segunda-feira, 9 de novembro de 2009

AH! IGUAPE


AH! IGUAPE

Quando calaram os ventos
Depois do bramir do mar...
Restaram tantos tormentos
Que o sonho veio embalar...

A mão que rezou o terço
Foi a mesma que pecou...
Histórias que desconheço
Foi o vento quem contou!

A casa que o comandante
Com sangue alheio comprou
É de um povo tolerante
Que nada nunca cobrou

No escuro da memória
Estão os velhos jornais
Segredos de nossa história
E que ninguém lembra mais

Ah! Iguape. Como pode
O Amor agir assim?
Foguete no céu explode
Tanta merda no jardim!

Gastão Ferreira

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

ANASTÁCIO MÃOS LIMPAS


ANASTÁCIO MÃOS LIMPAS

Nunca existiu uma pessoa tão honesta quanto Anastácio Mãos Limpas, desde petiz afirmavam:- Que criança toda amor! Qual será o seu destino?
Anastácio cresceu saudável, enquanto a garotada esgoelava gato ele cuidava dos filhotes abandonados. Caso jogasse água quente em cachorro vadio ele atirava água fria, enfim um santinho infantil e um completo babaquinha.
Nem tudo eram flores na vida dessa doce figura, o mundo é uma escola e ele mal passava de ano. Os coleguinhas o apelidaram de Anastácio o anta.
Na adolescência os hormônios falaram mais alto e ele começou a freqüentar a fonte do Senhor. Aquele cheiro de mato que qualquer craque sabe o que é. Aquela cola misturada a palavrões e permissividade chamava por novas experiências e ele foi fundo.
Anastácio conheceu o lado obscuro da cidade onde morava. Sabia dos locais secretos onde rolava o proibido e teve uma idéia genial, iniciou um diário secreto onde anotava tudo que ocorria, com nome, apelido, horário e endereço, testemunhas... E o tempo foi passando.
Aos vinte e poucos anos, Anastácio concorreu a um cargo eletivo... Conselheiro qualquer coisa e obteve uma expressiva votação. Todos comentavam:- Chegou o futuro! Anastácio mostra ao que veio.
Comprou carro, moto, sitio, mansão. Sua fortuna multiplicava-se e tornou-se um respeitável ricaço, e todos beijavam suas mãos limpas para obterem os mais variados favores.
Os invejosos não se conformavam:- Alguma coisa está errada! Como esse anta conseguiu vencer? Nessa história tem dente de coelho, jacaré, capivara. Sei lá!
Quando a Polícia Federal desarticulou as quadrilhas que infestavam há muito tempo todo o município, os chefões, chefes, chefinhos e chefetes fugiram. Anastácio foi detido e levado para a cidade grande, jamais voltou, seu nome constava da lista de propinas dos bandidos e o segredo estava no diário... Anastácio desde mocinho anotava o que via e a chantagem era o grande truque. Anastácio foi execrado e amaldiçoado... E o tempo passou.
Ontem foguetes e faixas anunciaram:- A cidade agradece a seu mais nobre e honrado filho a liberação da verba para a construção do albergue municipal. Senador Anastácio Mãos Limpas, nosso muito obrigado.

Moral da história:- História sem nenhuma moral.

Gastão Ferreira

terça-feira, 3 de novembro de 2009

MENDICÂNCIA


MENDICÂNCIA

Hoje iniciei uma pesquisa a fim de realizar uma futura reportagem sobre mendicância. Procurei os mais velhos para compartilhar as memórias do passado e fomos unânimes, até o início dos anos 90, mendigos em Iguape só em véspera de festa de agosto. Pelo que lembro tínhamos alguns débeis mentais que faziam uso dos fundos da basílica, nada pediam, ficavam por ali sentados, olhando a vida passar e a noite voltavam para suas casas.
Percebo que esse assunto é delicado, envolve humanismo e aspectos religiosos, mas a mendicância está a tornar-se um problema crônico em nossa cidade e é um dos sintomas da decadência que se faz mais visível. As reclamações dos turistas se juntam a de cidadãos que evitam freqüentar o centro histórico e assim vamos perdendo um espaço que é nosso. Os pedintes têm todo o direito de ir e vir e nós não temos o direito básico de não sermos molestados.
O que se conhece como mendicância não faz jus a esse nome em nossa cidade. Todos os municípios têm os seus carentes, pessoas destituídas momentaneamente da possibilidade de se manterem e que recorrem à caridade alheia até superarem essa má fase. Temos no Brasil os mendigos caminhantes, que são aqueles que encontramos a margem das rodovias, esses permanecem por dois a três dias em uma cidade e continuam sua viagem.
Logo no inicio da pesquisa deparei-me com dois fatos que desconhecia; - O primeiro foi que a tão famosa desova de mendigos, pelo menos nos dias atuais é lenda urbana. O segundo fato é que em nossa cidade na atualidade temos vinte e cinco pessoas que se passam por mendigos e que desse total apenas três são de fora de nosso município.
Outro fator que causa constrangimento é que todos os nossos mendigos são alcoólatras e não querem por vontade própria morarem com suas famílias. Um problema que tem solução. Basta não vender mais bebidas a essas pessoas, pois todos os comerciantes os conhecem. Parece complicado e é, mas não podemos contar com mais ninguém para resolver a questão.
Depois de constatar esse fato inusitado desisti da reportagem. Desde que fui expulso aos gritos de um local público, estou evitando o máximo me expor ao ridículo perante nossa sociedade, assim não me é dada a oportunidade de saber o que pensam as autoridades constituídas sobre o tema mendicância.

Gastão Ferreira-03/11/2009

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

UMA NOBRE VISITA



UMA NOBRE VISITA

A Princesa do Litoral passou novamente pela cidade. Dessa vez chegou de barco, o qual ancorou atrás do CITUR:- Meu Bonje!Josephus, que pobreza, veja os guarda carros municipais... Tão mal vestidos.
- Esses não são guarda carros Majestades! São mendigos que estão prestando um belo trabalho comunitário, protegem os veículos de assaltos e vandalismos...
- O quê? Já temos isso nessa cidade pacata!
- Ainda não! Mas os proprietários das conduções não sabem...
- Mas Josephus! Sujinhos assim não vão afastar os turistas?
- Que turista majestade? Faz um bom tempo que por aqui só aparece meia dúzia de gatos pingados...
- Meu Bonje! Onde foram parar os turistas?
- Por incrível que pareça em Cananéia...
- O quê? Foram para aquela cidadezinha onde dizem que nem o vento presta...
- Pois é! Ela está recebendo muitos turistas... Ruas limpas, bem arborizadas, segurança e bons preços...
- Você deve estar enganado! Vamos até a praça da matriz.
- Vamos devagar majestade... Aprecie o passeio... Não se canse... A senhora vai fazer 471 anos em dezembro...
- Veja Josephus! Você estava enganado, os hotéis estão lotados, tem pessoas dormindo até na calçada...
- São pedintes majestade! Toda a semana aparece mais alguns...
- Meu povo continua generoso, adora alimentar quem não gosta de pegar no pesado...
- Não fale tão alto majestade! Vá que ouçam e pensem que seja uma carapuça, vai sobrar para a senhora...
- Josephus! Meu coreto! Que aconteceu com meu amado coreto?
- Calma majestade! Para tudo existe uma explicação. Seu coreto foi destruído...
- Isso eu já reparei! Mas como? Caiu um raio encima?
- Não Majestade! Sua cidade agora faz parte do patrimônio histórico nacional...
- Oh! E o velho coreto não fazia parte da praça?
- Sim! Mas não pertencia ao período tombado...
- Mas Josephus! Os nomes na placa também não pertencem ao tal período... Olhe aquele nome ali... Eu conheço... Eu conheço.
- Majestade! Vai sobrar para mim... É melhor sairmos da praça...
- Nem pensar! Vou imediatamente me queixar ao Bonje e resolver esse problema...
- Majestade! Tenho uma péssima notícia a vos dar...
- Pior do que o fim do coreto? Pior do que esses sem tetos e sem banhos dormindo nas laterais do templo? Pior do que o lixo no lagamar? Pior do que a falta de turistas? Pior do que a falta de perspectiva que noto no rosto dos cidadãos? Pior do que essas velhas árvores peladas? Ora Josephus! Me poupe...
- Majestade! O Bonje foi embora...
- Oh! Não... Não... Não!
- Majestade! Majestade!... Desmaiou.

Gastão Ferreira

DONA COTINHA



DONA COTINHA

Dona Cotinha melhor idade, exímia dançarina, única vencedora consecutiva da maratona “Calo de ouro”, um evento dançante promovido anualmente pelo clube Seupimpa, onde a vencedora ganha um fim de semana com direito a acompanhante no famoso resort “Adios Mutuca’s” na Barra do Ribeira, estava eufórica, acabara de conhecer Benedito e foi amor a primeira pisada no pé... Estavam dançando.
Paixonite na terceira idade é igual remédio milagroso, cura reumatismo, pressão alta, enxaquecas, nervo ciático, em fim qualquer dodói que possa infernizar a vida de quem já está para lá da Ilha Comprida, ou seja, no fim da picada, ou como se diz, na melhor idade.
Foi bailando que ela apaixonou-se. Benedito era um dançarino nato, um pé de valsa caiçara e naquela noite estava inspirado, não deu sossego à dona Cotinha e ela deslumbrada esquecia as dores na coluna e dançava e dançava.
Que homem o tal Benedito, muito jovem, alto, moreno, bem apessoado... Um tanto calado é verdade, mas para amar não há necessidade de muito converse, por vezes é até melhor ficar calado do que só falar bobagens. Dona Cotinha estava nas nuvens, digo dançando e pensava lá com suas sandálias de prata:- Quero esse homem prá chamar de meu!... E deu inicio a paquera:- Meu nome é Maria das Dores, apelido Cotinha, além de dançar muito bem, cozinho, lavo e passo...
- É! Disse Benedito com ar distante...
- Sim! Também arrumo muito bem uma casa, tomo dois banhos por dia, faço um excelente casadinho de manjuba, tainha na telha, na folha da banana, no forno...
- É!...Realmente Benedito não era de muita conversa, mas Cotinha não se deu por vencida...
- Sou aposentada, ganho muito bem, o falecido era pescador e meus filhos estão todos casados... Moro sozinha.
- É!...Não disse que Benedito era muito calado!
- São quase quatro horas da manhã, estamos dançando desde a meia noite, horário em que você entrou no clube, não poderíamos continuar nossa agradável conversa em outro local?
- Pode ser no meu barco?
- Noooossa! Você tem um barco? Vamos sim... Há quanto tempo não entro num barco...
- Vamos?
Quatro e meia da madrugada... Um barco ancorado entre a passarela e o antigo porto da balsa... Cotinha de mãos dadas com Benedito... A beira do valo completamente deserta... Neblina. Quanto mais se aproximavam do velho barco, mais Cotinha se arrepiava de frio. Pararam... O barco estava solto e flutuava a uns três metros da margem. Cotinha tremia... Alguma coisa estava errada:- Benedito! Agora que notei... Você não me é estranho.
- Claro que não Maria das Dores! Eu fui seu primeiro namorado... Benedito que há setenta anos morreu afogado.
João Carudo encontrou dona Cotinha desmaiada, eram seis horas da manhã de domingo e foi a ele que ela contou essa história que vai além da imaginação. Dona Cotinha nunca mais foi dançar no Seupimpa, agora é freqüentadora assídua da “Sandália de Cristal”, um local bem longe da água... Semana passada conheceu Alcino, um jovem caladão, com uma estranha marca vermelha ao redor do pescoço... Mora num sitio...

Gastão Ferreira

PESADELO




PESADELO

Ontem durante o sono tive um pesadelo, conheci um mundo povoado pelos personagens de todas as histórias que imaginei. Sem sol, sem luz, sem esperanças vultos vagavam na penumbra lunar. Os enforcados seguravam pedaços de cordas pendentes de seus pescoços, os suicidas pelas águas se apresentavam roídos por siris. Pessoas com furos na cabeça, outros no coração. O ladrão agarrado ao objeto furtado, o corrupto moralmente nu, mas se vendo vestido do ouro rapinado.
Os avarentos defendendo posses imaginárias, os mentirosos e vis com falsas carapuças de santos tentavam passar despercebidos. Politiqueiros gesticulando ao vento piamente crédulo que cada pedra imóvel era um desatento e corrompível eleitor.
Procissões com indigentes morais contornavam entre lamentos a grande basílica feericamente iluminada. Pagadores de promessas não cumpridas mendigavam uma prece sincera. Todos os romeiros de todos os tempos com suas cruzes, seus cilícios, seus gemidos ali se faziam presentes.
Num coreto fantasma idêntico ao destruído pelos atentos zeladores de nosso patrimônio histórico, seres deformados pela arrogância, prepotência e vaidade, discursavam entre gritos histéricos perante uma platéia imaginaria... Aves de mau agouro espiavam de sobre telhados em ruínas.
Em volta da grande praça a procissão era contínua. Falsos e cínicos carregadores de andor de todos os tempos se digladiavam chorando humilhados perante a divindade que tentaram em vão corromper, cientes dos maus passos, dos maus exemplos, das más atitudes.
Todo um passado estava presente. Índios, escravos, coronéis, rameiras e donzelas mortas por amor ou de tanto amar cercavam transeuntes em lagrimas. Todas as gentes que um dia aqui viveram estavam na praça clamando pela justiça divina. Padres de negras vestes, bispos e seus anéis, pastores e ovelhas clamavam por merecido descanso. Coronéis sem armas e sem poder, ultrapassados em vilania por novos mandatários, quedavam-se mudos frente à multidão que cobravam reparação de passados atos de tirania.
O vento sul castigava a cidade, bêbados tiveram visagens, mendigos acordaram sobressaltados... A cidade dormia desconhecendo o pesadelo. Quando a porta principal do grandioso templo foi escancarada, todos esses seres imaginários adentraram a imensa construção.
Tudo isso ocorreu num tempo sem tempo, entre dois repicar de sinos e eu era o observador... Fui o último a entrar no santuário e a praça estava vazia, todos os mortos do passado estavam dentro da matriz... Só o vento soprava entre os velhos casarões e para minha surpresa o majestoso templo também estava vazio, uma imensa paz se apoderou de minha alma apavorada e acordei sobressaltado, com a sensação que levantara um véu proibido, de um segredo que deve permanecer escondido, de uma eterna verdade onde tudo termina e tudo recomeça.

Gastão Ferreira

terça-feira, 27 de outubro de 2009

VISITA MATERNA


VISITA MATERNA

No spa onde se encontra, alguém recebeu uma agradável visita:
- Não acredito! Mamãe Peregrina...
- Bonje meu filho! Quanta saudade...
- Mamãe! Que bom que veio. Eu estou precisando tanto de um colinho de mãe...
- Oh! Filho. Noto que estás tão abatido! Serão as saudades da terrinha?
- Não mamãe! É que recebi notícias recentes do meu lar e fiquei muito magoado...
- Filho! Você já sofreu tanto... Carregou sua pesada cruz...
- Cruz credo! Nem fale em cruz perto de mim... To de saco cheio de cruz...
- Meu filho! Olhe as boas maneiras...
- Mãe! A senhora sabe o que Eu vou ver durante centenas de anos, lá do meu altar?
- As verdes montanhas da Princesinha?
- Não manhê! Uma cruz...
- Meu Deus! Nããão. Pobre filho! Será que aquela gentalha não entende que Ele tem trauma de cruz? Meu Deus! Esse pesadelo nunca termina... Oh filho! Sempre uma cruz no seu caminho... Meu Deus! Meu Deus!
- Calma mamãe! Não precisa ficar estressada... Calma... Calma!
- Vou conversar com minha amiga!
- Que amiga mamãe?
- Não te contei? A santinha Mãos Limpas...
- Mãe! A senhora quer arrumar mais encrencas? Foi ela, a santa, quem aprovou meu último e definitivo tormento...
- O quê? Ela te torturou?
- Mamãe! Mamãe! Sei que a senhora já passou a milênios da melhor idade, mas, por favor! Por favor! Mãos Limpas não é a manda chuva do local?
- Meu Bonje filho! É mesmo... Na próxima visita teremos uma conversa muito séria...
- Não mamãe! Por favor... Em cada visita a senhora arruma uma nova confusão...
- Eu? Filho! Ta me chamando de barraqueira?
- Mamãe! Mamãe! A cidade é pequena... A pedra quente fica perto... Eu ouço vozes...
- Não! Você ouve vozes?
- Sim! Fiquei sabendo do quase incêndio do meu santuário, das picuinhas com o padre, com o meu sacerdote... Bonito hem?
- Filho! Mas não fui eu que armei o bochicho... Foi aquele barraqueirinho pau mandado... Um que se esgoela de gritar quando me vê... Um sem educação... Um...
- Mamãe calma! Vá que nossa conversa esteja sendo gravada... Coitado do cronista! Vão achar que é carapuça... Calma mamãe! Calma!... Não se emocione... Calma... Calma... Isso!...Calminha! Calminha!
- Snif... Snif... Como mãe sofre e a de Cristo sofre muito mais!
- Mãe! Não precisa ficar assim só por causa de um reles barraqueiro sem educação...
- Meu filho! Ele me enganou! Enganou a Sua mãe! Ele foi só elogio... Todo amorzinho... E aprontou uma dessas para Você!...Oh filho querido!
- Mamãe! A senhora tão vivida e não conhece as pessoas... Sempre tão confiante... Tão ingênua! Se amanhã ou depois nosso inimigo vencer a ultima batalha, essas mesmas pessoas farão questão de carregarem o seu tridente... Elas são assim mesmo Mãe! Amam o ouro e o poder, e o resto que se danem...
- Meu filho! Como estás profundamente magoado.
- Não é para menos! Presentearem-me com mais uma cruz...
- Filho! Para tudo existe uma solução.
- Mas não vejo uma solução!
- Tem sim! E bem simples.
- Qual mãe? Qual?
- Não vivem dizendo que errar é humano?
- Sim! Todos os pecadores dizem isso...
- Você é metade humano, não é filho?
- Sim! Creio que sim...
- Então não retorne para lá... Confesse que errou na escolha do lugar e que agora você decidiu morar em Peruíbe...
- Mãe! Que excelente idéia!
- Mãe é mãe!
- Oh! Mamãe Peregrina...
- Oh! Filho Bonge!

Gastão Ferreira

MAIS UMA CRUZ NA PRAÇA


MAIS UMA CRUZ NA PRAÇA

São tantas cruzes na vida
Seguindo os passos da gente
Sempre uma cruz tão sofrida
Hoje uma cruz diferente...

Se for cruz de sofrimento
Essa jamais vai faltar...
Ouça do povo o lamento
Tem tanta gente a chorar!

Mais uma cruz na cidade
Em um novo monumento
Para marcar a maldade...
Nesse sofrido momento!

São sete cruzes na praça
Lembrando da escuridão
Chorando nossa desgraça
Pedindo ao povo perdão!

Perdão pela indiferença...
Essa maldade tem nome...
Perdão por tanta descrença
Que nosso sonho consome!

Gastão Ferreira

domingo, 25 de outubro de 2009

VISITA A FONTE


VISITA A FONTE

Beleza que me rodeia
É bem fácil de notar...
Coração amor semeia
Em minha alma a chorar!

Naquela fonte tão bela
Onde ELE lavou a dor
Está sobrando donzela
Está faltando pudor...

Por lá tem cheiro de mato
Tem craque, tem amador.
Tem passarinho de fato
E passarinho enganador...

Saudade que me visita
Qual o recado do mês?
Minha cidade bonita...
Vai me magoar outra vez?

As sereias quando cantam
Sempre nos querem perder
Vozes falsas que encantam
Nos caminhos do viver...

Gastão Ferreira

sábado, 24 de outubro de 2009

PASSARINHO


PASSARINHO

Pouca gente sabe, mas os bichos se comunicam entre si. Tatu entende tatu, gaivota entende gaivota, veado se entende com veado e assim o mundo fica cheio de sons e significado.
Um sabiá estava dando aula de canto a seu filhote:- Junior! Ainda bem que você nasceu no século XXI...
- Por que paiê?
- Porque no século passado você seria caçado como alimento...
- Noooossa paiê! Os humanos não criavam galinhas para alimentação?
- Sim! Mas tinham que cuidar muito bem delas e com passarinho não perdiam tempo, era matar e por na panela...
- Não diga paiê! Que tristeza...
- Seu bisavô foi um dos mártires de nossa família, era um sabiá muito esperto...
- Tão esperto que levou uma estilingada, não é paiê?
- Junior meu garoto! Você anda voando lá pros lados da fonte do Senhor? Ou foi em pátio de colégio que aprendeu essas respostas?
- Oh paiê! Os meninos humanos são tão inteligentes...
- Como assim? Se vivem falando palavrões!
- É uma nova forma de comunicação, paiê!
- É! Mudaram o nome da falta de educação?
- Esquenta não, paiê!
- Junior... Junior! Você andou bicando erva que passarinho não bica?
- Nada a ver paiê!... Paiê!Hoje voei sobre a praça da matriz...
- Alguma novidade por lá?
- Vi a construção do obelisco!
- Obelisco?
- Sim! A nova obra de arte estilo portal de entrada da cidade que enfeitará a praça...
- Ah! Aquele para o qual fizeram uma votação entre os habitantes da cidade para saberem que obra de arte colocar no lugar do coreto defenestrado...
- Fizeram uma consulta popular, paiê?
- Creio que sim! Afinal a praça é do povo e o povo tem o direito de escolher que monumento as pessoas gostariam de verem no local onde passeiam...
- Não vejo à hora da inauguração! Quero ser o primeiro a fazer um belíssimo cocô pós inauguração no fantástico monumento...
- Cuidado filhote! Você pode se ferir... Esqueceu dos foguetes?
- É mesmo paiê! Para a inauguração dessa grande obra de arte, a foguetada será inesquecível...
- Tenha cuidado! Não voe muito perto... Será que na placa constarão os nomes de todos os gênios que a conceberam?
- Acho que sim! Falam que será uma placa nunca vista... Dela constarão nome de anjos, arcanjos, querubins e paus mandados...
- Nada mais justo!
- Por que paiê?
- Filho! Esse será o único objeto feito por mãos humanas que o Bonje verá de seu altar pelos próximos séculos...
- É mesmo paiê! E Ele vai observar noite e dia tal monumento... Com certeza vai até decorar os nomes que constarão da placa...
- Beleza hem! Será que Ele vai gostar?
- Vamos aguardar o Seu regresso e anotar a Sua divina reação...
- Meu Bonje! Qual será a reação?
- Se Ele aprovar, quem sabe dará o mais breve possível o paraíso aos envolvidos no projeto...
- Paiê! E se Ele não gostar?
- Junior filhote! Eu sempre te falei que o inferno existe, mas tem muitos que afirmam que o inferno é aqui nesse mundo...
- Meu Bonje! Pai...
- Meu Bonje! Filho.

Gastão Ferreira