domingo, 30 de agosto de 2009

PARABÉNS



PARABÉNS

Esta cidade foi fundada logo após a descoberta do país. Teve tudo para dar certo, participou de todos os ciclos que fomentaram o progresso. O do ouro, canavial, escravatura, arroz, possuiu importante porto fluvial e marítimo. Deu a pátria filhos ilustres, deu a si própria o cognome “Princesa do Litoral” e nunca mais saiu disso.
Que será que impossibilita o progresso local? Seus habitantes são pessoas afáveis, educadas e gentis. Trabalhadores, sempre em busca do melhor para si e os seus, não pode ter partido dos mais humildes esse destino cruel que pesa sobre a localidade. A cidade é pródiga em acolher forasteiros de todas as paragens e a população por esse motivo tem todas as mesclas possíveis. Brancos, pretos, amarelos e vermelhos tem seus representantes entre os ecléticos caiçaras.
A conclusão que se chega é que o desmazelo, a falta de progresso e perspectivas de melhoras não pode ser imputada ao povo, mas sim a alguns elementos entre a classe dominante que querem manter o status e temerosos de perdê-lo tudo fazem para atrasar propositadamente a localidade. Teimam em viver de glórias passadas, acreditam serem donas de corações e mentes, como se estivéssemos na época do império. Na verdade não passam de cem os que atravancam o progresso.
Algumas se crêem gênios e agem como se estivéssemos no século XVII. Recentemente foram quase destruídas as árvores de uma velha praça, o motivo, alguns menores arruaceiros estavam depredando o local. Ao invés de colocar um guarda para manter a ordem acharam mais cômodo desgalhar as árvores para uma melhor visibilidade como se elas fossem culpadas pelo o que ocorre no jardim público.
Onde estão nossas estátuas? Onde está o leão da Fonte do Senhor?
Onde foi parar o veado de bronze que estava na mesma Fonte? A placa comemorativa da visita de Albert Camus a cidade? A placa de bronze do Cristo Redentor? O Leão da passarela? Os anões que enfeitavam a pacata rua ao lado do Supimpa? O sino do cemitério, os santos desaparecidos, as pratarias roubadas das igrejas? A efígie do Papa Pio XII? Os marcos geodésicos que há séculos enfeitam logradouros públicos? Os antigos chafarizes?Verdadeiras obras de arte que lembram nosso passado histórico. Se não nos importamos com nossa herança passada como vamos nos importar com o futuro?
Para quem reclamar? Qualquer reclamação e somos apontados como inimigos! Qualquer crítica e somos mal vistos e vítimas de enxovalhos públicos. Nossos lideres não querem liderar pessoas, querem comandar ovelhas surdas e mudas. Quando questionados já vem com discursos prontos, tentando impor no grito o que pensam ser correto, não dão chance ao diálogo como se estivessem lidando com idiotas. Onde fica a cidadania? Quem discorda é discriminado e jamais convidado para participar de algo construtivo.
Estamos nas mãos dos que fazem o que bem querem sem consultarem a opinião dos cidadãos. Admitem sempre as mesmas pessoas em todos os conselhos. Como são escolhidos os participantes dos conselhos?Qual o conhecimento técnico dessas pessoas? Sua visão ética do bem comum? Sua moral perante a sociedade?É crime questionar isso?
Há algo errado em se fazer perguntas?
Nossos líderes são extremamente sensíveis, se magoam fácil, cobram o impossível, esquecidos que foram eles que prometeram o impossível em discursos eleitoreiros. Quem tem direito a mágoas é o cidadão que acreditou nas promessas e deu seu voto. Como falar bem de nossa cidade? Falar bem do que?Da mendicância que já é um problema crônico?Dos drogados que assaltam e matam? Dos baderneiros gritando alta madrugada?Do descaso com nossos bens comuns? Orla do lagamar, beira do valo, estátuas desaparecidas?
Temos que preservar o que herdamos dos antepassados, essa cidade tem histórias para contar, essa cidade é importante, essa cidade era para ser um exemplo por ser uma das primeiras. Como ser exemplo se destruímos nossas árvores, sujamos nossa água, destratamos nossos cidadãos e encaramos como inimigos quem tem a coragem de mostrar que o rei está nu? Todos os reis sempre estiveram nus, todos os reis vestem mantos de arrogância e prepotência, todos os reis morrem e viram nomes de ruas. A culpa não é dos reis, a culpa é nossa que não fazemos cobranças, que temos medo de pedir o que é direito nosso.
Parabéns meu povo! Parabéns aos que tiveram coragem e participaram do ato cívico e exigiram segurança. Parabéns! Vivemos num país livre, temos o direito a reivindicações, temos o direito de pedir justificativas á nossos representantes. Tomara que daqui para frente possamos perder o medo e exercer a cidadania plena, nunca esquecendo que ninguém está acima da lei e que todos nós somos responsáveis por nossa bela cidade e que com ela temos muitos deveres.

Gastão Ferreira

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

O DETETIVE


O DETETIVE

Na cidade uma lebre fora levantada:- Onde estão as estátuas e objetos históricos que desaparecem de jardins, igrejas e logradouros públicos?Consultaram videntes, búzios e tarôs. A resposta foi unânime:- Hum!Hum!
Com a chegada de um novo morador que se dizia detetive sua ajuda foi solicitada. Explicaram ao investigador particular que várias e antigas obras de artes desapareceram nos últimos anos, tais como a placa comemorativa em bronze da visita do escritor Albert Camus, o famoso sino do cemitério, santos barrocos de uma igreja local, o leão da passarela, o leão da fonte, um veado de bronze também da fonte do Senhor, objetos sacros de uma antiga igreja, alguns marcos geodésicos históricos em forma fálica que estavam espalhados por diversos pontos da cidade e o mistério mais recente:- Onde estaria a esfinge do Papa Pio XII? Retirada por artesãos, após falha tentativa de roubo noturno por elementos desconhecidos e encaminhada a quem de direito zela por tais objetos, perante testemunhas oculares e que nunca mais foi avistada.
Os jornais, revistas, rádios e redes de televisão cobram mensalmente o paradeiro de tal esfinge, pois desconhecem o que realmente ocorreu. Os órgãos informativos acreditam em furto premeditado e querem descobrir o ladrão, eis o motivo da contratação do detetive particular.
O investigador, esperto como somente um investigador pode ser, imediatamente começou seu trabalho e propôs algumas hipóteses:- Os objetos foram furtados a mando de um conhecedor de obras de artes e vendidos a colecionadores particulares, os objetos foram retirados de seus locais e levados para enfeitarem casas e jardins de pessoas acima de qualquer suspeitas, a esfinge do Papa e a placa de bronze da Albert Camus foram emoldurada e estão possivelmente na sala de visita de alguém. Semana passada o detetive foi torturado e morto em sua residência, nada de valor foi levado, apenas a pasta com o resultado de suas investigações. A polícia acredita em queima de arquivo e colocou a disposição um telefone para denúncia anônima. Quem souber de algo ligado ao desaparecimento dos objetos históricos, favor entrar em contato, eles são de todos nós e sua posse por particulares é crime.

Gastão Ferreira

Obs.:- O texto acima é ficção, não serve como carapuça, mas se alguém souber do paradeiro dos objetos favor informarem aos jornais.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

PAU MANDADO DO REI


PAU MANDADO

A plebe tem um estranho comportamento, não pode ver um nobre que se põe a babar. Reclama de tudo pelos becos e escurinhos da vida, desde o destrato casual do rei, do vestuário caipira das princesas, dos costumes dos poderosos. Faz insinuações maledicentes sobre a corte e comezinhos do palácio, mas na hora do vamos por para quebrar sempre tem uma recaída:- Oh! O rei é lindo, acenou para mim.
Esquece facilmente que é usada pelos detentores do poder. Pior de tudo, o poder sabe disso e se aproveita da situação. Esta história começou nas cortes medievais, quando os reis se achavam escolhidos por Deus e que por isso deviam ser diferenciados.
Um rei cujo nome a história nem marcou, tão insignificante foi seu reinado, recolheu ao palácio uma criança órfã para servir de pajem e brinquedinho a seu tolo filho. Alimentou-o, curou suas doenças e o vestiu com belas roupagens. A criança tudo aprendeu sobre o submundo do poder. Apunhalou seus mestres, indicou amigos ao cadafalso, jogou desafeto barranco abaixo. Tal mancebo fez escola e a partir dessa data todas as cortes adotaram a prática de terem entre os seus um “pau mandado” para cumprirem fielmente as piores ordens dos poderosos, costume que se perpetuou no tempo.
Esses seres humanos chamados de paus mandados são facilmente reconhecidos em todas as cortes do mundo. Propensos a armarem barracos, sorrisos congelados e falsos, olhos arregalados, mil trejeitos, insinuantes e venenosos ao extremo, com o tempo lideram subgrupos que se apegam ao poder e a tudo se submetem para não perdê-lo. Um único antídoto é capaz de exterminá-los, a sua não aceitação. Eles não conseguem sobreviver longe do foco das atenções, transformam-se em alcoólatras, drogados, degeneram rapidamente e morrem. Um pau mandado em lugares civilizados tem vida curta. Em locais ainda carentes de progresso, cidadania e educação, sobrevive por longo tempo.
Um pau mandado é tudo o que um político incorreto sonha possuir. Ele é o alvo das intrigas, desafetos e fofocas, desviando a atenção dos atores principais para si e arcando com as conseqüências. Custa caro ao poder, mais caro do que admitir fracassos, pois sempre é causa de desavenças e retaliações. Ainda bem que entre nós não existe tal prática, estamos em boas mãos e a transparência é total, sinal que trilhamos o caminho certo.

Gastão Ferreira

BEM VIDOS A XAPRALÁ


BEM VINDOS A XAPRALÁ

Xapralá, a rainha do litoral nordestino é uma cidade diferenciada. Cercada por montanhas, rios caudalosos, um povo simples e batalhador, potencial turístico inigualável, com políticos exemplares que de tudo fazem para alavancarem o progresso e o bem estar do pequeno município.
A boa educação, refinada cultura e o comportamento ético dos mandantes xapralenses é cantada em prosa e verso:- Tão educado e gentil quanto um xapralense! Tão honesto quanto um culto xapralense!
Xapralá não nasceu rainha nem nobre. Foi uma aldeia indígena em seus primórdios. Ganhou fama e títulos quando o mundo descobriu a bondade, honestidade e bom caráter de seus habitantes que nunca ofendem ninguém nem se melindram gratuitamente causando constrangimentos aos demais moradores. A formação moral, intelectual, ética e pública em Xapralá está completa e é uma rainha de fato.
Em Xapralá não existem buracos nas ruas, casas em ruínas, pedintes, alcoólatras nas praças. O lixo é tratado, todas as crianças desfrutam de escola e lazer, noites calmas, seguras e serenas nada de crimes, assaltos ou escândalos em público ou em privado.
Sendo uma cidade voltada ao turismo, é muito festeira, tem o “Boi Cotó”, um bloco carnavalesco símbolo da cidade que em datas especiais e feriados sai pelas ruas chamando os cidadãos a folia. Outros blocos que marcam presença, “Os Leões de Chácaras”, ”Urubus Vegetarianos”, ”Melindrosos & Melindrados de Rua”, ”Educadinhos da Titia”, “Ouriços Culturais” e o mais famoso de todos, “O Banho da Sinhá Moça”, onde moças, moçoilas, mocinhas, donzelas e simpatizantes confraternizam-se frente ao mar.
Xapralá é um exemplo de cidadania, onde tudo e todos dão (?) certo, fica aqui o convite:- Conheça Xapralá e saiba como é viver numa pacata cidadezinha onde todos se respeitam. Seja você moço criança ou velho não perca a oportunidade de compartilhar da cultura local, um pedacinho do paraíso onde o ódio, a arrogância e o despeito não têm vez. Atualmente ela está em boas mãos e a transparência é motivo de orgulho geral. Bem vindos a Xapralá.

Gastão Ferreira

terça-feira, 25 de agosto de 2009

ESSA CIDADE É NOSSA


ESSA CIDADE É NOSSA


ANO DE 1984, VERÃO, FINAL DE SEMANA. CIDADE LOTADA, CENTENAS DE ÔNIBUS VINDOS DO INTERIOR DO ESTADO, FILAS NA TRAVESSIA DA BALSA. UMA FESTA! TUDO ERAM FESTA, BARES E CLUBES LOTADOS, RISOS E CONVERSAS. DROGAS? SIM! ALGUNS POUCOS GAROTOS QUE TODOS SABIAM O NOME ERAM APONTADOS COMO USUÁRIOS. A POLÍCIA DAVA BATIDA NO MEIO DA MATA PARA ENCONTRÁ-LOS E TODA A CIDADE COMENTAVA O OCORRIDO. ASSALTOS? NEM IMAGINAR! CARROS COM CHAVES NO CONTATO, JANELAS E PORTAS ABERTAS, BICICLETAS FICAVAM DIAS ENCOSTADAS NA CALÇADA ATÉ ALGUÉM RECONHECER A QUEM PERTENCIA E AVISAR O “TORRADO” ONDE ESQUECERA SUA CONDUÇÃO.
POUCAS RUAS TINHAM CALÇAMENTO, TUDO AREIA POUCA ILUMINAÇÃO. OS CLUBES LOTAVAM AS NOVE DA NOITE E A UMA DA MANHÃ ERA RARO ENCONTRAR ALGUÉM PELAS RUAS DESERTAS. CRIANÇAS BRINCAVAM FRENTE SUAS CASAS E NAMORICOS OCORRIAM NOS PORTÕES, AO LADO DE PAIS E MÃES ATENTOS E LIGADOS NO COMPORTAMENTO DOS FILHOS.
NO MAR PEQUENO CARDUMES DE PARATIS E TAINHA SALTAVAM A FLOR DA ÁGUA, BOTOS NADAVAM PELO CANAL. VIVÓCAS ERAM APANHADAS COM PEQUENAS VARAS DE PESCA COM BÓIA EM TODA A ORLA. O MARISCO E O CAMARÃO ERAM OFERECIDOS DE PORTA EM PORTA E COBRADOS CONFORME O ESTATUS DO FREGUÊS. ERAMOS FELÍZES EM NOSSA SIMPLICIDADE, CONTAVA-SE NOS DEDOS QUEM POSSUIA UM CARRO, UMA MOTO. O SONHO DE CONSUMO ERA UMA BICICLETA PARA PASSEAR, PAQUERAR, TRABALHAR.
INICIOU-SE A CONSTRUÇÃO DA PONTE, A ILHA FOI EMANCIPADA, O POSTO DA MARINHA FECHOU, O CLUBE PRIMAVERA FECHOU, O BANCO DO BRASIL FOI EMBORA, NINGUÉM DISSE NADA... NINGUÉM DISSE NADA CONTRA OS ABSURDOS VALORES COBRADOS EM PEDÁGIOS DE ÔNIBUS, OS MANDANTES NÃO QUERIAM SABER DE FAROFEIROS. NOSSO TURISMO É PARA QUEM PODE GASTAR EM BONS HOTÉIS (?) E RESTAURANTES REFINADOS (?), FORA COM OS FAROFEIROS! FORA COM OS POBRES! QUEREMOS TURISTAS COM MUITO DINHEIRO!... E FICAMOS CALADOS OBSERVANDO BARES, RESTAURANTES, PEQUENOS COMÉRCIOS, LANCHONETES, CLUBES E BARRAQUINHAS NA ORLA MARÍTIMA FECHAREM POR FALTA DE CONSUMIDORES.
ALGUNS BARES NA PRAÇA LOTAVAM ÀS OITO HORAS DA NOITE, POIS TODOS QUERIAM DESFRUTAR DAS POUCAS MESAS. CANTORES FAMOSOS SE APRESENTAVAM NOS CLUBES E A GRANDE FESTA RELIGIOSA CONTAVA COM MILHARES DE ROMEIROS. QUINZE DIAS ANTES DO INÍCIO DA FESTA CHEGAVAM OS MENDICANTES, SEMPRE OS MESMOS, JÁ OS CONHECÍAMOS DE FESTAS ANTERIORES, SABÍAMOS QUE NO FINAL DOS FESTEJOS SEGUIRIAM PARA OUTRA FESTA EM CIDADE PRÓXIMA.
HOJE, OLHANDO A CIDADE NOTO O PROGRESSO. NOVOS BAIRROS COM BELAS CASAS, RUAS ASFALTADAS, MUITOS SUPERMERCADOS, COMERCIO DESENVOLVIDO, VEÍCULOS EM PROFUSÃO, PESSOAS BEM VESTIDAS, ALIMENTAÇÃO DIFERENCIADA E PERGUNTO-ME:- SOMOS FELÍZES? EM QUE ESSE PROGRESSO NOS MODIFICOU?
OS PAIS, COMO FAZEM HÁ SÉCULOS CONTINUAM MANDANDO A DURAS PENAS SEUS FILHOS PARA ESTUDAREM FORA (MEDICINA, ODONTO, ENGENHARIA...). E QUE DEPOIS DE FORMADOS TRABALHARÃO LONGE DAQUI. QUEM QUER VENCER VAI PARA SÃO PAULO, SANTOS, CURITIBA, CAMPINAS, EXTERIOR. OU SEJA, CONTINUAMOS A PERDER O NOSSO MELHOR, O QUE TEM UMA VISÃO MAIS AMPLA DA REALIDADE, OS QUE VÃO A LUTA, OS QUE FAZEM A DIFERENÇA E POR AQUI FICAM OS CALADOS, OS SEM VEZ. NÃO OS PERDEDORES, ESSES SE ENTREGARAM A PEQUENOS FURTOS, AS DROGAS, A AUTODESTRUIÇÃO. MATARAM OS SONHOS DOS PAIS, AFOGARAM SEUS FUTUROS NO ALCOOL, NA DESILUSÃO, INCAPAZES DE NOTAR QUE CENTENAS DE PESSOAS AQUI SE REALIZAM COM UM TRABALHO MAIS SIMPLES E COM DEDICAÇÃO MELHORAM NOSSA CIDADE, GERAM EMPRÊGOS, CRIAM RAÍZES PROFUNDAS COM ESSA TERRA.
HOJE NOTAMOS CRIANÇAS ALTAS HORAS DA NOITE (UMA, DUAS DA MANHÃ) SOLTAS NA RUA. ADOLESCENTES (MAIS MENINAS) GRITANDO PALAVRÕES NA MADRUGADA, ACHANDO ISSO A COISA MAIS NORMAL DO MUNDO, PERTURBAR O SOSSÊGO ALHEIO. COLOCAMOS GRADES EM NOSSAS PORTAS E JANELAS, CONVIVEMOS COM SEM TÉTOS QUE NUNCA VIMOS E QUE NUNCA VÃO EMBORA, COM MENINOS DROGADOS QUEBRANDO TELEFONES PÚBLICOS E VIDRAÇAS, COM PEQUENOS E GRANDES FURTOS PARA A COMPRA DO VÍCIO, CONVIVEMOS COM O DESCASO E A REBELDIA... E CONTINUAMOS CALADOS VENDO A DETERIORIZAÇÃO MORAL TOMAR CONTA DE TANTOS DENTRE NÓS. VENDO AQUELES QUE SE JULGAM DONOS DA CIDADE, DONOS DE NOSSAS MENTES NÃO DIZEREM UM BASTA A TUDO ISSO, POIS COMO SEMPRE FAZEM O QUE BEM QUEREM E SEM O MÍNIMO CONSTRANGIMENTO, SEM DAR SATISFAÇÃO AO POVO QUE REPRESENTAM SEM APRESENTAREM SOLUÇÕES A NOSSOS PROBLEMAS BÁSICOS, COMO SE FOSSEMOS UM BANDO DE IDIOTAS, GADO CONDUZIDO AO MATADOR, OVELHAS PARA TOSQUIAR, E, SENTIMOS O DESAMPARO E NÃO TEMOS A QUEM RECORRER, E SENTIMOS O MÊDO E NOS TRANCAMOS EM NOSSAS CASAS DE GRADES SEGURAS E VAMOS PERDENDO A ESPERANÇA, O BRILHO, A GARRA, O AMOR PROPRIO E FICAMOS CALADOS SUFOCANDO A VÓZ, E, QUANDO DEFINITIVAMENTE PERDERMOS A VÓZ ESTAREMOS MORTOS E INFELÍZES, POIS JAMAIS TEREMOS EM NÓS A REALIZAÇÃO PLENA COMO CIDADÃOS DE BEM.
TEMOS QUE COMBATER NOSSA PROPRIA ESCURIDÃO, NÃO COMPETE A NÓS MODIFICAR A MORAL ALHEIA, MAS SIM A NOSSA. TEMOS QUE AMPLIAR NOSSOS CONCEITOS, NOS VOLTARMOS PARA O HUMANISMO, A COMPAIXÃO, A BENEVOLÊNCIA. SE NÃO TROXERMOS A LUZ DO ENTENDIMENTO PARA DENTRO DE NÓS, EM QUE SEREMOS DIFERENTES DOS QUE TENTA NOS HUMILHAR, DOS QUE COMPARTILHAM A DESONESTIDADE, DOS QUE SE JULGAM MELHORES DO QUE OS OUTROS? SE NÃO AREJARMOS NOSSAS MENTES, SEREMOS IGUAL À ÊLES, TALVEZ PIORES. NÃO COMPETE A NÓS SEU JULGAMENTO, COMPETE A VIDA. A NÓS É NECESSÁRIA A TOLERÂNCIA, MAS TAMBÉM É NECESSÁRIA A REALIZAÇÃO. NÃO PODEMOS FICAR CALADOS ENQUANTO NOSSOS SONHOS ESTÃO MORRENDO VÍTIMAS DO MÊDO DA RETALHAÇÃO. ÊLES CONHECEM NOSSO MÊDO, MAS DESCONHECEM NOSSO AMOR, SÃO PESSOAS MESQUINHAS ENREDADAS NA ILUSÃO PERECÍVEL DO PODER, CORAÇÃO NAS TREVAS, NÃO CONSEGUEM COMPARTILHAR A NÃO SER ENTRE SI. CRIAM SUAS PROPRIAS ARMADILHAS QUE OS ACOMPANHARÃO NUMA VELHICE SEM ALEGRIAS, NO FINAL ESTARÃO A SÓS EM SUAS BELAS CASAS DE ALTOS MUROS CERCADOS DE CONFORTO MATERIAL, MAS DE ALMAS VAZIAS E EXTREMA SOLIDÃO. NÃO PODEMOS TRILHAR TAL CAMINHO, SOMOS FILHOS DO ESCLARESCIMENTO. SOMOS FILHOS E HERDEIROS DESSA TERRA ABENÇOADA. TEMOS DEVERES PARA COM ELA E TAMBÉM TEMOS MUITOS DIREITOS. TEMOS O DIREITO DE QUE NOSSA VÓZ SEJA OUVIDA, NOSSOS SONHOS COMPARTILHADOS, NOSSO FUTURO PRESERVADO.
SE NOS MANTIVERMOS CALADOS SEREMOS TRAGADOS PELA ESCURIDÃO MORAL DOS QUE PENSAM APENAS NO PROVEITO PROPRIO, DOS QUE MATAM SONHOS E PRODUZEM PESADÊLOS... ACORDEM! ACORDEM! VAMOS RECONQUISTAR NOSSO ESPAÇO, ESTA CIDADE É DE TODOS NÓS, NOSSA CASA, NOSSO LAR, NOSSO PONTO DE REFERÊNCIA NO MUNDO. VAMOS EXIGIR O QUE TEMOS DIREITO COMO CIDADÃOS:- TRANSPARÊNCIA, HONESTIDADE, PROGRESSO E REALIZAÇÕES CONCRETAS. NÃO SOMOS OVELHAS PARA TOSQUÍO, NÃO SOMOS GADO NO PASTO, PAGAMOS NOSSOS IMPOSTOS, SOMOS SERES HUMANOS E QUEREMOS SER RESPEITADOS COMO TAIS.

GASTÃO FERREIRA/IGUAPE/2009

BICHO SEM NOME


BICHO SEM NOME


COMO OBSERVADOR DE NOSSOS COSTUMES UM FATO CHAMA A MINHA ATENÇÃO, É ALGO NÃO DEFINIDO, UM PRESENTIMENTO, UM ALERTA, UM CHEIRO NO AR. AS PESSOAS QUANDO NECESSITAM DE UM FAVOR NOS CHAMAM PELO NOME, SÃO AMÁVEIS, ELOGIAM, TORNAM-SE SINÔNIMOS DE SIMPATÍA E SIMPLICIDADE. PASSADOS ALGUNS DIAS CASO NOS ENCONTREM PELA RUA NOS DESCONHECEM OU NOS CONFUNDEM COM POSTES, LAJOTAS, SACOS DE LIXO, OU SEJA, UM DESPRÊSO TOTAL, ESQUECIDOS QUE SERES HUMANOS NÃO SÃO RECICLÁVEIS E QUANDO DESCARTADOS MELINDRAM-SE PROFUNDAMENTE.
NOTA-SE MUITO ESTA PRÁTICA EM ÉPOCA DE ELEIÇÃO; - OS SOLICITANTES DE VOTOS SABEM NOSSOS NOMES, APELIDOS, QUEM SÃO OS PARENTES, OS AMIGOS E ATÉ MESMO O NOME DE NOSSO CACHORRO. FINDO TAL PERÍODO RARAMENTE NOS CONCEDEM UM BOM DIA NUM FORÇADO E FALSO SORRISO COMO PREMIO OU FAVOR EXTRAORDINÁRIO.
ESTA PRÁTICA É TAMBÉM USUAL EM NOSSO COMÉRCIO. ENTRAMOS EM UMA LOJA E O DONO (A) VEM AO NOSSO ENCONTRO COM ALEGRIA, COMO UM VELHO E QUERIDO AMIGO ATÉ O MOMENTO DE FAZER A COMPRA E PAGÁ-LA, DEPOIS CASO PASSE POR NÓS EM OUTRO LOCAL NÃO SEREMOS SEQUER CUMPRIMENTADOS, IGUAL CÃO SEM DONO OU UM ANIMAL NA SARJETA.
ANALISANDO ESSES FATOS CHEGUEI A UMA CONCLUSÃO:- NÃO SOMOS VISTOS COMO SERES HUMANOS, NOSSOS SENTIMENTOS NÃO IMPORTAM E NEM FAZEM DIFERENÇA. SOMOS TIDOS COMO BICHOS UTILIZÁVEIS, SERES PARA USO E DESCARTE. UM BICHO COM DONO PARA OS MOMENTOS DE PRECISÃO E DEPOIS MAL AMADOS E DESDENHADOS. CASO NÃO HAJA NECESSIDADE, QUE SE DANE, NÃO SEI QUEM É NÃO INTERESSA, MAS EM NOVA QUERÊNCIA TEREMOS UM DONO, UM PARTIDO, SEREMOS CHAMADOS A COLABORAR COMO ADÉPTOS, CORRELIGIONÁIOS, IRMÃOS DE FÉ E CAMARADAS.
SOMOS VISTOS COMO ANIMAIS A SEREM EXPLORADOS, NÃO AQUÊLES ANIMAIS DE ESTIMAÇÃO AOS QUAIS SE DISPENSAM CUIDADOS, ALIMENTAÇÃO E CARINHO. SOMOS TIDOS COMO ANIMAIS QUE TEEM A OBRIGAÇÃO DE ABANAR O RABO, CONCORDANDO COM TUDO E FAZENDO FESTINHAS MESMO QUANDO AFRONTADOS. A CULPA É UNICAMENTE NOSSA POR ESSE TRATAMENTO TÃO INVULGAR. SER CONFUNDIDO COM BICHO NÃO É DESCULPÁVEL, MAS ACEITAR ISSO COMO NORMAL REPETIDA VEZES É QUESTIONÁVEL.
NÃO PODEMOS DEFENDER O INDEFENSÁVEL, O LADRÃO, O CORRUPTO, O APROVEITADOR, O PEDÓFILO. SOMOS NÓS QUE APLAUDIMOS A INEFICÁCIA, A PILANTRAGEM, A PREPOTÊNCIA, A ARROGÂNCIA. SOMOS NÓS QUE DAMOS NOMES AOS BOIS, QUE DAMOS MANDO A DEUSES DE PÉS DE BARROS, DEUSES QUE INTIMAMENTE NOS DESPREZAM. SOMOS A BASE EM QUE CRIAM E REALIZAM SEUS SONHOS DE PODER QUE NOS SUFOCAM E NOS DESMERECEM COMO CIDADÃOS E COMPARTÍCIPES DA VIDA.
ESTÁ NA HORA DE ACORDAR E OLHAR A NOSSA VOLTA. DE FAZER A DIFERENÇA, DE EXIGIR RESPEITO E TRATAMENTO COMO PARTICIPANTES DA SOCIEDADE. COM VÓZ PARA OPINAR SEM RETALIAÇÕES, NÃO APENAS COM DEVERES, MAS COM MUITOS DIREITOS. NÃO SOMOS PARTE DA PAISAGEM, NÓS SOMOS A PAISAGEM REAL E NÃO PODEMOS ACEITAR SER TRATADOS COMO BICHOS SEM NOMES.


GASTÃO FERREIRA/IGUAPE/2009

domingo, 23 de agosto de 2009

ORAÇÃO


ORAÇÃO

Ave! Cheia de graça.
Ave! Cheia de luz.
Tem fel na minha taça
Tem um povo na cruz!

Embalaste o Seu berço
Ouviste a Sua voz.
Sei que tens apreço
Interceda por nós!

Nessa negra hora
Na cidade aflita
Tanta gente chora
E um filho grita:

- Oh Nossa Senhora!
Mãe do Redentor
Nos socorra agora
Com o teu amor...

A treva afasta
Ao progresso induz
Ave! Cheia de graça
Ave! Cheia de luz.

Gastão Ferreira/Iguape

MEU MUNDO


MEU MUNDO

O mundo era grande
Nele cabiam caravelas
Sonhos, especiarias...

Tratado de Tordesilhas
Muitas capitanias
Hereditárias sim senhor!

Era vasto o mundo
E o homem tão criança
Cheio de esperanças...

Televisão, computador!
O mundo encolheu...
Virou uma ratoeira.

Meu mundo? Minha casa
Com grades no portão
Com medo do ladrão!

Gastão Ferreira/Iguape

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

A GAIOLA - COCHO & BERNE



A GAIOLA – COCHO & BERNE

Montanhas verdejantes, rios piscosos e lá ao longe o soluçante mar. Uma gaiola no alpendre, nela dois pássaros, Cocho e Berne, entre eles um pote de alimentação que mal da para saciar a profunda fome de ambos. Quando o Cocho se apropria da comida, o Berne sofre, definha, chora e maldiz a vida cruel, mas pensa la com suas penas:- Quando o pote for meu! O Cocho me paga, nem as migalhas o deixarei bicar.
Os pássaros não têm consciência de seu cativeiro. São egoístas e orgulhosos, cada um só pensa em si e no próprio bem estar. Não notam que a gaiola é um bem comum, um pequeno mundo, que devem tentar melhorar retirando os cocos acumulados. Ao contrário, escondem suas cácas nas camadas de palhas que forram o chão causando sua destruição.
Os passantes sempre notam a extrema tristeza em um dos pássaros. Se Berne canta, Cocho chora. Se Cocho está feliz, Berne está descontente. E as intrigas e desacertos dos pássaros afugentam os turistas que por ali passam.
Javé, o dono dos pássaros, sabe que isso é uma briga de irmãos, pois no fundo o Cocho gostaria de ser Berne, e o Berne sonha em ser Cocho. Javé chegou ao extremo de trocar os nomes para solucionar o problema. Tamanduá e Formiga, não acostumaram com o novo nome, e assim ruiu toda e qualquer tentativa de acerto.
O que era para ser um pequeno problema virou uma palhaçada. A gaiola está sendo destruída, não respeitam a própria casa, cocô acumulado de ambas as partes, sujeira a vista ou escondidas entre ressentimentos mútuos, acusações sem fundamento colocam em perigo a todos. Cocho e Berne ainda não perceberam que estão a um passo do fim. Não sabem, ou não querem saber que basta que juntos limpem a gaiola que eles mesmos sujam e destroem que comecem a cantar unidos e tudo mudará. A paz, a esperança, a renovação e a transparência farão seu trabalho e a vida voltará a fluir como benção, jamais como castigo.

Gastão Ferreira

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

SOZINHO NA LAGOA - FÁBULA



SOZINHO NA LAGOA - FÁBULA

No tempo em que cachorro era amarrado com lingüiça e o mundo bobinho, existiu um reino encantado onde todos eram felizes. Os reis, rainhas, nobres e mandantes divertiam-se de manhã à noite sem se preocuparem com outros afazeres. O varredor varria, o pescador pescava, o padre benzia e o povo trabalhava satisfeito.
Entre um almoço e uma janta sua majestade real teve seu rebento. O rei orgulhoso nunca desconfiou que seu filho fosse bastardo, que o pai da criança era o Risadinha, o bobo da corte mui amigo da rainha.
O tal principezinho nasceu de mau fado e a cada quatro anos fazia de tudo para não virar sapo e morar na lagoa. Apesar de chato era sortudo, pois sempre uma donzela bem tontinha lhe dava um beijinho e ele voltava contente a maltratar toda a gente.
Teve uma época em que tal fato não ocorreu, houve falta de donzelas no reino e ele ficou longe do bem bom. Aproveitou seu tempo na lagoa, fez curso de costura, pintura, bordado, teatro, capoeira, fez tricô e quando retornou chegou modificado, mal amado e desbocado, a plebe murmurou:- É coisa feita! Mas nunca atinaram com a causa.
Um pescador foi chamado à presença real e viu o príncipe de mil jóias vestido, mil trejeitos, olhar de quem provou do proibido, fala macia, gestos tresloucados e um modo de andar bem descuidado. Contou na praça a visagem que teve e o povo caiu na gargalhada. O rei ficou sabendo, pois sempre há espiões por todo o lado e o gentil pescador foi sentenciado. O soberano foi matando quem ousasse murmurar de seu herdeiro, e o reino ficou quase um deserto, tantos e tantos foram degolados.
Um belo dia o príncipe virou sapo novamente, era sua sina, e como todos já sabiam de sua bela fama, nem a donzela mais sacana quis beijá-lo e assim, sozinho, ficou para sempre na lagoa.

MORAL DA HISTÓRIA:- Sem donzela! Sapo é sapo.

Obs.- Fábula tão antiga que nem serve de carapuça. Por favor, não vistam!
A fábula significa que naquele reino as donzelas ficaram mais espertinhas.
Gastão Ferreira

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

PAU MANDADO


PAU MANDADO

Tem quem mostre na face a fidalguia,
Tem quem tema o espelho da verdade.
Tem quem vista as inúteis fantasias
Que rondam pelas noites da cidade!

Desde que mundo é mundo, governantes
Fazem o que querem e desprezam o povo
Bebem do bom e melhor, tais ruminantes
Querem que o pobre sempre coma ovo...

Assim naquele reino, um insolente...
Um beija toda mão que está no pódio
Pensava ser melhor que muita gente
Vivendo e alimentado um negro ódio.

Se achava um maioral, sempre agastado,
Um vil cachorro sonhando ser um lobo
Da rainha capacho, um pau mandado,
Todo o rei que se preze tem um bobo!

Gastão Ferreira

domingo, 9 de agosto de 2009

O REI LEÃO


O REI LEÃO

O Leão conheceu meu tataravô, um menino complicado, mandão, emburrado. Soltava pipa na praça e batia na molecada. Filho de coronel senhor de engenho, dono de escravo. Também conheceu dona Candinha minha tataravó. Uma gracinha, desde menininha se fazia respeitada, nunca perdeu uma missa. Sempre bem arrumada, não pedia, mandava e açoitava quando não gostava.
O Leão viu meu bisavô levado pela mucama a brincar na pracinha, uma calamidade desde criancinha. Jogava e ganhava e tanto jogou que perdeu a fortuna da família. Mancebo da elite, bem apessoado, nome e sobrenome de abastado, rapaz estudado, com o famoso golpe do baú recolocou a vida nos eixos. Correu mundo, viajou, foi recebido pelo imperador. Não ganhou nenhum título não senhor!
Conheceu uma corista que se fazia passar por francesa, se apaixonou e com esse romance tão mal arrematado vovó chegou. A ricaça de minha bisavó amava o safado e tudo perdoou e minha avó adotada como filha foi escorraçada como a tal gata borralheira. Abafaram o escândalo, mas minha bisavó pirou. Virou beata das melhores e quem lucrou foi o vigário que ficou com o casario e o ouro que ela legou.
Meu bisavô não deu o braço a torcer, manteve a panca e casou vovó com um salafrário novo rico. Vovó Amélia foi mulher de verdade, agüentou a vida inteira sem se queixar do sacana do vovô, um libertino que queria sozinho repovoar o mundo. Tanto filho deixou e com tantas mulheres que quando se finou vovó estava na mais negra miséria e só não passou fome porque papai já pescava sim senhor!
Eu me lembro da vovó Amélia e das histórias que contava. Quando na praça me levava sempre me mostrava o Leão e dizia:- Meu neto! Eu juro que são verdade essas coisas do passado. Eu juro pelo rei Leão que conheceu um por um de nossos antepassados e ele sabe que de minha boca nunca partiu uma mentira.
Não consegui estudar, papai foi pobre. Trabalho feito mula para manter meu filho. Hoje contei a ele a nossa história e ele quis ver o rei Leão. O nobre Leão que do alto do telhado de um sobrado tudo conferiu calado. O telhado ruiu. Ninguém sabe ninguém viu, mas o Leão assistiu. Nunca pedi nada ao Bonje, nosso zeloso protetor, mas agora vou até seu altar levar meu filho e com todo o fervor vou implorar:- Amado Bonje! Não vim pedir por mim nem por meu filho, tão criança ainda. Oh meu protetor faça um milagre! Que meu filho um dia possa trazer meu neto a tua presença e agradecer por mim. Meu Deus, meu Pai, salve o rei Leão!

Gastão Ferreira

AMIGOS


AMIGOS

Amigos! Igual metade
De tudo que tem na vida.
Amigos! Quanta bondade
Calada, nunca esquecida!

São os amigos que levam
Minha voz além de mim!
Os perfumes que medram
Nas flores de meu jardim.

Colunas de minha casa
Atam os meus pés no chão
Para não quebrar a asa
Quando vôo na amplidão.

Amigos! Muito obrigado
Por tanto bom pensamento
Por carregarem meu fardo
Quando da vida eu lamento

Quem não teve um amigo
Nunca viveu de verdade,
Nunca possuiu um abrigo
Não partilhou da saudade!

Gastão Ferreira/Iguape

sábado, 8 de agosto de 2009

O LEÃO DO SOBRADO


O LEÃO DO SOBRADO

Vou despencar
Desse telhado!
Vão me matar,
Estou magoado!

Que fim tão triste
A um nobre rei,
Que a tudo assiste
Calado eu sei!

O rei leão
No seu sobrado
Não sabe não?
Está ferrado.

O que ele via
Na noite escura
Oh! Fantasia
Tudo insinua...

Viu a menina
Viu o pastor
Viu a batina
Viu o cantor

Viu procissão
Santo no andor
Viu o ladrão
Viu o doutor

Sentiu o vento
Provou da chuva
Leu pensamento
Até de viúva!

Ouviu lamento
Ouviu sussurro
Do seu assento
La no escuro...

Não abro a boca
De pedra eu sou.
Que coisa louca
Meu fim chegou!

Urrou prá lua
Pediu ao Bispo
Na casa sua
Cheia de visco

Nem a prefeita
Deu atenção:
- É coisa feita!
Disse o leão.

Adeus Princesa
Do litoral...
Quanta pobreza
No meu final!

Guardem o retrato
Prá ver de novo
Tanto destrato:
- Adeus meu povo!

Gastão Ferreira/2009

MURO DE PEDRA



MURO DE PEDRA

No velho muro de pedra
Erguido por mão escrava
A flor que no alto medra,
Foi por lágrima regada...

O tempo passa e semeia
Colhe quem sabe colher.
Sangue que corre na veia
Rubra tinta de escrever...

Entre o tronco e a chibata
Toda uma história de dor!
Tem tanta gente que mata
Tem coronel... Tem feitor...

Sonhos que foram morrendo
Em anjos bons se tornaram.
Pelos muros se escondendo
Em musgos se transformaram.

Ah! Esses muros tão velhos
Ah! Se pudessem falar...
São os nossos evangelhos
Tem muito a nos ensinar...

Gastão Ferreira/Iguape/2009

COMPUTADOR


Computa computador
Que só sabe computar
Passarinho enganador
Que não pode mais voar.

Te aprisionei na gaiola
Para ouvir o teu cantar.
Doce som de uma viola
Na minha casa a chorar!

Era livre meu amigo,
Passarinho cantador.
Embora vivas comigo
Sou causa da tua dor!

Vou te soltar finalmente
Desta prisão que te dei,
Assim cantaras contente
Os sonhos que te contei!

E quem ouvir o teu canto,
Dirá:- Como canta bem!
E saberá que meu pranto
É parte do teu também!

Gastão Ferreira/Iguape

ECOS DE PORTUGAL


ECOS DE PORTUGAL


Se é de vidro o teu telhado
Não seja assim tão cretina,
No viver põe mais cuidado
O povo sempre incrimina...

Construa no teu cantinho,
Pinte uma bela fachada.
Não ligue para o vizinho,
Durma de porta trancada!

Mantenha a janela aberta,
O teu filme não põe medo.
Não tema ser descoberta,
Todos sabem teu segredo!

Toma tento, oh menina!
Não detone com o outro.
Se tua língua é ferina...
Confira bem o seu troco!

Se queres armar barraco
Arme no próprio quintal.
Oh! Suspiros tão fracos:
- São ecos de Portugal?

Gastão Ferreira/Iguape

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

PROPRIO VINHO


PRÓPRIO VINHO

Eu falo só do que avisto,
Porta fechada não abre!
Se me notam... Eu sou visto,
Do escondido ninguém sabe!

É das pedras que me atiram
Que vou fazendo minha casa
Essas pedras, embora firam,
Essas pedras!... Viram asas!

E com essas asas eu vôo
Para além do meu jardim.
Me ofenda se eu te magôo,
Nunca te esqueças de mim!

Pois assim vamos passando
Nesse rio de esquecimento,
Alguns seu tempo marcando
Outros sonhando ao relento!

Vento que sopra mansinho
Por vezes vira um tufão!
Quem não tem o próprio vinho
Bebe o dos outros... É ladrão!

Gastão Ferreira/Iguape/2009

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

CÂMARAS DE MONITORAMENTO


CÂMARAS DE MONITORAMENTO

No município de Xapralá no agreste pernambucano o coronel Ludugéro mandante do lugar resolveu testar um moderno sistema de monitoramento para segurança em tempo real. A firma responsável, em absoluto segredo fez uma seqüência de imagens em diversos pontos da cidade e convidou autoridades e membros da população para apreciarem o trabalho e alugou um cinema local.
O povão acomodou-se no chão e nas últimas fileiras de cadeiras rústicas, ganhando cada convidado um saquinho de pipoca com farinha de mandioca, costume regional esse de comer pipoca com farinha. As autoridades devoravam canapés vindos diretamente da “Pousada Recanto dos Calangos” e madames disfarçadamente enchiam suas bolsas com os requintados petiscos.
Nanny Aparecilda, secretária do coronel Ludugéro, moça prendada e versada na arte de angambelar fez um pequeno discurso:- Povo do agreste é com emoção que abro meu peito para anunciar a chegada do progresso a nossa cidade. Palmas para o coronel Ludugéro! O propósito dessa filmagem é catar os sem vergonhas, os malandros, os pichadores, os vagabundos e inúteis que aviltam nosso páramo (Nanny falava bonito porque estava fazendo faculdade paga pelo coronel). Mais palmas para o coronel!Prestem atenção na película:- Película é o mesmo que filme, hem pessoal! Não esqueçam película e filme é a mesma coisa. Palmas para o coronel Ludú!Sniff... Sniff (choro)... Obrigada Ludú por me deixar aparecer mais que você querido! Vamos assistir ao filme.
Apagou-se as luzes, o povão de olho grudado na telona. Começo de filme e a galera apontava:- Não é um parente do coronel fazendo sacanagem no escurinho? O doutor Dito fantasiado de muié? Meu Deus ele é uma Drag! Aquela ali não é a dona Fulana saindo do motel com o marido de dona Sicrana! Olha o cachorro do coronel cheirando o cão do outro coronel! A moça do discurso beijando o coronel Ludugéro! Cadela! Piranha!
Um tiro... Silêncio... Acendem-se as luzes. Algumas senhoras escondem o rosto, outras com sorrisinhos marotos. Homens enterrando o chapéu na cabeça para não serem reconhecidos. A moça do discurso num chororô de fazer dó. O coronel de revólver em punho:- Cadê esses pilantras que vem de longe para denegrir nossa sociedade? Eu mato! Eu mato!
Depois desses fatos lamentáveis como nenhum desafeto do alcaide foi pego em delito, parece que vão criar uma guarda municipal só com afilhados do coronel, e aí sim os sacanas da oposição vão sentir na carne a ira do poder dominante.

Gastão Ferreira

CEREJA DE BOLO



CEREJA DE BOLO

Mariazinha apareceu num fim de mundo, nos cafundós de um vale perdido em um país qualquer. Colocada num berçário foi adotada por um tipo boçal que se passava por mandante entre os pobres do lugarejo. Mariazinha não sabia que era filha adotiva, mas em lugar pequeno não é fácil esconder um segredo e alguém sabia do terrível segredo que envolvia sua origem extraterrestre. Era tão fofinha que desde o berço foi apelidada de cerejinha de bolo.
Conforme crescia, nossa heroína se achava cada vez mais charmosa, ganhava todos os concursos desde o prézinho, tais como:- Miss Simpatia, Miss Simprotio, Miss Simprovô. Seu falso pai comprava todos os talões que indicariam a mais exibidinha do pedaço e ela sempre chegava a primeiro lugar no pódio. Mas essa coisa de comprar votos também era segredo e Mariazinha nem desconfiava que em sua vida de princesa alienígena, tudo era engodo.
A maioria dos habitantes do lugarejo perdido detestava nossa heroína, tida como uma chata sem galochas, mal educada, mal amada e mal afamada. Como era metida a besta e desaforada, o povinho ficava só na moita esperando à hora de dar o troco, tinham certo receio, pois seu papai podia quebrar a cara de qualquer um e Mariazinha tornou-se uma menininha mimada, ditava moda em seu pequeno mundo e desconhecia ou não se interessava pelo que ocorria a sua volta, seu ego era tudo o que possuía e ele era exigente, coisa de outro planeta.
Um belo dia chegou o tão esperado progresso ao lugarejo e muitas indústrias se instalaram na região. O mundo de Mariazinha desmoronou de uma hora para outra e ela sentiu na pele como era pobre ao querer comparar-se com as filhas dos industriais milionários. Ela não tinha nenhuma experiência em algo produtivo, pois sempre vivera a sombra do poder paterno, o emprego que consegui foi de auxiliar de confeiteira em uma padaria e como era uma perfeita inútil a única coisa que faz com perfeição é colocar a cereja nos bolos.
MORAL DA HISTÓRIA:- Quem nasceu cereja, morre cereja.

Obs.:- Algumas pessoas acreditam que tudo o que escrevo é carapuça, fiz esse texto sem pé nem cabeça, só para provar que essa coisa de carapuça não existe. Leiam novamente! Mariazinha é imaginação minha.

Gastão Ferreira

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

PESCADOR



Homem e barco navegam,
Igual punhal e seu fio...
Saudades tão longe levam
Como as águas desse rio.

Na canoa da memória...
Onde segredos se aninham
Guardo pedaços, histórias
Por onde sonhos caminham

Em tuas mãos sertanejas...
Com ternura, sem critérios,
Dorme entre tantos desejos
A incerteza dos mistérios...

Pescador... Volta no tempo!
Triste pássaro no cio...
Vozes de sombras ao vento,
Recolhem redes no rio...


GASTÃO FERREIRA/IGUAPE/SP

domingo, 2 de agosto de 2009

UM DIA


UM DIA

Eu sou um poema inacabado
Onde o verso final ali faltou...
O filme que nunca foi rodado
O riso que o pranto represou!

Sou a onda restante da procela.
O pássaro que na vida não voou,
Prisioneiro que fez a própria cela
Vento que na estrada não soprou

Sou tudo e não sou nada, minha vida
É um livro que a história não contou,
Uma ância imortal em mim contida...
Presa a um corpo carnal. Eis o que sou!

Um dia o meu cavalo voltará sozinho
A velha estância onde eu nasci...
Vai galopar por campos e caminhos
E pastorear os sonhos que eu perdi!

GASTÃO FERREIRA/2009