terça-feira, 14 de abril de 2015

Lembrente

Tenho outros textos postados em; Face Book - Gastão Ferreira - Contos & Causos iguapenses - Obrigado pela atenção.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

A revolta

Seu Sinfrônio, viúvo de Dona Bernadete, estava inconsolável. Aos setenta e seis anos de idade perdera a companheira de uma vida; dona Dete não tomou a vacina para idosos e bateu as chinelas de dedo. Todo o santo dia Seu Frônio visitava o túmulo da amada; o homem estava realmente arrasado; em uma sexta-feira treze, acompanhado de uma garrafa de Velho Barreiro, foi ao cemitério conversar com a defunta; contou da sua tristeza, sua saudade, das brigas com as netas que desapareceram com as poucas jóias da falecida e assim esvaziou a garrafa de pinga, e, adormeceu sobre a sepultura. Eram três horas da manhã quando despertou; sonolento avistou alguns vultos e prestou atenção no que diziam; - “Temos que decidir o que fazer Alphonsus! É uma vergonha o descaso com o qual é tratada a nossa última morada.” - Vosmecê está se referindo a esse matinho em volta das tumbas, Catherine?” - Nem prestei atenção nesse pormenor; de uns tempos para cá, o nosso sono eterno tem sido interrompido por gemidos e sussurros que nada tem a ver com possíveis assombrações... - São apenas casais enamorados procurando um cantinho para uma pega noturno... - Uma vergonha Alphonsus! Quantos anjinhos estão enterrados aqui... - Catherine! Catherine! Você sempre preocupada com o que os outros vão pensar... Já não somos mais desse mundo; deixe os vivos se divertirem... - Abriram o túmulo de madame Ephifania e roubaram seus dois dentes de ouro; parece que os garotos vão trocar por pedras... - Pedras? Que estranho, não? - No final de semana passa um carro com o som no volume máximo; Dona Cothinha nem sai mais da sepultura... Um ultraje aos antigos moradores dessa pacata cidade... - Tenha paciência mulher! Tantos alcaides estão enterrados por aqui... - Eles não tão nem aí! Apenas fazem apostas em qual dos oito candidatos subirá ao trono no final do próximo ano... - Homessa! Oito candidatos? Parece que tem uma mulher nessa disputa e também um animal silvestre com as garrinhas bem afiadas... - São assuntos dos vivos! Não nos interessam mais... - Nhãnhãnhã... Interessa sim! Precisamos assombrar a casa dessa gente para que prometam fazer uma limpeza total em nossa morada... - Pura perda de tempo! Você ainda acredita em promessa de político? Inocente... Nesse momento Seu Sinfrônio percebeu que presenciava algo assustador; muitas almas ficavam vagando pelo cemitério e não subiam aos céus... Grupinhos de espíritos fofocavam ao lado do jazigo de Dona Madá, a maior mexeriqueira que a cidade já teve; outros tocavam violas fazendo serenatas às amadas mortas. Alguns contavam moedas antigas e outros batiam em desafetos também finados... O espírito de Dona Bernadete saiu do sepulcro e foi logo desabafando; - “Velho safado! Pensa que eu não sei que me traiu com metade das galinhas da cidade! Estão todas enterradas aqui e me contaram tintim por tintim dos muitos chifres que levei... Chispa daqui! Se manda e nunca mais apareça, seu corno manso! Seu Frônio jamais voltou ao cemitério; um local de muita assombração e almas revoltadas. Anda pensando seriamente em comprar uma sepultura em outro bairro, outro cemitério, um lugar sossegado para o sono eterno. Gastão Ferreira/2015

A Princesa e os terroristas

A Princesa e os terroristas Tudo começou silenciosamente; pedintes oriundos dos mais diversos lugares achacavam turistas e moradores indefesos, lajotas de calçamento desapareceram da noite para o dia sem deixarem rastros; túmulos antigos foram saqueados e ninguém sabe dos profanadores. Tudo começou na maior zoeira; carros com som no volume máximo acordavam na madrugada os sonolentos cidadãos; pré-adolescentes seminuas gritavam histéricas na calada da noite, disputando admiradores. Casais mal resolvidos se estapeavam pelas esquinas; jovens olheiros espiavam as rondas policiais em ruas desertas; drogados assaltavam desavisados e os muitos alcoólatras brigavam entre si desrespeitando a lei do silêncio noturno; milhares de rojões assustavam quem estava posto em sossego; cães ganiam apavorados, gatos se escondiam e pássaros perdiam o rumo na cidade tombada e tomada pelo barulho infernal. Quando os bandidos detonaram um caixa eletrônico e os restos de um homem-bomba foram encontrados no local do crime, a suspeita de que terroristas islâmicos estavam homiziados na cidade se espalhou... Câmeras de monitoramento foram estrategicamente posicionadas e durante três semanas filmaram a tudo e a todos. Um carro de som convocou a população; - “Domingo à noite na Praça da Matriz as descobertas da câmera de monitoramento serão reveladas” e assim aconteceu... - “Olha só! Ditinha Coruja, uma santa criaturinha e filha da irmã Cleyde... Nossa! Andando quase nua na madrugada.” - “Caramba! Naquele carro preto, com o som de arrebentar, não é o filho do seu Antenor?... É o Junior sim! Três da madruga e ele zoando... Nem carta de motorista possui, eu hein!” - “Meu Bonje! Quanta gente pulando o muro do antigo prédio do correio... Ajam pedras!” - “Dito Grilo passando droga nos embalos de sábado à noite atrás da igreja... Quem diria!” - “Gente! Pai Fulano saiu do armário; demoro!... Chocante!” - “Bem diz aquele velho ditado; à noite, todos os gatos são pardos...” Foi assim até o final das filmagens; filhos, netos, primos, tios, amigos e inimigos, comadres e compadres, casos e descasos, vizinhos e colegas, perdidos e achados... Todos conhecidos... Todos expostos no telão da Praça da Matriz... Todos de alma nua e corpos bem vestidos... Os reclamantes pararam de reclamar e a cidade fez de conta que ninguém foi filmado; um bafão para ser esquecido e jamais mencionado. Melissa Dickson, musa de tantos carnavais e rainha do Boitatá por quinze anos consecutivos e recém convertida, se achando no divino direito de esculachar os não crentes, postou no facebook; - “q as pás do senhor abram as vossas mentes, como é bom ter pás na vida... Amem.” Thelminha Furacão, a que matou a avó a pauladas, também postou; - “Família é tudo de bom! Como é sublime saber amar... Quem curtir vai direto para o céu.” Dito Trezoitão, um ex-drogado, ex-gigolô, ex-presidiário e ex- assaltante; - “Nada como ser puro e honesto...” Marly Oncinha; - “Tenho onse anus, munta esperiencia di vida e procuro a otra metadi da melancia...” Na Princesa o dia amanheceu ensolarado; quem tem trampo foi trabalhar, quem não tem foi à praia ou a Fonte, crianças continuam a gazear aulas para pular da passarela ou saltar na água bem na frente de quem está pescando. Na orla, depois das vinte horas, continua impossível passear; os meninos do bem tomaram conta e os moradores de rua, mesmo com as padarias fechadas, prosseguem pedindo “um reau” para comprarem pão... Todas as filas em Bancos, lotéricas e supermercados continuam quilométricas, os bebês a nascerem em Pariquera e a Ilha lotada de turistas... Terroristas! Quem precisa de terrorista na Princesa? Não vamos exagerar... Gastão Ferreira/2015

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

A visita de Cassandra

A visita de Cassandra Cassandra foi uma princesa troiana, filha de Príamo e Hécuba, irmã de Heitor e de Paris o raptor de Helena. A moça era de uma beleza extraordinária e bastou Apolo, o deus da luz, da música, da medicina e de outras coisinhas insignificantes vê-la para se apaixonar perdidamente... A donzela não deu a mínima ao poderoso deus e ele por vingança e por ter sido desprezado em sua paquera, dotou Cassandra com o dom oracular... Um oráculo na antiguidade clássica ocupava o mesmo espaço que na atualidade ocupa a nossa Unidade Mística... Qualquer dor de cabeça, sintoma de Dengue, dor nas costas, pressão alta e milhares de outros sintomas e tome lá uma consulta ao oráculo... A vingança de Apolo, que era muito sacana, foi terrível... Ao maravilhoso dom de conhecer o futuro, dado à bela e insensível Cassandra, o deus impôs; - “Ninguém acreditará em uma só previsão sua!” Cassandra fez milhares de profecias, apesar do descrédito de seus consulentes, todas se realizaram... Quando Tróia foi incendiada e saqueada, e quase toda a Família Real assassinada, apenas a princesa Cassandra, sua mãe Hécuba e seu decrépito tio Anquíses com alguns de seus filhos escaparam... Entre os descendentes de Anquíses estava Enéias, fruto de um ardente romance entre o jovem Anquíses e a deslumbrante Vênus, deusa do amor e da beleza. Enéias futuramente se envolveria com a feiticeira Dido e num tempo ainda por vir, dois garotos gêmeos, Rômulo e Remo, seus descendentes fundariam uma cidade chamada Roma, mas isso é outra história... Cassandra, sem pai, sem ouro, sem palácios, vagou pelo mundo... Ganhava seu sustendo fazendo previsões, lendo cartas, interpretando sonhos e consultando o tarô, os búzios, as estrelas do céu... Seus clientes não gostavam das respostas do oráculo, pois desde que o mundo é mundo, poucos são os que realmente não temem a verdade... Num tempo impreciso, a profetisa passou frente à Ilha Comprida, que era puro mato e da sua nau avistou alguns vultos peladões, não resistiu à visagem e tascou uma profecia; - “Que bela ilha! Tão comprida... É habitada há milênios... Os primeiros a explorarem a sua riqueza foram os formadores de sambaquis... Foram assimilados por outros povos... Homens de cor vermelha se apossarão da região... Vejo muitas batalhas... Indivíduos vindos da Europa dizimarão todos os habitantes desse local... Pelos deuses! Uma cidade surgirá não longe da formosa e comprida ínsula... Por Tupã!... Quem é Tupã? Sei lá! Não importa... Quanto ouro! Quanto arroz!... Que será arroz? Nem sempre sei o que interpreto! Simplesmente traduzo o que os imortais permitem que eu veja... Que gente feliz! Que gente infeliz!... Pestes, conchavos, politicagens, Boitatá, desavenças... Belos casarões desmoronando... Uma cidade “lá tinha”... Tão bela e tão mal amada!... Pelos deuses do Olimpo! Afaste-se de mim essa visão!... Tudo para dar certo e tudo desperdiçado! Por Zeus! Não... Não e não!” Os companheiros de viagem caíram na risada; - “Essa Cassi! Parece uma louca... Dessas matas jamais sairão coelhos... Kakakaká.”... A nau afastou-se lentamente e os selvagens que a observavam da areia da praia nem desconfiaram da visita da profetisa amada de Apolo, como sempre, o que o deus determinou aconteceria num futuro ainda ausente... “Cassandra nunca mentirá, mas a ninguém é dado crer no divino oráculo”... Foi assim que há muito e muito tempo Cassandra nos visualizou no contexto atual. Gastão Ferreira/2014

domingo, 18 de agosto de 2013

Ao gato Léo... Obrigado

Gato Léo... Obrigado! Os bichos têm alma, sentimentos, preferências... São anjos de Deus, disfarçados em animais. Nossos acompanhantes nessa jornada existir. Aceitam-nos sem impor condições. Ciumentos, possessivos, adoram um carinho e o retribuem sem nada exigir. O gato Léo foi embora, Léo foi namorar e desapareceu, Léo foi assassinado. Mais um amigo que se vai, mais um ser vivo para lembrar. Era apenas um gato! Alguém pode pensar. Um gato, um cão, um passarinho... Tudo é vida! Qual a diferença entre matar um homem ou um animal de estimação? Somos todos oriundos da mesma fonte divina... Quem não respeita um bicho, não respeita uma criança, um velho, um deficiente físico. O homem se diz rei da criação! Mas, que rei é esse que agride gratuitamente, corrompe, rouba, mata, estupra, danifica? Soberano na inveja, na maledicência, no egoísmo, na maldade gratuita. Morre a matéria, a alma se liberta. Nada acaba em definitivo. O espírito do homem sonha com um futuro paraíso e a alma do animal, com que sonha? Animal não mente, não semeia nem colhe, somente existe e compartilha do medo, da fome, da vilania, da indiferença ou do amor humano. Gatos não morrem jamais! Ficam por aí arranhando sofás de nuvens, perseguindo ratos de vento, caçando passarinhos invisíveis em invisíveis árvores, namorando a lua, espiando nos aquários de neblina, miando nos telhados da noite, espreitando os ninhos. Gatos não se transformam em retratos nas paredes. Falecem, mas, continuam esfolando nossas lembranças. Ficam na saudade, nas fotos, numa lágrima furtiva... Gatos não desaparecem da memória de seus donos! Ficam deitados invisíveis nas soleiras das portas num ditoso abandono. Dormem felizes em sofás feitos de sonho, passeiam entre nossas pernas como acariciante aragem, nos vigiam e nos amam... Não com o amor humano! E sim, com aquele amor incondicional. Com o apego total, com o qual somente os animais são capazes de demonstrar o seu intenso afeto. Gato Léo, seu safado! Léo assassinado... Perdoa a vilania que habita o coração do homem que se diz civilizado e sapiens... Agora teu nome é saudade, eu continuarei a sentir a tua silenciosa presença muitas e muitas vezes, nas nuvens, no vento, na calma lembrança das tardes compartilhadas no terraço de casa, no ronronar suave da memória, nas fotos, nos beija-flores que me visitam... Olhos de luz! Breve miado... Pelo macio... Brisa passageira, que por um breve momento compartilhou de minha existência e espantou para longe de mim a solidão... Obrigado! Gastão Ferreira/2013

segunda-feira, 29 de julho de 2013

O BISTRÔ

O BISTRÔ... Estranhos são os caminhos do Senhor! Ele lança as sementes no coração dos homens e cada qual cultiva a planta de sua preferência... O coração é um imenso canteiro. O certo é ficar atento, reservar um espaço, regar com humildade, retirar a erva daninha do preconceito, da vaidade, do egoísmo, do desamor... Ninguém é totalmente mau nem inteiramente bom, eis a razão do espaço do plantio ser tão pequeno. O santo tem o coração iluminado por todas as virtudes, porém o pecador não é tão feio quanto dizem. Em seu coração sempre sobra um cantinho para semear alguma fugidia virtude, era esse o caso de Madame Charlote e Dona Dete. Charlote nasceu em berço de ouro, mas de uma humildade escandalosa... Escandalosa! Sim, sua gargalhada contagiava, sempre de bem com a vida, honesta, batalhadora, prestativa. Nunca foi tímida! Encarava a vida de frente, dava murro em ponta de faca e corria atrás do prejuízo sem reclamação... Dete era pobre de maré, maré... Seu aprendizado foi na rua. Não era má pessoa, ao perder a mãe ainda na infância, a vida foi sua madrasta e que madrasta! Aprendeu a valorizar cada centavo, vendia beijinhos para turistas quando criança e na juventude vendia outras coisas, mas sempre resevou em seu coração aquele pequeno espaço sagrado onde teimava em germinar a semente do bem... Caiu... Levantou... Sacudiu a poeira e deu a volta por cima... Casou e foi morar ao lado da casa de Charlote. Cidade festeira, onde muitos eventos reunindo turistas ocorriam anualmente. Era fato inegável que todos os moradores, desde tempos imemoriais, tiravam uma casquinha dos visitantes. Tanto os ricos quanto os pobres alugavam seus quartos, suas cozinhas, suas salas, seus banheiros, seus pátios, suas garagens e até mesmo a calçada frente a suas casas aos visitantes. Vendiam comes e bebes e a disputa por fregueses era feroz. As propagandas enganosas e a busca por clientes causavam muitas desavenças, picuinhas e bate bocas desaforados... Nesses eventos Madame Charlote e Dona Dete viravam inimigas e caprichavam na captura da clientela. Madame Charlote alugava toalete e Dona Dete banheiro, uma vendia “Petite gatô” a outra casadinho de manjuba. Dete fornecia prato-feito e marmitas, Charlote executive-repast... Enfim uma copiava a outra e aja bate boca... Os vizinhos espiavam por trás das janelas, mas não interferiam. Também eles tinham seus negócios e não podiam perder tempo com briga alheia. Nesse ano, o bicho pegou feio. Madame Charlote exagerou... Uma semana antes da grande festa mandou entalhar uma placa e nela estava escrito “BISTRÔ” e Dona Dete ficou arrasada; - “ Meu Bonje! Que será que a sirigaita da Carlota está aprontando? Bistrô? Como vou saber o que é esse tal de “bistrô”! Comida? Bebida? Tenho que descobrir e fazer melhor... Os fregueses merecem o melhor e o melhor tem nome;- Dete!” Quem passou pela rua onde mora nossas personagens estranhou as duas placas... Na de Madame Charlote;- BISTRÔ CHARLOTE si vous plais e na de dona Dete;- BAIUCA DA DETE, comida caseira... O mais estranho é que a comida era a mesma, numa “poule avec petite pois” e na outra “galinha com ervilha”. Estranhos são os caminhos do Senhor! Ele semeia no coração dos homens e cada qual a seu modo cuida do próprio jardim... Alguns plantam árvores frutíferas, outros, hortaliças e muitos outros plantam amizade e paz... Existem os que não cultivam nem regam as minúsculas sementes e têm aqueles, como Madame Charlote e Dona Dete, que cuidam e vigiam seus canteiros com unhas e dentes, suas pequenas desavenças dão um sabor a vida, passada a breve competição, ambas voltam a antiga amizade e a troca de receitas para a próxima festa... São estranhos os caminhos do Senhor! Gastão Ferreira/2013

segunda-feira, 22 de julho de 2013

O PLEBISCITO...

O PLEBE-CIRCO... Os habitantes da floresta andam macambúzios... É tempo de passeatas, de cobranças e muita mudança na selva... Enfezado, o novo rei alegando compromissos de campanha, quer porque quer desalojar um grupo de Bichos-carpinteiros de um galpão que fica na orla da mata. Todos sabem que bicho tem memória curta e esquece fácil até o caminho de casa. Num passado recente o armazém serviu de ponto de reunião aos animais cachaceiros, aos Bichos Preguiça que não queriam trabalhar, aos filhotes abandonados que não tinham o que comer em suas tocas, aos animais sem tetos que dormiam em qualquer lugar... Foi devido a essa súcia que o aprazível local foi perecendo lentamente e um belo dia faleceu de morte morrida e ninguém deu a mínima importância ao fatídico fato. Quando da eleição, em campanha, o candidato ao trono fez múltiplas promessas. Construir um hospital, um porto fluvial, uma pista de esqui, um aeroporto, uma faculdade de letras e outra sem letra... A bicharada bateu palmas e pediu mais promessas mirabolantes e impossíveis de serem realizadas. O pretendente a realeza empolgou-se e prometeu a volta triunfal do antigo armazém de saudosa memória... Foi eleito na hora. Sabem como é! Promessa de candidato a cargo eletivo é coisa muito séria. Já ocupando o trono, o rei esqueceu-se do hospital, da faculdade, do aeroporto e das outras novecentas e noventa e nove promessas, mas para mostrar que era um mandatário de palavra e que palavra de rei não volta atrás, ordenou que os Bichos-carpinteiros abandonassem o antigo galpão e que o velho depósito voltasse a ser o maravilhoso armazém do passado... Estava armado o circo! Os saudosistas, os aproveitadores, os especuladores, os que de alguma forma imaginam lucrar com o retorno do falecido galpão, aplaudem delirantemente o jovem monarca. Cinquenta famílias tiram seu ganho do que vendem no local e não se conformam com a decisão real... O bondoso rei quer deixar a ver canoas meia centenas de pais e mãe com um monte de filhotes para sustentar, e, alojar no depósito um Macaco rico, possuidor de várias moradas, para que possa vender bananas e outras frutas, no grande galpão, aos romeiros que visitam o santuário de Tupã... Também duas Ariranhas matreiras e seus pescados poderão usufruir do espaço público gratuitamente... Três súditos escolhidos a dedo em troca de cinquenta famílias? Nem pensar majestade!... O barraco está armado e um “plebe-circo” se faz necessário. O bafafá foi apelidado de “plebe-circo” porque é um jogo de cartas marcadas... Um circo para engambelar a plebe. Alguns animais não podem votar... O urubu, a cambacica, o porco espinho querem recorrer ao Rei Leão, o rei que manda em todas as florestas de todos os reinos e pedir ao grande soberano que dê um cala boca no jovem reizinho que pensa ser um reizão... A raposa, a oncinha, o pardal, a andorinha, o tateto compraram a briga real, já antevendo algum lucro na espúria jogada. O bicho vai pegar! Macaco velho não põe a mão em cambucá. Por enquanto penso em votar pela permanência dos Bichos-carpinteiros e suas cinquenta famílias no ex-velho galpão, mas também penso em negociar meu voto em troca de algum cargo comissionado ou prestação de serviço bem remunerado... Brincadeirinha! Eu respeito todos os animais e temo a ira de Tupã, nosso pai, que nos manda a chuva, o vento, o dia e a noite... Vá que ele me castigue por querer ser venal e resolva mandar um raio bem na minha cabeça! Eu hein... To fora! Assinado; - Um Bem-te-vi Gastão Ferreira/2013 Observação; - Esse texto é uma sátira... Não existe “Plebe-circo” na floresta, alias, do jeito que detonam com as árvores, logo nem floresta existirá nesse reino imaginário.

Memórias de Iguape - O Circo Mambembe

SUA MAJESTADE... O CIRCO. Respeitável público!... Senhoras e senhores!... Orgulhosamente convidamos a todos, na noite de hoje, a prestigiarem mais um fenomenal espetáculo do formidável... Grandioso e inesquecível “Grande Circo Teatro Irmãos Silva”. Os garotos que não conseguiam alguns trocados para a compra de um ingresso espiavam através dos muitos buracos da velha e gasta lona, alguns moleques serelepes tentavam passar despercebidos por debaixo da grande tenda. Nas arquibancadas de madeira se acomodavam as crianças e, nas cadeiras, na boca do picadeiro, o respeitável público. Independente da situação financeira, todos comiam pipoca e independente de idade ou bens materiais todos se transportavam automaticamente para o fascinante e maravilhoso... Mundo do circo. O palhaço Tampinha arrancava gargalhadas com sua picardia. As três filhas do dono do circo, as irmãs Neuza, Neiva e Neide, arrebatavam suspiros dos corações juvenis, eram as musas dos adolescentes sonhadores... Como não ser! Viviam naquele mundo fantástico, no mundo do faz de conta. Tão jovens e conheciam tantas cidades! O circo fazia um tour anual, percorrendo todo o Estado de São Paulo... Meu Bonje! Que vida a dessas garotas. Na plateia, as mocinhas sensíveis, choravam copiosamente nas encenações dos grandes dramalhões... Quem não soluçou com o melodrama “O céu uniu dois corações”? Quem não se comoveu com “Três almas para Deus”? Qual a mãe que não verteu lágrimas furtivas ao assistir “O direito de nascer”? Qual o católico fervoroso que não se extasiou com “A vida de Santa Bernadete”?... Assim funcionava a magia do circo e assim se comportavam as pessoas de Iguape no inicio dos anos sessenta, em meados do século XX. Eis algo que a juventude atual jamais conhecerá! A pureza, a expectativa, a alegria contagiante de compartilhar a grande mágica do circo. De encantar-se com o malabarista, a trapezista, a contorcionista... De torcer pelo mocinho caricato, cobiçar a donzela melosa, detestar o bandido canalha, olhar cara a cara o pecador, a santa, o tinhoso... Saber de antemão como é o céu e o inferno... Ouvir a voz de Deus entre relâmpagos e trovões produzidos por bater de latas velhas na ribalta. As crianças ficavam comentando por semanas as peças teatrais; - “Mas Dito, o punhal acertou o bandido bem no coração! Eu vi! Eu estava pertinho... Saiu um monte de sangue...”, “Tudo mentira Toninho! Meu pai contou que não é sangue de verdade, é framboesa... O punhal tem um cabo falso e a lamina entra por dentro dele... É tudo enganação.”, “Sabe Dito! Notei que aquela santa Bernadete tinha a mesma cara daquela pecadora do “Direito de nascer”... Que coisa estranha.”, “É, eu também reparei! Mas isso eu não sei explicar, vou perguntar ao meu pai...”. Se foi o tempo do circo mambembe, do esfarrapado e singelo circo de lona, da Monga, da Mulher Macaco, da luta livre, dos Mágicos que não enganavam ninguém, das tampinhas que escondiam algo nunca encontrado... Hoje é tempo dos grandes festivais, de peças teatrais com enredo complicado, de cantores que cobram fortunas por uma única apresentação. Respeitável público!... Senhoras e senhores!... Todos vocês que foram criança e espiaram através dos buracos da velha lona do cirquinho mambembe, que se apresentava anualmente em Iguape como “O grande Circo Teatro Irmãos Silva”... Todos vocês que sabiam de cor que “o palhaço é o que é?”, “É ladrão de muié!”... Vocês que acreditavam que toda a donzela bobinha merecia o marido que conquistou com muitas lágrimas e sofrimento... Vocês que viveram esses dias inesquecíveis! Bem vindos ao Grande Circo da vida! A magia ainda persiste e não acabou. Gastão Ferreira/2013

domingo, 21 de julho de 2013

Uma Cigarra...

UMA CIGARRA CONTOU... Contam às lendas que num tempo muito remoto, quando a raça dos homens ainda não existia, os animais se falavam entre si e viviam alegremente em harmonia na densa floresta. No princípio eram todos inocentes, seguiam as sagradas leis de Tupã, não roubavam, não matavam, não valorizavam o ouro. Alimentavam-se frugalmente, desconheciam a inveja, a ganância, a arrogância e a prepotência. O primeiro sinal de decadência veio com a perda do respeito devido a Tupã. Só os puros de coração podiam carregar o santo andor de Tupã, nas longas procissões anuais. Jamais um pecador, ladrão, corrupto, pervertido, pedófilo, mentiroso, se aventurou a quebrar a regra... Foi assim até o dia em que o povo descobriu estarrecido que o honesto rei, em conluio com os parentes, os amigos e afilhados, roubavam descaradamente tudo o que podiam e achavam o máximo da esperteza tal pratica. Nos primeiros tempos não existiam mandatários, era cada um por si e a vida era leve e solta. Cada bicho sobrevivia do próprio suor na cata da alimentação diária. Quem não se virava se lascava! O Bicho Preguiça era um destes, não colocava a mão na massa, possuía muitos filhos e vivia das esmolas do Senhor Raposa, um mequetrefe habitante da floresta. Seu Raposa era tão sabido que inventou a monarquia. Pobre de maré, maré... Herdou do pai a esperteza no trato com a ralé da mata. Arquitetou a eleição e o voto de cabresto. Saiu comprando eleitores de toca em toca, prometeu mundos e fundos, formou um partido e desde então passou a viver de nariz empinado, peito estufado e ouro surrupiado... Adorava carregar o andor de Tupã. Alguns reis ficaram famosos, dentre tantos, o rei Quati, o rei Tamanduá, o rei Formiga, o rei Lobo Guará, o rei Raposa, e, uma única rainha, Dona Anta, de infeliz Lembrança!... Apesar de serem de espécies diferentes, se consideravam irmãos entre si e representantes de Tupã na Terra, assim diziam e assim agiam... Quem não era da família só se ferrava. Em época de eleição tudo mudava. Os candidatos a rei eram inimigos mortais uns dos outros... Nesse breve período todos os podres, os segredos guardados a sete chaves, taras e particularidades negativas vinham à tona... Passado o pleito, os laços familiares falavam mais alto e o esquecimento das ofensas era acompanhado de gordos cargos comissionados. Tudo era perdoado e esquecido, incluindo os eleitores e as promessas de campanha. A coisa estava para lá de feia... A maior parte da bicharada tinha o rabo preso com o rei e seus escudeiros, devido aos pequenos grandes favores solicitados na hora do aperto... E, como tinham! A oncinha, o tateto, o veado, o jacaré, a coruja, o urubu, o bem-te-vi, o pardal, o gavião, a andorinha... Bichos, peixes, anfíbios, qualquer animal com rabo estava lascado! O rei comprava e ninguém reclamava. Quem detonou com o esquema foi a Cigarra... Como gostava de cantar! Cantou para quem queria ouvir e para quem não estava nem aí... Contou os podres, as maracutaias, os conchavos ao vento, às árvores, ao sol, à lua, à tempestade... O canto da Cigarra chegou aos ouvidos de Tupã... Tupã despertou! Não gostou das novidades e retirou o dom da fala de todos os animais e desde então nenhum bicho consegue se expressar corretamente. Foi assim que acabou a idade da lenda em que os animais falavam e se entendiam entre si. A última coisa de que se lembram, é de Tupã a margem de um grande rio, retirando com as próprias mãos um pouco de barro e moldando um ser semelhante a ele mesmo... Isto aconteceu há muito e muito tempo. Tomara que essa nova criação honre Tupã e transforme o mundo em algo melhor. Gastão Ferreira/2013