sexta-feira, 31 de julho de 2009

SEM VÓZ - IGUAPE/2009



SEM VÓZ/IGUAPE-2009

Pergunto ao rio que passa
Se esta cidade é feliz!
O rio correndo se afasta
E a mim... Nada me diz!

A garça que voa no alto,
A mesma pergunta eu fiz.
Seu rumo mudou no ato,
Era uma garça aprendiz!

Perguntei ao povo aflito
Por que tanta escuridão?
Ninguém devolveu meu grito
Permanece a incompreensão!

Tantas sombras se adensam
Sobre a vida, sobre nós...
Até mesmo os que pensam
Não podem soltar a voz!

Tem gente que me lastima,
Tem gente que me maltrata
Mas é o amor da estima...
O mesmo amor que me mata!

GASTÃO FERREIRA/IGUAPE

terça-feira, 28 de julho de 2009

O "TU DA DÉTE"



O “TU DA DÉTE”

Na cidade de Serra Negra, sudoeste do estado do Paraná. Toby o cachorro de seu Onofre desaparecera. Ninguém viu como o fato sucedeu. É sabido que tais animais só entendem um único idioma humano, tanto é verdade que os donos de cães condutores de cegos, para utilizarem de seus serviços, aprendem a língua original em que o cão foi ensinando a interagir com os homens.
Toby foi criado por seu Onofre desde filhote, a única pessoa que ele realmente entendia. Seu Onofre morava em um sitio e Toby foi adestrado na arte da caça e captura de animais silvestres, era um exímio caçador, e todos na cidade de Serra Negra conheciam suas façanhas e encomendavam suas caças prediletas a seu Onofre. Bastava seu Onofre falar o nome do animal e Toby corria para a mata e sempre voltava com a caça capturada.
Seu Onofre, um pequeno sitiante, que todo o domingo deslocava-se de sua propriedade até a feirinha rural a fim de comercializar seus produtos orgânicos, possuía um pequeno problema fonético, era fanho. Eis o motivo pelo qual Toby era o único ser vivo que corretamente entendia seu linguajar.
Naquele domingo seu Onofre estava desesperado, sua mascote, seu amigo canino havia desaparecido no percurso entre o sitio e a cidade de Serra Negra. Seu Onofre colocara Toby na carroceria de seu veículo e dirigira-se a feirinha, mas chegando a seu destino Toby desaparecera. Toby não estava junto às mercadorias das quais era o guardião.
Seu Onofre entrou em pânico:- Toby! Toby? Gritava com os velhos olhos rasos de água. Nem pensou duas vezes, foi refazer o trajeto e tentar encontrar seu adorado cão.
Os amigos de seu Onofre, os fregueses de seus produtos e compradores de suas caças, comentavam entre si o ocorrido:- Toby fora seqüestrado? Pediriam resgate por tão nobre cão? Será que foi morto por assaltantes de beira de estrada ao defender as mercadorias? Capturado por um disco voador para estudos extraterrestres?
Estavam nessa lenga, lenga, quando notaram a aproximação do carro de seu Onofre, e de seu lado, um feliz e molhado Toby!Correram ao encontro de seu Onofre e alguém perguntou:- O que aconteceu para Toby estar assim todo molhado? Seu Onofre, fanhoso explicou com uma única frase:- Aíu no tu da déte!
Tu da déte! Seu Onofre que bicho é esse? Aele buiaco qui teim na aveinida... O tu da Déte!
O pessoal entendeu e caiu na risada e desde esse dia a grande obra de engenharia na avenida principal da cidade de Serra Negra foi apelidada de “O tu da Déte”. Ah seu Onofre! Somente um fanhoso para dar um nome tão condizente com o mal afamado Escoador Horizontal a Céu Aberto de Águas Pluviais, nome técnico e politicamente correto para o popularesco “Tu da Déte”! Serra Negra agradece.

GASTÃO FERREIRA/IGUAPE/2009

Obs.:- Serra Negra não existe. O “Tu da Déte” não existe. Seu Onofre não Existe e ufa! Toby não existe. Esse texto é pura ficção.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

A CIDADE DAS CARAPUÇAS


A CIDADE DAS CARAPUÇAS

História verídica ocorrida na França, Ano Domine 1.100. Anotada por Tristan de Ycaparrá e traduzida do francês medieval pelo autor do texto.
“No pequeno burgo francês de Ycaparrá, no ano mil e cem de Nosso Senhor e Salvador, passou-se um fato inusitado, o qual chegou ao meu conhecimento através do bobo da corte de sua majestade Fedegunda I, Consorte Real e sem sorte na vida prática.
Neste ameno e quase desconhecido local todos os vassalos e nobres usavam carapuças, assim fora determinado pelo alcaide do rei. As lojas mantinham estoques apreciáveis de tal vestimenta, pois desde o berço deviam ser utilizadas, e, como criança cresce muito rápida a troca de carapuças eram constantes. Se bem que as pessoas da plebe vil usavam a mesma carapuça a vida inteira. As dos nobres eram douradas, indicando poder e algumas salpicadas com purpurina para indicarem outras coisas. Os puxam sacos colocavam carapuças até em cães vadios.
Um belo dia uma carapuça foi encontrada num banco de praça. Os aldeões curiosos a examinaram e comentavam entre si:- De quem será tal carapuça? Será do peixeiro?
- Não! Do peixeiro não pode ser, pois não tem cheiro de peixe.
- Será de algum protegido do alcaide? Também não, não tem vestígio de baba e eles vivem se babando a toa.
- Será do senhor vigário? Nem pensar, ela não parece nada com uma santa carapuça.
Ficaram assim horas e horas, esquecidos de seus afazeres, tentando colocar a carapuça em alguém, quando perceberam que um terrível bando de bárbaros havia saqueado o burgo.
O alcaide e seus mosqueteiros, armados até os dentes com seus mortíferos mosquetes em vez de perseguirem os famigerados bandoleiros começaram a bater nos fofoqueiros (tradução aproximada do termo frufruquéle. Francês medieval não é fácil!) e entre gritos e impropérios exigiram que cada um dos presentes no local experimentasse a carapuça, sob pena de ser enforcado se assim não o fizessem.
Todos os aldeões vestiram a carapuça que não serviu em nenhum deles. Iniciou-se um zum zum zum para que os nobres também passassem pelo mesmo teste. Os plebeus formavam uma multidão e o alcaide que não era bobo, apenas idiota e metido a besta, enviou seus famigerados mosqueteiros na captura dos nobres.
Nenhum nobre foi encontrado em suas nobres casas, pois enquanto a cidade era saqueada, os mais nobres entre os nobres participavam de uma reunião secreta planejando aumentar impostos, outros enterravam seu ouro rapinado em negociatas e maracutaias e muitos outros haviam viajado a custa dos suados impostos dos pobres súditos até o palácio do rei ou a outras freguesias em distantes terras dizendo que estavam a serviço da plebe, quando na verdade estavam mesmo era turistando.
Os mosqueteiros, temerosos de voltarem à presença do alcaide sem um dono para a carapuça, encontraram um maltrapilho alcoolizado recém chegado de uma peregrinação a Terra Santa e que por La adquirira o nefando hábito de ingerir alcalóides e num rompante de autoritarismo vestiram nele a carapuça. Bateram tanto no caminhante que a carapuça acabou servindo e o levaram a presença do alcaide que imediatamente mandou enforcá-lo.
O peregrino ainda estava debatendo-se na forca quando adentrou a praça, esbaforido, um jovem caçador que aos gritos perguntava:- Alguém encontrou a carapuça da minha avó que perdi?
Esta história foi cantada em toda a França pelos menestréis por ordem Real, para que plebe vil, nobre e vassala ficasse ciente que toda a carapuça tem dono e que não há necessidade de matar alguém quando queremos vesti-la forçadamente. Basta dar tempo ao tempo que o dono se manifesta. ”Tristan de Ycaparrá/France/1.100AD.”

Autor da horrível tradução; - Gastão Ferreira

domingo, 26 de julho de 2009

O CONTADOR DE HISTÓRIAS



O CONTADOR DE HISTÓRIAS

A cidade como ponto referencial é deslumbrante. Cercada de rios, montanhas e mar. Pássaros multicoloridos em bandos enfeitam os céus. Manhãs luminosas e tardes serenas completam o cenário. A natureza em seus múltiplos aspectos forma ali um cantinho do paraíso. Mas esse local único também esconde seus segredos.
O contador de histórias conhece cada habitante da velha cidade e muitos vêm a ele contar suas próprias histórias ou histórias de outras histórias para que ele escreva sobre elas, pois assim não se tornarão histórias perdidas e vazias.
Ouvindo histórias o contador de histórias cria as suas. Velhos heróis esquecidos, piratas, bandoleiros, coronéis, lobisomens, rufiões, parasitas, crentes, ateus e a toas. Cria personagens de tragédias, dramas e comédias, intérpretes das múltiplas nuancem que escondem a alma humana. O contador reinventa as histórias e somente conta a mesma história desde que o mundo é mundo de diferentes formas.
A personagem é uma só:- O homem! O ser humano e suas máscaras, a do amigo, a do egoísta, a do insensível, loquaz ou mudo. A máscara da inveja, do ciúme, do ódio. Da bondade e da avareza. A máscara do sem caráter, do orgulhoso, do traidor, do vendido, do insensato, do feliz, do realizado, do incompreendido e mal amado.
Muitos vestem as máscaras e culpa o contador de histórias, poucos reconhecem que o contador apenas narra um fato e que a máscara sempre esteve ali escondida ou escandalosamente visível, serena, impassível e fria na face do personagem.
É mais cômodo denegrir, odiar, vilipendiar o contador de histórias do que aceitar a própria máscara e tentar mudar para melhor. Assim caminha a humanidade e continuará a caminhar, e o contador de história continuará sua trajetória, hora aplaudido, hora vaiado, hora hostilizado. É o que sabe fazer:- Contar histórias!
As pessoas não diferenciam a realidade do mito e fogem de sua verdade interior vestindo personagens que são puro fruto da imaginação de quem conta a história. Assim é a vida, assim nos medimos e todos nos igualamos na morte, esta sim, a grande vencedora no final de todas as histórias.

Gastão Ferreira- Um contador de histórias.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

CARTA AOS VISITANTES


CARTA AOS VISITANTES

Amigos visitantes sejam bem vindos! Dou licença para que espiem todo o conteúdo desse blog. Vocês encontrarão versinhos de minha autoria. Alguns refletem meus sentimentos, a maioria são ecos captados de história de encontros e desencontros que me foram narrados e que transformei em poesia.
Os textos mais longos são frutos de minha imaginação. Segundo definição de Mário Quintana (1906-1994):- ”A imaginação é a memória que enlouqueceu.” Portanto não tomem ao pé da letra o que descrevo. É óbvio que tenho de ter um ponto de partida para minha fértil imaginação, e nossa cidade é pródiga em nos ofertar os tipos mais curiosos.
No mundo existem muitos estereótipos, o pedante que se crê possuidor de eiras e beiras e que desrespeita a todos. O moralista que é um tarado. O crente amargurado que foi um tremendo devasso. A piranha que virou santa. O machão que virou gay, o gay que se passa por machão. O pastor que come ovelhas, o pescador que não pesca. O pintor que não pinta, mas vive da fama. Personagens que fazem parte do cotidiano de todas as cidades do planeta, tão vivos e tão mortos perante a realidade maior. Todos com tanto a ofertar, mas negando-se a reconhecer que são finitos e que por aqui estão apenas de passagem. Pessoas que se julgam a cereja do bolo e passam atestado público de burrice por se acharem melhores que os demais.
Iguape é apenas um palco teatral e todos nós meros figurantes numa história que o tempo vai contando a eternidade. A cada fim de espetáculo (morte), vêm os aplausos e o ator se recolhe a sua insignificância e anonimato até que cheguem um novo roteiro e o eterno ciclo reinicia.
Meu intuito não é denegrir pessoas, fofocar sobre suas vidas íntimas, suas opções particulares. Faço muita sátira aos políticos, pois eles são nossas vidraças. Prometem sabendo que não cumprirão e quando questionados sentem-se ultrajados. Faço troça dos que se sentem poderosos sabendo que o poder é efêmero, que ninguém leva no caixão o seu ouro, que dinheiro ganho sem esforço tem um custo altíssimo, pago em desavenças, doenças, escândalos e desarmonia familiar.
Descrevo o que vejo em nossas ruas e esquinas. Não entro na casa de ninguém para bisbilhotar a mesa e a cama. Meu intuito é combater idéias babacas, preconceitos, arrogância e descaso aos menos favorecidos. Não combato pessoas como comparticipes da vida, pessoas são sagradas na sua intimidade e no interior de seus lares.
Amigos visitantes divirtam-se com minha escrita simples e partilhem comigo da alegria de viver honestamente. Estes textos não são carapuças, são frutos de minha imaginação. Sou um observador atento desse fenômeno que chamamos existir.
Obrigado pela visita.

GASTÃO FERREIRA/IGUAPE/2009

DE TUDO INVENTO


DE TUDO INVENTO

O amor é tudo
Tudo no meu tempo.
No criado mudo
Teu retrato invento...

Somos dois amantes
Amando de mais
Em mares distantes
Campos e trigais.

Navegando sonhos
Lendo pensamentos
Olhares risonhos
Cabelos ao vento.

Conhecendo estradas
Dormindo ao relento.
Tão longa é a jornada
Teu amor?... Invento.

Pela sala ao lado
Em janela aberta
Um vento gelado
Eu sou o deserto!

GASTÃO FERREIRA/2009

SOU O TEU CHINÉLO


SOU O TEU CHINÉLO

O mundo é feito de cores
Todas as cores contêm.
As cores falam de amores
De amores falo também!

Da verde cor esperança
Eu pintei meu coração.
Teu sorriso tua confiança
Roubou a minha atenção!

E tão confiante te mostras
Brincando com meu amor
A mim apenas demonstras
Ter espinhos e não flor...

Mudei a cor do meu riso
Para a cor do teu desdém
E a ti apenas um aviso:
- Quando quiseres!...Vem

Não chora quem acredita
Todo o pé chinelo tem...
Espiamos nós dois na fita,
Sou teu chinelo meu bem!

GASTÃO FERREIRA/2009

terça-feira, 21 de julho de 2009

A MENSAGEM DO NAUFRAGO


A MENSAGEM DO NAUFRAGO

Domingo fui até a praia. Caminhava pelas areias quando tropecei numa garrafa trazida pelas ondas do mar. Dentro uma folha de papel. Curioso, abri a garrafa e li o texto:
- Estou numa ilha deserta, cercada por tubarões famintos. Não tenho como escapar por meus próprios meios. Por favor, help, per favore! Quem estiver lendo essa breve mensagem venha salvar-me que será bem recompensado.
Primeiramente descubra em que ilha estou, pois tudo o que vejo é mar. Desculpa! É óbvio. Uma ilha é um pedaço de terra cercada por água
por todos os lados. Posso confirmar que a descrição é correta.
Tenho dinheiro lavado em uma conta secreta em Pariquéra. Escolhi esta cidade por acreditar que todos pensam que dinheiro obtido por meios ilícitos é levado para a Suíça. A grana não é suja, fique tranqüilo, foi lavada e secada antes de ser por mim depositada.
Aqui na ilha não estou totalmente a sós. Encontrei um macaco problemático, creio que foi exilado nesse local devido a seu estranho comportamento. Não conte para ninguém, aliás, isso nem interessa, ele é tarado. Como dependo dele para apanhar cocos, estou consciente dos riscos e tudo que padeço é para sobreviver. Nem devia ter contado isso, mas como não tenho borracha para apagar, faça de conta que não leu.
Esse macaco demoníaco pensa que sou a cereja do bolo, uma Messalina sempre disposta a todas as libidinagens que só um símio selvagem e bestial pode concretizar. Nunca imaginei suportar tudo o que agüento sorrindo, mas o monstro, digo macaquinho, não gosta de me ver choroso e assim compartilho mudo, ele não entende português,toda a sua descarada e sensual devassidão.
Caro banhista! Se a garrafa foi levada pelas ondas do mar, então será encontrada em uma praia, por isso estou me dirigindo a sua pessoa como banhista. Caso você me resgatar será bem recompensado. Que tal dez mil reais? Palavra de naufrago! Caso traga uma jaula e conseguir levar o macaco, dar-lhe-ei quinhentos mil reais. Palavra de apaixonado.
Vou jogar essa garrafa ao mar, o macaco já está nas preliminares e se mostra tremendamente sacana e mau quando não lhe dou a devida atenção.
Obrigado

Obs. - Não esqueça a jaula.

Cada coisa que a gente encontra em beira de praia. Tantos fatos estranhos ali acontecem. Eu hem!

GASTÃO FERREIRA/2009

DIA DO AMIGO


AMIGOS

Plantei a flor amizade
Reguei com dedicação.
Dei um nome à saudade
Ao amor e a gratidão...

Tantos andaram comigo
Me incentivando a vencer
Alguns levaram consigo...
Um pouco de meu sofrer!

Por outros ares plantaram
As mudas do meu jardim.
Amigos que me deixaram,
Todos, pedaços de mim...

Os juntarei novamente
Quando chegar minha hora
E os levarei de presente
A Deus e a Nossa Senhora!

Gastão Ferreira/Iguape/2009

segunda-feira, 20 de julho de 2009

O POÉTA É O VENTO


O POÉTA É O VENTO

O vento vinha ventando pelos caminhos do mundo. Espiava sobre os telhados, sobre velas de jangadas. Cantava pelas esquinas, ventava pelas estradas.
O vento perdeu o rumo numa noite sem luar e dormiu feito criança sonhando com o seu ventar. Acordou na madrugada ouvindo um galo a cantar e La no alto do monte o vento ficou espiando a cidade despertar. Viu o povo batalhando na procura do melhor, professor professorando, pedreiro a pedreijar. O pastor pastoreando, a criança a estudar. O rio sereno buscando as águas azuis do mar. E o vento encantado, com tudo o que ele via, da cidade enamorado, pelas esquinas corria.
Viu a velha na janela olhando o fim da rua. Ouviu riso de menina, ouviu prantos e canções. Viu na mesa de quem come o que no prato restou, viu mendigo mendigando que com fome despertou.
Viu amor e abandono. Viu tristeza e solidão, viu o pobre e o rico, viu o doente e viu o são. Viu pessoas trabalhando em diversas profissões. O amor abrindo portas, ódio fechando em prisão. Viu um dedo apontando a beleza e a podridão. Muita gente se encontrando, outros perdendo a razão. Viu olhares de incertezas, viu desprezo e safadeza em quem nunca se amou. Viu orgulho, viu pobreza, viu bondade e viu horror. Viu maldade gratuita, coração enganador, viu gentinha se achando ser de tudo o senhor. Viu sonhos desencantados, ouviu gritos de agonia. Amantes desesperados vivendo de fantasias.
O vento quedou-se mudo. Só ventar é o que sabia. O vento nunca pensou que essa cidade existia. Soprou no banco da praça uma brisa de alegria e os casais de namorados o seu beijo ali sentiam. Soprou no adro da igreja e o rezador se benzia. Soprou no supermercado, nos bares e padarias, no varejo e no atacado, na porta do cemitério. Soprou por todos os lados, soprou por sobre mistérios.
Na cidade já desperta, o povo se perguntava:- Que será que acontecia que o vento tanto ventava?
O vento sabia tudo, tudo o que se passava. Corria de casa em casa e a tudo espiava. Passou pelos gabinetes dos mandantes do local. Ouviu risos e palpites, viu o bem e viu o mal. Leu na banca de revistas as notícias no jornal. Viu ladrão e viu polícia, viu os barcos no canal...

O vento ventou mansinho, pois de tudo ele entendia, em sua vida de vento ventava todos os dias. Afastou-se da cidade, sobre a montanha dançou e depois seguiu ventando e de tristeza... Chorou!


GASTÃO FERREIR
www.gastaodesouzaferreira.blogspot.com

sexta-feira, 17 de julho de 2009

CAFÉ COM LULA



CAFÉ COM LULA

Numa cidade muito distante, nos confins do Brasil, pólo turístico e cultural invejável. Cujos dirigentes eram pessoas educadas e amadas por seus concidadãos. Um paraíso na Terra, onde ninguém era perseguido e a imprensa livre para manifestar suas opiniões, ocorreu um fato inusitado que marcou profundamente a história da longínqua e rica cidade.
Os preparativos para uma grande festa estavam concluídos. Os estoques de foguetes vistoriados, seguranças contratados entre os amigos, discursos decorados. Foi quando a notícia vazou:- Lula tomaria um café por ali!
Foi um Deus nos acuda! Cinco bispos correram à cidade. Três governadores comunicaram com urgência urgentíssima que fariam questão de prestigiarem a festança e que trariam consigo centenas de prefeitos de seus estados.
Reservas de hotéis, feitas com antecedência de meses, foram canceladas na marra em favor das autoridades visitantes. Os melhores restaurantes ficaram a serviço dos excelentíssimos e suas portas, por ordem dos donos da cidade, vigiadas para que nenhum pobre ou curioso soubesse o que os manda chuvas comeriam e beberiam de graça.
Os setecentos mendigos vindos unicamente para achacarem romeiros foram levados para local ignorado e após régia gratificação conduzidos a uma cidade próxima onde ocorreria outra festividade. Aos quarenta moradores de rua, hóspedes permanentes do município, ofertaram um “luau” forçado em uma praia num leste distante, afastando-os definitivamente do centro e arredores da urbe.
Um habitante da localidade, cuja finíssima educação fora cantada em prosa e verso em todos os jornais regionais! Um tipinho grosseiro e caipira que nunca tinha saído além das fronteiras do município, mas que se achava à cereja do bolo foi convidado a recepcionar o presidente.
Na noite que antecedeu a festa houve toque de recolher, pois no dia seguinte o “homem” estaria por ali. A garotada do mal foi confinada em suas casas com a promessa solene de que após as festividades poderiam detonar o que bem quisessem como sempre faziam e sem cobranças.
Graças ao Bom Protetor a população ao menos uma vez na vida atendeu aos apelos da autoridade, pensando mais no bem estar de todos do que em si mesma. As menininhas boas como sempre não reclamaram e ficaram rezando em suas casas. As más, as freqüentadoras de forrós, danceterias e barraquinhas mal afamadas tentaram uma revolta contra a autoridade. A autoridade, com todo o amor do mundo acabou com a alegria das garotas do mal, informando que se não cumprissem o solicitado todas as espeluncas da cidade seriam vistoriadas e fechadas após o término dos festejos. Foi só por isso que colaboraram, pois certamente ponderaram:- O que é uma noite sem esbórnia, sem porre, sem gritos na rua, sem drogas, comparada com o restante do ano!
Ao alvorecer do esperado dia foi tão intensa a foguetada que até hoje os urubus não retornaram a seus ninhos nas montanhas. Onze horas da manhã e o visitante não comparecia. O povão na espera. Romeiros se babando, de olho num sonhado beija mão. Turistas ávidos por turistar, mas na expectativa. Todos com suas melhores roupas e melhores sorrisos. Milhares de pessoas comportadas frente às autoridades sentadas sob luxuosos palanques armados ao redor da praça.
Um único bêbado chamava a atenção dos presentes. O tipinho grosseiro que fora contratado para os salamaleques oficiais, foi tirar satisfação:- Cretino! Gentalha! Eu mando te matar! Onde foi que você bebeu se EU proibi bebidas alcoólicas por 24 horas antes de o ilustre chegar?
- Ah seu tipinho!Eu bebi na barraca “Café com lula”.
- Café com lula?
- Sim! Uma barraca de lona velha e suja perto da entrada da cidade.
- Meu Protetor! Como vou explicar a todo esse povo que tudo foi um engano! Algum gaiato viu o nome da barraca:- Café com lula e saiu por aí dizendo que Lula vinha tomar um café na festa, que será de mim?Oh xente!(Esqueci de informar que a cidade era na Bahia) Que vexame! Salvem-se quem puder que o bicho vai pegar, gritava histérico para os convidados.
Essa festa ficou para a história. Foi à única na velha cidade baiana em que os mendigos não importunaram os romeiros. Todos os visitantes se comportaram como pessoas civilizadas e todos os participantes levaram como recordação gratuitamente pedaços das luxuosas acomodações oficiais que restaram da pancadaria. Para os habitantes ficou uma lição:- Povo unido jamais será vencido!

GASTÃO FERREIRA/2009
Obs.:- Esse texto é totalmente fictício. Qualquer semelhança (aliás, nem existem semelhanças!) com a realidade é mera coincidência.

FESTA JUNINA - CASAMENTO NA ROÇA




Oi amigão! Tenho novidades. Papai me levou para assistir a um casamento na roça, disse que faz parte de minha formação como cidadão e quero compartilhar com você esta nova experiência. Foi no centro de eventos de minha cidade. Armaram uma tenda enorme e lotada de convidados, de um lado os ricos e do outro os pobres. No lado dos sem futuro tinha espetinhos de carne, pipoca, quentão, quentão e quentão. No lado dos sempre bem favorecidos, tainha na brasa, costela assada, salada de maionese, arroz, cerveja e uísque.
O casal de noivos, Karlota e Kassiano estavam uns amores, só beijim beijim. Ela vestia uma cobra tatuada e ele um velho terno caipira feito de panfletos que não foram distribuídos em um grande evento passado. A mãe da noiva, dona Todamor pagou a festança, dizem que só em foguetes foram vinte mil reais, bem mais do que foi gasto no carnaval, também casamento de filha querida é coisa para ficar marcada para sempre. Os comes e bébes dos pobres ficaram em quinhentos reais e a comilança dos ricos em setenta e cinco mil reais. Puxa! Como o rico come e o pobre paga a conta!
O que não entendi é que toda à hora se agradecia a um Papai Noel que tem um som. Papai Noel não tem um trenó? A noiva ganhou do bom velhinho sua décima TV de plasma de cinqüenta polegadas e sua mãe também foi mimoseada. Apresentaram um coral com cantores vestidos de anjos e arcanjos, que foram regiamente presenteados pelo Papai Noel do som, digo, do sem trenó. Esse Papai Noel foi muito bonzinho. Para as crianças dos ricos distribuiu até computadores e para nós pobres jogava balas, ainda bem que eram balas de açúcar e não de chumbo.
Voltando ao casamento. A noiva estava radiante, poderosa, charmosa como sempre e sua madrinha era uma “zinha” com os óculos na ponta do nariz, que fazia cara de nojo para o povão que ria de seu cabelo desgrenhado. Os convidados especiais que estavam ocupando a parte nobre da grande tenda, pareciam desconfortáveis, papai disse que era por causa de retaliações causada por uma tal prestação de contas, concurso cancelado, destroca de favores, sei La! Coisas de gente honesta e transparente. Mas tudo foi resolvido pelo Papai Noel sem trenó que após cochichar com dona Todamor, a mãe da noiva, entregou a cada um dos especiais um envelope, creio que era um convite para algo muito importante, pois todos eles pararam de fazer beicinhos.
A festança voltou a ficar animada. A noiva jogando beijinhos para os pobres e flertando com os poderosos. A coisa ficou feia na hora da dança da quadrilha. Quando chamaram a quadrilha para dançar, começou um empurra empurra entre os convidados especiais e a baixaria tomou conta, ofensas, palavrões. Falaram coisas que eu não entendi, notas fiscais frias, superfaturamento, favores negados, nepotismo, em fim todas estas palavras que não compreendo. Os seguranças da festa ficaram inseguros e sobrou pancada para todo o lado. Meu pai e alguns amigos foram embora do local antes que sobrasse para eles e fomos assaltados pelos rapazes do bem, que roubam uísque em supermercados e roupas de grife nas lojas, mas que ninguém fica sabendo por que são de famílias de bem. Pedimos carona à turma do mal, e como estavam todos de mal nos trouxeram em segurança até a porta de casa.
Foi o melhor casamento na roça que assisti. Ainda estou em dúvida se acrescentou algo ao meu aprendizado como cidadão. No ano que vem, se a noiva não morrer, for abandonada ou fugir da cidade, vou pedir ao papai para convidar você para nos acompanhar. Um abraço

Seu amigo Dudu
GASTÃO FERREIRA/IGUAPE
www.gastaodesouzaferreira.blogspot.com
Obs.:- Esse texto é uma obra de ficção. Não tem nada a ver com a realidade. Não vistam carapuças que não lhes pertencem. Os personagens só existem em minha imaginação, não
Cerquem minha criatividade com agressões e chiliques, nossa cultura não merece isso, são os
os escritores que presenteiam o futuro com histórias para vossos descendentes.

CARAPUÇA/CORRUPÇÃO


CARAPUÇA CORRUPÇÃO

Cultura! Pra que cultura?
Se falo só palavrão...
Por dentro todo grossura
Por fora só caiação...

Tudo que tenho na vida
Afanei do teu salário
A minha alma vendida
É alma de salafrário...

Cuspo na cara do pobre
Do rico sou servidor...
Vivo na lama mais podre
E faço pose de doutor!

Queres saber o meu nome?
Presta melhor atenção:
- Eu vivo da tua fome...
Meu nome é CORRUPÇÃO!

Gastão Ferreira/2009

VIGIA NOTURNO




Sexta-feira, 13 de agosto, 23h45min. Meu local de trabalho? Prefeitura municipal de Pindaíba. Meu cargo? Vigia noturno. O prédio é antigo, palco de tantas e sofridas lutas políticas. Arquivo das memórias dos que por ali passaram na árdua tarefa de trazer progresso à cidade. Ouço passos no andar superior e um inquietante arrastar de cadeiras. O piso de madeira estala. Quem a esta hora tardia caminha na escuridão? Um ladrão em busca de segredos guardados no velho cofre? Uma autoridade que esqueceu um documento? Melhor verificar, é meu trabalho.
Subo silenciosamente pela escada, dobro o corredor, as luzes estão apagadas, apenas o luar ilumina a secretaria ao lado do gabinete, pela porta entre aberta passam vagos sussurros. O dever fala mais alto, vencendo o pavor que me domina espio pela fresta da porta.
Em volta da sólida e antiga mesa de reunião, movem-se negros vultos com roupagens do passado. Reconheço alguns já vistos em antigas fotos oficiais. Oito sombras na penumbra da sala ditam seus conselhos.
Na cabeceira da imponente mesa, alguém presta atenção às vozes do passado:- Seja você mesma! Vire o cocho! Olho no cofre! Mate os bernes! Compre a quem se vende! Acabe totalmente com o pedágio! Invista em imóveis! Não esquenta, todos passamos por isso! Faça regime! Viaje mais! A vida e o poder são breves, aproveite ao máximo! Aos inimigos? Retaliações! O poder embebeda e vicia!Faça uma grande obra, teu nome estará nela futuramente!Não solte o osso!Aos amigos?Tudo.
O vulto a cabeceira da mesa vai justificar-se perante seus antecessores no cargo. Seu olhar aflito, mira um por um os participantes da estranha reunião. Penso! Agora finalmente serei conhecedor dos segredos que envolvem nossa atualidade, planos, métas, transparência total de mistérios tão bem guardados.
Um grito corta o silêncio e estou debruçado sobre minha mesinha de vigia no andar térreo. Suado e trêmulo ainda sinto as presenças do passado. Em coro os adolescentes tornam a gritar na esquina. Acordo totalmente. Ufa! Que pesadelo.

Gastão Ferreira/2009
Obs.: Esse texto é totalmente fictício.

terça-feira, 14 de julho de 2009

AH! IGUAPE


AH! IGUAPE

Iguape minha Princesa,
Princesa do litoral...
Tenha contigo a certeza
És o meu bem e meu mal!

O meu bem são tuas matas
O teu ar puro é de mais...
Velhas ruas em que retratas
Casarões... Sonhos... Quintais!

Tua gente cancioneira
Festa em todo o lugar.
Em mim és mãe feiticeira:
- Vim aqui e fiz meu lar!

Mas o mal que te envolve
É a negra politicagem...
Dois véus tua face encobre
O dinheiro e a sacanagem.

Mas quem sabe chegue o dia
De virar a mesa e o prato...
De acabar com tanta orgia,
De ser Princesa de fato!

GASTÃO FERREIRA/2009

segunda-feira, 13 de julho de 2009

MEUS PAIS




Ah! Se eu pudesse retornar o tempo
Que já passou e que não volta mais...
Sentir de novo o teu braço atento
... Eu beijaria e te abraçava mais...

Ah! Se eu pudesse retornar a tempo
Para dizer como os amei demais...
Eu não chorava e soluçava ao vento
Vendo suas fotos meus amados pais!

Ah! Se eu pudesse reverter o tempo
Ver a criança tão feliz que fui...
Ah! Se eu pudesse, tolo pensamento
O tempo passa e jamais reflui...

Mas se pudesse só por um momento
Beijar seus rostos só uma vez mais
Eu vos diria como eu lamento...
Nunca ter dito que os amei demais!

GASTÃO FERREIRA/IGUAPE/2009

AI QUEM ME DERA


AI QUEM ME DERA

Ai quem me dera não sofresse tanto
Por carregar essa ilusão sem fim...
Ai quem me dera não perder o encanto
E crer nos outros e muito mais em mim...

Ai quem me dera eu pudesse um dia
Abrir janelas, portas e quintais...
Rever uma vez mais os risos e alegria
Que já partiram e não voltam mais...

Ai quem me dera partilhar o sonho
Matar a fome... Expulsar a dor...
E ser feliz e nunca mais tristonho
Pintar meu mundo de uma nova cor!

Ai quem me dera ter tantos amigos
Pra dividir meu sonho e meu amor!
E pelas trilhas caminhar comigo...
Na tarde mansa, primavera em flor!

GASTÃO FERREIRA/IGUAPE/2009

LONGE DE IGUAPE


LONGE DE IGUAPE

Tão longe de minha terra
Sem os sussurros do mar,
Oh longo tempo de espera
Mas um dia hei de voltar!

Quero rever a Juréia
As montanhas tão serenas
Ir à festa em Cananéia
Tantas lembranças amenas

Dançar forró no Rocio...
Navegar no mar pequeno
Saltar da margem do rio
Remar canoa sem remo.

Ah! Se saudade matasse!
Eu já teria morrido...
A dor no peito renasce
Nunca fechando a ferida!

Iguape em minha memória,
Rio correndo para o mar
Pescador contando história
Sereias... Sonho e luar...

GASTÃO FERREIRA/2009

sábado, 4 de julho de 2009

A SAIA NO ARMÁRIO


A SAIA NO ARMÁRIO

Oi amigão!
Nessa semana deu o maior rebu na casa do vô Toinho, parece que desconfiaram que tio Manú fosse gay. Eu sei que você vai pensar:- Logo tio Manú que não pode ver um rabo de saia!
Pois é amigão! E foi justamente por causa de uma saia que estava escondida no armário dele que a desconfiança veio a público. Tio Duda, o maior machão que essa terra de coronéis já conheceu, foi categórico:- É mona!
Tia Fefê foi à única que tentou defender tio Manú afirmando que a saia era dela. Vovô Toinho ficou uma fera, e como estava bebendo deste o momento do fatal acidente com a peça de vestuário, tentou jogar um copo de caipirinha no rosto de titia e gritou na lata:- Logo você Fefê? Nunca usou uma saia na vida! Te cuida moleca! Ta pensando que engana alguém?
A migucha de tia Fefê quase bateu no vovô, mas aquela outra amiga que é goleiro deu um cala boca geral e foram todas para o campinho treinar para o próximo jogo do campeonato municipal de futebol feminino.
Tio Manú tentou se justificar alegando que a saia era uma lembrança do último banho da Dorotéia e que ele a guardou como recordação para um dia distante mostrar aos futuros netos.
Vovô quase teve um enfarto, ficou roxo de raiva e emborcou mais uma caipirinha. Gritou “parmeira” umas dez vezes, e quando ele grita “parmeira” o mundo se cala:- Maínga! Oh maínga seu cachorro!Não permito que filho meu participe do banho da Dorotéia vestido de mulher, pode sair de qualquer coisa menos de mulher! Jamais vou esquecer o que aconteceu com o compadre Burity, o conservado, há quinze anos. Saiu com uma roupa idêntica a sua e foi estuprado cinco vezes!
Tio Manú ficou branco igual fantasma e jurou de pés juntos que não houve nenhum estupro e que apenas passaram a mão na bunda dele umas cinqüenta vezes, fora alguns beliscões na “poupança” nada mais sério ocorreu.

Vovô Toinho completamente torrado abraçou-se a tio Manú, pediu desculpas e gritou para toda a vizinhança ouvir:- Manú é macho! Manú é macho! Obrigado meu Bonje!
Estou relatando esse acontecimento para você ver que isso de sair fantasiado de menina é uma fria. Após ler essa cartinha queime os dois vestidinhos que combinamos usar no próximo carnaval e não conte nada para ninguém. Um abraço do amigo

Dudu

GASTÃO FERREIRA/IGUAPE/2009