quinta-feira, 15 de março de 2012

Muito estranho...


MUITO ESTRANHO...

Penso que dormi ao volante. Quando o carro capotou fui jogado fora do veículo numa pirambeira sem fim. Por incrível que pareça não sofri um único arranhão, nenhuma dor, nenhuma luxação. Segui por uma trilha e encontrei uma casa escondida entre a densa vegetação. Fui atendido por uma senhora muito simpática que me convidou a entrar na moradia. A habitação lembrava um armazém daqueles antigos, tinha exposto no ambiente desde penicos a cadeiras de balanço. A proprietária explicou-me que apesar do nome “Jesus te Ama”, a vendinha era um ponto de comércio para os moradores da floresta.

Perguntei se havia algo para matar a fome e ela solícita respondeu-me; - “Temos hóstias, como sempre!”, “Nunca ouvi falar que alguém coma hóstia no almoço!” disse eu. “Pois vá se acostumando que por aqui é assim mesmo, temos hóstias de vários sabores, tais como feijoada, dobradinha, estrogonofe, frango assado, manjuba frita, sashimi para japoneses e sabor quibe para árabes.”, “E para beber?” perguntei. “A bebida de sempre, Água Benta! Já percebi que o senhor é novo por estas bandas, temos Água Benta sabor cerveja, vinho, limão, uva e de muitas outras frutas.”, “Tem sabor cachaça, para abrir o apetite?” me interessei. ”Não! Este sabor o senhor só vai encontrar mais no interior da mata, num boteco chamado Porta do Inferno, é a especialidade da casa por lá.”

Meu Bonje! Morri e estou num outro mundo, pensei. Pessoas comendo hóstias e bebendo água benta, coisa de louco! Nem pensar em tomar uma cachacinha... Porta do Inferno! To fora. Prestei atenção ao que me cercava e notei que quase tudo que estava exposto no armazém era coisa antiga, coisas que não mais existiam em minha época histórica... Como sair deste labirinto, deste tempo que não é meu? Porque dormi ao volante?... Espera aí! Eu dormi ao volante, o carro capotou e vim parar neste lugar... Muita calma nesta hora! Eu não sei dirigir, eu não tenho carro e da última coisa que lembro é que cheguei a casa após uma grande cervejada e me joguei na cama... Meu Bonje! Eu estou sonhando... Ufa! Ainda bem que é um sonho, sendo assim vou até a birosca “Porta do Inferno” só para saber como é o outro lado... Fui! Depois eu conto o que vi por lá...

Gastão Ferreira/2012

terça-feira, 13 de março de 2012

Uma louca história de amor...


HISTÓRIA LOUCA... LOUCA HISTÓRIA


         Desde o primeiro dia em que Pedro conheceu Maria, algo indefinido chamou a sua atenção... Maria lembrava alguém! Conversa vai... Conversa vem... Mão aqui... Mão ali... Mão acolá. Maria era muito parecida com Pedro, o mesmo tom de pele, a mesma tonalidade de cabelos, a mesma cor de olhos, o mesmo sinal de nascença num lugar muito secreto. “Como Pedro soube do sinal secreto?” perguntará um atento leitor!Ele soube por que fez nheco-nheco, nhico-nhico, nháco-nháco com Maria durante dois anos diariamente... Oh!
         Pedro, o garanhão, costumava presentear algumas de suas conquistas com motos, outras mais humildes com bicicletas e as muito pobres com lanches ou cachorros-quentes na madrugada. Quando Maria soube da ficha amorosa de Pedro, exigiu um caro zero km e Pedro mandou Maria plantar batatas. Que decepção! Maria já pegara em muitas coisas estranhas em sua carreira, menos em uma enxada e de maneira alguma passaria pela humilhação de plantar tubérculos para satisfazer a tara de um amante.
         Maria em desespero contou à sua mãe, que era também sua melhor amiga, o drama pelo qual passava; - “O que! O desgraçado do come quieto não quer te dar um carro zero km? Vamos a delegacia dar parte de estupro!”... Feito o Boletim de Ocorrência a noticia vazou. Vazou por quê? Por que vazou?... Porque as amantes muito pobres se revoltaram ao saberem dos muitos mimos que Pedro dava a seus amores, motos, bicicletas e elas que só ganhavam lanches botaram a boca no trombone.
         Um canal de televisão comprou a briga e igual a um “Big Brother” reuniu a família de Pedro e a família de Maria frente às câmeras. A reportagem foi ao vivo e a cores em três partes. O primeiro bloco foi com a família de Pedro, cujo pai após enumerar os inúmeros dotes do filho, que segundo as más línguas é muito bem dotado, negou que seu inocente pimpolho tivesse sequer encostado um dedo em Maria; -“Puxou ao pai!” afirmou aos prantos e com sorriso maroto completou; -“Meu amado filho está em estado de choque! Vai processar esta cadela chantagista, pois meu Pedrinho jamais olhou com olhos pidões para outra donzela a não ser para a própria esposa...”.   
         Na segunda parte da reportagem, a mãe de Maria abraçada à filha, contou frente às câmeras e nos mínimos detalhes sórdidos o que ocorrera entre a ingênua Maria e o sátiro Pedro. As sem-vergonhices que o cafajeste obrigava sua inocente filhinha a praticar... Era tanta putaria e sacanagem que o programa quase saiu do ar, o Cama-Sutra parecia um Catecismo na imaginação dos pombinhos...
         No último bloco do programa a fatal acareação. Pedro e Maria face a face!Apenas as famílias estariam ali reunidas, afinal, roupa suja se lava em casa... Na sala estavam Pedro, sua esposa e seu pai quando adentrou a família de Maria... Um grito, quase um uivo se ouviu; - “Maaaaarcos! Meu amor.”... Sim? A mãe de Maria tivera um caso, um romance secreto, uma pulada de cerca no dizer popular com Marcos pai de Pedro e “Meu Bonje!” Maria era meia-irmã de Pedro e Pedro meio-irmão de Maria...
         O programa saiu do ar por dez minutos e quando retornou explicaram que tudo não passara de um grande engano, uma mentira, uma aleivosia, uma pegadinha, uma armação de desafetos particulares para ferrarem com o ingênuo Pedro, que Pedro nunca estuprou Maria e que Maria nunca imaginou que existissem tantas sacanagens iguais as que sua tola mãe enumerou frente às câmeras... Em lágrimas pediu perdão a Pedro e confessou que sempre nutriu pelo mesmo um sentimento casto de irmã... Fim.


Observação; - Maria está feliz da vida, ganhou do pai de Pedro e também seu papai um carro zero km, um apartamento e uma loja para começar vida nova... Quem não engoliu muito bem a história foram os telespectadores e a esposa de Pedro, que foi retirada da sala quando o programa saiu do ar e ao voltar ao recinto fez de conta que não entendeu ou entendeu muito bem essa louca história ou história louca.


Gastão Ferreira/2012  

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Candidatos a Caciques...


COISAS DA TRIBO...

A aldeia está muito dividida... Teve um tempo em que bastava olhar para a cara do índio para saber se era Cocho ou Berne, Formiga ou Tamanduá, Loiro ou Negrão. Depois que o Descobridor do Brasil fez a mistureba, ninguém consegue afirmar com certeza quem é quem.

Todas as personagens são permitidas, desde uma oncinha com instinto de raposa a um fauno serelepe e conquistador que nega sua própria essência, cuja fama ultrapassa as fronteiras da aldeia e finca raízes (Opa!) em ilhas distantes.

A tribo sobrevive! Muito antiga, passou por centenas de fases. Desde os formadores de Sambaquis aos formadores de propinodutos. Os Caciques foram as causas dos maiores problemas. A aldeia, nunca conheceu um verdadeiro Cacique, um enviado de Tupã que levasse o progresso a serio, que lutasse por melhorias e não vendesse a alma a Anhangá por meia dúzia de apartamentos noutra cidade. Na verdade, alguns caciques tentaram mostrar serviço e servir a comunidade, mas, numa aldeia de “rabos presos”, alguma coisa ocorreu e muitos foguetes foram soltos para alegria de aliados e amarrados.

Para quem curte História Universal, há uma similaridade com o que se passa na aldeia, na atualidade, com o que ocorreu no Império Romano no ano 37 dc, quando Gaio César Germânico sucedeu Tibério no trono de Roma. Calígula deu muito poder a atores secundários, canastrões, mulheres devassas, pessoas desqualificadas, sem ética ou moral. O reinado de Calígula foi uma permanente saturnal, uma rapinagem ao tesouro público, fonte de humilhação para as pessoas decentes, onde cortesãs faziam as honras da casa, os amantes e ex-amantes do imperador mandavam e desmandavam, os senadores eram servis. Fato interessante é que Calígula reinou de 37 a 41 dc, exatamente por quatro anos.

Óbvio que nada temos a ver com Calígula, nem com império romano, idade média, inquisição, feitiçaria, magia negra, mãe-de-santo, tio-de-santo, avô-de-santo, enredo umbralino para escola de samba, quimbanda e outras fontes de poder para manter proximidade com o trono... Tudo é parte da tribo dos homens e se a tribo em seu conjunto é venal, o que resta é vender as urnas mortuárias dos antepassados por uma boa grana e curtir a vida na cidade grande.

Sinto falta dos costumes antigos, do tempo em que o canibalismo era parte de nossos rituais. Todos os candidatos a Cacique estão no ponto certo para um bom assado, alias, alguns bem acima do peso. Pela lei antiga, quem concorria e perdia o mando, virava churrasco depois da disputa...

Nossa rainha não diz nada! Adorada pelo povo, basta uma palavra sua para que a situação mude completamente. O candidato que ela apoiar já sai perdendo... Coisas da tribo, mistérios guardados a sete chaves no cofre vazio, discurso de ator mal amado manipulando a verdade, abandono de sonho e tristeza frente o descaso. Nada a declarar por medo de retaliação, tudo a declarar por amor a cidade antiga que é meu lar.

A aldeia sobreviverá, a tribo dividida queima incenso a todos os deuses e demônios... Que vença o melhor, o mais preparado. Sabemos quer a vitoria pertence ao mais esperto e que o ouro fala, sorri, lisonjeia... Somos filhos de Tupã, nosso pai que nos manda a chuva. Quem nos dá dentadura, cesta básica, colchão e cachaça são os filhos de Anhangá... Salve Anhangá! Vida longa ao novo Cacique!

Gastão Ferreira/2012

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Banho da Dorotéia...


UM MILAGRE DE SANTA DOROTÉIA...

Dona Nandi vivia de antena ligada, tudo culpa de seu filho Alberto Roberto. No sitio onde morava, o garoto, costumava aprontar poucas e boas. Maquiador de primeira, costureiro de mão cheia, gostava de usar os vestidos das colegas nas festas e quermesses do bairro. Ótimo cozinheiro, excelente doceiro, um ator nato, pois mudava o timbre da voz a seu bel prazer, de mãos inquietas e olhares calientes brincava de viver... A coisa ficou feia ao querer trocar de nome. Alba Nery!

- Meu Bonje! De onde Alberto Roberto tirou este nome estrangeiro? Será que está doente? Vou levá-lo ao curandeiro do bairro e saber o que se passa, se propôs dona Nandi.

Na consulta, o famoso benzedor examinou detidamente o moleque e disse taxativo; -“ É bicha minha senhora!”... Dona Nandi, mais sossegada, deu um bom vermífugo ao menino e continuou tocando a vida.

Enquanto isto, num outro bairro rural, dona Ziloca também passava por poucas e boas com sua pequena Maribel. A menina, desde o berço, mostrava um comportamento de veras estranho. Adorava caçar animais silvestres, era raro algum tateto escapar de seus tiros certeiros. Para fazer um roçado não existia melhor pessoa. Exímia pescadora, pintora e pedreiro nas horas vagas, Maribel só tinha um defeito aos olhos de sua mãe dona Ziloca; - Não arrumava namorado!

Por uma destas casualidades sem explicação, coisas do destino como diriam os antigos, dona Ziloca resolveu comprar um bode para fazer companhia e outras coisinhas a sua jovem cabra Lucibeth, aumentar de vez o plantel e dar inicio a produção de queijo de leite de cabra. Pois não é que dona Nandi estava se desfazendo do jovem bode Neratti, a preço de banana. O tal bode havia atacado uma meia-irmã, uma prima e uma tia dentro de sua própria família caprina. Era causa de escândalo no sitio e os crentes da nova igreja “Jesus Perdoa, mas não esquece”, exigiram a morte do bode pecador. Um dos irmãos da nova igreja indicou dona Ziloca como possível compradora, pediu 30% na transação, alegando que o jovem bode Neratti daria um bom reprodutor caso o pastor não conseguisse que a irmandade o matasse.

Foi assim que dona Nandi e dona Ziloca se tornaram amigas ao amarrarem o destino do bode Neratti com o da cabra Lucibeth. Como não só de rezar vive o povo, com o tempo, ambas começaram a comentar sobre seus problemas particulares, seus sonhos e surgiu a história dos filhos e filhas que não conseguiam casar. Dona Ziloca que aparentava ser a mais esperta, pois era uma micro empresária, militante atuante na área de defesa dos Bagres Africanos no entorno do lagamar e mata atlântica. Uma ongueira de cabeça aberta e ligada na preservação dos prédios tombados em permanente ruína...

Dona Ziloca descobriu o culto a Santa Dorotéia... Bastava à pessoa participar da procissão, vestida com a roupa que julgava ser a mais apropriada a sua maneira de viver, que a felicidade batia a porta... Tiro certeiro, sem promessas esdrúxulas, sem sair definitivamente do armário, a outra metade da Jaca se faria presente.

Segunda feira de carnaval! Dezessete horas, sete mil pessoas lotavam as muitas ruas do velho centro histórico... Santa Dorotéia e seu banho! Alba Nery, num esvoaçante vestido semitransparente, com um grande e belo chapéu onde uma maquiagem perfeita delineava a perfeição de um rosto feminino no verdor dos anos, sentiu um baque! Uma emoção que a fazia tremer por inteiro... Um maravilhoso homem, um jeca caipira de olhar brejeiro o chamava para sambar... Alba Nery não estava mais sozinha, achara um homem prá chamar de seu... Que se dane a sociedade, as aparências... Só a felicidade interessa.

Sambou, bebeu, se divertiu... Apaixonou-se. Agora é à hora da verdade, de tirar a máscara, de saber qual o recheio. O jeca caipira estava fascinado, muitos beijos rolaram, Alba Nery era definitivamente a mulher de sua vida. Será que ela toparia levar a serio um relacionamento; - Oh minha santa Dorotéia! Ajude-me a ser feliz.

Sentados num banco do jardim da orla, olhos nos olhos, o caipira falou:- “Alba Nery! Nunca conheci alguém como você. É a primeira vez que me apaixono, parece que fomos feito um para o outro... Não sei como dizer, mas não sou o que você pensa... Peço que me desculpe! Uma mulher linda como você Alba se entregando a um pobre sitiante como eu...”

- Também eu estou apaixonado, falou Alba Nery. Não sei qual será a sua reação, mas seja qual for, quero que saiba que eu não menti, estas últimas horas foram as mais felizes da minha vida... Meu nome não é Alba Nery, moro num sitio próximo e me chamo Alberto Roberto... Adeus meu amor!

- Volte Alberto Roberto, meu nome é Maribel e também moro num sitio... Você é a mulher pela qual procurei a vida inteira...

- E você Maribel é o homem com o qual sonhei para ser feliz...

Foi neste momento que ocorreu mais um milagre de Santa Dorotéia. Maribel, tomando as mãos de Alberto Roberto, perguntou; - “Alba Nery! Você aceita ser minha namorada?”

Gastão Ferreira/Iguape-2012

Obs.- Foi este um dos muitos milagres ocorridos durante o banho da Dorotéia... Maribel casou com Alberto Roberto / O bode Neratti foi viver com a cabra Lucibeth / Dona Nandi e dona Ziloca estão namorando firme... É isto aí! É a Vida...

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

ANO ELEITORAL CHEGANDO....


OBA!... ELE CHEGOU.

Finalmente chegou mais um ano eleitoral. Todos os nossos problemas serão solucionados e Iguape salva dos incompetentes, dos que fazem de conta que conhecem nossa realidade, dos politiqueiros que falam o que querem nos palanques e depois não admitem cobranças.

Pacato cidadão, você já reparou como os velórios estão concorridos? Ninguém a não serem os parentes e amigos liga para o mortinho, mas como tem gente quase desconhecida abraçando a viúva.

Nas famosas quermesses, bingos, festas de santos e ensaio de blocos carnavalescos, quanta gente que nos três últimos anos nem chegava perto, agora fazem questão de levarem a família, pagarem uma loira gelada para a rapaziada e churrasquinho de gato para a molecada carente.

Se depender dos trezentos e oitenta e seis candidatos a vereador, estamos a caminho do paraíso... Emprego pleno, saúde perfeita, segurança garantida e muito amor pela cidade que paga seus salários e mordomias.

É verdade que existem assuntos tabus e que quando ventilados causam constrangimento. Temas longe da pauta de promessas e que fazem toda a diferença. Como resolver o problema da mendicância na cidade? Como dar um basta no trafico de drogas? Como deixar a cidade mais apresentável ao visitante? São estes tópicos que pavimentam nosso futuro e todos eles são inabordáveis pelos candidatos a cargos eletivos.

Que saudade da Iguape do passado! De ruas de terra limpas e sem entulhos... Da Fonte do Senhor sem drogados e sem nóias afugentando os poucos freqüentadores. Do lagamar onde saltavam tainhas e paratis. Da Praça da Basílica sem som estridente, das mocinhas comportadas e dos jovens em ingênuas paqueras. Dos milhares de turistas desfrutando de nossa convivência e que lotavam as inúmeras pensões familiares espalhadas pelas vilas. Não deixavam muito dinheiro, é verdade, mas o suficiente para os proprietários dos estabelecimentos pagarem suas contas atrasadas.

Saudade da honestidade, da simplicidade dos nossos governantes... Talvez por ingenuidade, quem sabe simulação, foram confiáveis e fácil no trato aos munícipes. São tempos que não voltam, mas como era bom saber que se pertencia a um local onde todos gostariam de viver. Tínhamos orgulho de nossa cidade e passávamos aos visitantes a nossa maneira caiçara de desfrutar a vida.

Está chegando mais uma eleição, hora de trocar nossos donos, hora de acordar para a realidade e usar nossa única arma, o voto. Não vote em quem já mostrou incompetência, não vote em sonhos mirabolantes, não vote em salvadores que não salvam ninguém. De seu voto a melhoria básica da cidade, a limpeza ética da nossa política, a quem ama esta terra mais do que a negociatas.

Iguape continua linda e isto não depende de nós nem de políticos. A natureza que nos cerca é única. O que falta é arrumar a casa, o básico para não chocar a exigente visita... Ruas limpas, praças bem cuidadas, melhorias na saúde publica. O resto é enganação, não podemos concorrer com Ilha Comprida e suas belíssimas e bem cuidadas praias. Cananéia fez o básico e já chama a atenção na área turística nacional, mas Iguape é muito mais que Ilha Comprida e Cananéia, Iguape é nosso lar, Iguape é a alma caiçara em sua singeleza e cultura, Iguape é um pedaço do céu que teima em ser inferno... Não podemos deixar que assim continue! Votem! Votem certo e salvem nossa Iguape.

Uma renovação total se faz necessária, chega dos mesmos! Foram eles que transformaram Iguape no que vemos hoje, nesse descaso total com a cidadania, nesta tristeza de abandono generalizada, neste futuro sem futuro, neste grito silencioso de censurar que todos guardam no peito e por medo de represálias não soltam... Unidos venceremos, unidos teremos uma vida mais digna. Unidos pela cidade que amamos seremos imbatíveis! Oba, ele chegou! O ano eleitoral.

Gastão Ferreira/2012

domingo, 5 de fevereiro de 2012

ÁGUA DA FONTE...


ÁGUA DA FONTE...

Mais uma vez os olhos do mundo estão voltados para Pindaíba do Norte, uma pequena urbe perdida no sertão nordestino. Cientistas e pesquisadores descobriram a causa dos males que afligem a centenária cidade; - A água de uma famosa fonte!

Segundo as pesquisas, um bom moço, de boa família e excelente moralidade, após tomar a água da Fonte, sem mais nem menos apresentou um comportamento deveras estranho. Apossou-se de uma placa comemorativa de bronze, patrimônio do povo, que homenageava a visita de um renomado escritor francês ao município e a levou para decorar sua casa. A partir deste dia, o rapaz mudou por inteiro seu comportamento, tornando-se uma pessoa mesquinha, de maus hábitos, arrogante, orgulhoso e prepotente.

Um cavalheiro de nível universitário apresentou extrema agressividade após ingerir alguns goles da famosa água da Fonte. Nem bem chegou a sua residência e massacrou um cão vadio que cruzou seu caminho, causando consternação geral na população. Quando questionado pelo gesto brutal confessou que desconhecia o motivo de tal atitude e culpou a água da Fonte.

Uma jovem liderança depois de saciar a sede na gostosa água da Fonte estuprou uma adolescente nua que tomava banho de sol sobre uma pedra nas cercanias. No Boletim de Ocorrência sua justificativa para o ato nefando foi culpar a água da Fonte, afirmando que provavelmente a água continha substancia toxicas, um cheiro de mato queimado, um resíduo de pó branco que nem sequer imaginava o que era.

O fato que mais chamou a atenção dos pesquisadores ocorreu com um cacique político local. Uma pessoa acima de qualquer suspeita, um líder nato, um homem de bem... Foi comprovado que após ingerir uma grande quantidade da tal água da Fonte, sua personalidade mudou. Saqueou o cofre municipal, apadrinhou corruptos, roubou descaradamente, chegou ao ponto de ser exonerado do cargo por improbidade administrativa e culpou a água da Fonte.

Foi provado que garotos do mal que freqüentam a área onde está situada a Fonte, quando bebem de sua água, partem para as drogas e assaltos. As meninas que tomam banho peladas, nas bicas próximas a mata, engravidam e as crianças se tornam petulantes e sem educação ao provarem da água da fonte.

Foi descoberto que a água estava sendo engarrafada e enviada a Brasília. Muitos deputados e senadores fizeram questão de afirmarem que tudo não passava de lenda urbana, que a água não modificara em nada seu probo comportamento ético, que continuavam sendo honestos servidores do povo e que a água era miraculosa, pois nunca ganharam tanto dinheiro na vida após se regalarem com o precioso líquido.

Na cidade, após o vazamento das pesquisas, a população inconformada exigiu uma prova concreta, não acreditando que a famosa água pudesse ser a causa do secular malefício que aflige a região.

Para evitar controvérsias e difamação, os cientistas fizeram um teste secreto. Numa reunião com os representantes do povo e demais autoridades deram água da Fonte aos participantes do evento...

Hoje a cidade está praticamente abandonada... Urubus, vacas e cavalos dividem as ruas com mendigos, policiais são assassinados, adolescentes se drogam pelas esquinas, mas, quem participou do teste está muito bem de vida. Os cientistas, que também tomaram o líquido, negam que a água seja a causa da epidemia amoral que atinge parte da população. Todos os pesquisadores foram agraciados com títulos de “Amigos da Cidade”, Cem mil Reais e um caro zero km, alem de 10% em qualquer maracutaia futura.

Gastão Ferreira/2012

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

CARTA AO PRIMO...


CARTA AO PRIMO...

Caro primo Incitatus, estou escrevendo de uma pequena cidade praiana. Desde que Zorro me abandonou, tenho viajado pelo mundo em busca de um lugar para envelhecer feliz... Encontrei o paraíso! Um local sossegado, de verdejantes pastagens. Uma paragem onde todos os eqüinos são bem vindos, onde podemos pastar nas praças e ruas sem sofrer assedio da fiscalização humana.

Escrevi que o sitio é sossegado! Nem tanto. Há algum tempo assisti ao assassinato, por espancamento, de um cão por parte um cidadão acima de qualquer suspeita... Não! O homem nem sequer foi indiciado. A civilizada criatura alegou em sua defesa que o cachorro morreu porque o veterinário era inexperiente e não conseguiu juntar todos os ossos moídos.

Também os felinos, especialmente os gatos, têm vida curta... Como gostam de matar gatos por aqui! Geralmente são os próprios vizinhos que envenenam os bichanos e depois reclamam que os ratos fazem a festa.

Nós, os cavalos, somos respeitados e amados pelo povo. Considerados máquinas biológicas de carpir, mantemos limpos os jardins, os logradouros públicos, os arredores do lagamar e desde o portal de entrada da cidade até a margem do Mar Pequeno é de nossa responsabilidade preservar o meio ambiente.

Aguardo a sua visita, vamos nos divertir a valer, os pontos turísticos estão bem do jeito que você gosta... Muito mato e capim grátis. Não se preocupe com acomodação, temos antigos casarões em estado de completo abandono, nada que um bom coice não resolva para arrombar velhas portas. Quero que você beba água da Fonte, uma delícia, quem bebe volta sempre.

Venha na Festa de Agosto. Nossos parentes comparecem aos milhares e sujam as ruas por onde passam. Ano passado a coisa ficou feia, negaram água para a rapaziada e o padre cobrou das autoridades dizendo; - “Cavalo também é criação de Deus e merece respeito!”

Quando chegar, não diga o seu verdadeiro nome, diga apenas Tatus... É que Calígula reencarnou e apronta na cidade, ainda não encontrou seu Incitatus... Coisas de cidade pequena! Faça um esforço e venha antes do fim deste ano, pois no próximo as coisas poderão mudar, teremos eleição e nunca se sabe o comportamento das novas autoridades.

Um coice carinhoso no coração... Seu primo

Silver

Gastão Ferreira/2012