeiro sino a gente nunca esquece, 29/06/1873. Meu primeiro relógio, outubro de 1879. No ano de 1912 para acabarem com meu sossego fui presenteado com dois anjos corneteiros, em 1925 o assoalho da nave principal foi substituído e finalmente em 1962, meu representante na Terra através de um documento chamado bula papal me fez proprietário. Eu sou o dono da basílica.
Que maravilha! Uma basílica imensa e Eu, lá do alto de Meu pedestal espiando a praça frente à igreja. Minhas beatas evitavam namorar por ali, temerosas que Eu notasse seu comportamento serelepe. Vi coisas que nem Meu Pai acredita! O pessoal da pedra quente fofocando, Meus dez mandamentos indo Funil abaixo. Meus bem amados carregadores de andor, exemplos de honra e honestidade... Nem te conto o que aprontavam em beneficio próprio. Minhas donzelas! Melhor pular essa parte sórdida... O coreto!
Sim, o coreto! Quanta música ouvi nas tardes de domingo. As crianças brincando de esconde-esconde. Os sem tetos e bêbados confundindo-o com um albergue noturno. Alguns casais afoitos fazendo ali o que deveriam fazer em um motel. Oh! Meu amado coreto.
Ontem não acreditei quando vi! Estavam destruindo o coreto. Meu Pai! Aqueles que vivem pedindo-me favores, verdadeiros milagres, carregando entre empurra-empurra Meu andor nas procissões, acendendo velas e solicitando Meu auxílio para não caírem do cavalo. Cair do cavalo? Nem se usa mais esse termo, agora é cair do telhado!Quem diria esses filhos ingratos demolindo o Meu coreto! Cansei... Basta!
Chega! Além de Eu ficar dia e noite ouvindo palavrão, algazarra, fofocas, sem-vergonhices, som altíssimo, pedintes achacando minhas visitas, ficar sem Meu coreto? Nunquinha... Fui!”

Obs. - No dia 16/09/2009 iniciou-se a derrubada do coreto. Em 17/09/2009 a imagem do Senhor Bom Jesus foi encaixotada como em 1647 em Portugal e abandonou a cidade. Em tempos de mãos limpas para não pegar vírus,também Ele lavou as mãos e desconsolado, sem dizer adeus... Partiu!

Gastão Ferreira

terça-feira, 15 de setembro de 2009

A CIDADE DAS CARAPUÇAS

A CIDADE DAS CARAPUÇAS

História verídica ocorrida na França, Ano Domine 1.100. Anotada por Tristan de Ycaparrá e traduzida do francês medieval pelo autor do texto.

I - YCAPARRÁ
“No pequeno burgo francês de Ycaparrá, no ano mil e cem de Nosso Senhor e Salvador, passou-se um fato inusitado, o qual chegou ao meu conhecimento através do bobo da corte de sua majestade Fedegunda I, Consorte Real e sem sorte na vida prática.
Neste ameno e quase desconhecido local todos os vassalos e nobres usavam carapuças, assim fora determinado pelo alcaide do rei. As lojas mantinham estoques apreciáveis de tal vestimenta, pois desde o berço deviam ser utilizadas, e, como criança cresce muito rápida a troca de carapuças eram constantes. Se bem que as pessoas da plebe vil usavam a mesma carapuça a vida inteira. As dos nobres eram douradas, indicando poder e algumas salpicadas com purpurina para indicarem outras coisas. Os puxam sacos colocavam carapuças até em cães vadios.

II - A CARAPUÇA
Um belo dia uma carapuça foi encontrada num banco de praça. Os aldeões curiosos a examinaram e comentavam entre si:- De quem será tal carapuça? Será do peixeiro?
- Não! Do peixeiro não pode ser, pois não tem cheiro de peixe.
- Será de algum protegido do alcaide? Também não, não tem vestígio de baba e eles vivem se babando a toa.
- Será do senhor vigário? Nem pensar, ela não parece nada com uma santa carapuça.
Ficaram assim horas e horas, esquecidos de seus afazeres, tentando colocar a carapuça em alguém, quando perceberam que um terrível bando de bárbaros havia saqueado o burgo.


III – O ALCAIDE
O alcaide e seus mosqueteiros, armados até os dentes com seus mortíferos mosquetes em vez de perseguirem os famigerados bandoleiros começaram a bater nos fofoqueiros (tradução aproximada do termo frufruquéle. Francês medieval não é fácil!) e entre gritos e impropérios exigiram que cada um dos presentes no local experimentasse a carapuça, sob pena de ser enforcado se assim não o fizessem.
Todos os aldeões vestiram a carapuça que não serviu em nenhum deles. Iniciou-se um zum zum zum para que os nobres também passassem pelo mesmo teste. Os plebeus formavam uma multidão e o alcaide que não era bobo, apenas idiota e metido a besta, enviou seus famigerados mosqueteiros na captura dos nobres.

IV - OS NOBRES
Nenhum nobre foi encontrado em suas nobres casas, pois enquanto a cidade era saqueada, os mais nobres entre os nobres participavam de uma reunião secreta planejando aumentar impostos, outros enterravam seu ouro rapinado em negociatas e maracutaias e muitos outros haviam viajado a custa dos suados impostos dos pobres súditos até o palácio do rei ou a outras freguesias em distantes terras dizendo que estavam a serviço da plebe, quando na verdade estavam mesmo era turistando.

V - O PEREGRINO
Os mosqueteiros, temerosos de voltarem à presença do alcaide sem um dono para a carapuça, encontraram um maltrapilho alcoolizado recém chegado de uma peregrinação a Terra Santa e que por La adquirira o nefando hábito de ingerir alcalóides e num rompante de autoritarismo vestiram nele a carapuça. Bateram tanto no caminhante que a carapuça acabou servindo e o levaram a presença do alcaide que imediatamente mandou enforcá-lo.

VI - O CAÇADOR
O peregrino ainda estava debatendo-se na forca quando adentrou a praça, esbaforido, um jovem caçador que aos gritos perguntava:- Alguém encontrou a carapuça da minha avó que perdi?
Esta história foi cantada em toda a França pelos menestréis por ordem Real, para que plebe vil, nobre e vassala ficasse ciente que toda a carapuça tem dono e que não há necessidade de matar alguém quando queremos vesti-la forçadamente. Basta dar tempo ao tempo que o dono se manifesta. ”Tristan de Ycaparrá/France/1.100AD.”

Gastão Ferreira/Iguape

CALA A BOCA


CALA A BOCA

Quem ele pensa que é?
Será que sabe pensar...
Na malandragem põe fé
E já não pode parar...

Eu reconheço um ladrão
Que tenta nos assaltar...
Em tudo enfiando a mão
Sem medo de se ferrar!

Quando pensa que fala
Qual palavra vai dizer?
Mas quando olha e cala
Tem coisa a nos esconder!

Pense naquilo que digo,
Meu pacato cidadão...
Pois em tudo eu me ligo
E chamo a sua atenção!

Eu não quero ter tristeza
Por aqui sou de passagem
Sofro em meio à safadeza
Cala a boca e gatunagem!

Gastão Ferreira/Iguape

domingo, 13 de setembro de 2009

COMO VOAR


COMO VOAR

Quando aprendi a voar
Eu não era passarinho...
Era um menino a sonhar
A procura de um caminho!

E nos meus sonhos pensava
Que todo o mundo era igual
E um preço alto pagava...
Por me sentir tão normal.

Pois toda a gente falava:
- Esse menino! Não sei...
Passarinho que cantava,
No meu peito eu matei...

Fui aprendendo a mentir,
Em fera me transformei
E nas lutas do existir
Pela vida naufraguei...

Hoje cansado de tudo
Vindo de tanto chorar
Saudade! Menino mudo
Me ensina como voar!

Gastão Ferreira/Iguape

FÁBULA - SOZINHO NA LAGOA

FÁBULA – SOZINHO NA LAGOA

I - REINO ENCANTADO
No tempo em que cachorro era amarrado com lingüiça e o mundo bobinho, existiu um reino encantado onde todos eram felizes. Os reis, rainhas, nobres e mandantes divertiam-se de manhã à noite sem se preocuparem com outros afazeres. O varredor varria, o pescador pescava, o padre benzia e o povo trabalhava satisfeito.

II - O BASTARDINHO
Entre um almoço e uma janta sua majestade real teve seu rebento. O rei orgulhoso nunca desconfiou que seu filho fosse bastardo, que o pai da criança era o Risadinha, o bobo da corte mui amigo da rainha.

III – MAU FADO
O tal principezinho nasceu de mau fado e a cada quatro anos fazia de tudo para não virar sapo e morar na lagoa. Apesar de chato era sortudo, pois sempre uma donzela bem tontinha lhe dava um beijinho e ele voltava contente a maltratar toda a gente.

IV - COISA FEITA
Teve uma época em que tal fato não ocorreu, faltaram donzelas no reino e ele ficou longe do bem bom. Aproveitou seu tempo na lagoa, fez curso de costura, pintura, bordado, teatro, capoeira, fez tricô e quando retornou chegou modificado, mal amado e desbocado, a plebe murmurou:- É coisa feita! Mas nunca atinaram com a causa.

V - PESCADOR
Um pescador foi chamado à presença real e viu o príncipe de mil jóias vestido, mil trejeitos, olhar de quem provou do proibido, fala macia, gestos tresloucados e um modo de andar bem descuidado. Contou na praça a visagem que teve e o povo caiu na gargalhada. O rei ficou sabendo, pois sempre há espiões por todo o lado e o gentil pescador foi sentenciado. O soberano foi matando quem ousasse murmurar de seu herdeiro, e o reino ficou quase um deserto, tantos e tantos foram degolados.

VI - SAPO É SAPO
Um belo dia o príncipe virou sapo novamente, era sua sina, e como todos já sabiam de sua bela fama, nem a donzela mais sacana quis beijá-lo e assim, sozinho, ficou para sempre na lagoa.

MORAL DA HISTÓRIA: - SEM DONZELA! SAPO É SAPO.
Gastão Ferreira/Iguape

O POETA E O VENTO

O POÉTA É O VENTO

O vento vinha ventando pelos caminhos do mundo. Espiava sobre os telhados, sobre velas de jangadas. Cantava pelas esquinas, ventava pelas estradas.

O vento perdeu o rumo numa noite sem luar e dormiu feito criança sonhando com o seu ventar. Acordou na madrugada ouvindo um galo a cantar e La no alto do monte o vento ficou espiando a cidade despertar. Viu o povo batalhando na procura do melhor, professor professorando, pedreiro a pedreijar. O pastor pastoreando, a criança a estudar. O rio sereno buscando as águas azuis do mar. E o vento encantado, com tudo o que ele via, da cidade enamorado, pelas esquinas corria.


Viu a velha na janela olhando o fim da rua. Ouviu riso de menina, ouviu prantos e canções. Viu na mesa de quem come o que no prato restou, viu mendigo mendigando que com fome despertou.


Viu amor e abandono. Viu tristeza e solidão, viu o pobre e o rico, viu o doente e viu o são. Viu pessoas trabalhando em diversa profissão. O amor abrindo portas, ódio fechando em prisão. Viu um dedo apontando a beleza e a podridão. Muita gente se encontrando, outros perdendo a razão. Viu olhares de incertezas, viu desprezo e safadeza em quem nunca se amou. Viu orgulho, viu pobreza, viu bondade e viu horror. Viu maldade gratuita, coração enganador, viu gentinha se achando ser de tudo o senhor. Viu sonhos desencantados, ouviu gritos de agonia. Amantes desesperados vivendo de fantasias.

O vento quedou-se mudo. Só ventar é o que sabia. O vento nunca pensou que essa cidade existia. Soprou no banco da praça uma brisa de alegria e os casais de namorados o seu beijo ali sentiam. Soprou no adro da igreja e o rezador se benzia. Soprou no supermercado, nos bares e padarias, no varejo e no atacado, na porta do cemitério. Soprou por todos os lados, soprou por sobre mistérios.
Na cidade já desperta, o povo se perguntava:- Que será que acontecia que o vento tanto ventava?


O vento sabia tudo, tudo o que se passava. Corria de casa em casa e a tudo espiava. Passou pelos gabinetes dos mandantes do local. Ouviu risos e palpites, viu o bem e viu o mal. Leu na banca de revistas as notícias no jornal. Viu ladrão e viu polícia, viu os barcos no canal.

O vento ventou mansinho, pois de tudo ele entendia, em sua vida de vento ventava todos os dias. Afastou-se da cidade, sobre a montanha dançou e depois seguiu ventando e de tristeza... Chorou!

Gastão Ferreira/Iguape

sábado, 12 de setembro de 2009

OS ANÉIS DA RAINHA

FÁBULA:- OS ANÉIS DA RAINHA



I - THUDETH
Idade média, burgo de Thudeth, Inglaterra, reinado de Blanchet I, rainha pela graça divina e do povinho vil. Nessa época histórica, também conhecida como idade das trevas, a vida não era nada fácil, não existia emprego pleno, saúde de qualidade, as ruas eram espaços esburacados, os bardos e raríssimos escritores perseguidos como emissários do diabo. Os nobres se locupletavam com o ouro recolhido de impostos e tudo o que dava lucro era dividido entre os apaziguados com a realeza.



II - A RAINHA E SEUS ANÉIS
A rainha Blanchet I gostava do precioso metal e seu tesouro era cantado até em outros reinos. Ela já estava meio passadinha, digamos na melhor idade, por isso a plebe ao se referir a sua fortuna dizia:- As jóias da coroa. O que mais chamava a atenção eram os anéis que Sua Majestade orgulhosamente exibia, possuía vários. Três eram idolatrados pela soberana, e tinham até mesmo nomes próprios:- “Meu - chefinho”, ”Pau-mandado” e “Seu-vizinho”. O povo os conhecia:- Olha a Rainha! Hoje ela está com “Meu - chefinho”!Não!Não! Aquele é “Pau-mandado”! Nooossa como brilha!



III – SIR GIL LIGHTNING
A Rainha entretida com suas jóias e o reino no maior abandono... Mas o povo não se esquecera de um nobre cavalheiro que ajudou a rainha a conquistar o trono de Thudeth, Sir Gil Lightning, que fora posto de escanteio em favor dos anéis. Foi graças às qualidades morais e éticas empenhadas como aval pelo cavalheiro que a rainha subira ao trono e o povo recorreu a seu campeão e nobre servidor. Não queriam destronar a rainha, tida como uma boa pessoa, caridosa e prestativa. O que almejavam é que ela parasse de valorizar tanto suas preciosas jóias e começasse a cumprir as métas prometidas na disputa pelo trono.



IV - O DRAGÃO
O nobre cavalheiro Sir Lightning recorreu ao truque do Dragão. Solicitou a construção de um horrendo monstro a um carnavalesco de um reino distante e escondeu o horrível ser em uma caverna próxima ao burgo de Thudeth. O cavalheiro chamou todo o povo para um grande evento, povo adora grande evento, frente à caverna.
Estavam todos na maior animação quando o Dragão cuspindo fogo saiu da caverna, agarrou a rainha com suas garras afiadíssimas. O povo em pânico gritava:- Não mate nossa rainha! Oh não! Não!
O Dragão, bicho sacana e que adora uma encenação, trovejou com sua voz de dragão:- Não matarei a rainha se ela me der seus três anéis preferidos! Quero agora “Meu - chefinho”, “Pau-mandado” e “Seu-vizinho”, agora!
- Não! Não! Não! São como filhos para mim!Meu ar! Minha vida! São pedaços de mim!Qualquer coisa, menos meus amados anéis! Gritava uma histérica rainha Blanchet I.



V - SALVAÇÃO DO REINO
Sir Lightning, tão nobre que era o único que aparentemente o Dragão respeitava, aproximou-se da rainha e murmurou em seu ouvido Real:- Deixa de ser besta Blanchinha! Da logo a droga desses anéis que depois a gente compra outros! São tão mal afamados que o melhor mesmo é dá-los ao Dragão.
Foi com esse truque que o bom e nobre cavalheiro Sir Lightning livrou o reino e libertou a rainha. Essa mesma rainha Blanchet I passou a história como uma grande e bondosa soberana.

MORAL DA FÁBULA:- Melhor um reino do que três anéis.


Gastão Ferreira/Iguape

MEU DEUS!

MEU DEUS!



I - NA FLORESTA

O dia amanhecera tranqüilo. O formigueiro estava despertando lentamente. As formigas operarias já haviam se alimentado e se dirigiam ao trabalho. A classe dominante ainda dormia, a noite fora farta em comes e bebes, e como sempre a festança acabara tarde.
As operarias dirigiram-se ao interior do jardim em busca de comida. Tinham que agir com o máximo cuidado, hoje, levavam consigo uma inocente formiguinha desconhecedora do mundo que a cercava.



II - FORMIGUINHA

A formiguinha bobinha como só podia ser uma inocente aprendiza, estava embriagada com as novidades e tudo observava. Ávida para tudo contar às coleguinhas que ainda não podiam sair do formigueiro.
Notou o sol imenso e luminoso. O céu azul sem fim. Arvores com folhagens deslumbrantes.
O vento que soprava mansamente. A água que corria murmurando sobre seixos coloridos. Pedras imóveis e mudas, majestosas em sua solidão. Extasiava-se perante tanta beleza e dizia: - o Grande Formigão, o que tudo fez! É um pai generoso. Olha como foi bondoso comigo! Quanta comida! Quanta fartura! Quanta… foi levada pelos ares por um sabiá para alimentar seus filhotes.



III – O SABIÁ
O sabiá que desde manhãzinha buscava alimento para sua prole, voando em direção ao seu ninho pensava lá com suas plumas: - O Grande Sabiá, o que tudo fez! É um pai generoso e bom. Deu-me de presente essa insignificante formiga que alimentará meu filhote.


IV – A COBRA
A cobra descobrira o ninho na noite anterior e aguardara a saída do sabiá para devorar seu petiz. E enquanto procurava uma moita para enrodilhar-se e digerir calmamente sua presa, agradeceu: - Oh! Grande Cobra, a que tudo fez! Obrigada pela farta alimentação.



V- MEU DEUS!

Joaquim matou a cobra e cuidadosamente tirou o couro, que vendeu para o sapateiro Zé Galvão. E alegremente agradecia ter ganhado seu sustento diário: - Obrigado meu Deus, o que tudo fez! Obrigado pelo pão de cada dia… Não terminou a oração, foi assaltado por um rapaz encapuzado que o deixou desmaiado, sem roupa e sem dinheiro.
O encapuzado comprou a sua dose diária de Crack e entrou a viajar: - Obrigado Paizão, o que tudo fez! Obrigadúúú… nem chegou a sentir o tiro certeiro bem no meio da testa... O jornal da cidade noticiou alguns dias depois: - meliante encontrado com a boca cheia de formigas. Obrigado meu Deus!Por menos um.
Lá em cima, bem lá em cima Ele balançava a cabeça: - São todos meus filhos! Eu os criei! Quanto tempo perdido, meu Deus!


Gastão Ferreira/Iguape